Os seres humanos costumam utilizar sua imaginação para se diferenciar dos demais. Têm uma tendência impressionante para formarem grupos, exaltando determinadas características que lhes são comuns e comparando-as com as dos demais grupos. Pode ser que essa aparente generalização não faça sentido para todas as sociedades, mas pelo menos no universo dessa pesquisa, que é composto pela sala de aula e pelo ambiente escolar, ela costuma acontecer com frequência.
Alunos de cursos diferentes logo criam teorias sobre a forma de ser e agir uns em relação aos outros. No universo de um mesmo curso, logo surgem caracterizações por séries e, por fim, dentro das próprias salas de aula, surgem pequenos grupos de identificação que se formam em detrimento de outros.
Essa reflexão surgiu após um episódio em sala, em que alunos em um momento de descontração, em uma aula sobre cultura na qual falávamos de relativismo cultural, passaram a fazer brincadeiras de mal gosto com aqueles que moravam em cidades menores.
Retomando nossa fala no decorrer do diálogo, que parecia estar na iminência de desencaminhar para questões não muito produtivas em termos de conhecimento e aprendizado, jogamos o seguinte questionamento: um munícipio com 20 mil habitantes, cujo uma parte significativa mora na zona rural, pode ser considerado uma área urbana? Se pode, mesmo assim é possível considerá-lo uma zona urbana da mesma forma que um município de 50 mil, 100 mil, 500 mil ou mesmo aqueles que têm mais de 1 milhão de habitantes?
Fazendo essa comparação, estaríamos na nossa grande cidade de 20 e poucos mil habitantes mais próximos dos colegas que viviam ao lado, em uma cidade com 5 ou 10 mil habitantes, ou a nossa zona urbana seria mais semelhante, por exemplo, à capital do Estado com mais de 1 milhão de habitantes?
Para aquela turma especificamente, esses questionamentos serviram para que os jovens percebessem como eram próximos entre si e o quanto as pequenas cidades da região tinham de rural no seu modo de viver. De repente, parecia que se gabar por viver em uma “grande cidade” de 20 mil habitantes, para o colega que vivia numa “pequena cidade” de 10 mil, não fazia mais tanto sentido. As categorias de rural e urbano também passaram a ser reelaboradas a partir do momento que se observou a própria realidade de forma um pouco mais atenta.
Esse fato despertou nossa atenção para a questão de que seria necessário ampliar um pouco a nossa discussão sobre juventudes, a partir de uma reflexão sobre as características dos jovens rurais e se, no caso, se aplicaria ao universo da nossa pesquisa.
O lugar que constitui o campo da nossa pesquisa é, como vimos, uma pequena região do interior do Estado do Rio Grande do Norte, composta por pequenos municípios. Os dois maiores, Caicó e Currais Novos, têm populações aproximadas de, respectivamente, 60 e 40 mil habitantes. Os jovens alunos do IFRN campus Parelhas vêm de municípios que têm abaixo de 20 mil habitantes.
Esse fato, aliado à produção agrícola de subsistência - que apesar do clima semiárido severo caracterizado por longos períodos de estiagem que podem durar anos a fio - permite uma identificação com o mundo rural. Aparentemente, nos dias atuais, essa ligação com o rural não é reforçada no discurso, embora seja enraizada nos hábitos, como se pode facilmente constatar no convívio diário, sem qualquer esforço.
Dessa forma, achamos válido elaborarmos uma rápida reflexão sobre juventude rural, como forma de tentar ampliar a nossa compreensão sobre a juventude, podendo assim, ao analisarmos nossos dados, possuirmos um referencial que nos ajude a interpretar a realidade observada com mais propriedade.
Nas análises sobre os jovens no mundo rural, diversos estudos - dentre eles Abramovay (1988); Carneiro (1998); Castro (2005); Wanderley (2000, 2007) e Stropasolas (2002) - apontam que a juventude rural não é uma categoria homogênea. Pelo contrário, é marcada por uma grande diversidade, relacionada a contextos econômicos, sociais e políticos específicos (MALAGODI; MARQUES, 2007, p. 197).
É preciso desconstruir a ideia do senso comum de que aqueles que vivem na zona rural estão por fora e têm uma relação pré-moderna com a realidade, enquanto os que vivem na cidade são modernos por terem acesso a determinados tipos de trabalho e bens de consumo.
Antenas de internet à radio cobrem vastas distâncias conectando, a baixo custo, famílias do campo. As redes sociais conectam todos a tudo. Nos pequenos municípios, a conectividade é ainda maior. Logo, o jovem que aqui classificamos como jovem rural utiliza smartphone, acessa redes sociais e usa aplicativos de mensagens para se conectar com o mundo. As reflexões teóricas que dizem que o espaço foi desteritorializado no mundo das redes nunca foram tão acertadas.
Pois, é possível perceber que, com todas as diferenças culturais que possam existir entre essa realidade e a de qualquer outro jovem do país ou mundo afora, há algo em comum entre esses sujeitos. Todos se socializam no ciberespaço. Entretanto, acreditamos que algumas características da juventude, e nesse caso também da juventude que podemos chamar de rural, são gerais e independem do ambiente.
Os jovens cujas interações sociais aqui analisamos se encontram em um período de projetar o futuro, tendo em grande parte o apoio de suas famílias para continuarem seus estudos, mas se encontram às voltas com as dificuldades deste momento de suas vidas.
Existem fatores que contribuem para a invisibilidade social da juventude rural. No Brasil, ela é geralmente associada ao problema da migração para a cidade. “A própria imagem de um jovem desinteressado pelo meio rural contribui para a invisibilidade da categoria como formadora de identidades sociais e, portanto, de demandas sociais” (CASTRO, 2005, p. 182).
Pelo que observamos, pode ser que o fato de não existir uma identificação declarada com o mundo rural seja causado pelo acesso às tecnologias de informação. Como discutimos anteriormente, o lugar geográfico perde importância no que diz respeito ao estabelecimento relações sociais. O uso das tecnologias e o acesso aos espaços virtuais abrem possibilidade para que os jovens tenham acesso a outras referências culturais.
O contato com as tecnologias coloca na palma da mão eventos globais como o lançamento de filmes, músicas, produtos, além de diversos personagens de diversos
lugares do mundo e, aparentemente, leva a uma crença de que por estarmos conectados, nossa realidade não necessariamente está ligada ao local.
Quando começamos a despertar o interesse por essa temática e iniciamos uma pesquisa em um pequeno município do litoral de Alagoas, localizado a aproximadamente 120 km da capital, em uma zona marcada economicamente pela produção de cana de açúcar, percebemos alguns aspectos que podem contribuir para uma interpretação dessa realidade.
O primeiro deles é que, entre os jovens da região, não fazia mais sentido o questionamento de quanto tempo ficavam conectados à internet. Apesar de todas as dificuldades de acesso, o “normal” era estar conectado todo o tempo. Problema seria o oposto, estar desconectado. Fosse pelo tempo diário necessário na estrada para chegar ao campus, seja por morar em uma zona mais afastada sem cobertura ou provedores. Parece que o tempo de desconexão era algo a ser corrigido imediatamente.
O segundo aspecto diz respeito à formação de grupos de amigos. Ainda naquela fase bem inicial, conversando com os alunos, percebemos que os grupos de amigos não necessariamente e, na verdade quase nunca, tinham a ver com o local de residência. Para nosso espanto inicial, era possível que jovens que viviam em pequenas comunidades rurais tivessem mais amigos espalhados pelo Brasil, e até fora dele, do que na rua da sua própria vila.
As ligações interpessoais se configuravam aparentemente em uma lógica voltada para os gostos e afinidades pessoais. Aqueles que eram tomados como referência na maior parte dos casos estava longe do local. Na verdade, sempre estiveram longe. Um dado inicial interessante foi a nossa percepção da naturalidade com que os jovens fazem amizade pelo ambiente virtual com pessoas que nunca viriam a encontrar no mundo físico. Aparentemente, caiu a lógica daquela recomendação das mães que viveram décadas atrás: não fale com estranhos, é perigoso.
Nessa configuração baseada em relacionamentos que se iniciam e terminam no mundo virtual, não nos causa mais espanto o fato de os alunos não se reconhecerem mais apenas como pessoas locais. Logo, a identificação com o mundo rural como um componente central da sua identidade parece não ser o caminho.
Existe a identificação cultural com a região, mas a valorização do local não parece impedir a construção de uma identidade que ultrapassa as barreiras geográficas e se compõe de elementos culturais, gostos e estilos de vida que chegam por meio das redes de sociabilidade através da internet.
Falamos de uma juventude que se diferencia de tantas outras. No semiárido, interior do Nordeste, a certa distância das capitais, a maior parte nunca viajou para lugares muito distantes. O acesso a shoppings, cinemas, e outros templos do consumo é algo raro, pois tem um custo. Quase todos sonham em sair e ver o que há lá fora com os próprios olhos. Entretanto, não diferem muito dos jovens da cidade no que diz respeito ao conhecimento dos assuntos do momento. A cibercultura consegue envolver a todos que se conectam.
É recorrente nas falas dos jovens a vontade de deixar suas cidades em busca de continuar os estudos, buscar espaço no mercado de trabalho e ter acesso a bens de consumo que não existem onde vivem.
Com o recomeço da nossa pesquisa, desta vez na região do Seridó, nos deparamos com resultados semelhantes desde os diálogos iniciais. Esse momento que precedeu a nossa pesquisa foi fundamental para que pudéssemos definir os rumos que deveríamos tomar, que pistas deveríamos seguir com mais afinco.
À medida que a pesquisa avançava, ficávamos mais curiosos para conhecer mais da sua realidade. Um fato digno de nota foi a boa disposição e a vontade, por parte dos discentes, de participar da pesquisa desde a fase inicial. Na fase de aplicação dos questionários, os próprios alunos nos ensinaram a utilizar ferramentas online, que desconhecíamos ou possuíamos apenas conhecimentos limitados. Essa boa vontade só aumentou nos momentos seguintes da pesquisa, o que relataremos no decorrer deste texto.
4.5 A sociabilidade na lógica das redes: jovens, escola e sociedade (o que nos