Os avanços tecnológicos e a popularização da internet também trouxeram
mudanças no campo cultural. Lemos (2004, p. 11) introduz o conceito de cibercultura e
explica que ela “potencializa aquilo que é próprio de toda dinâmica cultural, a saber, o
compartilhamento, a distribuição, a cooperação, a apropriação dos bens simbólicos. Não
existe propriedade privada no campo da cultura já que esta se constitui por intercruzamentos e
mútuas influências”. Lemos (2004, p. 15) conceitua o ciberespaço como, forma e conteúdo
cultural, modulador de novas identidades e formas culturais.
De acordo com o pensamento do autor, a cultura não deve ser propriedade
privada, pois “sua riqueza se dá no livre intercâmbio de experiências, nas mútuas influências,
visto que o que sabemos do mundo (e de nós mesmos) vem daquilo que herdamos dos outros,
do que vivenciamos” (LEMOS, 2004, p. 19).
Adicionalmente, ainda relacionado ao contexto digital, a digitalização de acervos
documentais tornou-se uma realidade na cultura dos indivíduos, visando facilitar a
disponibilização dos objetos culturais. Silveira (2007, p. 83) destaca que foram “mudanças
promovidas pela intensa digitalização dos bens simbólicos, com ampliação das práticas de
colaboração e compartilhamento em rede e efeitos sobre os modelos tradicionais de
propriedade intelectual”. Assim, a informação que antes era disseminada por meio dos lugares
de memória, que podiam ser tocadas, agora podem ser recuperadas e acessadas por meio de
um ambiente digital, tais como: bases de dados, repositórios digitais, sites, plataformas, blogs
e redes sociais.
Palacios (2009, p. 255-256) endossa essa possibilidade do mundo digital quando
afirma que
As formas anteriores expressivas, as formas culturais e os produtos culturais
são também digitalizáveis e digitalizados. Ter os papiros digitalizados e,
portanto, acessíveis massivamente, é também uma forma de preservar esses
papiros, no sentido de que eles vão ser objeto de menos manipulação, que
seria destrutiva para eles. Isso é uma coisa positiva, há uma preservação do
suporte físico dessa memória escrita, ao mesmo tempo em que há uma
massificação da possibilidade de acesso a esse conteúdo. A velocidade desse
processo muda de acordo com a consciência da sua importância.
Evidentemente há também a preocupação com formas de preservação.
Apesar de toda essa facilidade no acesso aos mais variados objetos, culturais ou
não, que a internet propicia, Palacios (2009, p. 257) alerta que “esse material que está na
internet é instável”, pois sites que hoje estão acessíveis podem não estar mais disponíveis em
alguns anos. Assim, é preciso pensar em formas de preservação dos materiais disponibilizados
na web, de forma a garantir sua recuperação e acesso futuro.
O termo cultura digital, é um termo que ainda está sendo introduzido no meio
social, mas que tem grande potencial para se desenvolver (CARVALHO JÚNIOR , 2009).
Apesar disso, o termo foi difundido e apropriado rapidamente pelos estudiosos que analisam a
influência das tecnologias no cotidiano do indivíduo, bem como a interferência do “estar
conectado sempre” na rotina dos indivíduos. O autor coloca como facilitador dessa cultura
emergente a quantidade de pessoas com computador ou telefone celular conectados à internet
e a utilização cada vez maior de softwares livres, de redes sociais e de serviços gratuitos
online.
Quanto ao processo de “digitalização da cultura”, Santos (2009) vai além da
apropriação de hardwares e softwares, e explicita as preocupações que são próprias da cultura
digital:
O impacto do digital na cultura é imenso, e as pessoas não têm muita noção
do que isso significa, porque as pessoas pensam que a cultura pode ser a
mesma no mundo digital, ou que a cultura pode ser a mesma, você
digitalizando a cultura, levando-a, digamos, para o mundo digital, traduzindo
para o mundo digital. Na minha perspectiva, é outra história, porque não se
trata só de uma digitalização da cultura, mas da criação de uma outra cultura,
com outros referenciais, com uma outra cientificidade operatória (ou seja,
uma outra maneira, um outro conceito de cultura) e uma outra maneira de
conceber o que deve ser considerado ou não cultura e de como é que você
olha as outras culturas, que não são a cultura de um cibernético. Eu prefiro
chamar cultura cibernética do que cultura só digital (SANTOS, 2009, p.
285).
Na perspectiva de Santos (2009), a representação das manifestações culturais
para o meio digital não é simples, pois não se trata apenas de disponibilizar e dar acesso, mas
de pensar nas apropriações que serão feitas dessa cultura, de distinguir o que é cultura, visto
que a socialização na web proporciona aos indivíduos produzir e consumir cultura. O autor
acredita ser relevante pensar em uma nova forma, um novo conceito de fazer cultura, quando
se trata do ambiente Web, se torna ainda mais relevante pensar em como mediar esse acesso à
cultura digital
14.
Alguns autores enxergam de forma positiva a introdução das tecnologias na
cultura, Carvalho Júnior (2009, p. 10) visualiza que a cultural digital como “novo sistema
operacional da cultura seria capaz de fomentar ao mesmo tempo criatividade, produtividade e
liberdade, satisfazendo igualmente as demandas tanto de indivíduos quanto de coletividades”.
Pois, a facilidade com que a informação é apresentada torna o processo criativo mais
dinâmico e fluido, gerando novos produtos culturais do indivíduo ou do grupo.
A essas novas demadas geradas com a introdução das tecnologias na cultura dos
indivíduos, fez surgir uma nova área de estudo que deve ser conceituada e de acordo com
Manevy (2009, p. 35), cultura digital não é apenas
uma tecnologia, mas um sistema de valores, de símbolos, de práticas e de
atitudes. Alguns tratam a cultura digital só como uma tecnologia, só como
uma técnica, como uma novidade [...]. Agora, se pensarmos como cultura e
não só como suporte, acredito que captamos a essência desta transformação,
14 Mediação pode ser definida como ”ato especial, singular e autônomo de criação e de protagonização cultural. Nesse sentido, a mediação cultural não se define apenas como um conjunto de procedimentos destinados a aproximar o público dos produtos culturais. É, antes, atuação, tomada de posição em território marcado por posições distintas e nem sempre concordantes.” (PERROTTI, 2016, p. 10).
que é a cultura das redes, do compartilhamento, da criação coletiva, da
convergência. São processos vivos de articulação, processos políticos,
sociais, que impactam nosso modo de vida, de construção e de formulação. E
que encontra no digital não um suporte, mas um modo de elaboração.
Ademais, o autor acredita que o impacto dessa nova cultura trouxe transformações
nos mais variados setores da sociedade e que é preciso defender o potencial criativo,
libertário, emancipatório, de trocas de conteúdo que a internet vem propiciando. Pois as
tecnologias foram capazes de interferir diretamente no modo de fazer, armazenar e
disponibilizar informação, cultura e conhecimento. (MANEVY, 2009)
O digital interfere de várias formas no cotidiano da sociedade, como suporte
ampliando a possibilidade de armazenamento e acesso, de conexão, de intercâmbio, e também
como um território de produção cultural específica. Esse acesso permite tanto a expressão
como uma nova realidade. À medida que a internet foi ficando cada vez mais acessível para
um número cada vez maior de pessoas, o intercâmbio cultural se deu de tal modo que as
diferenças de línguas não foram suficientes para impedir que estas trocas se dessem por meio
de semelhanças e interesses comuns (FERREIRA, 2009).
A influência das tecnologias digitais e da internet foram analisadas sob três
impactos: o deslocamento sísmico, o deslocamento radical e o deslocamento lógico da cultura
que se recebe para a cultura que se faz (DOWBOR, 2009). Dessa maneira, o deslocamento
sísmico está relacionado ao ambiente onde se fazia arte, onde se produzia e consumia cultura,
que ia desde a sala de estar da própria casa à praça do bairro e não no ambiente cibernético. O
indivíduo era agente produtor e consumidor de sua arte, de sua cultura. O deslocamento
radical que a internet proporcionou, se dá no fato do indivíduo ter autonomia para decidir a
cultura que deseja consumir e não consumir apenas o que lhe tornavam acessível. O
deslocamento lógico está intrinsicamente ligado ao fato da desmaterialização do
material/imaterial, visto que a cultura é algo intangível. Entretanto, o deslocamento das
manifestações culturais para o ambiente Web deixa essa intangibilidade mais evidente
(DOWBOR, 2009).
Segundo Vicario e Díaz (2010, p. 12), “ao tempo real e ao espiritual
acrescentamos o virtual, que é uma terceira dimensão temporal que muda os parâmetros de
medição entre passado, presente e futuro. A função de preservar as tradições da cultura fica
maltratada diante das novas formas de transmiti-la”.
No entanto, é imperativo observar que a introdução das tecnologias e
disseminação da informação por meio da internet não garantem a inclusão de todos os
indivíduos, o que é frisado por Silveira (2010, p. 65): “apesar de as tecnologias da informação
darem a impressão de homogeneizar os comportamentos, as atitudes e as finalidades, a
comunicação em redes digitais não dissolveu nem aplacou as diferenças”. O autor prossegue
afirmando que “a comunicação em redes digitais distribuídas não dissolve as diferenças
socioculturais no ciberespaço, ela recoloca, em um novo cenário, o antigo e complexo debate
entre universalismo e relativismo” (SILVEIRA, 2010, p. 67). Isso porque, mesmo com a
disseminação da informação por meio digital, ainda é complicado determinar as nuances do
universalismo que não estão interiorizadas no relativismo, uma vez que o universalismo visa
garantir o cumprimento dos direitos de todos, enquanto o relativismo visa garantir o direito do
indivíduo que faz parte do todo.
Em adição a digitalização de acervos, a inserção da cultura digital no cotidiano
da sociedade acarretou modos inéditos de criação, compartilhamento, recuperação e acesso
aos objetos culturais. Assim como mudanças na forma de representar e disseminar a
informação contida nesses objetos culturais. Todavia, a cultura digital também trouxe
problemas de segurança e falsificação, que devem ser analisados e solucionados e/ou
enfrentados (CANEVACCI, 2013). Ainda sobre a cultura digital, pode-se dizer que
a descentralização ubíqua do indivíduo, trata-se de um tipo de identidade
característica da cultura digital. O desejo de viver uma alteridade interna era
compartilhado apenas em momentos específicos, como no carnaval.
Atualmente, com a explosão da cultura digital, esse desejo de alteridade, de
multivocidade pode ser vivido o tempo todo, em qualquer momento. Basta o
sujeito entrar na internet para poder exprimir diferenças coexistentes e
heterônomos estilos de escrever, de se representar, de se conectar
(CAVENACCI, 2013, p. 1)
Dessa forma, o indivíduo se torna pertencente a um grupo, sem que sejam
necessárias reuniões presenciais ou contato físico com os membros deste grupo. A internet
propicia essa interação entre diferentes pessoas de diferentes lugares, ela aproxima o
indivíduo de seus objetivos, de forma que não seja necessária a materialização dessa presença.
Nos dias atuais, a presença é on-line e o indivíduo pode estar presente em vários lugares ao
mesmo tempo.
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What do images in the public space do?
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