É indiscutível o espaço que a educação cada vez mais tem ocupado na vida das pessoas, seja formal ou informal, ela está presente em toda a sociedade e sua necessidade cresce a cada dia. Na área da saúde a educação se mostra essencial no trabalho dos profissionais que precisam estimular o indivíduo, sua família e comunidade na busca contínua de saúde.
Toda prática profissional requer uma formação ao longo da vida, neste contexto, Backes et al (2005) afirmam que no caso dos trabalhadores da área da saúde este requisito deve ser atendido ao máximo, já que o objeto de sua ação é o se humano.
Assim, entendemos que o “professor” deve atuar de forma coerente com o que ele deseja da formação, propiciar uma formação que estimule a reflexão, a crítica e a autonomia, para desta forma atuar na profissão. No caso da saúde é necessário reconhecer que ser educador vai além de ser enfermeiro, médico, nutricionista entre outros, atualmente estes profissionais recebem uma formação predominantemente técnica. No caso específico da enfermagem, a
educação se dá em vários níveis e momentos da atuação profissional, tanto no trabalho diário ligado mais diretamente à assistência, como na educação formal quando o enfermeiro exerce a função de docente. Ressaltamos que a enfermagem não forma professores e por isso é tão difícil os enfermeiros, quando docentes, se autodenominarem somente professores.
Referente ao ensino na área da saúde, Brasil (2002b) destaca a interdisciplinaridade e a intersetorialidade como indispensáveis ao ensino na saúde e entende que a primeira deve estar presente na organização dos conhecimentos reunindo aspectos teóricos e metodológicos que preparem o educando para abordar os problemas de acordo com uma visão transformadora.
Consideramos extremamente importante que o profissional de saúde tenha a capacidade de inovar, criar, levar o indivíduo a refletir, manter-se ao mesmo nível, propiciar o diálogo e enquanto educador privilegiar a busca, o acesso, a oportunidade e não o domínio total do conhecimento.
Preocupado com a atividade de docência Philippe Perrenoud (2000, p. 20) delineou dez grandes famílias de competências para ensinar:
- Organizar e dirigir situações de aprendizagens; - Administrar a progressão da aprendizagem; - Conceber e fazer evoluir os dispositivos de diferenciação;
- Envolver os alunos em sua aprendizagem e em seu trabalho;
- Trabalhar em equipe;
- Participar da administração da escola; - Informar e envolver os pais;
- Utilizar novas tecnologias;
- Enfrentar deveres e dilemas éticos da profissão; - Administrar a sua própria formação contínua.
Apesar das competências definidas por Perrenoud serem direcionadas para a educação formal, podemos traçar um paralelo com a área da saúde mesmo nas situações de educação não formal. A saúde e a educação são vista por Kleba (1999, p. 127) como elementos indispensáveis à vida humana, como “processos que possuem dimensões individual e coletiva, enquanto vivenciados de forma pessoal, porém determinados em relações socialmente estabelecidas”. Minayo (1994) entende que para que ocorra um aprendizado da saúde em toda a sua
dimensão, é necessária a articulação de saberes que englobem a dimensão social, psicológica e biológica.
Para trabalhar com práticas pedagógicas significativas, acreditamos que a articulação dos saberes pode ser conseguida através de práticas integradas, colaborativas desde que o saber do sujeito faça parte deste sistema de integração. Freire (2008) defende uma educação de caráter reflexivo, com o constante desvelamento da realidade, afirma que à medida que os educandos problematizam, se sentem desafiados e com a necessidade de responder ao desafio. Neste processo de resposta, vão se reconhecendo e se compromissando, se engajando. Acredita que nosso papel é dialogar com o sujeito sobre a nossa visão de mundo e sobre a dele, jamais impondo a nossa visão.
Boehs et al. (2007, p. 313) recomendam que é essencial que os círculos de cultura de profissionais e clientes adquiram força através de “diálogos genuínos e sistemáticos”, permitido ao cliente entender os códigos da saúde e criando oportunidades para que este possa tomar as próprias decisões.
Cremos que esta força promove reflexão crítica dos profissionais sobre a educação na área da saúde com conseqüente mudança de atitude dos profissionais, levando estes a se diferenciar dos que costumam utilizar práticas tradicionais, pouco críticas e reflexivas, para levar a população a realizar os cuidados com a saúde que estes mesmos profissionais consideram adequados, a partir do que acreditam. Apesar da predominância do modelo linear de educação na área da saúde, Alvim e Ferreira (2007) afirmam que já existem muitas iniciativas orientadas para a valorização da participação e da autonomia dos sujeitos. Figueiredo, Rodrigues-Neto e Leite (2010) em estudo bibliográfico realizado sobre o tema, concluíram que o modelo tradicional, no qual o profissional é o detentor do saber, está enraizado nas atividades educativas em saúde, porém afirmam que o modelo dialógico começa a ser cada vez mais conhecido pelos profissionais e assim, mais praticado. Partilhamos do pensamento destes autores quando consideram ser possível a mistura dos dois modelos na tentativa de superar o tradicional, já que este ainda é o que domina as práticas educativas em saúde.
Concordamos com Langdon (2003) quando afirma que são necessárias atitudes reflexivas a respeito dos saberes e práticas biomédicas, só assim podemos atingir um patamar de redução da doença e aumento da cura. É considerando o contexto social e cultural que iremos descobrir as verdadeiras causas e, agindo sobre elas, teremos
melhores resultados.
Em revisão de literatura sobre as tendências da produção científica na educação em saúde no Brasil, Vila e Vila (2007) revelam a importância de propostas educativas voltadas para as necessidades da população e que estas sejam apoiadas no diálogo, na reflexão, na critica, no envolvimento e na conscientização. Destacam também o crescimento das práticas educativas aplicadas às práticas profissionais em saúde e relatam que o Brasil conta com profissionais cada vez mais preparados para desenvolvê-las.
Ressaltando o importante papel da enfermagem na educação em saúde, Chagas et al (2009) concebem que o cuidado pautado na criticidade e na criatividade, apesar de parecer simples, não é tarefa fácil, sendo, muitas vezes, desvirtuado com a adoção de estratégias desinteressantes e ineficazes. Acreditam que a educação em saúde faz parte do cuidado de enfermagem e reconhecem a histórica transmissão do conhecimento em suas atividades educativas, porém percebem a mudança de paradigma onde a visão reducionista e positivista da educação em saúde dá lugar a uma visão crítica e criativa que possibilita a integração da educação e da saúde na busca da cidadania.
Em contrapartida, uma revisão de literatura de artigos sobre educação em saúde publicados na Revista Brasileira de Enfermagem de 1995 a 2005, mostrou que os profissionais enfermeiros, apesar de apresentarem maior participação nas atividades educativas na opinião das autoras, são os que menos publicam suas práticas. (CARVALHO, CLEMENTINO, PINHO, 2008). Pesquisa semelhante, realizada por Guedes, Silva e Freitas (2004), buscou as dissertações e teses na temática de educação em saúde produzidas por enfermeiros no Brasil e publicadas no período de 1979 a 1999. Já estas autoras identificaram a preocupação dos enfermeiros em realizar estudos sobre educação em saúde, porém consideram que os profissionais enfermeiros precisam ser mais preparados para esta tarefa de investigação.
Acreditamos que a educação é papel primordial do profissional enfermeiro e que se desenvolvida de forma dialógica e libertadora, contribui significativamente para a mudança da relação "profissional- paciente" e conseqüente emancipação dos indivíduos. Mas corroboramos com Ramos (1999) que vê as ações educativas como parte integrante do trabalho da enfermagem e da área da saúde e não como um trabalho exclusivo de um profissional, autônomo e isolado. Ao afirmar que a educação em saúde está presente em muitas situações do dia-a-dia da enfermagem, Wall (2001) entende que este profissional deve procurar alternativas de suporte, que coloquem o enfermeiro e o
“paciente” em “posição de aprendentes, no qual o conhecimento de cada pessoa é valorizado, num processo de ensino-aprendizagem em que existem tempo e espaço para trocas e todos são sendo fortalecidos.” (WALL, 2001, p. 2).
Para Alvim e Ferreira (2007), a mudança do pensar e do fazer dos enfermeiros está associada ao resgate da cidadania dos indivíduos incorporado ao trabalho de educação popular em saúde, implicado em uma ação dialógica mediante a modificação de práticas e saberes que resultarem desta ação.
Neste sentido e embasadas em Freire, Saupe, Brito e Giorgi (1998) trazem a relação de diálogo como capaz de propiciar o desenvolvimento dos indivíduos, onde o conhecimento é adquirido através de uma troca com respeito à individualidade, às crenças e aos valores. Na tentativa de propiciar esta troca e buscando assim promover a integração entre os indivíduos, a saúde tem lançado mão do trabalho com grupos. Souza et al (2005) acreditam que o trabalho com grupos é uma ferramenta importante para a conscientização. Para estes autores, no grupo, aparecem possibilidades a partir da troca de conhecimentos que são frutos de experiências e assim, em conjunto, os integrantes podem perceber a força que possuem para realizar ações concretas.
Apesar de não ser comum o trabalho de educação em saúde com grupos no âmbito hospitalar, as unidades de alojamento conjunto das maternidades se destacam nas práticas de educação em saúde e, para isto, costumeiramente se utilizam da educação com grupos. Neste sentido evidenciamos o estudo realizado por Fonseca, Scochi e Mello (2002) que buscaram uma atividade inovadora utilizando um jogo educativo na construção do conhecimento das puérperas, facilitando e dinamizando o processo de ensino-aprendizagem.
A revisão de literatura apresentada neste capitulo mostra a importante contribuição das publicações em aleitamento materno e educação em saúde na atualidade e nos oferece a noção das publicações existentes sobre o tema, reafirmando a relevância deste estudo.