4.2 Espace de Conception
4.2.3 Liens entre les groupes Interaction et Système de Désambigüisation 35
O território é um ato, que afeta os meios e os ritmos, que os “territorializa”. O território é o produto de uma territorialização dos ritmos e dos meios. Gilles Deleuze e Félix Guattari, Mil Platôs
5.1 – Caminhando pela cidade: um dia nos museus da UFPel
Durante o processo, a cartógrafa museóloga encontra-se com um grupo de alunos do curso de Arquitetura e Urbanismo. Alunos que lançaram um olhar crítico sobre a cidade na contemporaneidade. O grupo produziu peças fílmicas 19versando a temática “Museu e Cidade”. O primeiro audiovisual foi produzido no primeiro encontro do grupo. Uma time-lapse do caminho percorrido da universidade até o centro da cidade, onde se localizam os museus. Passamos pelos três museus, criamos um primeiro percurso, percebemos cenas da cidade, o trânsito dos automóveis e o fluxo das pessoas, a maioria delas bem apressadas, num movimento quase automático.
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Os vídeos encontram-se em mídia digital anexada ao texto.
Chegamos a fazer uma breve visita ao primeiro museu que passamos, por conta da localização dele, mais próximo ao ponto de partida, o Museu do Doce. Os outros dois museus, passamos por eles, mas por conta do tempo que dispúnhamos naquele primeiro passeio não entramos. A partir desta primeira caminhada, os alunos, agrupados em equipes menores, de três alunos cada, elaboraram mais três audiovisuais, de aproximadamente 1 minuto de duração cada. Cada grupo apresenta as suas impressões em relação a este primeiro contato com os museus e a cidade.
5.2 – Vídeos Conceito
O grupo de alunos que escolheu o Museu Carlos Ritter, elaborou um possível caminho da Praça até o Museu, em um dia de pouco movimento no centro da cidade. Sendo, possivelmente, um fim-de-semana ou feriado, a montagem mostrou o esvaziamento deste espaço da cidade nos dias em que o comércio não funciona. Mercados e lojas fechados, poucas pessoas pelas ruas, poucos automóveis. Bem diferente da primeira caminhada, que o centro estava bem movimentado, o vídeo nos mostra um território deserto. Até que no fim do caminho, se chega ao Museu, que também está fechado nesse dia.
A partir deste vídeo, podemos identificar as cenas ligadas ao mau planejamento das cidades, que separando, demarcando determinadas áreas como centros comerciais, loteamentos residenciais, acabam por manter determinados espaços extremamente lotados em determinados momentos do
Figura 33 Fotograma dos audiovisuais de 1 minuto produzidos pelos alunos. Da esquerda para direita "Amor e Arte"; "Em breve"; "Caminhos". Fonte da autora. Pelotas, 2014.
dia, enquanto noutros momentos se encontram esvaziados de sentido, vazios e por vezes, inseguros. Na nossa cidade, nem mesmo o museu, que poderia mudar todo o esvaziamento, encontra-se aberto.
O grupo que optou pelo Museu do Doce, olhou um pouco do trânsito e das atividades que acontecem no entorno do museu. O audiovisual que reproduz os movimentos da cidade de forma invertida e repetidas cenas do cotidiano da cidade. Sentado no banco da praça em frente ao museu, o espectador pode observar pessoas que caminhavam ali, o trânsito no entorno da praça, um gari que limpa a praça que bem em frente ao museu, uma mulher que passeia com o cachorro. Todos retrocedem seus movimentos no audiovisual.
Figura 34 Fotograma do vídeo de 1 minuto: "Caminhos", Museu Carlos Ritter. Fonte da autora. Pelotas, 2016.
O audiovisual nos coloca em meio à vida no entorno do museu, mostrando que o museu não está à parte do resto da cidade, ou da praça, mas que ele faz parte da cidade, da vida na cidade, das relações que ali se constituem, dos movimentos que ali acontecem. O efeito.. do vídeo, nos faz sentir a sensação da ideia do museu como um lugar que nos faz retroceder no tempo, imaginarmos um passado presente nos objetos e discursos que ele produz.
O terceiro grupo, que trabalhou com o MALG, fotografou diversos colegas e professores, colocou-os em molduras, simulando obras de arte, e montaram como uma exposição virtual dessas obras no audiovisual. A trilha sonora, uma música clássica, conduz a movimentação das obras, que trocam
Figura 35 Fotograma do vídeo de 1 minuto: "Em breve", Museu do Doce. Fonte da autora. Pelotas, 2016.
de lugar, surgem novas obras, com outras montagens, tornado a exposição mais interativa ainda.
A partir do vídeo, podemos pensar na questão da interatividade para os museus, o quanto este pode tornar-se mais interessante a partir de dispositivos capazes de comunicar, expor, divertir os visitantes. Como vivemos cercados pelas tecnologias, o museu também não foge delas, muitos museus utilizam-se destes recursos para seguir a produzir sentido na contemporaneidade.
Outra questão presente no vídeo é a atual posição dos museus frente às sociedades, buscando cada vez mais estar presente nas atividades das cidades, uma aproximação para democratizar seus discursos, informações e acervos, para que não fiquem parados no tempo e para que as pessoas se descubram nos museus, nas suas diversas formas de ser, para que os museus existam de uma forma mais justa com as diferentes memórias de um grupo.
De forma geral, nas montagens, foi possível observar um pouco do cotidiano da cidade. Podemos perceber os movimentos, os fluxos, os trabalhos, a agitação, e, também, a tranquilidade da cidade ao entorno dos museus nos fins-de-semana. A questão comum aos vídeos foi o distanciamento que os alunos estiveram dos museus, nenhum dos audiovisuais entrou no museu.
A partir da experiência, surgiu a necessidade de outro experimento, através do mesmo recurso, com tempo maior e com uma abordagem sobre o espaço físico e o sentido do museu. Então, solicitou-se aos mesmos grupos, a produção de um segundo audiovisual. Agora, a montagem deveria ser mais longa, com narrativas mais extensas.
5.3 – Olhando Cristais
A primeira montagem, mais curta, não exigia tanto cuidado para obter a atenção do espectador. Já nesta nova montagem, que deveria ter cerca de dez minutos, os alunos precisariam desdobrar seu olhar, perceber algo para além de uma primeira impressão. Seria necessário sentir o movimento, sentir o impulso criador atuando livremente para apreender o olhar do interlocutor.
Para Deleuze (1985), o conceito de montagem de imagens e do cinema, é construído a partir da imagem-tempo e da imagem-movimento. No cinema, hoje, é preciso muita sensibilidade e um olhar estético do que de grandes tecnologias. O que transforma as imagens em territórios sem fronteiras, inesgotáveis, são formas de pensamento, de articulações entre tempos, espaços, lugares, processos, movimentos.
Assim, os vídeos deveriam trazer algo de novo, mudanças, aproximações. Os alunos deveriam mergulhar um pouco mais na temática proposta, juntar ideias, montar roteiros, desenhar, repensar, propor, conceituar, analisar. Montar um segundo audiovisual pensando o museu e a cidade na contemporaneidade, os museu da universidade e a cidade de Pelotas.
O primeiro grupo, do Museu Carlos Ritter, criou o audiovisual “Caminhos”. Esse manteve a ideia dos diversos caminhos possíveis para se chegar ao museu. Desta vez, o caminhante faz diversos percursos, caminha
por calçadas, atravessa ruas, faz curvas, voltas, até que chega ao museu. Desta vez, o museu está aberto. O caminhante visita o museu, percorre todo o espaço, aproxima-se das vitrines e, por fim, sai pela porta e vira-se de frente para o prédio do museu.
Esse vídeo fez pensar a respeito do conceito de território, entendendo que este conceito não se refere somente a uma posição geográfica determinada, mas, para além, ele está diretamente relacionado às relações de poder que se manifestam em uma determinada região, normalmente a região que envolve determinada instituição, determinado mecanismo de poder. Os museus são mecanismos de poder, eles têm o poder de produzir discursos, sacralizar objetos, criar verdades e identidades, é inevitável. Ele pode tentar fazer isso de forma mais democrática, agregando vozes diversas aos seus discursos, perpetuando diferentes memórias e objetos, representando e identificando múltiplas pessoas.
Neste caso, podemos pensar que o território de um museu não estaria somente no terreno onde se encontra o prédio que o abriga, mas também no seu entorno, nas ruas que o contornam, nos caminhos que se é possível fazer para chegar até o museu, dependendo do ponto de partida do visitante. Um território pode surgir a partir das possibilidades de apropriação, comunicação, de relação entre a instituição museu e a cidade onde ele se encontra.
Outra questão que se pode destacar no vídeo, é a importância do caminhar para o urbanismo contemporâneo. A ressalva as derivas, ao caminhar sem rumo. Para observar, para sentir, para se perder, para conhecer lugares diferentes. Debord nos fala que à deriva é uma prática de resistência.
O segundo grupo, que trabalhou como o Museu do Doce, criou uma ficção chamada: “Paralelos”. Usaram o museu e seu entorno como cenário. Inventaram alguns personagens, como uma bailarina, uma senhora vestida com roupas de época, uma prisioneira. Os personagens dançam e perambulam pelo museu, habitam os espaços vazios do museu. Analisando o audiovisual, podemos pensar nos inúmeros personagens que o museu pode originar, a partir de histórias que ele pode contar, através de seus objetos e práticas, ele pode criar realidades, inventar novas formas de viver e de se relacionar com as pessoas e os ambientes.
Além disso, podemos pensar, nos diversos usos que tem e tiveram os prédios de museus. Como é, de fato, comum nas cidades, os museus ocupam prédios antigos das cidades, que antes de se tornarem arquiteturas de museus, podem ter sido a casa de alguém, podem ter abrigado prisioneiros, ou, no caso
do Brasil, escravos, podem ter sido de uso fabril ou comercial, e, em função destes usos, apresentam características de seu uso anterior.
Figura 38 Fotograma do vídeo de 10 minutos: "Paralelos", Museu do Doce. Fonte da autora. Pelotas, 2016.
Esses usos anteriores podem conferir mais histórias para os museus contarem. Muitos prédios de museus, como é o caso do Casarão 8, em Pelotas, que abriga o Museu do Doce, tiveram muitos usos diferentes desde que foram construídos. Depois ficaram por um tempo fechados, e/ou passaram por restaurações, devido ao estado de conservação em que se encontravam. O simples fato de estarem abertos de novo para a comunidade, para que todos possam ver seus cômodos, suas características, suas belezas, geram a curiosidade da população, e todos desejam visitá-los.
Esse vídeo faz pensar ainda, a respeito dos usos e funções dos museus de hoje. Além de ser espaços de preservação, de aprendizagem, de contemplação, eles podem ser espaços ativos na vida das pessoas nas cidades, onde elas possam dançar ou tocar instrumentos, ir tomar um café e encontrar pessoas para conversar, imaginar coisas novas, novos aprendizados, novas formas de viver, novas saídas, novos pensamentos. Lugares onde podemos experimentar e viver o museu.
O terceiro e último grupo, que observou o MALG, produziu o vídeo “Amor e Arte”, em que mostra a cidade e seu turbilhão. O audiovisual começa mostrando cenas da cidade, especificamente a rua do museu, com seu fluxo, quase ininterrupto de automóveis e pedestres. Eles usam uma trilha bem agitada para mostrar essas cenas, até entrar no museu, quando a música torna- se calma. Eles percorrem o museu e observam as obras de arte que ali se encontram, a museu relaxante acompanha o visitante. Até sair do museu, observando a rua movimentada, mas ainda com a trilha calma.
Esse vídeo pode transmitir um pouco do que pode o museu na contemporaneidade. Enquanto um lugar que produz sensações nas pessoas, que pode ser de agradável visitação, que pode, quem sabe, produzir sentido na vida daqueles que adentram seu espaço em meio ao turbilhão. O museu pode ser o local do acolhimento, o hospedeiro da cultura, o hospedeiro das diferenças, dos discursos, das histórias de múltiplos heterogênios desconhecidos. O museu pode ser, também, um espaço da lentidão, onde esquecemos o ritmo frenético do tempo contemporâneo e podemos descansar o pensamento, relaxarmos de fato, apreciarmos de boas sensações.
Figura 39 Fotograma do vídeo de 10 minutos: "Amor e Arte - o filme", Museu de Arte Leopoldo Gotuzzo. Fonte da autora. Pelotas, 2016.
De uma maneira geral, nos audiovisuais, é possível perceber a agitação da vida na contemporaneidade, desse momento que vivemos. Também nota-se que, nos primeiros vídeos produzidos pelos grupos, nenhum deles entra no museu. Todos apresentam um distanciamento, talvez, com esse espaço, mostrando apenas um pouco do que acontece no entorno deles. Vemos cenas da cidade, do que se passa nos entornos dos museus, cenas do centro da cidade, das relações que ali proliferam, do trânsito, movimentos do território físico em que cada museu está inserido.
Já no segundo momento, todos se aproximam do museu, e mostram coisas interessantes, que fazem pensar as funções que eles podem ter na vida de quem vive na cidade, mostram cenas do cotidiano das cidades, dos caminhos das cidades. Os audiovisuais criados pelos alunos nos mostram ruas da cidade, mostram o centro, seus diferentes territórios, lugares de passagem, de fronteira, que podem produzir relações e trocas entre diversos lugares da cidade.
A partir das leituras a respeito dos museus, da cidade na contemporaneidade, dos vídeos produzidos pelos alunos, pelas derivas da cartógrafa-museóloga, surgiu a necessidade, então, de se trabalhar com as categorias território e hospitalidade. Optou falar também sobre a interatividade em museus e a imagem cristal de Deleuze como uma pista para atravessar a cidade e o museu na contemporaneidade, compondo um mapa em forma de escrita.