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O texto abaixo é resultado da entrevista com o arquiteto Antônio Carvalho Neto concedida no dia 30 de maio de 2014 as 15:30h. A entrevista foi realizada no escritório do arquiteto e teve a duração de, aproximadamente, 01 hora, sendo que o trecho gravado e transcrito é de aproximadamente 30 minutos. Iniciamos a entrevista com uma conversa informal, a pedido do entrevistado, sobre a experiência do arquiteto com o uso do aço na arquitetura e, posteriormente, foram introduzidas as perguntas que seguem na transcrição.

1. A quanto tempo projeta edifícios com estruturas em aço?

O primeiro projeto em aço foi para o concurso, em 1982, do edifício da FIEC. O projeto consistia em um sistema misto, que se caracterizava por duas torres de concreto interligadas pela área de escritórios que media aproximadamente 18m de largura por 20m de comprimento. Essa área de escritórios foi originalmente projetada em aço, através de uma viga Vierendeel na cobertura, de onde saiam todos os tirantes que suportariam uma série de lajes que dariam espaço a área principal de escritórios.

No momento de construir, a diretoria da FIEC, por desconhecimento sobre as qualidades do aço, principalmente naquela época, quando não tínhamos siderurgia aqui, optaram por não arriscar construir em aço. Nesse momento estudamos, para manter as mesmas características do projeto do concurso, construir em concreto protendido com a viga “ponte” apoiada nas duas torres laterais. A solução adaptada encontrada então foi utilizar várias vigas até chegar na cobertura. Ou seja, poucas pessoas tem conhecimento, mas de fato houve a primeira tentativa em 1982.

A segunda tentativa foi nos anos 90, aonde foi desenvolvido um anteprojeto para a sede da agencia do Banco do Brasil no bairro da Aldeota em Fortaleza. O projeto original previa uma torre vertical de 12 pavimentos em concreto, porém, a diretoria do banco cancelou o projeto por achar que estava superdimensionado e, com o prazo se extinguindo, solicitaram um projeto de arquitetura e construção que pudesse ser o mais rápido possível com três ou quatro andares. Com esse “achatamento”, tive de absorver a área construída do terreno, e a solução foi propor um partido que começava no térreo com uma área menor e com os balanços sucessivos nos pavimentos superiores, a área construída foi aumentando horizontalmente gradativamente, como uma pirâmide

invertida. Partido que só foi possível ser concebido em aço. Tínhamos em destaque o bloco de concreto que continha a área de escadas, elevadores e banheiros, e o restante todo construído em aço e transparente com o uso do vidro. O balanço permitiu aumentar a área construída avançando sobre a área da rua, viabilizando o projeto da agencia. Então foi nesse projeto que realmente se utilizou as possibilidades do uso das estruturas mistas, o concreto e o aço. Foi utilizado lajes em steel deck em toda a parte metálica, o que avançou rapidamente na produção.

2. Qual a experiência com outros sistemas construtivos? Já utilizou sistemas estruturais mistos?

Respondido na pergunta anterior.

3. O que levou a utilizar a estrutura em aço no projeto do edifício da Agencia do Banco do Brasil Aldeota? A estrutura metálica foi determinante para resolver problemas projetuais? Porque?

O aço foi determinante na obra pelo curto prazo que tínhamos para execução e por viabilizar balanços que aumentariam a área útil nos pavimentos superiores, o que era uma exigência do programa. Viabilizou a singularidade do partido arquitetônico.

4. Quais as maiores facilidades e dificuldades que os arquitetos enfrentam ao projetar edifícios em aço?

Hoje, um grande facilitador, que não tínhamos na década de 80 por exemplo, é a grande quantidade de informação que podemos encontrar na internet sobre o aço e os sistemas mistos, como fornecedores, produtos, obras e etc. Na hora de desenvolver o projeto, ainda nos deparamos com alguma dificuldade em relação a mão de obra local, pois considero que ainda temos poucos calculistas em aço em Fortaleza, o que acaba gerando um certo problema para o desenvolvimento do projeto arquitetônico. Porque desenvolvemos o projeto dentro da nossa pericia, mas se não for bem detalhado e acompanhado por profissionais especialistas como um calculista, o profissional em ar condicionado, o profissional em vedamentos, em instalações e etc, corremos o risco de perder o controle sobre o projeto em sua totalidade. O que ainda acho critico aqui em Fortaleza é o pequeno número de calculistas em aço, se hoje temos em torno de 30 a 40 calculistas em concreto, temos 4 ou 5 calculistas em aço. Está faltando no mercado

mais engenheiros calculistas em aço. Não só calculistas, mas o projetista que desenvolve o detalhamento da estrutura. Hoje, para você detalhar uma coberta simples já é difícil. É evidente a necessidade de se estimular a formação de calculistas e de projetistas em aço. Um complementa o outro. A materialização da estrutura, hoje em dia não é problema, o maior problema está na definição da equipe.

5. Qual o sistema de vedação que considera mais eficiente nos projetos em aço e qual o motivo? A oferta de componentes industrializados nesse setor é satisfatório?

Não acredito que seja um sistema de vedação. Depende das necessidades do projeto. Tanto pode fechar com vidro laminado, que na maioria das vezes é laminado, como pode usar placa cimenticia. A escolha do material de vedação pode, na maioria das vezes, agregar valor, mas o importante é que sejam painéis leves, pois como na estrutura metálica, as vezes o perfil é de alumínio, tem que ser um material leve. Também existem as placas de sanduiche de isopor e poliuretano, como as que foram utilizadas no Banco do Brasil, no fechamento superior. Acredito que logo o plástico vai ser um material utilizado em grande escala nos vedamamentos, é inevitável, pois a sua aplicação é muito ampla.

O fornecimento desse material não é problema. Apesar de não termos industrias na região, é fácil de comprar e de transportar.

6. O fornecimento dos elementos de aço – pilares, vigas e etc. – pelas indústrias é satisfatório? Explique?

Sim. Hoje em dia isso não é problema. A indústria local tem como fabricar qualquer tipo de estrutura. Caso seja necessário utilizar perfis laminados, a Gerdau em Maracanaú tem no estoque e, acaso não tenha, ou necessite de um perfil diferenciado, traz do Sul do País. A estrutura do Banco do Brasil por exemplo, veio em cima de carretas desde São José do Rio Preto, no interior de São Paulo. Hoje já temos fábricas em Recife e Salvador, não havendo mais a necessidade de vir do sul e sudeste. Porém isso ainda é comum. A estrutura do novo Castelão, essa última etapa, veio do Rio Grande do Sul, portanto não existe empecilho no fornecimento e transporte. Diferente do transporte do concreto que exige um raio de ação especifico e consequentemente mais limitado. Para se ter uma ideia, boa parte do aço utilizado no parque industrial do Pecém está vindo da China em navios. O que pode ser um risco para a produção do aço nacional.

Mas acredito que isso vá mudar, temos muito a ganhar com a Companhia Siderúrgica do Pecém e as industrias que virão. É um polo que começa com a siderúrgica e outras industrias menores que se instalarão. Logo acredito que esse polo do Pecém vai ser um grande avanço para o desenvolvimento do Nordeste e para o Ceará. Principalmente para nós que usamos o aço, pois vamos usufruir de todas as facilidades futuras. Vamos esperar que eles venham a fazer a mesma coisa que fazem no Rio Grande do Sul, São Paulo e Minas Gerais.

7. O custo do projeto estrutural em aço é similar ou diferente do projeto em concreto armado? Os detalhes – precisam ser mais específicos e demanda mais mão de obra de projetistas e desenhistas – ou o tempo e custo são similares a sistemas estruturais mais tradicionais?

Projeto para mim é um custo só, independente de ser em aço, concreto ou outro material. Você desenvolve um pacote que tem o projeto, o calculo, os quantitativos, instalação... tem tudo. Ou seja, não tem diferença. A dificuldade é como já falei... na equipe, mas não aumenta o preço por isso. Existe a questão da construção industrializada, sendo em concreto ou em aço, por ser modular exige uma maior preocupação com os detalhes.

8. Em relação a mão de obra e os equipamentos – quais as maiores dificuldades? É similar aos demais sistemas estruturais mais tradicionais?

A questão da mão de obra é aquela que já foi dita, mas em relação aos equipamentos não existe dificuldade. Tanto o aço como o concreto você pode racionalizar o processo, agora o que é necessário e ter uma empresa que esteja acostumada com a construção “seca”, aonde o material vai chegando no canteiro de obras e vai sendo montado. Não precisa de canteiro grande e nem de parar a cidade, é como nos Estados Unidos ou em outros lugares, que as vezes o material vem de noite e o guindaste já descarrega. Tem muita racionalização na programação da obra e isso depende do planejamento. Se não houver planejamento você pode colocar muita coisa a perder.

9. Geralmente são os clientes que solicitam estrutura em aço, ou é uma sugestão do arquiteto? Quais motivos levam a decidir por esse sistema estrutural?

Você tem um programa, se você ver o cliente com uma necessidade de uma construção “seca” e rápida, você pode propor um sistema de construção industrializado em aço, que viabiliza o terreno (o sitio) e o tempo. Pois se for em aço, e bem planejado, você viabiliza a obra realmente mais rápido do que em concreto, e sem limitação de altura. Acho que é o programa e o cliente que define a sua conduta, mas se você puder sempre optar pela construção “seca”, que produz poucos resíduos e em muitos aspectos é mais sustentável, é melhor, pois eu acho que como arquiteto devemos privilegiar os processos que minimizam o desperdício. Isso é fundamental no arquiteto, pensar arquitetura de maneira sistêmica.

10. A previsão do uso do aço em edifícios de múltiplos andares no Brasil é promissora?

O que a gente ainda percebe aqui em Fortaleza é a construção dos edifícios em concreto. Não critico construtora nenhuma, é do interesse de cada um. Aqui inclusive é muito comum utilizar laje nervurada com uso de formas de plástico, que aliás foi um sistema desenvolvido aqui, e utiliza plástico reciclável em todo o seu processo. A forma é reaproveitada, se quebrar recicla e faz de novo. Então o avanço do uso desse sistema de montagem da laje nervurada possibilita uma rapidez, não tão grande como a do aço, mas passa a ser mais um fator a concorrer com o aço. Principalmente porque localmente “eles” já estão fazendo “miséria” na construção. Isso fortalece a cultura do concreto.

11. Como vê indústria do aço frente a demanda atual dos arquitetos? A necessidade criativa dos arquitetos pode impulsionar novas tecnologias na produção do aço? Acho que os produtos que temos hoje no mercado são suficiente para suprir qualquer necessidade criativa dos arquitetos. São inúmeros produtos, chapas, perfis...

12. Conhece algum fator que dificulta o aumento do emprego do uso das estruturas metálicas em edifícios de múltiplos andares no Brasil?

A dificuldade é como já falei, é um processo que depende muito do empresário, da cultura do meio em que convivemos. É praticamente só isso. E é claro, o concreto ainda é um concorrente muito forte.

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