• Aucun résultat trouvé

Chapitre 1 : La barrière hémato-encéphalique (BHE)

2. La BHE : une structure complexe et organisée

2.4. Une barrière métabolique

2.4.2. Les pompes d’efflux

Em 1949, a Junta Geral do Funchal concedeu o alvará para a abertura de uma fábrica de conservas, em Machico, instalada num antigo engenho de aguardente de cana-de-açúcar, na Vila, junto à ribeira. Essa fábrica de enlatamento de atum que ficava na Rua da Estacada, passou, na década de 60 do século XX, para as mãos da Somagel (Sociedade de Pesca, Conservas e Congelação da Madeira Limitada)488.

Na unidade fabril, em 1974, denominada Sociedade de Conservas de Machico, Lda., as condições de trabalho eram difíceis, pois não havia um horário fixo, pois laboravam tanto “14 ou 15 horas no dia, como 2 ou 3 horas”; quanto aos salários, estes eram tabelados segundo a idade: “+ de 20 anos: 15$90/h; entre 16 e 18: 12$00/h; - de

16 anos: 10$00/h”489.

Acresciam a estes aspectos, várias reclamações de mau tratamento da parte do encarregado da fábrica, António Dias. Há várias queixas manuscritas pelas próprias trabalhadoras490, apresentando, entre outros, os seguintes comportamentos deste responsável: aplicava castigos sem justificação aceitável para as operárias; mandava-as para casa, por exemplo, quando cortavam pedaços de peixe maiores que o normal; mudava uma pessoa de tarefa, quando assim o entendia; mandava as mais idosas para casa, mantendo as mais novas no serviço; não pagava dias de trabalho e horas extraordinárias; não podia ver uma trabalhadora ajudar outra a pegar os tabuleiros pesados e suspendia-a do trabalho; uma operária foi suspensa durante uma semana por se ter esquecido de deixar a ficha de presença na fábrica; por deitar uma lata no chão, três dias de dispensa; proibiu uma mulher de levar consigo a sua própria faca, depois de ter sido mandada para casa; até uma trabalhadora teve ordem de ir para casa, porque estava a falar com o namorado, na porta da fábrica; a dispensa era pelo que tempo que lhe apetecia (meia hora, horas, dias, meses, um ano); era desigual no tempo de serviço concedido.

488 Ribeiro, João Adriano (2001), Machico – subsídios para a história do seu concelho, Machico, Edição

Câmara Municipal de Machico, pp. 124-126.

489 Ficha de atendimento - Carolina Freitas Veríssimo, 6 Maio de 1975, dactilografada, C. A.

490 Foram encontrados 12 documentos, escritos pelo punho das próprias trabalhadoras, denunciando as

Fotografia 11 – Trabalhadoras da Fábrica de Conservas de Machico. (Foto ACMM)

No dia 6 de Maio de 1975, a empregada conserveira Carolina Freitas Veríssimo, residente ao sítio da Fazenda, Machico, “recorreu ao C.I.P. para expôr a

carrasca exploração de que são vítimas as trabalhadoras da sociedade de Conservas de Machico”491.

Por todas estas razões, segundo o CIPM, as operárias demonstraram “grande

interesse em organizarem-se para a luta” e entenderam como “imprescindível a formação de um sindicato”492. Neste sentido, ocorreu no dia 11 de Maio de 1975, uma

reunião no Centro de Informação Popular, com a presença de 20 trabalhadoras, na qual foi nomeada uma “comissão provisória”, constituída pelos seguintes elementos: Carolina Freitas Veríssimo, Clara Góis, Conceição Gouveia, Carolina Ferreira, Filipe e Maria José Gouveia. De seguida, a 14 de Maio, esta comissão voltou a reunir no CIPM, tendo sido feita a contabilização do número total de trabalhadores, que seriam 180, sendo a maioria mulheres. De igual modo, foi marcada uma reunião geral de trabalhadores para o domingo seguinte, dia 18 de Maio, “nas escolas junto à ponte”493 494.

Em Junho de 1975, um panfleto assinado pelo CIP foi distribuído à população, sob o título “Viva a luta das operárias e operários das conservas”, e nele se anunciava a realização, nessa data, da primeira greve ao trabalho, pelo saneamento imediato do

491 Ficha de atendimento - Carolina Freitas Veríssimo, 6 Maio de 1975, dactilografada, C. A. 492 Ficha de atendimento - Carolina Freitas Veríssimo, 6 Maio de 1975, dactilografada, C. A.

493 Na altura, chamava-se a Escola Preparatória, que é actualmente, a Escola Básica e Secundária de

Machico.

encarregado do serviço, António Dias, a quem não foi permitido entrar no escritório e que era considerado “grande carrasco e opressor de quem trabalha.”495 Depois, chegaram à fábrica os patrões, e por volta do meio-dia, “os trabalhadores alcançaram a

vitória. O António Dias foi saneado”496, acção que foi importante na época e

inspiradora de novas movimentações, em defesa do poder popular497.

Mas o CIPM entendia que “a luta não pára. Novas lutas se travarão para

melhores condições de trabalho, higiene na fábrica, sindicalização, melhores salários e pagamentos das horas extras.”498

E assim foi. Em Outubro do mesmo ano, aconteceu uma nova greve. Solidário com esta iniciativa, o CIPM emitiu um panfleto, no qual recordava o sucesso da acção dos trabalhadores pelo saneamento de António Dias, mas denunciava o facto de as mulheres, por serem mulheres, ganharem 1$40 por hora. O entendimento era que o salário justo deveria ser 21$00, contrapondo a entidade patronal o valor de 18$00499.

No dia seguinte, 7 de Outubro, é divulgado um novo comunicado, sob o título

“Vitória das operárias das Conservas de Machico”, anunciando o êxito da sua acção,

pois conseguiram melhores salários e mais regalias. Considerando que a luta foi difícil, sobretudo devido a um conjunto de ameaças, designadamente, “que ia cair uma bomba

na fábrica, que o António Dias ia dar um tiro, que os pescadores do Caniçal iam invadir a fábrica”, eram tiradas ilações desta greve, como “ensinar aos patrões que (…) terão de escutar a voz das operárias (…) o principal foi a confiança (…) na nossa própria força e na nossa Comissão”500. Acto contínuo, a Comissão de Trabalhadores da

fábrica deu conhecimento da sua vitória, através da comunicação social, referindo que

“Não há nenhum patrão nem nenhuma arma que possam guerrear contra o povo unido e organizado.”501 Destaque-se que estes operários retribuíram a solidariedade de outras

495 Panfleto Viva a luta das operárias e operários das conservas, Centro de Informação Popular de

Machico, Junho (?) de 1975 (?), C. A.

496 Panfleto Viva a luta das operárias e operários das conservas, Centro de Informação Popular de

Machico, Junho (?) de 1975 (?), C. A.

497 Comércio do Funchal, de 12 a 19 de Junho, 1975, A Luta do povo não pára!, C. PMCM.

498 Panfleto Viva a luta das operárias e operários das conservas, Centro de Informação Popular de

Machico, Junho (?) de 1975 (?), C. A.

499 Panfleto A greve das conservas é justa, Centro de Informação Popular de Machico, 6 de Outubro de

1975, C. A.

500 Panfleto Vitória das operárias das Conservas de Machico, 7 de Outubro de 1975, C.A. e Diário de

Notícias, Funchal, 9 de Outubro de 1975, Fim da greve na Fábrica de Conservas de Machico, ARM.

501 Diário de Notícias, Funchal, 9 de Outubro de 1975, Fim da greve na Fábrica de Conservas de

organizações, manifestando o apoio aos seus colegas que trabalhavam na congelação do Porto Novo, aos baleeiros do Caniçal e às bordadeiras de Machico502.

No conjunto das actividades revolucionárias deste período em Machico, foi sublinhado o valor deste movimento da Fábrica de Conservas, porquanto “os operários

e as operárias fizeram justiça, exigindo o saneamento de certos indivíduos e colocando nos postos de controlo pessoas da sua confiança.”503

Como foi demonstrado, o CIPM desempenhou um papel importante, tanto na organização, como no apoio e divulgação desta acção. Esta agremiação interpretou a sua intervenção no âmbito do “que tem promovido a luta pela justiça, por melhores

condições de trabalho, melhores ordenados e mais liberdade para os trabalhadores (…) como a luta das operárias das Conservas”504.