Antes da anunciada apresentação, gostaria de contar sobre os receios e a tomada de decisões quanto à ida a campo. Provavelmente em grande parte devido a uma visão [ainda] preconcebida, que não se afastava, tanto quanto eu gostaria, das reiteradas falas de senso comum veiculadas pela mídia, antes de começar a pesquisa tive, sim, algum receio de “subir o morro” e adentrar às comunidades onde residem as
crianças. Não sabia efetivamente o que iria encontrar, e ter presente que o desconhecimento justifica a realização da pesquisa não evitou o desconforto. Em algum momento considerei a possibilidade de solicitar aos familiares que fossem à escola. Parecia mais prático – para mim – e rico reuni-los para que, juntos, pudessem dialogar sobre o assunto da investigação num grupo focal, ponderava... Mas, supondo que eu conseguisse convencê-los a irem até a escola em função de algo distante dos seus planos e necessidades prioritárias cotidianas, o que eu obteria seria, muito possivelmente, bem mais parcial e menos rico do que conversar com cada um/uma em sua própria casa; do que poder presenciar aspectos daquele contexto para mim até então basicamente estranho; conhecer de fato um pouco da realidade na qual se socializam as crianças que fazem parte desta pesquisa. E afinal, se elas, ainda tão pequenas, podem descer e subir o morro cotidianamente sem susto, eu também deveria poder fazê-lo ao menos algumas vezes para obter as respostas que precisava. Vencidos os receios com estes argumentos, tracei um plano de trabalho, me muni de coragem e o coloquei em prática.
A partir das informações obtidas nas fichas de matrícula, montei um quadro com dados fundamentais do grupo: nome das crianças, de seus pais, do(s) familiar(es) responsável(is), sua ocupação, endereço e telefone – residencial e/ou móvel, do trabalho e/ou de outro contato – nome de outra pessoa de contato, quando era o caso – no mais das vezes uma vizinha, um avó ou uma tia. Quando disponíveis na ficha de matrícula, também foram registradas referências que viessem a contribuir para localizar o endereço: perto do “Bar do Neco”, da “Igreja”, do “mercadinho”, da “creche”, da “Casa da Criança”. E quando essa informação não constava na ficha de matrícula, tratei de apanhá-la, por telefone, no momento em que agendava a entrevista com o familiar. Foram momentos igualmente importantes estes primeiros contatos verbais, os quais, sem que se estendessem, precisariam permitir-me dizer quem eu era e o que pretendia – já haviam assinado a autorização para a realização da pesquisa, e por isso o assunto não era novo –, saber da disponibilidade de me receberem, e então agendar uma entrevista na sua residência. Em havendo quem atendesse, foram fáceis estas conversas e agendamentos.
Duas entrevistas tiveram que ser realizadas no sábado, único dia livre das mães em ambos os casos; as demais foram feitas durante a semana – uma delas no final do dia, quando a mãe chegava do
trabalho.133 Na maioria dos casos não foi possível agendar conciliando duas entrevistas no mesmo dia, o que fez com que eu me deslocasse até a comunidade por mais vezes. Por fim isso foi favorecedor, pois me permitiu manter a atenção focada em cada uma das famílias e crianças de modo singular, fazer os registros complementares em seguida, e me manter em condições propícias para prosseguir com a pesquisa de campo (ou seja, sem ficar excessivamente cansada, o que na minha avaliação prejudicaria a humana capaCidade de atenção e agudeza que a investigação requeria).
A greve docente estadual, que em 2011 durou quase três meses – que impediu de seguir com as observações participativas na escola134 – acabou por permitir encontrar as crianças em casa quando da entrevista com os familiares responsáveis, o que não ocorreria com calendário regular, uma vez que a maioria delas frequentam a escola de manhã e a Casa da Criança no período oposto. Não modifiquei os procedimentos planejados, como poderia, pois não contava com uma greve tão longa - se assim imaginasse, poderia ter aproveitado a oportunidade para, por exemplo, entrevistar todas as crianças em suas casas, ou solicitar-lhe que respondessem ao inventário do saber...). Havia previsto fazer uma coisa de cada vez e mantive o planejado; mas trouxe-as para a conversa sempre que dei conta e que houvesse disponibilidade de sua parte e da parte da mãe e/ou do pai. Dei mais peso, naquele momento, ao compromisso de realizar uma boa e consistente entrevista com os responsáveis, ao mesmo tempo em que podia conhecer o lugar onde vivem crianças e familiares; procurava captar também outros aspectos situacionais (o ambiente relacional, na medida do possível, e o meio social próximo). E assim foi feito.
133 Esta foi a mais atribulada, por serem várias crianças, saudosas da mãe, e sua
disputa por atenção – da mãe e da pesquisadora...
134 Tudo isso para marcar que é com a realidade como está posta que lidamos
ao pesquisar... No final de 2010, quando as crianças que participavam da pesquisa foram para o segundo ano, sua nova professora disse à direção que não aceitaria a presença de ninguém de fora em sua sala por pelo menos sessenta dias, tempo que considerou necessário “para pelo menos “ensiná-las a ficarem sentadas e compiar a lição do quadro”. Logo em seguida a categoria deliberou pela greve, que durou três meses, e havia um tempo específico do cronograma para a pesquisa de campo; depois era preciso outro longo período para a organização dos dados gerados e para a escrita. Alguns procedimentos previstos - como o uso do inventário do saber com as crianças, que pretendia fazer na escola - precisaram, então, ser deixados de lado.