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Surgida num contexto específico de culto ao passado, a Ciência da Conservação está intimamente vinculada ao patrimônio cultural. A pesquisa de FRONER (2001) mostra que o conceito moderno de conservação e sua estruturação como disciplina científica, assim como a Museologia e a Arqueologia, são construções relativamente recentes. A concepção da restauração como intervenção técnico-científica e não como experiência artística modificou-se a partir da segunda metade do século dezenove. Neste momento histórico também estrutura-se o corpo conceitual da maioria das disciplinas associadas à Ciência da Conservação: Arqueologia, História da Arte e da Arquitetura. De uma atividade antes vinculada a reparos de cunho artístico, no decorrer do século XX a Ciência da Conservação passou a analisar não só os objetos isoladamente, mas também o entorno onde este objeto está inserido. Assim, passou-se a ter uma maior preocupação com variáveis ambientais e urbanísticas das cidades e também das regiões, ou seja, como o ambiente construído onde se encontram os acervos. No entanto, é a partir do início do século XXI, nos anos de 2000 a 2004, que se inicia uma nova abordagem na área da conservação, surgindo o conceito de gestão da conservação, passando- se a incluir a análise probabilística de riscos na restauração, onde se trabalha com as fontes potenciais de danos (naturais e humanas) e com a manutenção preventiva. Froner compara a conservação de bens materiais à medicina preventiva, cujos métodos intencionam controlar os agentes de degradação, sejam estes internos ou externos, buscando-se prevenir, estacionar ou retardar a deterioração dos artefatos. Esta nova metodologia de conservação parte do objeto, de suas características intrínsecas, para analisar a adequação e gestão ambiental do edifício e do entorno em que está inserido, considerando também objetivos, funções, atividades e recursos institucionais.

A Conservação Preventiva apresenta caráter interdisciplinar, onde a Química, a Física, a Engenharia e a Meteorologia atuam como disciplinas aplicadas à conservação de bens

culturais, devido à ampla gama das origens dos danos em obras de arte, assim como os métodos de controle empregados. No meio acadêmico institucional, as universidades federais do Rio de Janeiro e da Bahia foram as primeiras a oferecer disciplinas de conservação e restauro. Na década de cinqüenta, como mostra Froner, o Prof. Edson Motta introduz as disciplinas de restauração de pintura de cavaletes e de papel na Escola de Belas Artes da UFRJ e o Prof. João José Rescala, a disciplina de restauração de pinturas no curso de graduação em Belas Artes na UFBA. O Centro de Conservação e Restauração da UFMG, coordenado e dirigido inicialmente pela Profa. Beatriz Vasconcellos Coelho, mantém desde 1979 cursos de restauração de pintura de cavalete e escultura policromada, sendo o primeiro curso de restauro a ser reconhecido oficialmente com curso de especialização. A Escola de Belas Artes da UFMG mantém atualmente um curso de pós-graduação ao nível de mestrado e doutorado – Programa de Pós-Graduação em Artes – com uma linha de preservação prevista na área, tendo como orientador o Prof. Dr. Luiz Souza, químico-restaurador reconhecido internacionalmente, a Professora DraYacy-Ara Froner e a Professora Dra. Maria Regina Emeri. O CECOR também oferece cursos associados a grandes organismos internacionais, como ICCROM, ICOM, The Getty Conservation Institute e Smithsonian Foundation, abrangendo questões da conservação preventiva e das intervenções, com embasamento científico.

Em relação à Conservação Arqueológica, apesar de tratados, postulados e teorias sobre integrações em esculturas e achados arqueológicos existirem desde o século XVII, a obra de Harold Plenderleith, The Preservation of Antiquities, publicada em 1934 forjou as bases do conceito moderno de restauração nesta área, por se pautar em bases científicas, sendo imprescindível o conhecimento sobre a composição dos materiais, os agentes de degradação, utilizando-se de estudos tecnológicos na aplicação de métodos para conter a degradação. Segundo Froner, a teoria de Plenderleith, conjuntamente com os estudos de Brandi, influenciou o documento denominado Carta de Veneza, de 1964. Neste mesmo ano, Albert France-Lanord escreveu o texto: Savoir “interroger” l’ objet avant de le restaurer, o qual influenciou toda uma geração de arqueólogos franceses. Neste contexto, surge a necessidade de se formarem associações e instituições que propiciem a troca de informações, realizem publicações e ofereçam treinamento adequado. Como comenta Froner, após a segunda Guerra Mundial, centros internacionais como o ICOM, IIC, ICCROM, IRPA elaboraram encontros e seminários para difundir, questionar e estruturar um conhecimento científico estritamente voltado para a Ciência da Conservação. Porém, é na década de noventa que se acirram os

debates referentes às intervenções de restauro e às medidas preventivas de conservação relacionadas aos resgates das escavações. Seguindo a argumentação de Froner, assim como ocorre na restauração, a prática arqueológica ainda é desempenhada sem muito profissionalismo em vários países. O controle sobre intervenções arqueológicas exercidas por leigos, no Brasil, é exercido pelo IPHAN, pelos órgãos de preservação estaduais ou pela SAB, porém, como aponta Froner, os grandes entraves à profissionalização da prática encontram-se na falta de legislação e na vulnerabilidade científica vinculada à falta de reconhecimento da atividade. Além disso, como foi apontado nos tópicos anteriores, a destruição oriunda de ocupações irregulares, causadas pelo crescimento urbano desordenado, por grandes obras de infraestrutura e empreendimentos extrativistas, sobretudo os mineradores, tem sido a maior causa da extinção do patrimônio arqueológico nacional, sendo que a conservação destes bens depende de ações integradas de planejamento territorial, integrando preservação e desenvolvimento. Nestas ações, torna-se necessário que sejam previstas prospecções prévias sobre o impacto arqueológico, ambiental e histórico, como também o esclarecimento das comunidades residentes no entorno dos sítios.