1 Traitement du cancer
1.4 Les thérapeutiques
RA: Quando foste para a Amazónia, o objetivo era reportares um assunto de cultura, certo? GCP: Nós fomos para a Amazónia por causa da apresentação do projeto Amazónia Live, que é o projeto do Rock in Rio. O Rock in Rio criou desde sempre o “projeto social”, o que significa que criam fundos para apoiar alguma entidade ou alguma causa. Desde que eles estão cá em Lisboa, desde 2004, têm vindo a apoiar várias causas, tipo: casas de apoio a crianças com deficiências motoras, apoios a pessoas com cegueira… Ou seja, têm uma data de projetos, mais vocacionados para estas áreas sociais, mas também ligados à saúde e ligados, mais concretamente à cidade onde eles estão ligados. No ano passado eles decidiram fazer uma coisa mais ampla e pensar num projeto mais alargado, que se trata de plantar 1 milhão de árvores até 2019, no sentido de ajudar a reflorestar a Amazónia. Nós fomos lá à Amazónia, em Manaus, em Agosto do ano passado, durante a apresentação do projeto em si, onde foi montado um palco propositadamente, sobre o amazonas.
RA: Por que razão este tema deu origem a uma Reportagem Especial?
GCP: Isto foi feito em várias vertentes. Ou seja, nós fomos lá com o objetivo de fazer reportagem durante o concerto, com o Plácido Domingo, Ivete Sangalo, entre outros, durante a apresentação do projeto. Fizemos, durante esses dias, reportagens diárias, montagem, sobre o concerto em si. O que é que aconteceu? Para eles nos explicarem o processo em si, como o projeto estava a funcionar, eles conseguiram levar-nos a vários sítios que faziam parte do projeto. E quando eu percebi que o material a que eu tinha acesso era tão bom e que não podia ser desperdiçado numa peça de dois minutos, eu achei que fazia sentido era pensar numa coisa mais alargada. Trabalhamos, em termos de terreno, a pensar nisso, o que foi muito complicado, porque a viagem teve no total 5 dias, andamos em 9 aviões, andamos em 10 ou 12 barcos… Ou seja, nós andávamos em trânsito a maior parte do tempo, o que significa que o tempo que tínhamos parados para filmar era muito pouco, sendo que fomos a uma aldeia de índios, que é sempre uma oportunidade única, porque não é uma aldeia visitável normalmente por turistas. É uma aldeia onde eles fazem algum acompanhamento e têm ali um acesso privilegiado apenas porque acompanham e ajudam os habitantes da aldeia. Fomos a duas fazendas, um bocado para explicar como funcionava agora quem estava nisto da reflorestação o que fazia, como funcionava
108 a questão da semente. Nos fomos então a alguns sítios para perceber o que era necessário acontecer para depois fossem plantadas árvores. Foi perceber a origem do problema, como as aldeias indígenas, onde não conseguem ter acesso à caça e ao peixe, da mesma maneira que tinham antes, porque à medida que há desflorestação eles vão tendo que se aproximar cada vez mais das árvores, o que significa que vão saindo das suas áreas primordiais e têm de ir mais longe para procurar comida. Para quem vive essencialmente do que a natureza lhe dá é mais complicado. Portanto, fomos perceber o problema, fora depois o problema do impacto ambiental. Fomos perceber o problema junto das populações que são as afetadas diretamente, e onde é mais fácil ver a forma como são afetadas. E depois fomos ver que caminho é que há para a solução, que é a questão das sementes, como a forma de preparar as sementes, as pessoas que depois vão fazer a plantação, o fazendeiro que antigamente até não se importava nada de mandar árvores a baixo para plantar soja ou algodão e depois percebeu que afinal havia um sentido e uma espécie de objetivo global em que ele também podia participar. Então, eu tenho acesso a tudo isto e quando eu, em termos de imagem, percebo que tenho coisas que nunca foram mostradas eu decido fazer uma coisa maior.
RA: A iniciativa à realização desta Reportagem Especial partiu do jornalista ou das chefias? GCP: A iniciativa é minha, eu tenho alguma mobilidade em termos de trabalho aqui e posso propor coisas, tenho algum à vontade e sei o que é que posso contar. Quando venho da Amazónia já tinha essa ideia. Aliás, eu acho até que quando vou á tinha a ideia que depois podia dar alguma coisa um bocadinho mais alargada, mas quando chego e vejo aquilo que eu consigo pôr na reportagem, é ótimo. Portanto, não podia deixar aquilo ir para o lixo. Ela depois só vai para o ar em Dezembro porque como sou editora de cultura, tive depois de ir para festivais de verão e assim, e os meus timings não eram compatíveis para agarrar naquilo naquele momento e também porque depois aproveitei aquilo a que nós chamamos uma espécie de “gatilho”, porque já tínhamos mostrado as imagens do concerto na altura e depois pensamos quando é que eles iam começar a plantar as árvores e naquele momento eles começaram a montar aquelas árvores, então o nosso ponto de partida foi “Já começou a reflorestação através do projeto Amazónia Live e é assim que se chega a isto”.
RA: Teve em consideração um valor-notícia específico no momento da realização da Reportagem Especial ou já é intrínseco no jornalista a ideia daquilo que é notícia?
109 CP: Nós estamos aqui a falar de uma coisa que não é hardnews, não estamos a falar de uma RE sobre a Caixa Geral de Depósitos, estamos a falar de uma coisa que vive muito mais da história como ela se conta, do que da história em si. E portanto, quando eu estou no terreno, o meu olhar até é mais televisivos, porque quem trabalha em televisão tem de ganhar um olhar diferente no terreno enquanto jornalistas, isso é normal e natural. Por isso eu não te consigo responder bem a essa pergunta porque eu não entendo o que significa o valor-notícia, ou seja, para mim uma notícia é uma notícia, ponto. E eu não vejo que nós consigamos, aqui, tratar alguma coisa que não seja de uma forma jornalística e tenho uma teoria em que conta mais a forma como nós tratamos um tema do que o tema em si. Mas, neste caso e no caso da outra reportagem, são casos em que fazem com que as pessoas, eventualmente, aprendam e se interessem sobre uma área e sejam chamadas, no fundo, como no caso da Amazónia a pensar: ‘Bolas, 1 Milhão de árvores e mesmo assim, apesar deste número, é insuficiente e é preciso muito mais?’. Portanto, não estamos aqui para levar bandeiras nem tentar educar as pessoas, não é esse o nosso papel, mas mostramos-lhes os factos e pelo meio dos factos mostramos coisas que até podem ser mais curiosas para elas verem e para captarem melhor a essência do facto. Mas não nos cabe a nós estar a definir o que é que a pessoa vai concluir dali. De resto, eu imagino que essa coisa dos valor-notícia seja uma coisa mais académica do que prática, se queres que te diga.
RA: Procurou perceber as audiências da Reportagem Especial? Compara essas audiências com audiências das RE anteriores?
GCP: Sim, tudo!! É uma coisa que nós não podemos achar que é indiferente. Podemos, às vezes, perceber por que é que não conseguimos bons resultados e entender que um mau resultado. Podemos tentar encontrar uma justificação, que até pode ter sido um erro nosso, porque não pegamos na coisa da maneira mais apelativa. A avaliação das audiências é quase insana, pela forma como isto tudo acontece, porque nós debatemo-nos muitas vezes com aquilo que nós queremos que as pessoas vejam, com aquilo que as pessoas querem ver e com aquilo que nós lhes queremos dar. E é muito difícil entrar neste debate de ‘Vamos fazer isto porque vamos ter mais audiências?’ mas depois ‘Será que isto que estamos a fazer é aquilo que nós queremos que seja feito?’ e ainda, ‘Será que é aquilo que nós queremos que seja o nosso jornalismo?’. Neste caso, o meu cuidado a pensar nas audiências não foi tanto à priori. Aquilo que eu tentei foi pensar que uma grande reportagem não é a mesma coisa que uma reportagem
110 grande, é completamente diferente, e uma RE não pode ser Especial só porque tem lá um genérico a dizer Reportagem Especial e depois acaba com uma ficha técnica. Tem, de facto, de ser uma história contada de uma forma mais habilidosa e mais minuciosa, e tem mesmo de ser uma história, não pode ser uma reportagem de dois minutos. Obviamente depois quando estamos a ver as audiências, e nós vemos as audiências de minuto a minuto, eu percebo que uma Reportagem de 15 minutos pode começar com X de Share e depois desce, depois sobe e depois termina a subir, ou então está sempre a subir, ou então desce e mantém, depende de tanta coisa, como aquilo que os outros canais começaram a dar à mesma hora, como depende se começamos a RE a seguir a um break ou veio na sequência de umas outras reportagens, depende obviamente do conteúdo da reportagem, depende da altura do ano em que a colocamos no ar. Por exemplo, importa por uma reportagem de hard news no verão? A maior parte das vezes não, porque as pessoas estão nem aí, querem ver uma coisa mais leve, alegadamente. Portanto, nós não podemos ser indiferentes às audiências e, na minha opinião, quem acha que pode ser indiferente às audiências, de todo, ou não tem noção do tempo que estamos a viver, ou então não está a dizer a verdade.
RA: Relativamente à “Língua do Bacalhau”, porque é que este tema deu origem a uma RE? GCP: Mais uma vez, foi pelo acesso que eu tive à coisas. Eu já fui à Noruega fazer reportagem umas oito ou nove vezes, e começou há uns anos com um livro que foi apresentado sobre receitas de bacalhau, com o Vítor Sobral, e é por isso que eu entro na coisa. Era um livro de receitas e fomos, na altura, a uma cidadezinha as 72º Norte na Noruega onde de repente raparei que havia uma percentagem enorme de portugueses lá a viver, sendo que tinha mil habitante e cerca de 20 eram portugueses, que na altura deu para fazer uma Grande Reportagem. Depois disso, eu continuei a ir fazendo coisas sobre o bacalhau, na Noruega, sobre o salmão e sobre a maneira como nos cruzamos com a Noruega por causa de uma coisa que nós comemos mais que eles, mas que vem de lá. E aqui, eu já tinha feito uma reportagem de dois minutos com este português, porque percebi que ele fazia um trabalho super interessante em termos de fotografia, porque eu tenho esta coisa de não conseguir não aproveitar o que tenho, e portanto quando vou para o terreno, para sítios onde vamos dificilmente, vamos poucas vezes, ou que só temas aquela oportunidade eu recolho material e tento encontrar uma forma de poder aproveitá-lo. Nós tínhamos a oportunidade de voltar a onde esse português vivia e eu pensei que podia haver ali uma ligação e tentarmos, e aí tínhamos sido convidados para ir lá no
111 arranque de Dezembro, usar a reportagem e contextualizar para o Natal. Aí, eu fui a pensar já desde cá, que fazia sentido construir uma coisa que depois fosse boa de ver, na semana do Natal e que tinha a ver com o bacalhau. Como é que eu ia misturar isto tudo? Eu ia basicamente juntar os dois portugueses, de maneira a que eles se cruzassem e de facto foi natural, porque eles não se conheciam, mas também par um dar a conhecer ao outro a sua realidade. Era tentar juntar a história de um português que de uma certa forma tem ligação ao mar por causa do trabalho que faz da fotografia, e o outro que tem a ligação ao mar apensa porque usa o produto do mar para cozinhar. E a coisa da ‘Língua do Bacalhau’ foi porque não tem só a ver com o aproveitamento desse pedaço do bacalhau que é a língua, mas sim porque, vamos lá ver que língua é que afinal o bacalhau fala… é uma língua universal, e no caso do português é completamente a nossa língua.
RA: Não imaginava que ia ter tantas RE sobre cultura. Há algum motivo para isso?
GCP: Isto é uma área que tem pano para mangas e com coisas apelativas para jornais que têm uma hora e meia, e é importante ter rubricas que deem um bocadinho mais força ao jornal. Mas a nossa área tem tendência para nós conseguirmos alguns conteúdos.
RA: E sobre a “Valquíria Ran”?
GCP: Nós fomos convidados para ir à inauguração na Dinamarca, e perante essa hipótese, eu pensei em dar alguma força a isto e em vez de irmos lá gastar dinheiro com uma equipa fora e fazer uma peça de três minutos sobre a inauguração de uma exposição, porque não perceber o trabalho que também é feito aqui no atelier dela e juntar tudo numa coisa com cor, alegre, com uma pessoa que tem sucesso dentro e fora de Portugal, com um histórico incrível no mundo das artes, e passar na altura do Natal… Pensamos nisto de maneira a construir a história e a aproveitar tudo o que tínhamos e o trabalho feito na Dinamarca numa peça de três minutos. Temos muito a tendência de não desperdiçar, tentar aproveitar as coisas boas que o terreno nos dá para transformar numa história melhor, em vez de as colocar no arquivo duas horas de imagem. Quantas pessoas tiveram a oportunidade de ir à exposição da Joana Vasconcelos em Portugal? Provavelmente pouquíssimas ou nenhuma. Então, esta foi a maneira de nós mostrarmos como aquela peça estava a ser feita, previamente, no atelier e depois a exposição.
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