Partie I : La modification du Code de droit économique
Partie 2 : Réception de la règlementation nouvelle et potentiels défis
II. Le droit de la propriété intellectuelle
II.2. Les particularités du secteur pharmaceutique
Terrail, atualmente professor da Universidade de Versailles - Saint Quentin-en- Yvelines, na França, pesquisou o "êxito escolar" de 23 intelectuais de origem operária, estudantes universitários e profissionais, de ambos os sexos. Ser filho de operário e ter passado pela Universidade nos últimos 20 anos, foram os critérios básicos de escolha desses sujeitos. Utilizando-se da análise de histórias de vida, a investigação buscou compreender a dinâmica da transformação de filhos de operários em intelectuais, processo que o autor denominou de "histórias de trânsfugas".
Pressupondo que as escolaridades mais prolongadas entre os operários são minoritárias, perguntou-se como explicar os percursos mais longos nessas famílias. Mais precisamente, o que se passa nessas famílias, entre seus membros, na sua relação com a escola, que torna o sucesso possível? Quais famílias chegam a mobilizar recursos em tempo e dinheiro, capacidades de energia e inteligência a serviço da causa escolar? Há diferentes tipos de mobilização de recursos? Quando os filhos assumem a vanguarda do seu processo de escolarização, como vivem eles essa história? O que faz com que algumas famílias operárias elaborem projetos de escolarização para seus filhos? (p. 224)
Em relação à questão do "como se dão as trajetórias mais longas nas famílias operárias", os estudos de Terrail permitem avançar em dois planos. O primeiro plano refere-se aos tipos de relação dos pais com a trajetória escolar do filho. O segundo diz respeito aos investimentos do filho na sua própria escolarização.
Quanto aos sentidos que os pais atribuem ao sucesso escolar dos filhos e aos seus investimentos, o autor desenvolve a reflexão que se segue.
Para a elaboração de um projeto escolar para os filhos é necessário
“...conceber a possibilidade de enfrentar um longo período de dificuldades, poder inscrever esta possibilidade numa representação global do social e de seu próprio lugar no social. E dispor ainda de um sistema de valores que sustente o esforço a longo prazo e justifique a destinação prioritária ao empreendimento de recursos familiares em energia, tempo e dinheiro”(Terrrail, 1990, p. 225).
A lógica das relações das famílias com a escola é parte de uma lógica mais ampla que preside as suas relações com o seu pertencimento de classe e com a sociedade mais geral. No geral, uma escolaridade bem sucedida pode abrir três tipos de perspectivas: possibilitar uma vida material mais confortável, permitir escapar de uma posição social desvalorizada na sociedade, e ampliar possibilidades de escolha de vida, pelo acesso ao saber legítimo e aos prazeres culturais. No interior desse quadro geral, foram identificados três grupos diferenciados de famílias (A, B e C), conforme os significados atribuídos ao sucesso escolar dos filhos e as suas formas de investimento num projeto de escolarização prolongada. O que define cada grupo é a
existência de um "sentido dominante", uma vez que todos os significados apareceram em todos os grupos.
O grupo de famílias A caracteriza-se por uma visão de mundo que implica num isolamento em si, visando a sua desproletarização e para o quê todos os recursos materiais e morais são mobilizados. A tentativa de reconstrução de um patrimônio que a geração anterior possuía e que foi perdida; uma ignorância e rejeição da ação coletiva operária; uma forte integração religiosa que "permite outras referências para a identidade de classe recusada", são as principais características destas famílias. O "fechar-se para poder sair" (p.227) é a estratégia fundamental desse grupo para alcançar os seus objetivos de ascensão social.
As famílias do grupo B identificam-se pela busca de "apropriação do mundo" (p.228). São afiliadas a um tipo de movimento de esquerda. Seus ascendentes são sobretudo operários urbanos. Em pelo menos uma geração existiram tradições de "abertura", tanto em relação à comunidade de pertencimento (redes de solidariedade, por exemplo), quanto em relação ao mundo mais amplo (participação na vida política, cultural; capacidade de admitir e de se adaptar à mudança, à modernidade). Em cada família, um dos pais, pelo menos, carrega uma frustração por ter interrompido a sua escolarização. A energia que impulsiona a elaboração do projeto escolar nesse grupo não está sobretudo na valorização da família ("eu sou apenas um operário, mas meus filhos estudam") mas na afirmação das capacidades de classe ("eu sou operário e meus filhos estudam"). Suas estratégias situam-se num contexto de ampliação de horizontes: interesse pela história, economia, valorização da leitura. Acompanham e ajudam a vida escolar dos filhos, estabelecem contatos com os professores. Seus hábitos de luta e reivindicação facilitam os confrontos com a instituição escolar.
Os filhos das famílias do grupo C desenvolveram trajetórias excepcionais, no sentido de que estas aconteceram à margem de qualquer projeto familiar. A palavra de ordem "não leia, trabalhe" identifica esse grupo. Se a escola tem um sentido para esse grupo, ele está ligado com a questão da segurança: a aquisição de uma profissão, de um emprego estável (p.229). Diferencia-se do grupo anterior pela diversidade de origens sociais e também pelo fato de que o sucesso escolar geralmente ocorre com apenas um membro da fratria. Este sucesso se realiza "sem os pais ou mesmo contra eles", com suas "reticências ou franca oposição" (p.230).
“mesmo em caso de mobilização familiar intensa, o sucesso escolar na classe operária supõe que o desejo dos pais seja fortemente interiorizado pelo filho (Terrail, 1990. p.231). As estratégias de escolarização dos filhos refletem essa interiorização, mas também as contradições que decorrem do enfrentamento das dificuldades que surgem nos diferentes momentos das trajetórias. A mobilização do próprio filho é, portanto, condição do sucesso escolar qualquer que seja o tipo de família: A, B ou C. Em relação à participação do filho na sua própria escolarização, destacam-se dois pontos importantes.
O primeiro diz respeito ao problema da gênese do processo de auto-
determinação dos filhos ou de como estes, sem uma atenção familiar
verdadeiramemte sustentada, "vão se revelar admiravelmente obstinados a vencer" (p. 235). Segundo o autor, esse processo tem origem na infância e remonta, portanto, à escola primária. Esta disposição do filho se enraíza, por um lado, nas histórias particulares das relações com os pais e, por outro lado, "numa confrontação brutal com as diferenças de classe dolorosamente vividas" no processo de escolarização. Uma consciência de injustiça social nasce muito precocemente quando da convivência , por exemplo, com colegas cujos pais não são analfabetos como os seus. Nesta idade é "difícil não viver uma inferiorização de classe como um problema individual"(p.236). O sucesso escolar é vislumbrado como uma possibilidade de revanche.
O segundo ponto de destaque diz respeito às estratégias de sobrevivência no
sistema escolar. Logo após o primário, que se revelou como um momento de
regularidade e de relação de prazer com a escola, as dificuldades começam a aparecer. A um processo de repressão e desconstrução cultural que se inicia no 1º ciclo (5ª à 8ª séries), os alunos respondem com uma atitude de desvalorização, dissimulação e negação de sua origem social, nuanceadas conforme oriundos de famílias A, B ou C. Nesta idade o pertencimento de classe é ainda percebido como destino singular e não como fato social, principalmente nos casos das famílias A que desvalorizam sua condição operária: a vergonha das origens, o disfarce da profissão do pai, "uma espécie de dever-ser o tempo todo, em contradição com o que se é profundamente" (p.240). Situar-se do ponto de vista da escola é, portanto, condição para nela obter sucesso.
O 2º grau, ocasião em que a escolaridade torna-se de inteira responsabilidade do aluno, revela-se como momento de tomada de decisões, de crise aguda e de algumas transformações nas estratégias de sobrevivência no interior do sistema
escolar. O contato com um tipo de conhecimento que possibilita a compreensão da racionalidade do social ("uma razão de classe para fenômenos como o alcolismo paterno", por exemplo) convive com um distanciamento do universo familiar, percebido agora como limitado. Em alguns casos "há uma transformação da agressividade em reivindicação e a origem social torna-se possível de ser afirmada". Neste momento, para alunos oriundos das famílias do Grupo A, a estratégia é de busca de ruptura com o seu universo fechado, o que requer desenvolver novos modelos de sociabilidade e novas referências. Para famílias do Grupo B, o momento não é tanto de crise, mas de tomada de consciência. Não se instala nesse caso uma ruptura, mas uma continuidade com uma visão de mundo já conhecida, só que melhor articulada.
No geral (famílias A, B e C), a fase do secundário caracteriza-se pelo "duplo desejo de escapar à condição dos pais e de ser reconhecido por eles".