CHAPITRE III : L'ONCTION DES MALADES DANS JACQUES 5.13-18
7. Lien entre maladie et péché
Apesar da grande variedade de formatos de ficção televisiva, passamos a caracterizar brevemente alguns dos mais consagrados na tradição brasileira: telenovelas, minisséries, séries e seriados, a partir das contribuições de Balogh (2002), Machado (2014), além de Renata Pallottini (2012).
Derivada principalmente do folhetim literário e da radionovela, a telenovela é o formato teleficcional mais popular no Brasil e na América Latina, considerada por Martín- Barbero (2004, p. 171) uma “modalidade latino-americana de melodrama na qual se resolvem e mestiçam a narrativa popular e a serialidade televisiva”, em que se mesclam valores modernos e obsoletos. Ao longo de muitas décadas, consolidou-se como principal formato de longa duração (cerca de oito meses), muito embora atualmente possa se perceber uma tendência à flexibilidade com produções mais curtas principalmente nas faixas das 18 horas e das 23 horas.7
Constituída por uma trama principal e várias paralelas, a telenovela brasileira se configura como uma obra, em geral, de estrutura aberta, escrita à medida que vai sendo gravada, o que possibilita mudanças narrativas e adequações. Outra característica definidora é a recorrência à redundância, já que, ao contrário dos filmes exibidos no cinema, o produto televisivo disputa a atenção com outros fatos e ocorrências da casa. Outro elemento que também atua nesse sentido e que é uma das características da serialidade narrativa é o gancho. Empregado com a finalidade de prender a atenção e garantir a audiência na unidade subsequente, “o gancho supõe, muitas vezes, uma pergunta em que se coloca a questão e a resposta fica para o dia seguinte. Essa resposta pode significar a revelação de algo desconhecido do interlocutor, do público ou de ambos” (PALLOTTINI, 2012, p. 104).
Embora muitas vezes, haja uma tradução de telenovela para soap opera, isso traz em si
7 Dentre novelas recentes de serialidade mais curta, citamos duas da faixa das 18h, horário que tem apresentado
tramas menores: Meu pedacinho de chão (2014) ficou no ar durante quatro meses e teve 96 capítulos, e Sete
Vidas (2015) contou com 106 capítulos, sendo exibida em cinco meses. Segundo Patrícia Kogut (2017b), a
duração das novelas tem sido objeto de acalorado debate nos bastidores da Globo: “Um dos argumentos em favor dos formatos mais curtos é que o público não tem aderido a tramas que se arrastam por tantos capítulos. Muitos autores alegam que é difícil construir uma narrativa de suspense que se sustente por meses. Hoje, as histórias das 23h já são menores. E as séries andam se multiplicando”. Em matéria de 2013, Kogut já informava que a redução temporal era um “antigo pleito dos autores e dos atores” (KOGUT, 2013c).
uma impropriedade, visto que, apesar das origens similares, soap operas e telenovelas se distanciam pelas suas peculiaridades e pelo contexto sociocultural:
As primeiras [soap operas] nascem nos EUA nos anos 30, a partir do êxito das radionovelas e são patrocinadas por marcas de sabão (daí o nome); as segundas formam parte da história da televisão latino-americana desde os anos 50, sendo uma adaptação local do mesmo tipo de produção que as norte-americanas. Outra das diferenças que existem entre ambas na programação é que nos Estados Unidos ocupam horário do dia; enquanto que as telenovelas se exibem no prime time das redes latino-americanas. (SALÓ, 2013, p. 188).
No entanto, a principal marca da soap opera é a ausência de previsão de fim, sendo indefinidamente prolongada, razão pela qual Pallottini sugere que “está mais para um longuíssimo e infindável seriado do que para a telenovela como a conhecemos” (2012, p. 48). Ao denominar as minisséries de la crème de la crème da ficção televisiva, Balogh (2004) já as diferencia dos demais produtos ficcionais pela sua qualidade estética e narrativa. Trata-se de um formato, em geral, fechado e que, justamente por isso, distingue-se pela possibilidade de uma trama bem desenvolvida, produzida com mais tempo, revelando apuro e marcas autorais, que proporcionam um espaço de teste para inovação de linguagens. Para Mungioli (2010, p. 60), as minisséries correspondem a:
[...] produtos diferenciados no contexto televisual brasileiro, tanto em termos de tratamento temático, estético e discursivo, quanto em termos de orçamentos de produção. De maneira geral, pode-se dizer que os bons resultados colhidos por essas produções devem-se, em grande parte, a uma proposta que busca aliar a qualidade de temas e obras de reconhecido valor social e estético ao trabalho de autores experientes, cujos roteiros, produzidos em grande cumplicidade com diretores talentosos e elencos exaustivamente preparados com vistas a essas produções, têm conseguido desenvolver obras de elevada qualidade.
Se a caracterização da minissérie enquanto obra fechada, de apuro estético e lócus de experimentação parece pacífica, isso não se dá quanto à diferença entre série e seriado. Embora Pallottini (2012) restrinja-se aos seriados, não estabelecendo distinções evidentes entre esses tipos, considerando-as, ao que tudo indica, como expressões sinônimas, Ballogh (2002) sustenta que originalmente os seriados costumavam ser exibidos em um dia específico da semana e associados a um gênero, mas que, com a variação de horários e dias, característica da TV paga, seria mais adequado chamar tais programas de séries, derrubando os distanciamentos. Machado (2014, p. 84) se refere aos seriados como unidades com história completa e autônoma em que somente os personagens principais e a situação narrativa se repetem. No entanto, ao seguir expressamente o direcionamento de Pallottini, parece considerar seriado e série indistintamente ao enunciar:
Existem seriados em que, malgrado se possa verificar uma estrutura básica de episódios independentes, permitindo, portanto, que possam ser assistidos em qualquer número ou ordem, há uma situação teleológica, um início que explica as razões do(s) conflito(s) e uma espécie de objetivo final que orienta a evolução da narrativa. Aqui também a série pode desdobrar-se ao infinito, enquanto houver audiência, mas há um episódio inaugural que explica o contexto da série [...]. (MACHADO, 2014, p. 85, grifo nosso).
Em comum, vê-se que a noção de seriado (series) está ligada a unidades episódicas, ou seja, aquelas conflito dramático tem solução de forma completa e independente, sem necessidade de acompanhar todos os episódios na ordem cronológica, muito embora o episódio inicial sempre contribua para melhor entendimento da narrativa e do contexto geral. A série (serial), no entanto, tem a exposição do arco dramático das personagens de modo mais prolongado, atravessando todos os episódios da temporada, tal como uma novela. Além disso, outra característica importante nas séries é a presença de ganchos mais marcados no encerramento de cada episódio, convidando o espectador a assistir ao próximo e fortalecendo a noção de continuidade e serialidade narrativas.
Conforme explica Ien Ang (1991), enquanto no seriado cada episódio é completamente desvinculado dos outros pela perspectiva da narrativa, mantendo-se como elementos de conexão apenas o herói ou a heroína e a situação básica, a série se caracteriza pela narrativa contínua, de tal forma que a não observância à ordem cronológica dos episódios pode comprometer o entendimento, como é o caso de Dallas (CBS, 1978-1991), por ela analisada. Segundo Ang, “a sequência exata dos episódios cria a noção de continuidade do tempo, continuidade que é linear e irreversível, [de forma que a série] apela para um senso de tempo histórico” (ANG, 1991, p. 52). A autora recorre, ainda, à caracterização de série contínua proposta por Christine Geraghty (1981, p. 12), que aponta três elementos essenciais desse formato: a organização do tempo, o sentido de um futuro indefinido e a inter-relação entre tramas, que proporcionam um equilíbrio entre mudança e repetição por meio da organização narrativa.
Finalizando essa incursão na diferenciação entre série e seriado, apresentamos as definições desenvolvidas por Mungioli e Pelegrini (2013), cujo elucidativo panorama situa a diversidade dos dois formatos, ao tempo em que consolida o entendimento de série (serial) como narrativa contínua cujo arco dramático perpassa toda a temporada.
A tradição da ficção televisual americana possui duas formas básicas de serialização: a serial e a serie. Serial (que, no Brasil, corresponderia à série) é o modo em que a narrativa acontece ao longo de episódios, com arcos dramáticos que atravessam diversos capítulos [episódios] até uma conclusão. É a forma que predomina, por exemplo, nas telenovelas brasileiras. No caso do serial tipicamente americano, geralmente, os limites do arco dramático
ocorrem dentro de uma temporada anual. Já a serie (que corresponderia ao nosso seriado) é a forma em que os arcos dramáticos têm o limite do episódio – o desequilíbrio dramático ocorre no início do episódio e é resolvido no mesmo episódio. (MUNGIOLI; PELEGRINI, 2013, p. 28). No entanto, como advertem esses autores, recentemente verifica-se “uma crescente hibridização das duas modalidades de serialização. Mais que classificações categóricas, serial e serie tornaram-se polos de um eixo ao longo do qual são encontradas ficções que possuem características de um e de outro tipo” (MUNGIOLI; PELEGRINI, 2013, p. 28). Compartilha do mesmo entendimento Maria Carmem Jacob de Souza (2013), ao apontar a hibridização e consequente indefinição entre o que era conhecido como serials e series.
Como se vê, o estabelecimento de limites específicos entre os termos se torna cada vez mais difícil a partir da transformação dos formatos em consonância com a dinâmica social, havendo uma grande mistura entre formatos, num hibridismo em que muitas vezes se fundem elementos de telenovela e de minissérie em uma única série. Como alternativa a essas classificações estanques, vê-se, com frequência, tanto por parte da audiência, dos produtores e até da academia, o emprego do vocábulo série para dirigir-se também ao que antes era chamado de seriado.
Para efeitos desta pesquisa, reforçamos que nosso objeto empírico se reveste das características de série (serial): a história das três Teresas é construída de forma contínua, a partir de um arco dramático longo, que atravessa todos os episódios da temporada, até sua conclusão. Como efeito, o episódio piloto ganha centralidade para entendimento da narrativa:
O primeiro episódio de um seriado é, portanto, capital; nele se deve apresentar clara e eficientemente todas as personagens principais, identificá- las, dizer o que são e como são; mostrar suas relações com as demais, seu modo de ser, suas crenças, seus desejos, seus objetivos de vida, o estágio em que estão. Deve-se dar a situação básica da comunidade ou do grupo que se quer tratar e, provavelmente, o problema inicial que deu origem ao estado atual de vida de todos. (PALLOTTINI, 2012, p. 45).
A presença de ganchos, outra característica recorrente nas séries como forma de deixar a ação em suspenso para resolução no episódio subsequente, também está presente em 3
Teresas.
Nesse ponto, é de se ressaltar que, em entrevista, o diretor da série 3 Teresas ponderou que um dos desafios atuais da produção para a TV a cabo é que ela tende a se tornar mais episódica na tentativa de se diferenciar das séries oferecidas por serviços de streaming, que geralmente se resolvem por temporada. Na opinião do diretor, “Netflix, Amazon, HBO Go, eles pegaram o caminho do grande arco, de você poder contar uma história em 12 episódios, em 13 episódios. Com isso, o cabo está virando episódico. O cara não espera mais quarta-feira
para ver” (VILLAÇA, 2017). Mesmo alertando para a possibilidade de o espectador de televisão por assinatura assistir a tudo de uma vez na plataforma online, o diretor acredita no crescimento dessa tendência da valorização da trama episódica no cabo, caminhando para uma semelhança maior com o formato do seriado (series) como vimos acima. Para Villaça, caso haja a terceira temporada, eles teriam que rever a estratégia narrativa pensando numa possível adaptação a esse novo contexto: “a gente tem que estar mais episódica e a gente está se questionando, pra ver se a gente consegue. Eu adoraria fazer. Mas vamos ver o que é que vai dar” (VILLAÇA, 2017).
Como podemos perceber também pela fala do diretor, cada vez mais as definições se tornam imprecisas diante do cenário multifacetado de produção desses formatos8. Ballogh (2002, p. 94) chega a considerar a existência de uma “bricolagem de gêneros e subgêneros” nos textos televisivos. Como exemplo, poderia se pensar na mistura entre os gêneros teleficcional e do telejornalismo, quando se criam formatos que dramatizam fatos reais, oscilando ora para o real, ora para o ficcional, de forma que o programa pertence a ambos os gêneros.
O alto grau de heterogeneidade aliado ao constante surgimento de novos gêneros do discurso fica enfaticamente marcado nos ensinamentos bakhtinianos ao reforçar a noção de gênero como tipo relativamente estável (BAKHTIN, 2010a, p. 262) e, seguindo a linha teórica de Machado, podemos vislumbrar nos gêneros audiovisuais esse desenvolvimento, bem como a mistura entre eles. Adaptando-se ao seu tempo, os gêneros sofrem inter-relações importantes que contribuem para a criação de novas tipologias, como asseveram também McKee (2006), para quem a fusão dos gêneros pode ser vista como recurso que adensa a série criando modulações de clima e emoção, e Mittell (2004) que enxerga o cruzamento de gênero como um processo cultural derivado dos usos da audiência.
Longe de denominações estanques, os gêneros se combinam e se recombinam cada vez mais, incorporando traços de um e de outro gênero, como marca da contemporaneidade, da mesma forma que os formatos também se mesclam, fazendo emergir formas híbridas. Além do conceito de gênero ligado ao fazer televisivo que discutimos, não podemos esquecer ainda da subclassificação dentro do gênero ficcional, envolvendo a classificação da ficção em gênero cômico, dramático, policial etc., e suas combinações: comédia romântica, dramédia, dentre outras.
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Apesar dessa breve distinção entre série e seriado, que serve para marcar importantes implicações teóricas no tocante à construção narrativa, a partir de agora passamos a nos referir a ambas as produções como séries, pois algumas às quais nos referimos podem ser entendidas como seriados.
A seguir, passamos a caracterizar alguns aspectos de séries pioneiras seja em termos de temas ou de construção narrativa, ao mesmo tempo que procuramos ilustrar a relevância alcançada por tais produtos e suas repercussões em séries atuais.