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les ustensiles de cuisine a genres de casseroles

L’analyse lexicométrique des textes de recettes de cuisine.

3. les ustensiles de cuisine a genres de casseroles

Com base na perspectiva da Análise do Discurso francesa são abordadas noções conceitos como situação de comunicação, efeitos de sentido e interdiscurso, alguns dos elementos essenciais para a análise realizada. Nesse sentido, Pêcheux (2012) coloca que a AD pretende trabalhar dentro de um espaço no qual,

[...] todo enunciado é intrinsecamente suscetível de tornar-se outro, diferente de si mesmo, se deslocar discursivamente de seu sentido para derivar para outro (a não ser que a proibição da interpretação própria ao logicamente estável se exerça sobre ele explicitamente). Todo enunciado, toda sequência de enunciado é pois linguisticamente discernível como uma série (léxico-sintaticamente determinada) de pontos de deriva possíveis, oferecendo lugar à interpretação (PÊCHEUX, 2012, p. 53).

O autor explica que todo discurso aponta para uma possível “desestruturação- reestruturação” de redes de memória e trajetos sociais. Para Pêcheux, cada discurso é, em si, um possível índice de inquietação entre as conexões sócio-históricas de identificação, uma vez

58 que estabelece, ao mesmo tempo, “[...] um efeito dessas filiações e um trabalho [...] de deslocamento no seu espaço; não há identificação plenamente bem-sucedida, isto é, ligação sócio histórica que não seja afetada de uma maneira ou de outra, por uma ‘infelicidade’ no sentido pejorativo do termo” (PÊCHEUX, 2012, p. 56). Partindo destas concepções, Charaudeau (2013) discute a noção de situação de comunicação. Para ele,

[...] todo discurso depende, para a construção de seu interesse social, das condições específicas da situação de troca na qual ele surge. A situação de comunicação constitui assim o quadro de referência ao qual se reportam os indivíduos de uma comunidade social quando iniciam uma comunicação (CHARAUDEAU, 2013, p. 67).

Desse modo, indivíduos que desejam comunicar-se devem considerar os dados da “situação de comunicação”, compreendida na AD “[...] como um palco, com suas restrições de espaço de tempo, de relações e de palavras no qual se encenam as trocas sociais e aquilo que constitui o seu valor simbólico” (CHARAUDEAU, 2013, p. 67). Tais restrições se determinam, segundo o autor, por um “[...] jogo de regulação das práticas sociais [...]”, estabelecidas por aqueles que se empenham em viver em comunidade, como também pelos discursos de representação produzidos a fim de legitimar e valorizar essas mesmas práticas. Dessa forma, as convenções e as normas dos comportamentos linguareiros são construídas, sem as quais a comunicação humana não seria possível.

A interlocução apenas acontece pela troca entre sujeitos, seres projetados num espaço e num tempo orientados socialmente, que se inserem na situação de comunicação por meio do discurso. Nesse sentido, Brandão (2004), Charaudeau e Maingueneau (2014) e Orlandi (2012) consideram como inerentes ao sujeito discursivo características como a polifonia e a divisão. Polifonia porque o sujeito é atravessado por variadas vozes enunciativas, já que situa seu discurso em relação aos discursos dos outros. Outros estes que, para Brandão (2004), compreendem não somente o destinatário para quem os sujeitos constroem suas falas (nível intradiscursivo), como também envolvem discursos historicamente estabelecidos e que se manifestam em suas enunciações (nível interdiscursivo). À natureza polifônica Baktin (1978,

apud BRANDÃO, 2004) dá o nome de dialogismo.

Já a divisão é considerada intrínseca ao sujeito, pois ele carrega consigo, consciente ou inconscientemente, vários tipos de saberes aos quais aciona para acessar seu papel de sujeito produtor do ato de linguagem. Assim, na concepção de Orlandi (2012), o sujeito depende da língua e da história “[...] para produzir sentidos”. Portanto, é afetado por elas na constituição do seu próprio eu que se estabelece, na AD, por meio da fala e da produção de sentido. Por conseguinte, entende-se que, para a análise do discurso, o sujeito somente constrói sua

59 identidade na interação com o outro, o que acontece no espaço discursivo criado entre eles. Assim, a noção de interdiscurso se mostra necessária para a compreensão das conexões que perpassam o sujeito, ligadas à historicidade. Entende-se a história como dispositivo para a produção de acontecimentos que significam conforme um imaginário, que afeta os sujeitos em suas posições políticas.

Para isso, segundo Orlandi (2012), o sujeito deve acionar a memória discursiva, “[...] o saber discursivo que torna possível todo dizer e que retorna sob a forma do pre- construído, o já dito que está na base do dizível, sustentando cada tomada de palavra” (ORLANDI, 2012, p. 31). Para a autora, o interdiscurso é a vinculação de um discurso com a pluralidade de outros, é um “conjunto não discernível” e que propicia dizeres que influenciam a maneira como o sujeito significa em uma determinada situação discursiva. Interdiscursividade, para Brandão (2004) e Charaudeau e Maingueneau (2014), é a relação multiforme de um conjunto de unidades discursivas com um discurso particular. Ao se colocar em uma interação, o sujeito apresenta um discurso que surge de uma apreensão de discursos vários.

Charaudeau (2013) afirma que todo ato de comunicação se estabelece em relação a duas instâncias: uma de produção e outra de recepção. Ele considera a instância de produção “[...] ora como organizadora do conjunto do sistema de produção, num lugar externo, ora como organizadora da enunciação discursiva da informação” (CHARAUDEAU, 2013, p. 72). Ainda sobre o ato de comunicação, fala-se em dissociar a instância de recepção, do ponto de vista interno e externo à instância midiática. De acordo com Charaudeau (2013), é preciso levar em conta que os atores de um contrato de comunicação agem por meio de atos, seguindo certos critérios de coerência, e por meio de palavras. Em paralelo a isso, concebem representações de suas ações e palavras as quais confere valores. Dessa forma, de um ponto de vista interno, a instância de recepção “[...] é designada como destinatário – a ‘instância alvo’; de um ponto de vista externo, como a instância de recepção propriamente dita, como uma atividade própria de consumo, é designada como ‘instância público’” (CHARAUDEAU, 2013, p. 73).

O autor apresenta a informação como pura enunciação36, “[...] ela constrói saber e,

como todo saber, depende ao mesmo tempo do campo de conhecimento que o circunscreve, da situação de informação na qual se insere e do dispositivo no qual é posta em funcionamento”

36“[...] do ponto de vista da análise do discurso, a enunciação é fundamentalmente tomada no interdiscurso*: ‘A

enunciação equivale a colocar fronteiras entre o que é “selecionado” e, pouco a pouco, tornando preciso (através do que se constitui o ‘universo do discurso’) e o que é rejeitado. Desse modo se acha, pois, desenhado num espaço vazio o campo de ‘tudo o que se opõe o que o sujeito disse’” (CHARAUDEAU; MAINGUENEAU, 2014, p. 195,

60 (CHARAUDEAU, 2013, p. 36). Em relação ao receptor, o pesquisador afirma que este não é apenas um “alvo ideal” almejado pelo produtor da informação, deve-se sempre buscar entender o que ele é e como alcançá-lo.

Nesse cenário, faz-se necessário distinguir efeito visado e efeito produzido no estudo do ato de informação. Segundo Charaudeau (2013), efeito visado é aquele que o sujeito informador escolhe produzir por meio de fatos selecionados e em função do alvo predeterminado, processo no qual a clareza da informação transmitida está em jogo. Uma vez que não existe “inteligibilidade em si”, ela está sujeita às escolhas discursivas do sujeito informador. Por conseguinte, e como o próprio nome já diz, efeito produzido, para Charaudeau (2013), é resultado daquilo que o sujeito receptor gera com base nos discursos aos quais é exposto, considerando “valores ético-sociais” e também “valores afetivo-sociais”.

Na perspectiva do autor, “[...] comunicar, informar, tudo é escolha” (2013, p. 39). Não somente uma opção pelo conteúdo a ser difundido ou o estabelecimento da maneira mais correta de falar; dentro da norma culta e com clareza; “[...] mas escolha de efeitos de sentido para influenciar o outro, isto é, no fim das contas, escolha de estratégias discursivas” (CHARAUDEAU, 2013, p. 39). Ele afirma, ainda, que todo discurso, assim como o discurso de informação, antes mesmo de exprimir o mundo, retrata o mundo ao representar uma relação. Mas, para que isso ocorra, o sujeito informador deve estruturar sua informação conforme dados específicos da situação de troca de comunicação.

Charaudeau (2009) acredita que as “estratégias discursivas” são delimitadas em relação ao “contrato de comunicação”.

Para o sujeito, trata-se inicialmente de avaliar a margem de manobra que dispõe no interior do contrato, para jogar entre, e com as restrições situacionais e as instruções de organização discursiva e formal. Em seguida, escolher, entre os modos de organização dos discursos e os modos de construção textual, em relação com os diferentes conhecimentos e crenças de que dispõe, os procedimentos que melhor correspondam a seu próprio projeto de fala, às metas da influência que pretende exercer sobre o interlocutor, e as condições que ele se impõe (CHARAUDEAU, 2009, p. 7).

Para o pesquisador, as estratégias discursivas podem ser reunidas em três grupos, cada um adequando-se ao seu tipo de disposição para “mise-en-scène discursiva”37. São elas: a

legitimação, a credibilidade e a captação. A legitimação “[...] advém da necessidade de criar ou reforçar a posição de legitimidade do sujeito falante quando este tem dúvidas quanto à maneira

37“O nível da mise-em-scene discursiva é o lugar em que o sujeito, tendo mergulhado nos imaginários sócio-

discursivos, e levando em conta as restrições do quadro situacional e de suas instruções, procede à organização de seu discurso, e portanto, constrói para si uma identidade mais ou menos ‘individuada’. Neste nível, devem ser acionadas as competências discursiva e semiolinguística” (CHARAUDEAU, 2009, p. 8).

61 pela qual o outro percebe seu ‘direito à palavra’” (CHARAUDEAU, 2009, p. 7). Faz-se necessário, portanto, persuadir seu interlocutor de que o lugar de autoridade que lhe foi concedido reflete em sua fala e a sua maneira de falar.

Já a credibilidade leva “[...] o sujeito falante a não mais a assegurar sua legitimidade [...], mas a fazer crer ao interlocutor que o que ele diz é ‘digno de fé’” (CHARAUDEAU, 2009, p. 8). O autor afirma que os sujeitos podem adotar, nessa estratégia, diferentes atitudes discursivas: de neutralidade, de distanciamento e de engajamento. A neutralidade é, segundo Charaudeau (2009), a atitude que faz o sujeito excluir de seu discurso qualquer rastro de julgamento ou avaliação pessoal. Assim, tal atitude não deve despertar qualquer suspeita em relação aos motivos que o levaram a falar. A atitude de distanciamento (CHARAUDEAU, 2009), por sua vez, é aquela em que o indivíduo assume a postura fria e controlada de um especialista, que analisa e raciocina “sem paixão”, o que o autor chama de “experto”, com o objetivo de esclarecer um fato, comentar os motivos de um estudo ou, ainda, comprovar uma tese. A atitude de engajamento, ao contrário da de neutralidade, é a atitude que leva o sujeito, de certa forma conscientemente, a se decidir por uma tomada de posição ou pela modalização avaliativa em sua fala ou seus argumentos. Todas as atitudes discursivas, segundo o autor, têm como objetivo persuadir o outro, conduzindo-o a um universo de evidências e excluindo, assim, a possibilidade de discussão.

Por fim, a captação induz é a estratégia em que se recorre à emoção, “[...] o sujeito falante a fazer com que o interlocutor dê sua adesão absoluta (não racional) ao que ele diz, e, além disso, à sua própria pessoa” (CHARAUDEAU, 2009, p. 8). Assim, o locutor pode escolher entre diferentes atitudes discursivas, entre as quais, Charaudeau (2009) destaca: uma atitude polêmica, buscando antecipar ou eliminar objeções prováveis de serem apresentadas pelos outros; uma atitude de sedução, na qual o indivíduo propõe ao interlocutor um imaginário no qual exerce o papel de herói beneficiário, podendo manifestar-se por meio de um relato em que os personagens funcionem como base de identificação ou rejeição para o interlocutor; e a atitude de dramatização, que faz o sujeito descrever fatos referentes aos “dramas da vida”, repletos de analogias, comparações e metáforas, por exemplo, apoiando-se amplamente em valores afetivos e socialmente compartilhados, com vistas a despertar determinadas emoções. O objetivo das estratégias discursivas, segundo o autor, é que o sujeito falante possa “fazer crer” a fim de que o interlocutor se coloque em uma posição de “dever crer”. Ou seja, “[...] será necessário tentar persuadir (fazer pensar recorrendo à razão) ou seduzir (fazer sentir recorrendo à emoção) o outro que, então, deverá pensar ou sentir o que foi significado” (CHARAUDEAU, 2009, p. 5).

62 Complementando tais ideias, Charaudeau (2013) diz que a informação está submetida ao alvo que o sujeito informador aponta e à compatibilidade ou não dele com o perfil de receptor que faz a interpretação38. Assim, “compreender” é entender como um objeto

simbólico produz sentidos e como as interpretações operam. “Quando se interpreta já se está preso em um sentido. A compreensão procura a explicitação dos processos de significação presentes no texto e permite que possam ‘escutar’ outros sentidos que ali estão, compreendendo como eles se constituem” (ORLANDI, 2012, p. 26). Dentro desse contexto, Charaudeau (2013) defende que a informação somente é processada de acordo com parâmetros próprios ao receptor, sendo que estes não são necessariamente impostos pelo sujeito informador. Ou seja, toda informação e todo objeto simbólico dependem do tratamento que lhes é dado pelo sujeito para produzir sentido.

Levando em consideração as reflexões até aqui apresentadas e pensando no desenvolvimento das novas tecnologias da comunicação, Maingueneau (2015) explica que novas práticas, particulares ao universo digital, surgem, alterando de forma profunda os modelos discursivos tradicionais utilizados para o exercício do discurso. Na concepção do autor, “[...] os analistas do discurso são agora levados a se interrogarem sobre pertinência das categorias que utilizam, a se perguntarem se elas ainda estão à altura dessa nova distribuição das cartas em jogo” (MAINGUENEAU, 2015, p. 159). Dessa maneira, o pesquisador também afirma que vivemos em um mundo “virtual” cujas fronteiras são inimagináveis, um universo ao mesmo tempo “in-localizável” e acessível de todos e quaisquer locais, absorvendo de forma progressiva parte das “atividades discursivas” e se infiltrando de forma crescente em todas. Logo, o estudo do discurso no ambiente digital se mostra necessário para esta pesquisa, perspectiva abordada no próximo tópico.

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