8.3 Construction du plan partiellement ordonné
9.1.1 Les personnages
se irrita com esse desejo, tentando lutar contra ele. Como o homem não pode mover-se em direções contrárias ao mesmo tempo e relativamente à mesma coisa, deve haver aí dois elementos distintos: um que deseja, outro que se irrita e luta contra esse desejo. Esse exemplo, para Sócrates, é suficiente para distinguir essas duas capacidades. Mas ainda resta a distinção em relação à parte racional. Seria esse elemento pelo qual nos irritamos algo distinto da razão, ou apenas uma atribuição dela? Nas palavras de Sócrates:
SÓCRATES: Porventura será diferente da razão (ἕτερον ὄν καὶ τούτου), ou uma qualquer das suas formas (ἢ λογιστικοῦ τι εἶδος), de maneira que haverá na alma, não três, mas dois elementos, o racional e o concupiscível (λογιστικὸν καὶ ἐπιθυμετικόν)? Ou tal como, na cidade, esta se compunha de três classes – a negociante (χρηματιστικόν), a auxiliar (ἐπικουρητικόν) e a deliberativa (βουλευτικόν) – também na alma a terceira servia este elemento irascível (τὸ θυμοειδής), auxiliar do racional por natureza ἐπίκουρον τῷ λογιστικῷ φύσει), quando não foi corrompido por uma má educação?
GLAUCO: É forçoso que seja o terceiro (Ἀνάγκη, ἔφη, τρίτον).162
Sócrates apresenta, ainda, outro exemplo a fim de explicar a distinção entre as três partes da alma: o exemplo das crianças, que nascem cheias de ira, mas ainda sem fazer uso pleno da razão. A parte racional vai com o tempo se desenvolvendo, mas antes disso já havia um elemento irascível presente nelas. Ele cita, ainda, um verso de Homero: “batendo no peito, censurou o seu coração”163
. Esse trecho do poeta mostra, segundo Sócrates, a capacidade do homem de, pela razão, repreender, isto é, ir de encontro aos ímpetos do coração. Esses dois exemplos – das crianças e do verso de Homero – ilustram como a capacidade racional e a impetuosidade são diferentes, se tratando, então, de duas partes distintas da alma. Com o exemplo de Leônico, exposto anteriormente, Sócrates demonstrou como a impetuosidade e os desejos são distintos, configurando-se como duas partes da alma. Assim, para o filósofo, está provado como a alma é de fato dividida em três “partes” distintas: a racional, a impulsiva e a apetitiva. Percebemos como se trata, nos limites da escrita platônica, de uma sustentação racional e argumentativa da tese da tripartição. Na sequência, vamos tratar de cada uma das três partes de modo mais detalhado, a fim descrever com um pouco mais de precisão cada uma delas.
3.1.2.1. Parte racional da alma
162 Respublica, 440e-441a. Ibid., p. 199. 163
78 A parte racional (τὸ λογιστικόν) é responsável pelo comando da alma e, consequentemente, do homem como um todo. A ela cabem as funções de governar, administrar, conduzir as outras partes da alma em direção ao verdadeiro conhecimento – busca que orienta uma vida virtuosa. Nas palavras de Sócrates: “... por onde a razão, como uma brisa, nos levar, é por aí que devemos ir”164
. Platão compara a razão ao sentido da visão: o que esta representa no mundo físico, aquela representa no campo do pensamento. A razão corresponde ao “olho da alma” e, nas palavras de Sócrates: “... só através dele [o olho da alma] se avista a verdade (ἀλήθεια)”165.
É amplamente sabido que o verdadeiro conhecimento para Platão corresponde às Ideias ou Formas (εἶδος), ou seja, às realidades inteligíveis. O mundo sensível se reduz a uma cópia ilusória dessa realidade. O papel da razão é tão importante porque é justamente ela – e, no homem, só ela – a parte da alma capaz de acessar o verdadeiro conhecimento. A razão é capaz de acessar o ser ou essência das coisas (οὐσία), afastando-se das aparências, isto é, do que diz respeito ao mundo sensível. Sobre o mundo sensível, só é possível alcançar opiniões (δόξα), já que as coisas sensíveis têm outro estatuto ontológico, inferior às realidades inteligíveis. Só a razão é capaz de ultrapassar a opinião, atingindo o conhecimento (ἐπιστήμη) das coisas, sem tomar as aparências por verdades. Nesse sentido, a virtude da razão é a sabedoria (σοφία) (523 e ss.).
No final do livro V, encontramos mais elementos para pensar a distinção entre conhecimento e opinião. Platão afirma que a razão é uma capacidade ou poder (δύναμις) e, entre todas as capacidades, a que tem mais força (ἐρρωμένος) (477d). Aqui, δύναμις assume o sentido de capacidade ou poder de atingir o conhecimento – e não qualquer tipo de conhecimento, mas o do ser, isto é, da essência das coisas:
SÓCRATES: A ciência (ἐπιστήμη) sem dúvida que se aplica ao Ser (ἐπὶ τῷ ὄντι), a conhecê-lo no seu comportamento (τὸ ὂν γνῶναι ὡς ἔχει)?
GLAUCO: É.
SÓC.: E a opinião (δόξα), diremos nós, a julgar pelas aparências (δοξάζειν)? GLA.: Sim.
SÓC.: Mas conhece (γιγνώσκει) [a opinião] o mesmo que a ciência (ἐπιστήμη)? E pode a mesma coisa ser objecto de conhecimento (γνωστόν) e de opinião (δοξαστὸν)? Ou é impossível?
164 Respublica, 394d. Ibid., p. 118. 165
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GLA.: É impossível, em consequência dos princípios que estabelecemos. Se, na verdade, cada potência (δύναμις) tem o seu objecto, e se as duas – a opinião e a ciência (δόξα τε καὶ ἐπιστήμη) – são potências, sendo cada uma delas diversa, como afirmamos, daqui decorre que a mesma coisa não possa ser objecto de conhecimento e de opinião.166
A razão está acima da percepção sensível, portanto, justamente em função do tipo de conhecimento que ela é capaz de alcançar. Os sentidos levam a opiniões acerca do mundo sensível; a razão acessa o conhecimento verdadeiro sobre o ser ou essência das coisas – as Ideias. O conhecimento está associado, então, à estabilidade, imutabilidade e eternidade, em oposição à opinião, que se liga ao que é passageiro, contraditório e finito.
Como o comando é tarefa atribuída à parte racional da alma por natureza, a educação dos homens deve ser guiada no sentido de fortalecer essa capacidade, de forma que ela consiga dominar as outras duas partes. Os homens bem educados que conseguem alcançar essa “configuração” interna, isto é, a parte racional no governo da alma, são, segundo Platão, equilibrados e virtuosos. São os filósofos, que se guiam pela busca de conhecimento e, nas palavras de Sócrates, são: “... amadores do espectáculo da verdade (τοὺς τῆς ἀληθείας, ἦν δ’ἐγώ, φιλοθεάμονας)”167
. Na cidade, a parte racional corresponde à classe dos governantes, superior e responsável pelo comando das outras duas classes, dos guardiões e dos artesãos. Os governantes são responsáveis por conduzir a cidade porque são capazes de pensar no que é bom para todos os cidadãos, e não apenas para eles mesmos.