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Os estudos empreendidos nesta tese indicam que o Fandango sempre foi e ainda é um evento expressivo e importante para essa comunidade. Uma brincadeira que vem sendo desenvolvida em sua região a partir dos meados do Século XIX. As fontes documentais para confirmar tal fato são escassas, ficando restritas aos relatos orais de seus integrantes mais antigos.

Foto 9: Fandango de Canguaretama – “1931 a 1947”12– (A)

Até onde se pôde verificar, a brincadeira teria uma ligação inicial com Vila Flor, sabendo-se de antemão que, até 1858, a região onde hoje fica Canguaretama também pertencia à Vila Flor, ou seja, era uma só unidade político-administrativa13.

12Não se tem precisão da data em que foi feita essa fotografia, sendo mencionado esse período. Nessa foto

foi reconhecido, por membros de sua família e Nego de Gino, João Linheiro, que é na primeira fila o 5º

Nego de Gino (F, 8714) brincou no cordão desde 1938 e, em 1940, com 18 anos já fazia dois anos que brincava o Fandango de Canguaretama, que, segundo ele, veio de

Vila Flor: “o Fandango não foi de Canguaretama” e “vem retornando ainda dos

Quilombos15, de quando existiam os cativeiros no país, em vários cantos; surgiu na Vila Flor essa história que veio de Portugal, por alguém que soube da história ou gravou a

história, que registrou a história lá e trouxe ao Brasil”.

N a é p o c a o fo l c l o r e c h e go u a t é V i l a F l o r e d e l á p a s s o u p o r ge n t e a n t i g a q u e j á mo r r e u há mu i t o t e mp o a t é o s q ue r e t o r na r a m o c a d e r no p a r a C a n g ua r e t a ma . O s p r i me i r o s q u e i n i c i a r a m a q u i fo i M a no e l Li ma e C h i c o L i ma p a i d e M a no e l Li ma . F o i q ue m t r o u xe o c a d e r no . G u s t a vo , T e ó f i l o , e s s e p o vo f o i q ue m t r o u xe o F a nd a n go d e V i l a F l o r p a r a C a n g ua r e t a ma . M a no e l L i ma , p a i d e A n t ô n i o Li ma e r a r a p a z na q u e l e t e mp o . E u e r a me n i no e e l e j á e r a r a p a z , s e u s 2 0 a 2 5 a no s . T r o u xe r a m o c a d e r no e n t r e g ue p e l a s mã o s d e Z é M o i t a q u e e r a u m d o s i nt e r e s s a d o s d o F o l c l o r e e m V i l a F l o r , n a é p o c a , né ? J á mo r r e u há mu i t o s a no s . E e s s e F o l c l o r e na s c e u d e l á , a s c ó p i a s e fo i s e fa z e nd o , gr a va nd o o ut r o s c a d e r no s p o r a í a t é ho j e . ( I d . ) .

Zé de Ná (F, 59) conta a mesma origem dessa tradição: “(…) aí ficou lá em Vila

Flor, o comando daqui era em Vila Flor. De Vila Flor passou para cá: o pai de Antônio Lima, o pai de Genival Mangabeira, o veio João Tranquino, Zé Colasso são o pessoal

velho. Eles vieram de lá pra cá. Essa nossa história já veio de Vila Flor pra cá”.

13 Segundo Galvão Neto (2005), essa cidade foi criada pelo Alvará Régio de 3 de maio de 1755, a partir da

expulsão dos jesuítas da colônia. Inicialmente, essa área englobava os atuais municípios de Vila Flor, Canguaretama, Pedro Velho, Montanhas e Baía Formosa. Em 1858, a sede do poder administrativo de Vila Flor foi transferida para o povoado de Uruá, antigo Saco do Uruá. Em 19 de julho, desse mesmo ano, Uruá é elevada à categoria de Vila de Canguaretama, depois, à categoria de cidade, em 16 de abril de 1885, com sua instalação feita em 18 de setembro. A denominação oficial ficou sendo Canguaretama. No entanto, desde seu

início, essa cidade tinha três designações para o seu nome. Ainda para Galvão Neto (id., p. 24), “o nome de Canguaretama teria sido uma escolha do poderoso Brigadeiro André de Albuquerque Maranhão Arcoverde,

mas o Frei Serafim de Catânia, andando em missão pelo Uruá, deu à localidade o nome de Penha”. A Lei Provincial nº. 166, de 27 de março de 1859, confirmou esse nome apenas para a freguesia. Para não haver confusão, foi firmado um pacto, e a nomificação Canguaretama passou a ser utilizado para os atos administrativos e civis, e Penha, para os eclesiásticos. Este último sempre foi o nome corriqueiro da cidade e, ainda hoje, está na boca dos mais antigos.

14A letra “F” corresponde aos informantes do Fandango; a “C”, aos da Chegança, e a “M”, aos do Brincar o

Marujo. A numeração é relativa à idade da pessoa e entra quando ela é citada pela primeira vez.

15 Um tempo antigo, em que ainda havia quilombos. Convém lembrar que a Lei Áurea foi promulgada em 13 de maio de 1888. Ele afirma, ainda, que “hoje na Vila flor só tem um sinal, que tem um tronco que não pode acabar, é histórico e não pode dar fim, está hoje lá, na prefeitura, mas ali era um Quilombo”.

As pesquisas do historiador Galvão Neto (2005, p. 48), também corrobora a

informação de que “anteriormente existia um Fandango em Vila Flor, mas esse acabou, surgindo o de Canguaretama”.

Pelas pesquisas realizadas na cidade de Vila Flor, constatei que a brincadeira que existiu lá, até início da década de 1960, segundo os relatos dos ex-integrantes, moradores dessa localidade, era bem parecida, em vários aspectos, como as músicas, a poesia, a barca e mesmo a forma de brincar, como a que é feita hoje em Canguaretama. Eles relatam que Zé Moita era, naquele tempo, a pessoa responsável pelo Brincar o Marujo.

Nego de Gino (F), pescador e que faz o Ração na brincadeira, lembra que, quando iniciou a brincar o Fandango de Canguaretama, os ensaios iniciais aconteciam:

(…) numa casa fechada para identificar o povo, para estruturar o povo, para iniciar o povo, para quando apresentasse… era um… como se era um desastre… o povo ficou tudo besta sem saber

c o mo s e r u m fi l ho d a q u e l e . S e i s me s e s s ó s e t r e i na nd o , e n s a i a nd o , s e m ni n g ué m ve r . S ó o u v i a a vo z . E nc h i a a p o r t a d o t e r r e i r o d e ge n t e . E r a l á no A b r a ã o o nd e t e m a q ue l a o f i c i n a , c o mo q u e m va i p a r a o P o r t o . A c a s a e r a d o p a i d e Ab r a ã o . Lá fo i o nd e M a no e l Li ma a r r e nd o u p a r a b o t a r o s p r i me i r o s d i a s d o F o l c l o r e , a s t o a d a s fo r a m c a n t a d a s ne s s e p r é d i o . A s p r i me i r a s mú s i c a s d o fo l c l o r e fo r a m e ns a i a d a s l á e m A b r a ã o .

Foto 10: Nego de Gino: Foto 11: Nego de Gino: Pescador - 2008 (B) Ração - 2008 (B)

Também podemos ter uma noção de desde quando a brincadeira está presente nessa região, com base no que nos fala Genival Mangabeira (F, 80), que é aposentado dos Correios e já fez o Ração.

P o r q ue o s no s s o s p a i s d i z i a m q ue o s p a i s d e l e s b r i n c a va m o F a nd a n go . C o mo o a vô d e K l e b i n ho q ue nã o b r i nc a v a o F a nd a n go , ma s e r a u m a d mi r a d o r d e s s e p o vo q ue b r i nc a v a o F o l c l o r e ; e l e e r a fo l c l o r i s t a s ó d e a d mi r a ç ã o . B o ni f á c i o P i n he i r o d a C â ma r a . E l e e r a u m a d mi r a d o r e t a mb é m f a l a v a q ue a s p e s s o a s n a i d a d e d e no s s o s a vó s b r i nc a va m. E n t ã o s e c a l c ul a q ue fo i no s me a d o s d o S é c ul o X I X q ue f o i i n t r o d uz i d o . S e c a l c ul a p o r q ue o p o vo d a q ue l a é p o c a nã o s a b i a o v a l o r d o fo l c l o r e , d a c u l t ur a , nã o s a b i a e s s e va l o r e n ã o t i ve r a m e s s e c ui d a d o d e d e i xa r u ma c o i s a q u e c o mp r o va s s e . E l e s d i z i a m q ue o s p a i s d e l e s , no s s o s a vó s , e u j á e s t o u c o m 7 8 a n o s , me u a vô s e e s t i ve s s e vi vo j á e s t a r i a c o m 1 5 0 a no s p r a l á . O r a 1 5 0 , s e me u p a i fo s s e v i vo e s t a r i a c o m 1 1 9 . E n t ã o me u a vô e s t a r i a c o m 1 5 0 a no s p r a l á . P o d e s e r q ue me u s b i s a vó s t a mb é m b r i nc a r a m. N o c o me ç o d o S é c u l o X X q ue m c o n s e r vo u fo i o me u p a i G e né s i o M a n ga b e i r a , M a no e l L i ma [ P a i d e A n t ô ni o L i m a ] , c o n s e r va r a m a t r a d i ç ã o . B r i nc a r a m a t é 0 8 d e d e z e mb r o d e 1 9 4 7 , a t é o d i a d a F e s t a d a P a d r o e i r a . A í p a r o u d e f i ni t i vo . R e s s ur g i u d e p o i s e m 1 9 7 1 – 24 anos depois – com o pai de Klebinho mais Antônio L i ma .

Foto 12: Genival Mangabeira - 2007 (B)

E Klebinho (F, 53) continua assim essa narrativa temporal:

Q ua nd o fo i e m 1 9 7 1 , p a p a i e s t a va n a P r e fe i t ur a c o m A n t ô ni o

Lima: „Antônio Lima, será que daria certo criar o Fandango aqui‟? – „Kléber que conversa é essa? Que danado hoje em dia, que esse negócio de Fandango‟. – „Vamos testar, vamos ver se dá certo?‟ – „Vamos ensaiar aonde?‟ – „Vamos ensaiar no Colégio‟.

P a p a i l a nç o u o c o n v i t e . D e u ge nt e s o b r a nd o . A í fo mo s e n s a i a nd o , e n s a i a nd o . A q ue l a t ur ma no v a a c h o u b o ni t o e fo i s e i n f i l t r a nd o . P a p a i fo i fa z e nd o u ma p e n e i r a . T i r a nd o a q ue l e s q ue b a g u n ç a va m. F i c o u u m gr up o gr a nd e . M a s e r a u m gr up o d e p e s s o a s q ue b r i n c a va m c o m go s t o .

Segundo o pai de Klebinho, Seu Kleber (F, 81), aposentado, “deu gente demais,

dava para fazer mais de três Fandangos. Pra ver se tinha ordem, observava se tinha arma”.

Foto 13: Seu Kleber com Barca em reparo - 2008 (B)

Desse modo, passou-se a brincar16 o Fandango de 1971 a 1979, em Canguaretama e em outras cidades. Depois, a brincadeira parou, só retomando suas atividades na apresentação de 08/12/1985. Retornou nas festividades de fim de ano, em 1995, 1996, 2000 e de 2003, e, até hoje, apresenta-se em realizações esporádicas. Como constatei, a partir de 2006, foram feitas, até o momento, seis apresentações: no XII Congresso Brasileiro do Folclore, em 30/08/2006, no IFRN; na Semana da Cultura, em Canguaretama, dia 29 de novembro de 2006; na Casa Amarela – Sítio da Cultura - em Recife-PE - no dia 30 de dezembro de 2007; na época dos festejos de Nossa Senhora da Conceição, nos dias 07 e 08 de dezembro de 2008, e, ainda, com a participação na Procissão e em 24 de dezembro de 2008, véspera de Natal17.

16 É importante observar que não há muita precisão quanto às datas e quanto ao momento em que eles

realmente brincaram. Há, portanto, algumas nuances.

17

O fato de a brincadeira se apresentar esporadicamente também pode ser visto nos relatos acerca da Chegança e do Brincar o Marujo. Pimentel (2005), falando sobre o Fandango da cidade de Areia-PB, constata, através de seus informantes, que houve brincadeira em 1917, 1963, 1974, retomada em 1998 e que ainda estavam procurando restabelecê-la.

Foto 14: Imagem da Santa no andor da Barca - 2008 (B)

Mesmo que nos dias atuais existam apresentações em outras épocas do ano, a brincadeira, segundo eles, sempre esteve ligada ao ciclo das festas de fim de ano, que se iniciam com a Festa da Padroeira da cidade de Canguaretama, Nossa Senhora da Conceição, em 08 de dezembro, e se estende até à véspera da Festa de Reis, em 05 de janeiro que, de acordo com Nego de Gino, é a primeira festa e apresentação do ano. Para os brincantes e a comunidade, as apresentações da brincadeira sempre foram, principalmente para os mais antigos, um dos pontos altos dessas festividades18. Os membros da Chegança e do Brincar o Marujo também falam das apresentações feitas em festejos natalinos e, também, nas Festas das Padroeiras de sua localidade: em Barra de Cunhaú – em 02 de fevereiro - dia de Nossa Senhora dos Navegantes, e em Vila Flor – 06 de Fevereiro – dia de Nossa Senhora do Desterro.

A aproximação com os brincantes em campo permitiu identificar que, historicamente, os membros de cada grupo mantiveram e mantêm, entre si, uma relação de sociabilidade nas formas de vizinhança, parentesco, amizade e solidariedade. Entre os principais componentes das brincadeiras, escuta-se sempre a alusão a sua comunidade, aos seus amigos e familiares, de quem herdaram o gosto por brincar, como no caso de Zé de Ná (F):

M e u p a i b r i n c o u mu i t o o F a nd a n go , J o s é E ma n o e l , i g ua l a o me u no me . Z é d e N á é a p e l i d o p o r q u e a c a b e i d e s e r c r i a d o p o r mi n h a a vó . O a p e l i d o d e l a e r a N á e a t é ho j e fi c o u Zé d e N á , a q ui e m

18 Esse aspecto será tratado no Capítulo IV.

C a n g u a r e t a ma q u a l q u e r u m me c o n h e c e . O s f a mi l i a r e s d e me u p a i t ud o b r i nc o u. O s m a i s ve l ho s , o s ma i s no v o s . S ó q u e e s s e s ma i s no vo s , t ud o d e s i s t i u.

Maffesoli (2001, p. 81) entende que, “do mesmo modo que a casa da infância

permanece o paradigma de toda raiz ou de toda busca de raízes, o espaço local é aquele que funda o estar-junto de toda comunidade”. Essa é uma das estruturas que formam o pensar e

o viver do indivíduo. É no entorno, na proximidade, que são integradas as “representações e todas as esperanças.” É no espaço familiar, nas coisas “banais” da vida cotidiana, que se

produz toda uma riqueza que serve de sustentáculo à perduração do social. O autor (id., p. 86) acrescenta, ainda, que:

A e s p a c i a l i d a d e é o t e mp o e m r e t a r d o , é o t e mp o q ue t e n t a mo s fr e a r , e d a í a i mp o r t â nc i a d a r i t ua l i z a ç ã o na v i d a c o t i d i a n a q ue , p e l a r e p e t i ç ã o , r e p r e s e n t a o u f a z a mí mi c a d o i mu t á ve l . A c i d a d e o u a c a s a , c o mo s e d i me nt a ç ã o d a s hi s t ó r i a s p a s s a d a s , d o t e mp o d e c o r r i d o , s e r v e m e nt ã o d e p ó l o s a t r a t i vo s , e l e s s ã o fo r t a l e z a s s ó l i d a s ne s s a l ut a p e r ma ne n t e q u e é o a fr o nt a me nt o d o d e s t i no . É a í q ue c o n vé m b u s c a r o f u nd a me n t o d o a p e go a f e t i vo o u p a s s i o n a l q u e l i ga o i nd i v í d uo o u o gr up o a q ua l q u e r q ue s e j a o t e r r i t ó r i o .

Em termos gerais, para alguns membros da comunidade de Canguaretama e de Barra de Cunhaú e Vila Flor, as brincadeiras têm significativa importância em suas vidas. Para alguns, estão presentes apenas na memória, enquanto outros têm, também, a oportunidade de poder brincar e de vê-las presentes hoje, nas apresentações.

A p r a ç a e m fr e n t e e r a p a s t o . C a d a ma t a p a s t o d e s s e t a ma n h o . H o j e é q ue i a s e r b o m, c o m a r u a c a l ç a d a . N a q ue l e t e mp o e r a d e a r e i a , d i f í c i l d e e s t a r a nd a nd o e c a r r e g a nd o a B a r c a . E r a b o n i t o d e ma i s me s mo , o G a j e i r o e o C a l a f a t e t r e p a d o no ma s t r o . ( M a r i n e t e M a t i a s d e M a t o s , 5 3 a no s - V i l a F l o r ) . S e go s t o d e b r i n c a r ? A f i M a r i a , e u a d o r o . I s s o é t ud o na mi n ha vi d a . S ó d e i xo d e b r i nc a r q ua nd o e u mo r r e r . E nq ua n t o e u t i v e r vi v a . É a ú ni c a b r i nc a d e i r a q ue e u go s t o . C o m e ç o u p o r q ue t o d o mu n d o go s t o u e a í c o me ç o u a b r i nc a r . P o r q ue a ge n t e go s t o u, a í c o me ç o u a b r i n c a r . ( Ze f a , 6 0 a no s – Barra de Cunhaú). A f i M a r i a ! É a ú n i c a b r i n c a d e i r a no mu n d o q ue me d o mi n a . A i , e u t e n ho l o uc ur a , l o uc ur a . E u nã o p e r d i a ne n h u m e n s a i o . E l e s

tinham um livro, eles sabiam da música… Eram muito

i n t e l i g e nt e s , gr a va va m t ud o . F a z i a m r e u n i õ e s , o s e n s a i o s e a í t o d o mu nd o i a a p r e nd e nd o . ( D o n a L e ni c e A nd r a d e , 7 9 a no s – C a n g u a r e t a ma ) .

Destaquei as falas femininas acima, acerca das brincadeiras, para começar a abordar um dos aspectos da brincadeira do Fandango, quanto à questão de gênero. Na

Chegança de Barra de Cunhaú, é possível se ver, hoje, a presença de mulheres na brincadeira. Seu Valdemir (C, 63) diz que os homens não queriam brincar mais, e a solução foi colocar as mulheres, que sempre tiveram uma admiração pela brincadeira. Antes, na Chegança, a personagem feminina, a Rainha Moura, era interpretada por um homem; hoje, por uma mulher. No Brincar o Marujo, a brincadeira foi realizada, segundo os brincantes, só com homens, e no Fandango, ainda hoje é assim.

Foto 15: Rainha Moura-Chegança – 2007 (B) Foto 16: Marujo(a)s da Chegança - 2007 (B)

Quando perguntado por que só homens brincam no Fandango, Klebinho (F)

responde:“Nós mantemos a tradição, e eu vou manter. Não permitimos mulher no

Fandango. Em Natal,19 quiseram infiltrar, eu disse não. Nós brincamos separado, você coloca seu Fandango pra lá, a gente brinca no meio. É tradição. Você não pode mudar uma

coisa”.

Também perguntei a Dona Lenice (F) o que elas fazem no Fandango. Ela disse que nada. Indaguei: nem costura20? Disse que não e complementa: “No Fandango daqui, nunca teve uma tal de Saloia21, mas no nosso Fandango daqui não tinha nada. Só se era na Chegança ou em outro. É porque não tem nenhum cargo pra ela. Só assistir. É só os

homens e os meninos. Sempre dei força, é a minha paixão”.

O Fandango de Canguaretama tem, portanto, em sua atividade direta -

performance poética - um universo predominantemente masculino de brincantes, mas as

19 1ª Mostra de Cultura Popular na Educação, realizada em novembro de 2003, no Ginásio do Machadinho.

Essa mostra tinha como proposta unir grupos da tradição com os grupos folcloristas das escolas.

20 Vi que a pessoa que realiza a costura, geralmente uma mulher, é contratada para tal ato. Muitas vezes, eles

conseguiram partes do fardamento vindo de Natal.

21

A Saloia (camponesa, pastora) é uma personagem encontrada na Barca da cidade de Cabedelo-PB, no episódio que narra o Rapto da Saloia pela Fortaleza do Diu. Antigamente, como se pode ver em imagens filmográficas da Missão Folclórica de 1938 – Mário de Andrade - era interpretado por um homem. Hoje, por uma mulher. Na Barca Santa Maria de João Pessoa também há essa personagem.

mulheres, além de grandes admiradoras e incentivadoras desse fazer, fazem parte da memória da brincadeira e a integram, como é o caso de Dona Lenice, viúva de Antônio Lima, ex-integrante e responsável pelo Fandango.

É interessante observar esse aspecto do gênero em uma expressão poética. Segundo Zumthor (1997), sempre existiram, em várias sociedades, interdições, em relação à divisão das tarefas poéticas. O que cabe à mulher e ao homem pronunciarem são elementos delimitados, quase sempre, em razão de crenças religiosas ou conveniências sociais e até políticas. Por outro lado, o poema se constituiu como um aspecto do próprio trabalho, sobretudo os feitos em grupo, como canções de semeadura, colheita e, também, em grupos que procuram certo vigor em suas canções, como de soldados e marinheiros. Em torno e por meio da canção, instauram-se ritos de participação. Assim sendo, a especialização de certos gêneros poéticos, segundo os sexos, decorre a partir de um costume profissional, de forma que certos tipos de canto ganham mais sentido e função, quando enunciados por determinado grupo que corresponda, significativamente, ao que está sendo cantado.

O autor (id.) refere, ainda, que, para as mulheres, outros hábitos podem instituir, em certas culturas, um conjunto de poesia oral amorosa, enquanto para os homens, canções heroicas, assim como, para as crianças, a formação de uma tradição poética infantil. Em alguns casos, isso se dá por causa de um costume social aleatório e cita o caso da poesia gaúcha que, no Brasil, na Argentina e no Chile, é exclusivamente masculina e, no Chile, não, e quando o Romance Ibérico entrou no Brasil, como prática de cantoria, costumou-se considerá-lo como uma criação original de homens, ficando as mulheres detentoras de cantigas tradicionais. O autor observa, nesse caso, tratar-se mais de tendências psicossociológicas do que de organização poética e, como podemos ver na seguinte declaração de Prado (1993:451), através de interdições ou normas estabelecidas, peculiaridades que podem ser vistas a respeito de uma apresentação em Cuiabá-MT- em 1790, e que nos dá uma ideia dessas questões:

O n í ve l s o c i a l d o s a t o r e s e c a n t o r e s i mp r o v i s a d o s , d e a c o r d o c o m o gr up o e m q u e a t ua v a m , c o mp r e e nd i a d e s d e ne g r o s a l fo r r i a d o s e mu l a t o s a t é e s t ud a nt e s , p r o fe s s o r e s d e p r i me i r a s l e t r a s , f u nc i o ná r i o p úb l i c o s , c a i x e i r o s d e l o j a s , mo d e s t o s ne go c i a n t e s e mi l i t a r e s . E nt r e e s s e s , o s s o l d a d o s r e fo r ç a va m a mú s i c a c o m t a mb o r e s , c l a r i ns e t r o m b e t a s , a o p a s s o q ue o s o f i c i a i s , c a p i t ã e s , ma j o r e s n ã o s e a c a n ha va m e m s ub i r a o p a l c o p a r a d a n ç a r e m ve s t e s fe mi n i n a s . É q u e a s mu l h e r e s nã o p a r t i c i p a va m d e s t a

d i v e r s ã o c o n s i d e r a d a t i p i c a me n t e ma s c u l i na . T a mb é m a q u i o e x e mp l o p r o c e d i a d e P o r t u ga l , o nd e e r a p r á t i c a c o mu m, a n t e s me s mo q ue D . M a r i a I p r o i b i s s e o a c e s s o d e a t r i z e s a o p a l c o .

Foto 17: Brincantes do Fandango no dia 07/12/ 2008 (B)

Os homens que a realizam objetivam algo que é concretizado numa linguagem poética. Tem-se uma manifestação cênica popular, que busca versar sobre uma realidade ligada a acontecimentos que estabelecem elos com uma herança, com um determinado tempo, rememorando histórias e vivências de antigos marinheiros, ou seja, de

“antepassados”.

E o passado, mesmo que instituído e engajado em sua performance poética, parece se desarticular em alguns discursos e se diluir em seu dia-a-dia, porque, por mais que o Fandango esteja inserido num ciclo festivo de final de ano e, principalmente, nos festejos da padroeira e a ela se reportar nas letras das músicas, a temática central do enredo são as histórias das navegações marítimas. E mesmo que alguns brincantes citem, nas entrevistas, partes das histórias que são contadas no decorrer da brincadeira, o que se analisa é que a maioria deles parece não alcançar, principalmente os integrantes mais novos, em sua totalidade, o significado embrionário da mesma22. Pensando de outra forma,

22 Diferente, por exemplo, de uma festa natalina ou junina, em que a relação com o motivo do festejo ainda é

podemos ver que eles buscam dar conta das histórias que são narradas na brincadeira, através de uma significativa aproximação discursiva. Percebe-se também uma íntima proximidade com sua expressão poética, num tempo presente, o que cria um ambiente de familiaridade com seu objeto brincante.

Isso se torna mais significante, na medida em que, hoje, parece haver outras coerências pretendidas/estabelecidas para esse fazer, que está além de um rememorar, festejar e contar as conquistas e as agruras dos povos ibéricos.

Mapeando essa questão, podemos ver que, na Chegança, os membros do grupo, assim como Seu Valdemir (C), responsável pela brincadeira, expressam, de forma peculiar,

o significado da história e de sua brincadeira: “A Chegança começou..., digamos assim...

eram os gringos e os piratas, porque era o tempo dos piratas, né? Então já começou por aí. Porque fala até assim: Inglaterra é... A Chegança veio disso aí, entendeu? Porque eu não

sei bem o que é Chegança. Porque eu comecei, peguei as músicas”.

Severino, do Brincar o Marujo, também busca expressões para poder dar conta do significado da história e da História de sua brincadeira:

Era muito bonito… Uma histó ria muito bonita, a história que

a c o nt e c e u n é ? U ma h i s t ó r i a ve l h a , a n t i g a . A hi s t ó r i a c o me ç o u p o r u m l i vr o q ue o ve l h o Zé M o i t a t i n ha , fo i q u a nd o d e s c o b r i r a m e s s a hi s t ó r i a d e u m M a r uj o . E m o ut r a s p a r t e s p o r a í o p o vo nã o c o n h e c e c o mo o M a r uj o , c o n h e c e c o mo F a nd a n go , na p a r t e ma i s hi s t ó r i c a , né , o F a nd a n go . N a p a r t e ma i s H i s t ó r i c a fo i u ma H i s t ó r i a q ue r e l a t a r a m há mu i t o s a no s . E l a c o nt a a H i s t ó r i a d e u m n a u fr á g i o , q u e n e m t e m o T i t a ni c , e l a c o n t a q ua s e e s s a H i s t ó r i a . É q ua s e a me s ma c o i s a né c o mp a d r e ?

Nas três manifestações aqui estudadas, observei, com base no pensamento de Rabetti (2000) que, para explicar o seu praticado, os brincantes procuram expressões que fazem parte de seu universo, ou que são tomadas de empréstimo de outras áreas, não conseguindo, muitas vezes, expressar inteiramente seu pensamento, o que cria espaços no falar e estabelece vazios no ato de transmitir uma maneira de rememorar, ou de não querer contar, apontando, ao mesmo tempo, que a experiência do fazer está acima de uma problematização.

A fala de Genival Mangabeira, do Fandango, permite-nos, igualmente, escutar esses aportes expressivos:

A a l e gr i a é a s a úd e d o e s p í r i t o . É p r e c i s o t r a z e r o s i n ve s t i me n t o s p a r a fa z e r a c ul t ur a v i va d a s t r a d i ç õ e s , p r i nc i p a l me n t e q u a nd o s e

t r a t a d e u ma c u l t ur a l u s o -b r a s i l e i r a . F o i d e o nd e nó s v i e mo s , o nd e na s c e u o B r a s i l . D e s d e o p r i nc í p i o o n d e s e t i n ha e s s e c o s t u me p o r t u g uê s . Q u e n a é p o c a e r a u ma d a s c i vi l i z a ç õ e s ma i s a v a nç a d a s d a t e r r a , P o r t u ga l . E n t ã o a ge n t e t e m q ue ma n t e r i s s o vi v o . E t a mb é m c o mo d i ve r t i me nt o . N ã o é s ó ma nt e r a c ul t ur a , o d i v e r t i me n t o , é t r a z e r o c o n he c i me n t o d a s ge r a ç õ e s v i nd o ur a s . C o mo fo i no p a s s a d o . A ma r i n h a nã o t i n ha mo t o r n a q ue l a é p o c a . N ã o ha v i a mo t o r . N ã o ha v i a t e l é gr a f o p a r a c o mu n i c a ç ã o . H o j e u m n a vi o e s t á e m p e r i go , p e d e l o go S O S .

Dona Lenice Andrade (F), falando de uma Parte da brincadeira, expressa: “Eles

viajavam para o alto mar e aí faltou combustível. E eles ficaram um mês e sete, ou cinco dias, no alto mar sem ter nada. Sem ter o que comer nada. Até sola de sapato eles comeram, conta tudinho”. Já Nego de Gino (F), que tem um forte e peculiar discurso

religioso, descreve que “foi uma história que foi verídica, partindo de uma época anterior, quando houve um Dilúvio, a Nau Catarineta se dava nome a uma Caravela”. E Alzair de

Souza, de 34 anos, pintor, um dos marujos, fala que a história começa no mar e depois

termina na terra: “saí do navio pra terra e fala em alimentos. É uma história do nosso dia-a-

dia que a gente vê lá no mangue, lá na Barra de Cunhaú. Os homens chegando do mar, o