F. Migration and crisis
III. Lessons learned
O período em que as minhas experimentações me aproximaram das festividades populares e dos cômicos que habitam esse universo, foi à época em que integrava a Cia Tapete Criações Cênicas14. Este grupo baseia praticamente todo seu repertório de exercícios e processos de criação a partir do treinamento corporal com brincadeiras populares do Maranhão.
O treinamento de preparação corporal, a criação de matrizes, a construção de roteiros e espetáculos, é influenciada pela pesquisa acerca do Bumba-meu-boi, tambor de crioula, coco, tambor de mina. Nesse sentido, cotidianamente entrava em contato com diferentes aspectos do universo das brincadeiras, aprofundando as possibilidades cênicas que elas revelavam no processo de criação do grupo, ou seja, a intenção não era representar, ou apresentar as danças e folguedos, mas revelar nos nossos corpos as potencialidades expressivas que íamos descobrindo com as experimentações.
A Cia. Tapete, no entanto, não se focava nos aspectos cômicos que as festas populares abarcam; uma procura muito mais alinhada com o que eu já desenvolvia enquanto circense e palhaça, nesse sentido, paralelo ao trabalho coletivo em sala, realizava meus treinamentos em sala, através de laboratórios pessoais e também nas intervenções nos espaços públicos;
14 A Cia Tapete Criações Cênicas foi fundada em 2001 com o objetivo de investigar os processos criativos do ator; desenvolvendo suas atividades em sede própria localizada na Rua João Gualberto, n° 52 2° andar, Praia Grande, São Luís-MA. Atualmente possui 06 integrantes: Claudiana Cotrim, Irlane Rocha, Heidy Ataides, Letícia Amorim, Nilce Braga e Raquel Franco.
investigando os caminhos possíveis que aspectos cômicos das brincadeiras ressoavam no meu corpo.
As brincadeiras e personagens populares que escolhi para comporem meu repertório de experimentação cômica no corpo são: o Cazumbá e Catirina do bumba meu boi, a Coreira do tambor de crioula. Escolhas que partem da percepção e vivência pessoal dentro e fora das brincadeiras. Sendo que a opção por estas escolhas estão explicitadas mais a frente.
O Bumba-meu-boi é uma manifestação popular maranhense que apresenta grande diversidade ao se verificar sua constituição, não se trata apenas de uma forma de apresentação, mas compreende inúmeros tipos e características, que se dividem principalmente pelos sotaques15 que apresentam. O sotaque, portanto seria o conjunto de características rítmicas, musicais e instrumentais; que também ressoam na indumentária, personagens, coreografia e utilização do espaço de apresentação Assim, de acordo com a região do Maranhão que a brincadeira se apresenta, há um ou mais tipos de sotaque: sotaque de matraca ou ilha, sotaque da baixada, sotaque de zabumba, sotaque de orquestra, sotaque de costa de mão. Todos diferem entre si quando “são observados aspectos referentes aos instrumentos musicais predominantes, ao ritmo, à dança, à indumentária, ao modo de tocar, ou seja, linguagens não-verbais” (ASSUNÇÃO, 2004, p.2).
Na dissertação de mestrado de Ivanildo Lubarino Piccoli dos Santos (2008) Os palhaços nas manifestações populares brasileiras: Bumba-meu-boi, cavalo marinho, folia de reis, o autor realiza uma descrição e análise de algumas brincadeiras populares incluindo o bumba-meu-boi, apesar da variedade de detalhes e da descrição muito enriquecedora de particularidades do bumba-boi, encontrei falha no que concerne há termos que tipificam diferenças de sotaques e origens.
Segundo Ivanildo Piccoli a designação da brincadeira seria a de “boi-bumbá” (SANTOS, 2008, p.46) o que é um primeiro engano, os brincantes maranhenses referem-se ao folguedo como bumba-boi ou bumba-meu-boi, sendo que o termo boi-bumbá seria proveniente das festividades realizadas no estado do Pará, as diferenças entre as duas manifestações são bem claras.
O Bumba meu boi do Maranhão ainda conserva em muitas das agremiações o vínculo com suas comunidades e terreiros, apresentando-se nas ruas, praças e outros espaços públicos,
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Denomina-se por sotaque no bumba-boi maranhense, os tipos de brincadeiras de bois que compõe a cultura popular do estado, eles se diferem na indumentária, instrumentos, músicas, danças, personagens, lugar de origem, entre outras características. Os principais sotaques são: baixada, costa de mão, matraca ou ilha, zabumba e orquestra.
já o boi-bumbá desenvolvido no Pará, se transformou numa “opera popular” como aponta José Dias no artigo Boi Bumbá em Belém, uma expressão urbana e popular:
Com as apresentações controladas pela polícia, o lugar por excelência dos bois bumbás, a partir dos anos vinte, passou a ser o “curral”, lugar que adquiriu status de palco das apresentações, um verdadeiro “teatro popular” que atraía os “inflamados torcedores”. A fixação do boi no “curral” representou um diferencial na história do folguedo, pois com a disciplinarização, os bois passaram a ter sede própria, um endereço de referência, a casa do dono, não mais se configurando como uma manifestação organizada coletivamente nas ruas. (DIAS, 2010, revista Estudos Amazônicos, p.86).
Em outra passagem do trabalho, Ivanildo Picoli faz menção aos três principais sotaques de bumba-meu-boi, porém localiza o sotaque de Zabumba como pertencente à Ilha de Marajó (SANTOS, 2008, p.46), todavia essa ilha é pertencente ao estado do Pará. Nesse sentido se percebe certos equívocos em sua análise entre as duas brincadeiras e seus lugares e culturas de origem, o que reflete uma confusão muito presente em vários textos e publicações. A brincadeira do bumba-meu-boi no Maranhão está relacionada com ciclo de festas do período junino, iniciando “no sábado de aleluia com os ensaios, até o dia de Santo Antônio, 13 de junho, último ensaio antes do batizado. Na véspera de São João, 23 de junho, o boi é batizado com o novo couro” (MANHÃES, 2007, p. 93). Dependendo de cada sotaque tem-se a presença de variados personagens, no entanto a teatralização dentro do bumba-boi gira em torno da “... estória de Catirina que, grávida, desejou comer a língua do boi mais bonito da fazenda. O vaqueiro e seu marido, negro Chico, é induzido a matá-lo para satisfazer o desejo de sua mulher” (ARAÚJO, 2000, p. 8).