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Dans le document FINANCEMENT : MOFA GERMANY (Page 10-13)

O dia que em fui embora da fazenda, acordei sem saber que seria o meu último dia lá. Apareceu um carro e me falaram que tinha que ir para LEM. Após minha visita em LEM, me levaram de novo para a fazenda para que arrumasse as minhas coisas. Foi à tarde que chegamos lá. O carro estacionou na frente do armazém, desci e fui para a casa pegar as coisas enquanto me esperavam dentro do carro. Era um dia ensolarado e só tinha uns poucos funcionários na fazenda. Enquanto caminhava para a casa, vi como Thomas saía pela parte de trás da cozinha para não ser visto e me fez um sinal para que me aproximasse pelo fundo da casa. Rapidamente fui para lá. Ele me perguntou o que estava acontecendo. Falei que estava indo embora. Ele, com o rosto sentido, me abraçou e me falou que sentia muito, que nada disso era culpa minha e que caso precisasse de qualquer coisa ligasse para o celular dele. Nos despedimos e ele voltou rapidamente para a cozinha por entre as árvores frutais. Comecei a pegar a roupa que tinha pendurada, quando Seu Tião, apareceu por trás de mim com o ancinho de varrer as folhas. S.T.: “Você tá indo embora?”. A: “Tou, tou sim, Seu Tião.”. S.T.: “Não fica triste, filha, você é uma pessoa de bom

coração, deus vai cuidar de você.”. Seu Tião me estendeu a mão e quando estendi a

minha, ele a apoiou entre as mãos dele, enquanto me repetia: “Vai com deus, filha”. Eu agradeci, quase chorando, e ele foi contiuar a varrer as folhas do chão. Terminei rapidamente de arrumar as coisas e fui para o carro. Dez minutos depois, ainda na estrada de terra, antes de chegar na pista, recebi uma mensagem de Raimundo e do

Sarará perguntando se estava indo embora mesmo. Olhava para a terra e para o

celular, respondi que estava indo embora. Sarará se despediu. E Raimundo me falou que ia sentir muito a minha falta e que eu tinha alegrado e bagunçado a fazenda. “Vai com deus”, foi a última mensagem dele. E fui embora, acompanhada

por deus. (Anotações de diário de campo na rodoviária de LEM. Último dia de

campo).

Marcar um ponto final das vidas aqui narradas não é senão uma forma de colocar um final fiticio na realidade dinâmica que segue o seu curso. Não teria coragem de colocar umas conclusões da etnografia aqui exposta porque a análise realizada ao longo do texto mostra as reflexões que foram feitas a partir do trabalho de campo.

Novas formas de existir nas sociedades e de refazer e interpretar as culturas se expôem perante a antropologia nas mudanças constantes que o mundo nos oferece. Esta é mais uma narrativa dessas mudanças, interpretações e adaptações peculiares ao sistema capitalista. As pessoas não somente sobrevivem à vida, as pessoas sobrevivem de formas concretas à vida (SAHLINS, 1979), com um raciocínio e sentido lógico, moral e cultural próprio. Nesta etnografia, tentei aproximar não apenas o sistema de como vive e persiste a vida da soja, mas também como as pessoas que a fazem viver e vivem em torno dela, vivem e sobrevivem às condições que esta lhes impõe. Qualquer erro ou diferença sobre a realidade

que possa encontrar a/o leitora é compreensível e certamente pode estar certa/o.

Como mensagem a quem tenha chegado até o final desta etnografia, me resta só fazer umas breves considerações: olhar para cada momento, objeto, para cada instante, para cada pessoa, através de um sentir aprofundado que desenvolva o sentido de cada momento e de cada ato. Os funcionários rurais que aqui aparecem são homens com vidas particulares que vivem e viveram as vidas deles da melhor maneira que encontraram e que souberam para lutar por aquelas coisas que acharam boas e legítimas. As dimensões que trouxe o cultivo da soja à vida deles só podem ser olhadas, compreendidas e pensadas a partir da experiência deles em relação às próprias vidas. Como observadoras distantes, como antropólogas, nosso trabalho é tentar nos adentrar nesse mundo que eles praticam para compreender os próprios sentidos.

Ao pensar isto, devemos considerar o papel da soja atualmente. A soja é das produções mais importantes para o Brasil e a relevância que ela tem no âmbito internacional torna o olhar para a sua produção um olhar que deve ser caraterístico e caraterizado para a compreensão do significado deste processo. Também para pensar como a produção da soja oferece vivências particulares para as pessoas que trabalham/moram e vivem em torno dela, assim possibilitando um olhar amplo e ampliado que nos permite ver em um grão de soja todo um mundo de relações e conexões que permitem ser uma chave a mais para a compreensão das dinâmicas do mundo, que circulam fazendo com que as culturas se inventem e reinventem sobre si mesmas em constante mudança.

Nesta etnografia proponho não um final, senão um início, para pensar e começar imaginar outras pesquisas, outras referências com as quais trabalhar. Não analisei ao longo do texto todas as questões que podem ser debatidas. Considero que foi só uma abertura para começar a pensar nas vidas que se desenvolvem em torno da agroindústria da soja e às quais pretendo dar voz para aproximar a realidade, os pontos de vista das pessoas que ficam atrás do que se designa desenvolvimento. Estas pessoas, os funcionários rurais, assim como todos os trabalhadores da fazenda, aparecem neste texto como agentes da sua própria vida, não impulsionados por uma dinâmica global que apenas os manipula, os aliena e os condena, senão como pessoas com ideias, sentimentos, relações, sonhos, esperanças, moral, ideologia e perspectivas, que procuram vidas melhores nos termos do que consideram uma “boa vida”.

Mediante estas narrativas, não somente aproximo o que é a produção da soja e o sentido desta no mercado internacional, senão que, mediante o jogo de escalas aproximo causa-consequência desta realidade que se relaciona de uma forma dinâmica, criando laços e

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conexões internacionais no mundo global. Uma vida não é isolada das outras vidas que a rodeiam. Cada vida, cada existência, encerra em si um sentido próprio que é ao mesmo tempo elaborado contextualmente. Como as pessoas, e nós mesmas, entendemos a realidade que nos rodeia é o que dá sentido ao mundo e foi o que tentei captar nesta etnografia. Não é só compreender a agroindústria da soja e todas as suas expressões no mundo, é compreender o que a agroindústria da soja significa para as pessoas que trabalham nela, todos os dias. É compreender como ela pode condicionar “os tempos” de um espaço concreto e, como as pessoas que habitam esse espaço entendem o tempo. As diferenças que são criadas dos tempos em um mesmo contexto para podermos ver para além de um grão de soja, não só a morte, senão as vidas que ele dinamiza.

Neste sentido, a soja cria tempos, que podem ser melhores do que outros tempos. Os tempos da soja podem ser tempos de bens materiais, de sucesso, de comida, de carne, de casa, de segurança, de sacrifício ou de solidão. Os tempos produzidos pela soja podem ser compreendidos e vividos de formas diferentes que relacionam as pessoas que os vivem dentro de uma dinâmica social. Este exercício de olhar aprofundadamente para a realidade, para a soja, para as pessoas é uma analise necessária para compreender estas muitas realidades.

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