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Les unités paradigmatiques et syntagmatiques souples

E. LES UNITÉS DESCRIPTIVES DE DECID

3. Les unités paradigmatiques et syntagmatiques souples

A tecnologia social se insere na história da técnica como um passo recente em uma trajetória iniciada na década de 1920, com Gandhi. A grande contribuição que ela e perspectivas similares, como a da engenharia para a justiça social, trazem é o papel dado aos atores locais na produção dessa tecnologia apropriada. De quase meras figuras decorativas de um processo que os considerava apenas naquilo que eles tinham para oferecer a um desenvolvimento assumido como neutro e unilinear (seu capital e/ou sua qualificação profissional), os atores locais passarão a ser tomados como (co)pautadores do desenvolvimento técnico, contribuindo com seus valores e ideais, bem como com os saberes tradicionais que trazem (ou podem trazer) consigo.

Disso e da perspectiva mais ampla da tecnologia e do seu desenvolvimento como não só um caminho em si aberto, jamais esgotado ou delimitado (tecnocraticamente) a priori, mas como um processo que tanto impacta quanto é impactado pela sociedade, seu ordenamento e seus valores, decorre a dupla demanda da TS: para ser construída adequadamente, ela pressupõe uma metodologia como a da pesquisa-ação, que possibilitará a elaboração das melhores soluções tecnológicas possíveis para o grupo, via adequação sociotécnica; para dar os frutos de libertação que ela intenciona, ela requer um processo de educação popular, que, em si, é na verdade indissociável da pesquisa-ação e da produção técnica que ela permite construir.

Como consequência, para ser capaz de produzir TS, um engenheiro, atuando em uma equipe interdisciplinar (que é o ideal), ou em uma equipe de engenheiros, precisa ter desenvolvidas suas habilidades de diálogo e de ser empático (de modo a poder conhecer em profundidade o grupo com o qual trabalha e a se comprometer efetivamente com ele), seu senso crítico (fundamental para a práxis libertadora em termos tanto sociais quanto técnicos) e sua abertura e humildade (para se permitir sempre aprender e reconstruir ou alargar suas certezas). Ele precisa também de algum treino em humanidades (como em filosofia, sociologia e psicologia, por exemplo) que lhe proveja ferramental teórico- conceitual e habilidades avaliativas para esse tipo de atuação crítica.

Essa é, em linhas bem gerais, uma síntese de boa parte daquilo que se desenvolveu ao longo deste primeiro capítulo.

2. BASES ONTOLÓGICAS: NATUREZA SOCIOTÉCNICA DA TÉCNICA; PODER;

LEGITIMIDADE E URGÊNCIA DA TECNOLOGIA SOCIAL

Da forma como foi apresentada no capítulo anterior, a tecnologia social tem um compromisso claro e inegociável não apenas com aquilo que Lacey (2014a, p. 682) chamará de perspectiva da justiça social, democracia participativa e sustentabilidade, como com um sem-número de valores ou modos de vida locais que sobrevivem ao crivo da crítica dialógica do processo de educação popular. Há, nesses termos, uma contingência insuperável nas soluções técnicas desse tipo, por conta de sua adequação, seja às características particulares do lugar, seja a valores, urgências e modos de vida do grupo. Com isso, não é incomum ouvirem-se críticas a tal tipo de implementação, como se ela fosse uma solução técnica inferior e menos eficiente, ou seja, algo de segunda categoria, que só é desenvolvido por conta de doutrinamento ou cegueira ideológica.

A tese que buscaremos fundamentar neste capítulo dá conta, ao contrário, não apenas da legitimidade e da urgência, para o nosso tempo, da tecnologia social, como do seu caráter, muitas vezes, mesmo mais autenticamente técnico do que aquilo que se obtém com o desenvolvimento padrão da tecnologia convencional.

Para tanto, partiremos, na primeira parte, da caracterização do fenômeno técnico, em diálogo, sobretudo, com modernas análises sociológicas da tecnologia. Descortinaremos, com isso, três aspectos centrais do ser da técnica. De uma parte, ela é subdeterminada pelo problema e condições iniciais, de modo que, em tese, múltiplas soluções alternativas são possíveis para cada projeto técnico. Com isso, de outra parte, a escolha dentre as alternativas disponíveis ou passíveis de desenvolvimento pressuporá condições de contorno sociais. E essas condições, uma vez estabelecidas, acabam sendo estabilizadas ou reforçadas socialmente, quando a solução final que elas selecionam ou conformam é introduzida no mundo humano. Por fim, e de modo a se buscar estabilizar a configuração contingente que a solução assumiu, em função dos valores sociais que a informaram ou selecionaram, códigos técnicos são normalmente formalizados, estabelecendo usos e configurações/parâmetros canônicos para cada técnica específica e apagando, com isso, o histórico de pluralidade e disputas que nos levou a essa conformação final.

Essa profunda vinculação entre técnica e sociedade, que se apresentam como um uno indissociável, uma realidade sociotécnica, não implica, de per se, no total esgotamento do técnico no social. De modo a demonstrar isso, desenvolveremos, na segunda parte, a perspectiva genética de Simondon, com sua concepção singularista do fenômeno técnico. Fiéis a ela, mas dando passos que Simondon não deu, mostraremos como os valores sociais acabam se imiscuindo, seja no processo de criação de novas mediações e de evolução das já existentes, seja na seleção, dentre as alternativas autênticas à disposição, daquela que será a escolhida. A partir disso, poderemos construir uma caracterização do fenômeno técnico baseado em Gilbert Simondon, mas bastante harmonizável com as compreensões desenvolvidas nas análises sociológicas da parte anterior.

Essa mesma caracterização do ser da técnica, como um amalgamento de aspectos singulares seus com elementos sociais contingentes, pode ser construída por outro caminho. É o que faremos na terceira parte, seguindo fundamentalmente Andrew Feenberg, em seu diálogo com a tradição crítica. Tal reflexão, que nos aponta para uma racionalidade sociotécnica a presidir o desenvolvimento tecnológico, levar-nos-á de volta ao aspecto político de toda solução técnica. Seguindo com Feenberg, discutiremos, então, aquilo que ele chama de democratização da tecnologia – da qual a tecnologia social seria um dos casos possíveis –, bem como as redes de interesse, que são, para ele, os motores necessários (causa eficiente), em nosso tempo, para que tal democratização possa acontecer.

Na quarta parte, voltamo-nos para Foucault, de maneira a encontrar os fundamentos políticos de uma atuação democratizante do tipo que são aquelas propostas por Feenberg, em geral, e a tecnologia social, em particular. Percorreremos, com isso, sua compreensão de poder e estratégia, e o modo como tais dimensões se estruturam e podem ser confrontadas.

Assim, na quinta e última parte, após retomarmos de forma articulada o caminho seguido ao longo deste capítulo, sistematizaremos os argumentos e ponderações que, até onde conseguimos enxergar, permitem-nos apresentar como crível e defensável a tese da legitimidade, urgência e maior autenticidade da tecnologia social (no último ponto, com relação à média do desenvolvimento técnico convencional).