• Aucun résultat trouvé

Durante quatro anos, Giseli percorreu, de segunda a sexta-feira, aproximadamente 240 km por dia para ir da cidade onde vive – Ouro Preto – até Belo Horizonte, onde está localizada a universidade em que se formou, no mês de julho de 2010. Mas nem por isso se sentiu desanimada, tanto que, depois de graduar-se no curso de Pedagogia, inscreveu-se, por incentivo de alguns professores, em uma disciplina isolada no curso de Mestrado em Ciências da Religião. As atividades profissionais como professora complementam-se na Educação Infantil e em curso de pré-vestibular.

A ex-estudante de Pedagogia foi monitora e destaque acadêmico na universidade. Ela tem uma história bem diferente da de seus pais. Ele, um pedreiro autônomo; e ela, ex-interna da Fundação do Bem-Estar Social do Menor (Febem). No total, a família é formada por quatro pessoas, pois também tem uma irmã. No quesito escolaridade, Giseli foi a única a chegar ao curso superior.

Na trajetória escolar da entrevista consta que ela frequentou a Educação Infantil, matriculou-se aos oito anos em um curso de inglês e o Ensino Médio foi concluído no Centro Federal Tecnológico (Cefet) de Ouro Preto. Posteriormente, concluiu o Ensino pós-Médio em Educação Ambiental no referido Centro. Por sentir- se preparada, descartou a necessidade de frequentar o pré-vestibular. O primeiro processo seletivo a que se submeteu para ingressar no Ensino Superior foi para a Faculdade de Letras da Universidade Federal de Ouro Preto (Ufop). Por não ter se identificado com o curso, desistiu no segundo ano.

Em certo período da vida, trabalhou como professora de inglês para crianças, o que a influenciou na decisão de optar pelo curso de Pedagogia. Como na cidade não havia oferta para o referido curso, ela se submeteu ao exame do Enem e foi selecionada por uma universidade de Belo Horizonte, com bolsa parcial do Prouni. Por apresentar ótimo desempenho – conforme declaram seus professores –, foi agraciada pela instituição universitária com outra bolsa que abatia 25% na mensalidade.

Em relação à trajetória escolar e acadêmica, Giseli afirma: “Eu nunca perdia nota. Eu sempre fui uma boa aluna, muito boa, sabe?”.

Indagamos sobre os fatores aos quais ela atribui a responsabilidade pelo bom desempenho escolar e acadêmico alcançado:

Minha família sempre me apoiou. Embora meu pai e minha mãe não tenham nem a Educação Fundamental, eles sempre me incentivaram a estudar. Desde os oito anos, fui matriculada no curso de inglês. A minha mãe tem uma história muito complicada, foi aluna da Febem e morou lá a vida toda.

Perguntada como analisava o próprio ingresso no curso superior, Giseli diz reconhecer a importância da família no processo de escolarização, mas também destaca que outras redes de relações influenciaram:

O incentivo não foi só dos meus pais, dos meus tios e avós. O meio que eu cresci, os meus amigos lá em Ouro Preto, todos estão seguindo a vida acadêmica no Mestrado ou Doutorado. Eu também tive a sorte de ter bons professores em toda a minha vida, da Educação Infantil ao Ensino Médio. Todo mundo influenciando.

Chegar ao Ensino Superior foi uma vitória que não pertence só a

mim.

A respeito da maneira como Giseli organizava o tempo, relata:

Eu levantava às seis horas, tomava um banho, não tomava café em casa; aí saía para trabalhar por volta de seis e meia, às sete horas já estava no serviço da prefeitura. Como trabalho na Educação Infantil, às três horas já estava de volta para casa. Tomava um banho, pegava a mochila e ia esperar a van. Vinha para Belo Horizonte, às sete horas já estava aqui, assistia aula até 10h30. Depois retornava a Ouro Preto, chegava lá à meia noite e meia.

Desde a década de 1980, com a crescente inserção da tecnologia em nossas vidas, vivenciamos um redimensionamento na noção de tempo. Há quem diga, inclusive, que ele passa rápido demais. A noção é exatamente essa e, justamente

por isso, existe uma necessidade, cada vez mais latente, da execução de atividades simultâneas e a cobrança por uma produção mais eficaz. As imbricações de múltiplas tarefas podem ser um contratempo desfavorável para a formação do estudante.

Para a entrevistada, o tempo não limitou as atividades acadêmicas, pois:

Eu prestava muita atenção nas aulas. Chegava à sala de aula com muito bom humor. Acho que pelo fato de gostar da educação, a rotina não era cansativa.

Assim que assumiu a monitoria do curso de Pedagogia, com ênfase em Ensino Religioso, Giseli passou a chegar à faculdade mais cedo; por isso, pôde dedicar um tempo maior aos estudos na biblioteca, um lugar da universidade que para ela é muito especial. E assim explica a relação com o conhecimento acadêmico:

Eu gosto de estudar, gosto de ler, gosto do conhecimento, gosto da instituição, gosto da escola, gosto desse convívio. É a vontade de querer ser mais. De ir além e de desafiar os limites. Isto me faz feliz.

O exemplo dessa estudante pode ser considerado uma raridade no curso superior por sua identidade com o prazer de estudar e ler. É muito comum ouvirmos dos alunos a admissão do fato de não terem o hábito da leitura. Essa é uma herança do ensino básico e, não podemos deixar de lembrar, também da família. Há, juntamente com a dificuldade de leitura e interpretação de textos, uma grande resistência em apostar na mudança de hábito e recuperação do tempo perdido. Ou seja, nosso aluno deveria, ao contrário do que reivindicam, ler mais, pois a lacuna é grande para quem deseja ser professor e professora, no caso das licenciaturas. Seria querer demais que nossos alunos tivessem conhecimento acumulado sobre literatura, poesia, dramaturgia, além de outras linguagens como cinema, artes visuais, plásticas?

Na entrevista, a universitária fala de seus projetos profissionais:

Vou continuar na vida acadêmica e dentro da sala de aula mesmo, pois eu gosto. Gostaria de fazer o doutorado no exterior por causa do inglês. Penso em ir para a Austrália.

Giseli, a exemplo dos colegas entrevistados, sabe os caminhos que tem de percorrer, na busca de concretizar os sonhos, por isso frequenta, conforme mencionado, um curso de Mestrado.

3.13. Sistematização das ações pessoais e coletivas que contribuíram para o

Documents relatifs