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De acordo com Sanicola (2008, p.13), o conceito de rede ou redes é utilizado para “[...] definir sistemas que se encontram conectados, malhas de comunicação, estratégias empregadas por indivíduos ou a ‘forma’ das relações sociais”, podendo assumir diferentes acepções que contribuem para construção de representações da realidade, ora pertencentes ao mundo metafórico, ora das práticas. Assim, para alguns a ideia de rede se associa ao trapezista, para outros, ao caçador; pode ainda pode se referir ao suporte, ou ainda, ao controle.

O conceito de rede se refere a um “objeto”, que

[...] cria uma relação entre pontos mediante ligações entre eles que cruzando-se, são amarradas e formam malhas de maior ou menor densidade. No ponto de ligação, ou seja, no nó e por meio do nó, acontecem trocas sinérgicas. (SANICOLA, 2008, p. 13)

Para a autora, o conceito de rede se expandiu, sendo utilizado tanto como valor teórico quanto valor operacional em vários campos do saber/disciplinas, como, por exemplo: na informática, em que possui enorme popularidade atualmente; na física e na medicina, sendo utilizado na compreensão de diversos fenômenos e no tratamento de diferentes problemas. Enquanto linguagem científica, o termo rede vincula-se a “[...] quadros teóricos que vão da economia à eletrônica, nos quais esse conceito, quer relacionado ao mercado, quer a um aparato técnico, apresenta-se como chave de leitura de uma realidade específica e como forma de organizá-la [...]” (SANICOLA, 2008, p. 14).

Sanicola (2008) também se refere à contribuição da utilização do termo rede para as ciências humanas, de acordo com a finalidade social de cada campo, como: antropologia, etnologia, sociologia, psicologia social, psicanálise.

Conforme Silva e Saragoça (2013), em termos históricos o conceito de rede social foi introduzido pelo antropólogo britânico John Barnes, em 1954. Sanicola (2008) também se refere a este autor, que foi um dos pesquisadores do Rhodes- Livingstone Institute, onde participou de um estudo a respeito das interações em uma pequena ilha norueguesa. Barnes utilizou o conceito de redes a fim de descrever relações informais de parentesco, vizinhança e amizade, as quais não conseguia investigar utilizando conceitos de relações formais de trabalho e de proximidade territorial. Essa forma de análise contemplava relações de cada indivíduo segundo as opções pessoais, que não eram fixas, sequer estáveis, mas geravam novos laços o tempo todo. Foi possível fazer o registro da diversidade relativa a cada entrevistado.

Feldman-Bianco (2010, p. 43-44) diz que a elaboração do conceito de redes por Barnes objetivava “[...] trazer maior rigor à observação de relações interpessoais concretas que vinculam indivíduos a indivíduos” com ênfase nas características das ligações entre indivíduos, uns em relação aos outros, enquanto “[...] forma de explicar opção em ação social e os motivos pelos quais um indivíduo escolhe, em um contexto específico, um curso de ação e não outro”. Desta forma, Barnes busca apreender alianças temporárias e relações em constante mudança das relações interpessoais, onde o conceito de rede estava ancorado nas opções pessoais dos indivíduos envolvidos. Para Barnes, a rede não estava vinculada a explicações do tipo status/papel e normas/valores, pois as pessoas componentes da rede podem estabelecer e desfazer laços com outras pessoas sem nenhuma limitação de caráter funcional.

Segundo Marques (2010), nas ciências sociais o estudo sistemático de relações entre indivíduos em contextos específicos se iniciou com a antropologia e estudos das organizações, desde os anos 1930, destacando Jacob Moreno, que se dedicou à análise sistemática dos padrões de conexões entre os indivíduos. Mas, foi somente nas décadas de 1970 e a partir de 1980 que alcançou a Sociologia. Marques (2010, p. 45) destaca que

[...] o estudo das redes sociais remete diretamente aos padrões de sociabilidade presentes em um dado contexto. Essa dimensão já se fazia presente nos trabalhos clássicos de Simmel (1972 [1980]), para quem a sociabilidade moderna era baseada em uma grande quantidade de vínculos secundários bastante heterogêneos em conteúdo, fracos em intensidade e não mais necessariamente organizados de maneira territorial.

O autor explica que, para Simmel, esses padrões de vínculos ocorrem nas relações da vida das metrópoles, onde as pessoas têm liberdade de circulação e escolha social, o que não se daria em padrões próprios do mundo considerado rural ou cidades pequenas.

Para Sanicola (2008), quanto às teorias vinculadas à network analysis, no final dos anos de 1970, White coordenou outros pesquisadores da Universidade de Harvard, em um estudo sobre a estrutura social, “[...] conduzindo a pesquisa na direção dos laços estruturais das redes sociais (parentesco, redes de instituições, mercado de trabalho, fábrica, etc) e do desenvolvimento da análise matemática”. Ganham destaque os autores Wellman (1982) e Fischer (1982), que abordaram sistemas de suporte social na sociedade norte-americana.

Granovertter (1973), na década de 1970, conforme Sanicola (2008), ao estudar a network interpessoal em relação ao sistema de trabalho, dividiu os laços interpessoais em fortes e fracos, salientando a força dos laços fracos no âmbito ocupacional. Concluiu que as melhores informações à procura de emprego circulam entre pessoas com as quais a pessoa estabelece laços fracos, fornecendo diferentes informações daquelas oriundas dos seus laços do tipo forte, em que são transmitidas informações semelhantes. Já na década de 1980, Grieco (1987) afirmou o contrário, sendo os laços fortes provenientes de familiares, parentesco, amizade, que proporcionam oportunidades de escolha de uma nova atividade, pois,

O laço de parentesco requer o respeito de obrigações recíprocas, que permitem que a relação se reproduza e seja garantida ao longo do tempo; transmitir informações significa responder a uma obrigação contraída no passado ou criar uma nova para o futuro. As normas de reciprocidade são utilizadas pelos empregadores, uma vez que as obrigações internas à rede de parentesco constituem uma dimensão agregadora de controle, baseada em laços fortes entre os componentes (SANICOLA, 2008, p. 18)

Sanicola (2008) entende que, apesar de estes estudos chegarem a conclusões diferentes, ambos salientam a importância da família e dos vínculos pessoais como meio onde circulam informações que possibilitam a obtenção de trabalho, ainda que em um cenário caracterizado pela modernização e industrialização.

Marques (2010), ao se referir ao âmbito internacional, diz que se desenvolveram pesquisas voltadas à análise dos padrões de relações de indivíduos e entidades que cercam as situações sociais, e cita Knoke (1990) e Johnson (1994).

Os estudos relativos às redes sociais possibilitaram a elaboração de um novo paradigma, que, para Sanicola (2008, p. 19), possibilitou a compreensão de um novo princípio de organização da sociedade, superando os tradicionais, “[...] segundo os quais o laço social se estabelece graças a papéis instituídos e a funções a estes correspondentes, ou em consequência de trocas entres sistemas e subsistemas”. Para a autora, este caminho aberto pela antropologia auxiliou a sociologia a descobrir a força dos laços frágeis e a contribuição estrutural e funcional do cotidiano na organização social. A partir de então, surgiram duas perspectivas de análise: a) aprofundamento do conhecimento de redes do ponto de vista estrutural, considerando-se os laços quanto à dimensão, densidade, centralidade, natureza e intensidade, onde predominam aspectos vinculados ao ponto de vista funcional, sendo o principal representante Di Nicola, 1986; b) interessa-se mais pela relação entre redes de natureza diversa, a relação entre redes primárias (também denominadas de naturais ou informais) e redes secundárias (chamadas de artificiais ou formais), em que é salientada a circularidade dessa relação considerando o papel da família e a maior contribuição adveio dos estudos de Donati (1988).

Sobre a teoria relacional, Sanicola (2008) destaca outros sociólogos que aprofundaram estudos sobre as redes primárias, como Rossi (2001), o terceiro setor com Colozzi & Donati, (1995), estudiosos do serviço social – Folgheraiter (1990; 1994; 1998); Raineri (2000; 2004). A psicologia também se interessa pela configuração das redes, tendo na psicologia comunitária os seguintes representantes: Francescato (2005), Jérome Guay (1992; 2004). Enfim, a evolução das pesquisas sobre redes avançou ao ponto de o conceito de rede se tornar operacional, enquanto forma de intervenção. Atualmente, as formas de intervenção social podem ser parte do trabalho social de rede, estando relacionadas a modelos operacionais diversos.

Para Marques (2010), o estudo das redes sociais remete diretamente aos padrões de sociabilidade presentes em um dado contexto. De acordo com Sanicola (2008), as redes se dividem em duas grandes categorias: primárias e secundárias. As redes primárias são constituídas por laços de família, parentesco, amizade, vizinhos e trabalho. Formam uma trama de relações que dão ao entrevistado identidade e sentimento de pertença.

As redes secundárias, para Sanicola (2008), podem ser formais e informais. As formais são constituídas por laços estabelecidos entre instituições, organizações

do mercado e organizações do terceiro setor. As redes institucionais são formadas pelo conjunto de “[...] instituições estatais que formam o sistema de bem-estar social da população (serviços sociais, de saúde e de educação, etc)”. Enquanto que as do terceiro setor74 são organizações sem fins lucrativos, como cooperativas sociais, associações de voluntariado e promoção social e as fundações. As redes de mercado pertencem à esfera econômica; são as empresas, estabelecimentos comerciais, atividades dos profissionais liberais, entre outras, sendo que “[...] a relação que nelas se estabelece é caracterizada pela possibilidade de saída (exit), uma vez que esse tipo de rede não cria vínculos, a não ser em relação de troca” (SANICOLA, 2008).

Sanicola (2008) também apresenta as três dimensões que caracterizam as redes primárias e secundárias: sua estrutura, funções e dinâmica. A estrutura diz respeito aos laços perceptíveis estabelecidos entre as pessoas e as redes, que, ao acioná-los, geram conexões que dão forma às redes: “[...] as redes são constituídas por laços, conexões, malhas e trocas que tem como ponto de confluência os nós de rede” (SANICOLA, 2008, p. 52, grifos da autora). A estrutura específica de cada realidade estudada confere certas propriedades típicas das redes: flexibilidade, transparência, resistência, sinergia das forças e duplicidade. Em decorrência destas propriedades, as redes também desempenham funções de apoio e, ao mesmo tempo, contenção, considerando que a dinâmica das redes se constitui de movimentos, que possibilitam a circulação de informações, movimentam forças internas, canalizam essas forças a pontos de maior carga e as redistribuem.

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