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Maria Gabriela Llansol (1931-2008) é, sem dúvida, uma das autoras cuja persistente revisitação do registo diarístico se reveste sempre de um caráter insólito e hermeneuticamente desafiante. Llansol é autora de três obras cujo subtítulo aponta para o registo diarístico: Um Falcão no Punho (1985), Finita (1987) e Inquérito às Quatro

Confidências (1996). Nestes três diários, são detetáveis alguns elementos caraterísticos do diário de um escritor, como a datação, apontamentos pessoais de locais e conversas, registos de sonhos, esboços de textos ficcionais e reflexões. No entanto, como adverte Carlos Vaz, a leitura do diário llansoliano, à luz dos cânones do diarismo convencional, pode conduzir a uma perceção deslocada da sua escrita do dia-a-dia:

A necessidade da escolha do género intimista no espaço autobiográfico da autora parte de uma inovação que se afasta da simples classificação de balanço, confissão ou até mesmo do individualismo intimista. […] É certo que poderíamos estar tentados a decifrar o diário llansoliano a partir do típico contrato de leitura que o género impõe, mas o interlocutor que o fizesse estaria a distanciar-se do âmago real da escrita e a tirar conclusões inexactas que se afastariam da leitura dos textos, ou seja, não podemos perscrutar as obras de Llansol mediante as modalidades tradicionais de abordagem implicadas pelo diário. (Vaz, 2005: 36)

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Com efeito, os diários de Llansol assumem-se como um espaço de ‘laboratório’, onde a autora cria, metamorfoseia e experimenta as figuras61 ficcionais que povoam a sua obra, ensaia os títulos possíveis, representando, no fundo, uma antecâmara da criação ficcional e uma zona de germinação romanesca. De tal forma este “diário- laboratório” domina a instância autoral que ela própria admite a sua absorção pelo universo ficcional que cria, convertendo-se também, na qualidade de “Eu” diarista, numa das suas figuras:

Escrevo estas linhas intrigada pelo que compreendo lentamente Que eu pertenço à ordem figural

E que por isso posso colocar este Diário, que diz respeito à ordem figural do quotidiano, ao lado de O Livro das Comunidades,

Da Sebe ao Ser, e de Causa Amante. (Llansol, 1998: 68)

Apesar desta interseção entre registo ficcional e registo diarístico verificável na criação de Llansol, debruçar-nos-emos, não tanto sobre a ficcionalidade do seu diário, mas, sobretudo, sobre a relevância da estrutura do diário na escrita ficcional da autora, designadamente em Lisboaleipzig I – O Encontro Inesperado do Diverso62 (1994). A primeira parte desta obra em tudo se assemelha aos diários de Llansol, designadamente nos protocolos de datação e de localização, na natureza fragmentária, na presença das figuras, etc. Sintomaticamente, contudo, ela não se integra no conjunto que a autora subintitulou Diários, mas enquadra-se, pelo contrário, no repertório das suas obras ficcionais.

Um elemento que, logo à partida, gera alguma perplexidade consiste na subversão da sequência cronológica de reconstituição do pseudodiário. O primeiro fragmento reporta-se, por exemplo, a 15 de janeiro de 1983, o segundo a 28 de junho de 1984, o terceiro a 15 de abril de 1983, o quarto a 3 de junho de 1978, o quinto a 10 de agosto de 1993, e este procedimento é extensivo aos trinta e nove fragmentos. Deste modo, numa derrogação explícita da previsível progressão cronológica, opta-se pela adição de fragmentos assente numa lógica puramente ficcional, o que, desde logo, contraria o conceito tradicional de diário.

61 A autora enjeita, na sua obra, o uso de personagens, contrapondo-lhes a categoria das figuras,

definindo, nos seguintes termos, o conceito: “Sentia-me infantil em dar vida às personagens da escrita realista porque isso significava que lhes devia igualmente dar a morte. Como acontece. O texto iria fatalmente para o experimentalismo inefável e/ou hermético. Nessas circunstâncias, identifiquei progressivamente «nós construtivos» do texto a que chamo figuras e que, na realidade, não são necessariamente pessoas mas módulos, contornos, delineamentos.” (Llansol, 1998: 130)

62 É curiosamente possível acompanhar a génese e evolução desta obra no Diário I - Um Falcão no

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Num dos fragmentos, a diarista explica a génese do “projeto” de Lisboaleipzig, comentando a sua organização:

Suspendo a construção deste texto porque todos os fragmentos que o compõem são, de facto, um Diário, escritos nas datas que indica e que escrevi em paralelo com livros que na altura, estava escrevendo; no entanto, o texto que aqui resulta não é um diário.

[…] Como se eu instigasse, no dia a dia de outrora, um fio condutor, correspondências temáticas e de preocupação, sob a forma geral da partida e da mudança: saída de Jodoigne para Herbais, e desta para Colares, e entrada para Portugal, após vinte anos. Ao reler-me, porém, essas passagens-metamorfose revelaram-me que Jodoigne foi a casa das beguinas, que Herbais foi o lugar de encontro de Infausta, de Aossê e de Bach, e que em Colares acabaram por encontrar-se os membros dispersos da comunidade, nos seus extractos de época, distintos, idênticos e evolutivos.

E, o mais curioso, é que me encontro face a um texto que não pressentira – porque não me dera conta de quando queriam encontrar- se, enfim os membros – visíveis e invisíveis – dessa continuidade. (Llansol, 1994: 46)

Assim, a diarista assume que o critério que regula a ordenação dos seus textos, originalmente procedentes de um diário, é o da afinidade temática, sobretudo em função de dois polos figurais – Bach e Aossê, palíndromo de Fernando Pessoa63 – emblemáticos da música e da literatura, do barroco e da modernidade, num jogo de especularidades e contrastes.

Se, em determinados momentos, a diarista parece identificar-se com a autora64, noutras ocasiões, o sujeito de enunciação não é com ela coincidente, permanecendo a sua identidade opaca para o leitor:

Muitos dos que me lêem têm dificuldade em ajustar-se ao pacto de leitura que os meus textos supõem: o de saberem quem está anunciando. E sabê-lo, sem sombra de dúvida.

Os meus textos supõem um pacto de inconforto __________ são tal qual, se eu quiser que existam __________; (ibidem: 11-12)

Assim, o sujeito não se identifica com a narradora, mas antes com uma função específica de enunciação que não tem uma entidade correspondente, sendo que, por

63 Ao inverter o nome de Pessoa, Maria Gabriela Llansol insurge-se contra o monolitismo constritivo das

leituras canónicas da obra pessoana, emancipando-a dessa asfixiante tradição exegética e abrindo-a a novos caminhos e interpretações, à semelhança da libertação que a autora procura na sua própria obra, pela recusa da catalogação genológica tradicional.

64“Se Lisboaleipzig começa por identificar a narradora autodiegética e escritora com «a própria autora

Maria Gabriela Llansol», conforme é previsto pelo horizonte de expectativas do leitor de um diário (Lisboaleipzig solicita uma leitura como diário desde o incipit, até ao nível gráfico, com as datas afastadas do corpo dos textos individualizados), muitas vezes a identidade do enunciador muda, não sendo sempre possível afirmar quem ao certo está a narrar.” (Eiras, 2005: 563)

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vezes, é a figura Llansol a endossar essa função (Eiras, 2005: 563), podendo ser ela também desempenhada por uma qualquer outra entidade figural, como Bach ou Aossê. Como consequência, “o diário, autodiegético, nega assim a ideia de protagonismo, multiplica as figuras dos narradores, recusa a existência da autora empírica no texto, impede a identificação entre protagonista, narradora e autora”. (ibidem: 564)

Deste modo, o “Eu-Llansol” que, por vezes, surge em Lisboaleipzig não instaura um espaço autobiográfico, mas parece antes corresponder a um espaço autoficcional, onde a figura Llansol é uma criação paralela à das outras figuras convocadas na obra, situando-se num mesmo plano ontológico:

a um momento dado senti que o Diário ia tornar-se um livro/obra, com seus moventes e figuras contracenando comigo na primeira pessoa; tinha sido pouco a pouco, em ritmo de vida e de ternura que crescera no ermo; quanto mais sabia por contactos imediatos menos imaginava; quanto mais me julgava só _________; (Llansol, 1987: 24)

Resta agora evocar a diferença nuclear entre Lisboaleipzig e os diários da autora que cumprem, como já referido, a função de laboratório da obra. Nos seus diários, sobretudo em Um Falcão no Punho, onde se acompanha a experimentação da obra em questão, a diarista convoca para a sua circunstância quotidiana as figuras de Bach, Aossê, Infausta, etc., e é aí que as compõe ou elabora. Na maioria das vezes, as entradas do diário são compostas por fragmentos menores, com uma mancha gráfica distinta, em itálico, sinalizando os trechos ficcionais, elaborados com vista à sua ulterior incorporação ficcional. Em Lisboaleipzig, o leitor fica com a impressão de que se trata agora de as figuras ficcionais convocarem a figura Llansol para o universo da ficção, sem indicação de níveis diferentes ou manchas gráficas distintas. Assim, em

Lisboaleipzig, o espaço da obra, das figuras e da sua interação é muito mais amplo do que em Um Falcão no Punho, onde, sem dúvida, é a figura da diarista que se impõe. (Vaz, 2005: 47-48)

Modelando um originalíssimo universo figural a partir de fragmentos do seu próprio diário, subvertendo o valor canónico da progressão temporal calendar e pulverizando, pela indeterminação plurivocal, a enunciação diarística, Maria Gabriela Llansol dela se apropria de modo fecundamente idiossincrático, instabilizando irremediavelmente as fronteiras entre vida e criação.

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