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Outro ponto de destaque na teoria de Grice, aliado ao tratamento de sentenças indicativas e imperativas, o qual ele faz questão de salientar, é a importância dada às sentenças interrogativas. Uma sentença interrogativa, grosso modo, pode ser definida como um tipo de ato ilocucionário que indica que o falante quer que o ouvinte dê uma resposta ao conteúdo proposicional evocado pelo conteúdo comunicado. Diferentemente dos autores citados no capítulo 1, os quais apenas se preocupam em tratar de sentenças indicativas e imperativas, Grice tem uma posição bastante fregeana. Sentenças interrogativas são interessantes de alguma maneira. Do mesmo modo que Frege (1997, p. 329), Grice também efetua uma distinção entre dois tipos de interrogativas: (1) as ‘Yes/No interrogatives’ e (2) as ‘W interrogatives’. O primeiro grupo consiste daquelas sentenças interrogativas cuja resposta é sempre um ‘sim’ ou um ‘não’ (Ex: ‘A água está gelada?’, ‘Kant escreveu A República?’, ‘O platônismo é uma boa teoria metafísica?’, etc.). Já o segundo grupo é composto por sentenças interrogativas cuja resposta contém mais informação (Ex: ‘Qual a temperatura da água?’, ‘Quem escreveu A República?’, ‘Quais as razões que sustentam a defesa de uma concepção platonista?’, etc.). Tanto Grice quanto Frege dão atenção especial às sentenças do primeiro grupo, pois elas já apresentam um conteúdo completo ao serem proferidas.

A diferença entre interrogativas judicativas e interrogativas volitivas, por sua vez, consiste, segundo Grice (2001, p. 55), no seguinte: as interrogativas judicativas são caracterizadas pelas circunstâncias nas quais o questionador (enunciador) está preocupado em obter informação (Ex: ‘O professor está em aula?’, ‘O texto foi escrito?’, etc.); as interrogativas volitivas, de modo diverso, são caracterizadas pelas circunstâncias nas quais o questionador está colocando um problema acerca do que ele deve fazer (Ex:

101 É bastante evidente o forte caráter pragmático da análise de Grice, o qual inexiste nos autores discutidos

no capítulo 1. Como Grice mesmo diz, o que se pretende ao proferir um imperativo, um indicativo ou uma interrogação é produzir um efeito no ouvinte. Desse modo, o ouvinte precisa apresentar uma reação frente ao conteúdo proposicional proferido.

‘Eu devo ler o livro?’, ‘Preciso fechar a porta?’, etc.). De qualquer modo, elas necessitam ou solicitam de uma resposta para que o ato ilocucionário seja satisfeito.

Susan Stebbing (1939, p. 27) assume uma posição muito parecida. De acordo com ela, nós utilizamos a linguagem porque nós desejamos comunicar nossos pensamentos, desejos, sentimentos, etc., para os outros. Assim, a linguagem é um fenômeno social que envolve falantes e ouvintes. Para que ela aconteça, ao menos dois falantes devem estar envolvidos e deve existir uma cooperação entre eles102. Por exemplo, dado que A é um

falante e B um ouvinte, para que os propósitos da comunicação sejam alcançados, certas condições devem ser satisfeitas: (i) para comunicar algo para B, A deve saber algo que B não sabe; (ii) A e B devem saber algo em comum, ou seja, deve haver uma base de experiência comum que forma o contexto no qual a comunicação ocorre; (iii) A faz uma declaração (asserção, pergunta ou ordem) que B aceita ou rejeita. Tal proferimento proposto para aceitação ou rejeição é uma proposição. Em relação à discussão sobre interrogativas, Stebbing afirma que uma questão genuína demanda uma resposta. Seria insensato fazermos perguntas cujas respostas sabemos que não são possíveis ou que o interlocutor não as possui. Porém, em alguns casos, uma interrogação ou pergunta não necessita ter a forma de uma interrogação. Em nossos processos ordinários de pensamento nem sempre os problemas que nós colocamos têm a forma sintática correspondente. Assim como Grice, dado um contexto de implicatura, sentenças indicativas podem querer dizer ordens ou perguntas. Em todo caso, na comunicação, ou mesmo no pensamento, fazer perguntas envolve tentar obter ou encontrar respostas para elas. Toda sentença interrogativa tem como propósito alcançar uma resposta adequada à pergunta.

Para explicitar a amplitude e importância desse ponto, até mesmo Heidegger, em um texto que precedeu Sein und Zeit, discute o caráter das sentenças interrogativas e, surpreendentemente, faz algumas considerações muito parecidas às de Grice. Heidegger, em um pequeno texto intitulado Question and Judgment, afirma que há uma relação indissociável entre sentenças interrogativas (perguntas) e sentenças indicativas (respostas, juízos). Ao fazer uma pergunta, o agente sempre intenciona alcançar algo,

102 Stebbing e Grice possuem teses sobre a linguagem muito parecidas. Chapman (2013) esboça uma

no caso, um juízo. “Por conseguinte, a caracterização do conteúdo implica a necessidade que o conteúdo de uma pergunta deva também ser de alguma forma ordenado em direção ao conteúdo do juízo” (HEIDEGGER, 2009, p.57).

Similarmente à Grice, em Heidegger, temos um elemento de intencionalidade envolvido. Fazer uma pergunta ou proferir uma sentença interrogativa é um ato da vontade. Mas fazer uma pergunta não é um mero desejo por uma resposta, é mais do que isso, consiste em criar um conteúdo que tem a possibilidade de se tornar um conteúdo judicativo. Em Grice, ao menos, nesse processo comunicativo, há a necessidade de uma cooperação entre o falante e o interlocutor. Toda vez que fazemos uma pergunta endereçada a nosso interlocutor, assumimos que ele é um ser racional e que ele está disposto a nos dar uma resposta adequada ao conteúdo contido na interrogação. Se perguntarmos se a neve é branca, esperamos que a resposta seja um ‘Sim’ ou um ‘Não’ e não ‘Amanhã irá chover’. Grice não chega a afirmar isto, ou não é claro o suficiente, mas fica implícito que se as interrogações obtiverem resposta, isto é, forem satisfeitas, então os itens (3) e (4) do Quadro 2 acima podem ser reduzidos aos itens (1) e (2). Seria possível transformar todas as sentenças Judicativo Interrogativas em sentenças Judicativo Indicativas e todas as sentenças Volitivo Interrogativas em sentenças Volitivo Intencionais ou Volitivo Imperativas103.

Em todo caso, é digno de mérito a extenuante análise e formalização que ele realiza, inclusive das sentenças interrogativas. A possibilidade de introduzir os operadores modais a tipos diferentes de atos ilocucionários demonstra a amplitude e a generalidade de sua abordagem. Na próxima seção, pretendo explorar outros elementos envolvidos na análise de Grice, especialmente o conceito de aceitabilidade, mostrar como ele constrói inferências mistas e quais as vantagens de sua abordagem.

103 Um exemplo poderia ser o caso de uma interrogação como “A neve é branca?”. De acordo com o quadro

de Grice essa sentença é uma sentença Judicativo Interrogativa (3A) e seria expressa no esquema como: ‘U enuncia para H [uma sentença da forma] ?A + ‘A neve é branca’ se U quer que H julgue que U quer que H julgue positivamente (ou negativamente) que ‘A neve é branca’’. Uma vez que a resposta for positiva, por exemplo, teremos como resultado uma sentença Judicativa Indicativa (1A), ‘Sim, a neve é branca’. Nesse caso, a nova sentença seria expressa no esquema como: ‘U enuncia para H [uma sentença da forma] A + ‘A neve é branca’ se U quer que H julgue que U julgue que ‘A neve é branca’’. (JudicativoA Indicativo). Assim como em Frege, a sentença interrogativa, a qual continha um pedido, após receber uma resposta, torna-se uma sentença indicativa (ou assertiva), a qual contém uma asserção.

3.2 – ACEITABILIDADES TEÓRICAS E PRÁTICAS

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