Ainda hoje, apesar dos empecilhos práticos que podem enfrentar, por não dominarem ferramenta tão importante como a escrita, tendo que viver necessariamente entre não-romà, numerosos romà não se mostram convencidos da necessidade de mudança nesse sentido, muito menos da importância de se ter registros escritos, principalmente uma literatura. Apenas uma minoria tem ampla consciência de que esse entrave cultural ditado pela permanência na oralidade não é útil e, inclusive, contraproducente em um mundo contemporâneo exigente e veloz, no qual as novas gerações de romà não terão alternativa se não a de adaptarem-se.
O principal motivo para tanta resistência é o temor à aculturação, à assimilação, enfim, à dissolução do grupo étnico. Apesar do caráter adaptável ao entorno hostil, do qual
costumam retirar o que lhes serve, não conseguiram, ainda, encontrar estratégias para vencerem algumas das consequências da sua história, dentre elas, o medo e a rejeição à escrita. As marginalidades são diferentes e, dessa forma, diversas são as suas consequências. A literatura romani emerge de um povo que se conserva, na quase totalidade, resistente a mudanças que possam acarretar em uma assimilação pelas sociedades dominantes. A maioria da população romà ainda considera a palavra escrita uma inimiga, como se observa no seguinte trecho extraído de um romance romani: “ao ficar sabendo que os sedentários tinham descoberto a escrita, tremeram atormentados [os romà]: com ela encontraram o elemento para transformar e reformar a consciência dos homens”364. Apesar de ser um povo de cultura
ágrafa, ele tem percepção clara do poder que possui a língua escrita. Considerados “naturalmente” avessos à escritura e escolarização – características que foram atribuídas e reiteradas à exaustão por muitos estudiosos que se dedicam à etnia –, geralmente, não se especula sobre a origem da aversão. De onde vem a rejeição à escrita? A resposta que, provavelmente, seria atribuída ao senso-comum, formado por sujeitos habituados a escutar, ver, ler e reproduzir sem questionar as, já vistas, representações estereotipadas, é a de que os romà constituem um povo selvagem, aos quais não interessa a instrução de acordo com os critérios civilizados. Mas, como não tremer de medo com a existência da linguagem escrita, se esta distorceu, generalizou e disseminou uma imagem negativa poderosa, a ponto de perpetuar o estigma histórico que garantiu a consequente discriminação de todo um povo? Além de temer, os romà precisaram desenvolver diversas estratégias de sobrevivência cultural.
À medida que as sociedades, de maneira geral, tiveram acesso à escrita e à leitura, que por muito tempo foi privilégio da igreja e dos nobres, os romà se mantiveram à margem do processo. Para um povo de cultura oral e resistente, a escrita produz medo. Eles não se identificam por ela, dado que não é um elemento próprio ao que podem ter fácil acesso nem podem acreditar, uma vez que, desde as escrituras vieram ordens de perseguição e assassinato contra eles, a partir de alegações irreais, explica Nedich365. Se todas as leis anticiganas
expostas no início desse estudo tivessem sido cumpridas de forma inflexível, em poucos meses os romà teriam sido erradicados da maior parte da Europa, antes do termino do século
364 NEDICH, Jorge. El aliento negro de los romaníes, p.16. “al saber que los sedentarios habían descubierto la
escritura, temblaron acongojados: con ella encontraron el elemento para transformar y reformar la conciencia de los hombres”.
365Cf. “Nomadismo y oralidad” em Patrimonio Cultural Gitano: comisión para la preservación del patrimonio
XVI, como assinala Fraser. Não aconteceu, por uma organização defeituosa da administração e forças policiais da época366.
Diante disso, não é de se estranhar que a cultura oral, a princípio condição comum aos povos e tendente a ser substituída pela cultura letrada, que foi naturalmente dominando as sociedades, tenha se imbricado profundamente na cultura dos romà a partir do medo. O sentimento básico dos que são vítimas de preconceitos e perseguições é a insegurança. E o sentimento de alerta e prevenção é o primeiro passo que é adotado como autodefesa367. Além do temor, como bons observadores, explica Nedich, perceberam que a escrita obriga, retêm, encarcera e torna viva a presença do passado. E pode congelar em um documento a liberdade do homem368. Com esse pensamento, a maioria étnica se recusa à escolarização e ao
letramento. Ao negar a escrita, sentem-se protegidos das enormes intromissões da escritura na mente humana. Assim sendo, mantiveram o coletivo étnico resguardado desse verdadeiro perigo, no entendimento tradicional dos romà, permitindo que estivessem permeáveis somente ao que absorvem da cultura do outro em nível de linguagem. A cultura romani foi se constituindo, em muitos aspectos, a partir de estratégias para sobreviver.
Atualmente, os romà ainda desconfiam da letra impressa, porém, souberam fazer da linguagem uma das fortes armas para manterem, tanto quanto possível, a coesão dos diversos grupos que constituem o povo rom369. De acordo com o romà e linguista britânico, Ian Hancock, a oralidade é a sua maior herança. Ele explica que, mesmo entre as populações que perderam parte de sua língua-mãe, como é o caso dos grupos romà fixados na Inglaterra e Espanha – que usam o vocabulário romani com mesclas de outras línguas, adaptado à gramática nacional –, a oralidade é um poderoso ingrediente da identidade370. Dessa maneira,
entende-se a tradicional resistência de muitos romà em fornecerem informações sobre o idioma romani, deixando a cargo dos linguistas a árdua tarefa de decifrá-lo. Postura que pode ser compreendida como forma de defesa identitária, sentimento que tem norteado boa parte das atitudes assumidas pelos romà ao longo da história. Também se considera que uma das razões de reprovação à escritura, deve-se a que muitos a consideram uma arma perversa elaborada pelo homem, enquanto que a capacidade de exercer a oralidade nasceu com ele para se comunicar. No entanto, essas culturas são progressivamente ameaçadas em sociedades, cujo poder é sustentado por documentos escritos. Para os paradigmas internos, essa negação ao
366 FRASER, Angus. Los gitanos, pp. 137-138.
367 ALLPORT, G. La naturaleza del prejuicio, pp.163-164.
368 NEDICH. “Nomadismo y oralidad” em Patrimonio Cultural Gitano: comisión para la preservación del
patrimonio histórico de la ciudad de Buenos Aires, p.67.
369 BARRANCO, Juan. “El método de la historia oral y la cultura gitana” em I Tchatchipen.n.3, p.32. 370 The Roads of the Roma, p.18.
letramento é somente uma forma de defesa, por não permitir que os não-romà tenham acesso a sua cultura. Além de impedir que sejam aculturados pela leitura e escolarização. Por outro lado, a oralidade é vista pelas sociedades majoritárias e letradas como analfabetismo, reforçando a inferioridade desse grupo.
A nova condição de ser romà, escrever e possuir uma literatura significa um duplo desafio para um escritor que pertence a essa minoria étnica. Não se trata somente da problemática de ser excluído e sem voz, como também, de um povo que da mesma forma que não possui e não quer um território próprio, não possuía nem queria registro escrito de sua história. O estudioso da oralidade, Walter Ong, fundamenta essa recusa ao afirmar que os povos que se caracterizam pela oralidade e confrontam-se com a possibilidade de terem acesso à escrita, sabem que a inserção nesse mundo significa deixar para trás o que é profundamente estimado no mundo oral. Trata-se de uma espécie de morte para poder continuar vivendo371. É a essa morte que os romà resistem, quando se negam à utilização da
escrita para narrar sua própria história.
Muitas das diferenças entre os romà e os não-romà se devem à divergência entre o pensamento das sociedades letradas e das centradas na oralidade. A oralidade primária é definida como aquela característica dos povos que, além de não possuírem escrita, ignoram que exista tal possibilidade. Ainda que os romà não possam ser considerados possuidores de oralidade primária, já que sabem da existência e dos efeitos da escrita sobre o mundo, podem ser enquadrados como grupos donos de fortes componentes dessa oralidade primária372. Para um pensamento imerso nessa situação, os acontecimentos são vistos sob ângulos drasticamente distintos. Entre essas diferenças está o sentimento de poder que se imputa às palavras. Quando pronunciadas têm uma força de ação no mundo – no princípio era o verbo373
– por isso a crença na eficácia dos conjuros, das pragas, lendas, da importância extrema do juramento e valor da palavra empenhada no âmbito interno ao grupo. Walter Ong, explicando sobre o poder das palavras para os povos de cultura oral, ressalta que para os letrados é difícil entender esse pensamento, porque para esses últimos, os vocábulos estão associadas à escrita, já ao contrario dos povos de cultura oral, em que as palavras se associam a acontecimentos e elementos e em consequência estão animadas necessariamente por um poder374.
Em uma cultura oral as palavras estão vivas e se possuem tamanha força quando proferidas, tal poder se potencializa quando estão plasmadas e petrificadas em um livro que
371 Walter Ong., Oralidad y escritura, p.24. 372 Ibid. pp.14-15.
373 João 1:1-3.
pode ser lido, recitado, consultado e reimpresso várias vezes. Dessa forma, para o pensamento com base na oralidade, a escrita pode perpetuar indefinidamente o mal que foi feito. O medo a essa perpetuação também está relacionado à necessidade que os romà tiveram de esquecer os sofrimentos da existência étnica ao longo dos séculos. O esquecimento sempre foi imperioso dentro da comunidade375 e a oralidade propicia o olvido dos detalhes. Ao contrário, a escrita acarretaria na perda da possibilidade de esquecer determinados aspectos da própria história. Nesse sentido, Ong explica que em uma cultura oral, a restrição das palavras ao som, determina não somente os modos de expressão, como também os processos de pensamento. As pessoas [na cultura oral] sabem o que podem ou não recordar376. Essa é uma das faces da “morte”, temida pelos romà em relação ao desaparecimento da oralidade, pois para sobreviver tiveram que esquecer. O outro lado seria a perda da própria memória oral, que não depende de escritos e que mantêm a tradição. É o mesmo temor expresso por Platão, quando do aparecimento da escrita na cultura grega, que na origem foi essencialmente oral377. Ante à
oralidade que diz esqueça! Parece haver confluência de vozes romani que gritam lembrem! Essas vozes se expressam pelos escritores romà, os quais, sem nenhum apoio institucional interno, como dito, mas condizentes com uma atmosfera de reconstrução identitária, tornaram possível e real a existência da literatura romani. Já não se pode dizer que a cultura do povo rom é totalmente oral, as mudanças estão efetivando-se. Os romà sobreviveram como grupo étnico sólido até aqui, porém, pagaram o preço vivendo na marginalidade. Embora possa parecer que não se importam com o fato de viverem à margem, desde o conhecimento do cotidiano étnico e de dentro, sabe-se que isso não é real. Nenhum indivíduo ou grupo humano quer ser marginalizado. Todos querem o direito a ser diferentes, sem que isso implique em marginalização. É necessário sublinhar que, se a estratégia de manutenção da oralidade for perpetuada, os romà terão, irremediavelmente, garantida a exclusão das novas gerações. Possivelmente seja hora de “lembrar”, para não seguir trilhando os mesmos caminhos que levaram à subalternização.
375 Um dos motivos pelos quais uma parte dos romà que poderia ser indenizada como vitimas do Porrajmos,
desistiram de seus reclamos pela necessidade de esquecer os sofrimentos.
376 Cf: ONG, Walter. Oralidad y escritura, p.40.
377 Platão é um exemplo desse conflito, ao expulsar os poetas de sua República, porque traziam lembranças da
oralidade, de certa forma, considerada inferior. No entanto, também expressava severas reservas em relação à escrita que considerou uma forma desumana e mecânica de processar o conhecimento, insensível às dúvidas e destruidora da memória. Porém, seu pensamento filosófico dependia totalmente da escrita. Cf. ONG, Walter.
Oralidad y escritura, p.32, também HAVELOCK, Eric, A. Preface to Plato, pp. 49-50. Os romà vivem hoje, em pleno século XXI, esses conflitos, pois muitos deles estão habituados a viverem sem se basear em calendários, mapas, endereços, números e outros. O conhecimento está atrelado à prática. Também temem que ao perderem a oralidade de base, possam passar a ser dependentes dos suportes e estratégias do outro.
As literaturas de minorias encontram inúmeras dificuldades, que advêm da necessidade de serem reconhecidas pelo outro para poder existir. Porém, algumas têm mais resistência a terem suas existências reconhecidas. Geralmente, as sociedades dominantes esperam que as minorias, principalmente as subalternizadas, desejem a “inclusão”. Os romà disseram não a todas as propostas induzidas ou forçadas de assimilar os processos culturais do
outro, entre eles a escrita. Assim, a imagem que se tem em relação à escrita, ainda hoje, é a de um povo totalmente ágrafo, oral, avesso à escritura e sem nenhum registro escrito.
Entre os atuais estudiosos da cultura romani, antropólogos, sociólogos e os ditos “ciganólogos”, sabe-se da existência de mudanças no seio do grupo étnico e da existência de uma proposta de reconstrução, que se dá a conhecer pelos organismos romà, inclusive bastante visíveis na internet. Contudo, a maioria desses estudos ainda se prende a uma imagem estática dos romà, com base em trabalhos pioneiros, sobretudo antropológicos e na “disposição econômica” dos próprios processos cognitivos fundamentados nos estereótipos. Os romà continuam preconceituosamente “parados” em um tempo étnico mítico e conveniente às ideologias, que perpassam o imaginário das sociedades.
De acordo com os estudos atuais sobre os romà na Espanha, os integrados nas sociedades dominantes, cerca de 80% naquele país378, não são visíveis. Os romà integrados, ou os “novos ciganos”, inclusive se autodefinem como “invisíveis”, porque não só são ignorados como romà nessas sociedades, como também pelos outros não integrados. Segundo a antropóloga espanhola, surge uma nova identidade romà emergente: ser o que se é, porém integrados em uma sociedade comum. Ela prevê que não será uma tarefa fácil, pois os romà terão que lutar contra seus próprios complexos introjetados e insegurança de moverem-se por terrenos desconhecidos, além de terem que enfrentar a resistência dos não-romà contra suas iniciativas.
As reflexões acerca dos romà, na quase totalidade dos estudos acadêmicos atuais, ainda se encontram paralisadas nas explicações referentes à diferença exótica. Embora se fale, a partir de uma visão multiculturalista de respeito à diferença, a que sobressai é uma visão estática, tendente a continuar estagnada na subalternização. Observa-se que, sendo os romà um grupo étnico, historicamente desconsiderado e com tantas legitimações em prol dos estereótipos negativos, não existe preocupação em discutir sobre as mudanças que já foram efetivadas dentro da comunidade romani e nos avanços que foram feitos no sentido de uma
378 A quantidade de romà considerados integrados varia muito em relação aos distintos países. O percentual se dá
em função da alta taxa de sedentarizados na Espanha. Cf. Teresa San Román. La diferencia inquietante: viejas y
integração com as sociedades circundantes. Parece que tudo se diz para que não haja mudança e os “ciganos” permaneçam estereotipados e na marginalidade. Essas posturas que negam a uma minoria a visibilidade social de seus esforços para sair da subalternidade, também são em si, uma forma de marginalizar.
As minorias dependem das maiorias dominantes para obterem reconhecimento e promoverem qualquer transformação social que as possa tirar do lugar subalterno que ocupam. A marginalização é um fragmento dialético das relações de desigualdade que tem como eixo a noção de interdependência. Trata-se da mútua capacidade de forçar o outro, devido a seu poder e de neutralizar qualquer poder que o outro possa ter. De tal modo, a exclusão social ou a marginalização supõe a ausência de interdependência, o predomínio absoluto da dependência e, portanto, a incapacidade de exercer pressão, Ao contrário do que acontece em situações de desigualdade, nas quais existe uma interdependência entre as partes, a exclusão supõe que nada depende do marginalizado. O excluído necessita do seu dominador para existir, enquanto os marginalizadores não precisam, em absoluto, dos excluídos para continuarem existindo. Assim é no seio dessa relação desigual379.
Refletindo sobre as dificuldades dos romà de conseguirem emancipação e tentativas de reconstrução identitária, Moscovici destaca que essa relação assimétrica entre as maiorias e as minorias, raramente, define-se por meio de conflito. Para o estudioso francês, a relação entre maioria e minoria é uma relação entre perseguidor e perseguido. Ele frisa que nessas relações, costuma-se representar discrepância entre um grupo semelhante e “humano” que tem o domínio e outro diferente e perseguido, de certa forma “animal” e não humano380. Assim, os
esforços inovadores ou as ações distintas e não explicáveis, sob a visão estanque de que os romà são, de forma generalizada, sociedades primitivas, selvagens, atrasadas, “tradicionais”, não aparecem para as sociedades majoritárias381 facilmente.
Tendo em vista esse panorama, a existência de uma literatura romani continua desconhecida no âmbito dos estudos acadêmicos sobre os romà. No entanto, observa-se um verdadeiro boom relacionado à literatura de minorias, mas nada significativo sobre literatura oriunda da minoria romani, mesmo nos países cujo número de obras produzidas por escritores romà é representativo ou onde escritores romà são considerados do quadro dos escritores
379 SAN ROMÁN, Teresa. “Las dos caras del encuentro: dominación y dependencia”, p.224.
380MOSCOVICI, Serge. “Os ciganos entre perseguição e emancipação”, Revista Sociedade e Estado, 24, 2009,
pp. 653-660.
381 No Brasil, apesar de que o conceito de minoria em vigor ser o mesmo estabelecido por acordos internacionais
e genericamente aceito pelas Nações Unidas, o decreto número 6.040, de 7 de fevereiro de 2007, expedido pelo então presidente Luís Inácio Lula da Silva, confere aos “grupos culturalmente diferenciados” estabelecidos em solo nacional, o status de “povos e comunidades tradicionais”, não minorias nacionais.
nacionais, contando com algum reconhecimento382. Destarte, os romà continuam sendo vistos como incapazes de desenvolver habilidades que requerem inteligência, que vá além dos dons naturais, como a arte literária e volta-se ao estereótipo de selvagens.
O escritor Jorge Nedich comenta que, ao comparecer como conferencista e apresentar tanto seus romances como de outros escritores, gera surpresa, até incredibilidade de sua condição de rom e a existência de literatura no seio da etnia383. As maiorias se alarmam quando as minorias étnicas adquirem importância em uma esfera para a qual não são consideradas qualificadas. Em relação à literatura romani, como outras inovações que indiquem possibilidade da perda de domínio sobre o dominado, as reações das maiorias costuma ser a de erguer “muros” dificilmente transponíveis e a invisibilização é um desses muros. Nega-se, assim, reconhecimento e espaço ao grupo dentro das sociedades.
O psicólogo social alemão Kurt Lewin explica que as minorias não privilegiadas são mantidas unidas, não somente pelas forças de coesão entre seus membros, como também por uma fronteira que as maiorias constroem contra a passagem de indivíduos da minoria para a maioria. Serge Moscovici complementa que essas fronteiras só se sustentam por tanto tempo, porque são mantidas “por muros psíquicos ou sociais de crenças e estigmas linguísticos”384.
Assim, a emergente literatura dos romà nasce em uma condição difícil, sob intensos conflitos internos e externos. Entretanto, imbuída da mesma resistência que o povo a que representa, essa literatura insiste na sobrevivência pela figura de seus escritores, de alguns estudiosos romà que a difundem e pela força de suas próprias obras. Cresce, paulatinamente, tanto em quantidade como na qualidade de suas produções. Resta o desafio de fazer-se visível, o que, segundo Moscovici, é o primeiro passo para o reconhecimento385.