No questionário, perguntamos inicialmente aos estudantes se eles tinham acesso a computador em casa e, posteriormente, se tinham também acesso à internet. Um número total de 62 estudantes disse ter acesso a computador em casa e também à internet. Apenas uma estudante do 1º ano do ensino médio declarou não ter computador ou acesso à internet em casa. A família da jovem é de uma religião protestante e aparentemente os pais não permitem que a filha tenha o acesso à rede sem a presença de um adulto. Na sala de aula, constantemente, a garota aproveita para usar o telefone móvel para acessar a internet. Todos os jovens dessa turma (33) – 16 do sexo masculino e 17 do sexo feminino – têm telefone móvel e possuem videogame.
Quando questionados se utilizam a internet, 100% disseram que sim, com a frequência indicada na tabela abaixo (um dos jovens não respondeu à questão).
Tabela 17 – Frequencia de acesso à internet, pelos jovens estudantes do Colégio Cecília Meireles, 2012
Se utiliza a internet, com que frequência a acessa? Uma ou duas vezes por semana Três a quatro vezes por semana Até 30 min. por dia De 30min. a uma hora por dia Uma a duas horas por dia Três a seis horas por dia Mais de seis horas por dia Frequencia 3 5 1 6 20 21 6 Total: 62 jovens
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Não houve diferenças significativas no que se refere à questão de gênero ou com relação às diferentes turmas (1º, 2º ou 3º ano do ensino médio). Os jovens do Cecília Meireles (a maioria deles) utilizam a internet diariamente, durante um período de tempo que pode ser considerado elevado, uma vez que houve pouca diferença entre aqueles que a utilizam por duas horas no máximo e os que a utilizam por seis horas.
Os dados são semelhantes aos da pesquisa Youth in Europe54, realizada com jovens europeus no ano de 2009 e que mostrou que
A quantidade de jovens (pessoas entre 16-24 anos) que acessa a internet diariamente ultrapassa 80% nestes países. (BECK-DOMZALSKA, et al, 2009, p. 143)55.
Quando comparamos tais informações com a situação brasileira, os dados gerais são mais modestos e é perceptível a situação privilegiada na qual estão inseridos, socialmente, os jovens alunos do colégio Cecília Meireles. Segundo os dados do IBGE e do PNAD 2011, 46,5% dos brasileiros com 10 ou mais anos de idade tinham acessado a internet nos últimos três meses anteriores à pesquisa (coleta de dados) da PNAD. O percentual foi consideravelmente maior nos intervalos etários de 15 a 17 anos (74,1%) e de 18 a 19 anos de idade (71,8%)56.
Inúmeras vezes, presenciei em sala de aula o uso da internet por meio do telefone móvel. Se considerarmos o tempo de sala de aula em que os jovens estão conectados, provavelmente, a resposta dada à pergunta “com que frequência acessa a internet?” está subestimada. Em diversas situações durante as observações de campo, a direção da escola “convocou” alunos do 1º ano, principalmente, porque dois jovens do sexo masculino postaram fotos de colegas enquanto estes dormiam na sala de aula. Era comum também que os próprios pais fossem buscar os filhos mais cedo e os avisassem que
54 O título da publicação, em Língua Portuguesa é “Juventude na Europa. Um retrato estatístico”. A pesquisa foi amplamente apoiada visando à implementação de políticas públicas que respondam, de fato, aos desafios da juventude contemporânea.
Disponível em: http://epp.eurostat.ec.europa.eu/cache/ITY_OFFPUB/KS-78-09-920/EN/KS-78-09-920- EN.PDF Acesso em: 05/11/2013.
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O texto original é o seguinte: “The share of young people aged 16–24 who accessed the Internet daily exceeded 80 % in these countries”.
56 Dados disponíveis em: http://www.brasil.gov.br/infraestrutura/2013/05/numero-de-usuarios-de-
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estavam na frente do colégio por meio de mensagens via celular. Observei uma cena deste tipo no 3º ano, com o jovem chamado Breno, que pediu à professora da disciplina de História para ir embora mais cedo e teve o pedido negado inicialmente. A docente alegou que a secretária da escola deveria chamá-lo. O aluno, então, mostrou o celular, e a mestra atendeu a sua solicitação, visivelmente contrariada e advertindo-o que, da próxima vez, deveria pedir para os pais não lhe enviassem torpedos durante a aula.
No 1º ano, os alunos fotografavam diariamente as tarefas escolares, para postar no grupo virtual do Facebook. Os professores não autorizavam que fossem tiradas fotografias do quadro, exceto no caso das tarefas requisitadas.
Pereira (2010) relata quanto as novas tecnologias interferem nos modos de ser jovem e na relação dos alunos com a escola.
Em todas as escolas em que realizei pesquisa de campo pude observar esses novos itens não convencionais inseridos no interior da sala de aula com os alunos, o que corrobora a ideia aqui discutida, de rompimento com as regras da instituição para a articulação de um espaço de lazer e convivência juvenil. Dentre esses itens, o aparelho de telefone celular foi o que demonstrou maior protagonismo. Com as inovações tecnológicas que agregam novas funcionalidades para o aparelho telefônico móvel, esse passou a ter muito mais a oferecer do que as chamadas telefônicas, desempenhando também o papel de tocar música em mp3, transmitir emissoras de radio, tirar fotos, servir como álbum de fotos e aparelho de exibição de vídeos ou seja, esses aparelhos funcionavam nesse contexto que eu acompanhei como equipamentos de multimídia que permitiam a introdução não prevista na escola de elementos voltados ao lazer e ao entretenimento (PEREIRA, 2010, p. 207).
Em síntese, a caracterização dos jovens não poderia deixar de apontar a relação com as novas TIC, porque elas pautam as subjetividades juvenis (BARBERO, 2008, apud PEREIRA, 2010, p. 208) e, consequentemente, os sentidos atribuídos à escola, visto que os sujeitos se socializam no âmbito da família, da escola, do trabalho (alguns) e do lazer, incluída aí a esfera digital.
Confirmamos as suspeitas apresentadas no capítulo anterior, no que se refere às novas formas de socialização e importância da escolarização para demarcar o capital cultural das classes médias e assegurar a manutenção do seu status quo. As famílias das classes médias caracterizam-se, de forma
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geral, por acumular considerável tempo de estudo aliado ao empreendedorismo e não abrem mão de investir na formação da prole.
Esse conjunto de fatores e variáveis pode contribuir, embora não determinar, os sentidos que os jovens estudantes atribuem à escola e à escolarização, visto que, pelo que observamos até agora, a escolarização em escolas privadas é prioridade, e a escolha da instituição é realizada de acordo com a qualidade de ensino por ela oferecida, aliada a variáveis como a proximidade de casa.
No próximo capítulo, a partir dos registros realizados no caderno de campo, tentaremos reconstruir um dia de atividades dos estudantes do ensino médio no colégio Cecília Meireles. Adotamos tal perspectiva por julgar que a descrição das atividades escolares diárias vivenciadas pelos jovens estudantes pode contribuir para iniciar a apresentação dos sentidos que eles atribuem à escola e à escolarização.
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