Neste tópico, refletiremos sobre a inserção de Stella do Patrocínio na instituição literária, levando em consideração duas prerrogativas da luta antimanicomial brasileira, ambas discutidas no capítulo 1. São elas: (1) a abertura de espaços para que os pacientes psiquiátricos pudessem ter suas falas levadas em consideração, sem que suas enunciações fossem entendidas como mero delírio; (2) as alianças da luta antimanicomial com outros movimentos sociais, como os de raça, gênero e classe. Como o falatório só pôde ser gravado graças à abertura manicomial na CJM – abertura que possibilitou a chegada das estagiárias Guagliardi e Ribeiro de Souza na Colônia – acredito que seja importante examinar Reino dos bichos e dos animais é o meu nome a partir das duas prerrogativas da luta antimanicomial citadas acima (a relevância da escuta dos pacientes e a aliança da reforma psiquiátrica com outros movimentos sociais).
Nesse contexto, discuto duas dissonâncias entre Reino dos bichos e dos animais é o meu nome e a luta antimanicomial brasileira. Parto da constatação de que o livro acabou se afastando da abertura dos tais canais de escuta dos pacientes psiquiátricos ao atribuir valoração poética do falatório
Quando eu tava sozinha, não conhecia nada, não conhecia ninguém... tem que contar minha vida toda pra você, né? Você tá interessada em saber da MINHA vida, né? (Conversa entre Stella do Patrocínio e Carla Guagliardi, gravada pela artista plástica durante o Projeto Oficina de Livre Criação artística. Colônia Juliano Moreira, Rio de Janeiro, 1986-1988. Acervo da artista).
de Stella do Patrocínio sem que esse falatório pudesse, de fato, ser um registro utilizado para apresentá-la. A segunda dissonância do livro em relação à luta antimanicomial é consequência da primeira, pelo fato de o livro desconsiderar justamente os debates propostos por Stella do Patrocínio em relação à sua raça, gênero e classe.
Desse modo, ao mesmo tempo em que Mosé percebe a necessidade de integrar Stella do Patrocínio, como já apontamos no tópico anterior, ela também retira a possibilidade de a autora se representar. Tomar o falatório como um material que auxiliaria a compreensão de seu percurso seria, de fato, não reificar a ideia de que seu discurso é inteiramente delirante e abriria espaço para que sua fala pudesse ser valorada como uma possibilidade de autorrepresentação. Isso seria possível concebendo uma escuta para o que Do Patrocínio tem a dizer – e, desse modo, dando continuidade às discussões que Mosé propõe a partir da constatação, como afirmou Ricardo Aquino no prefácio à obra, de que seu discurso é valioso, antes de tudo, pelo que diz.
Para citar um exemplo, lembro que as explicações fornecidas por Do Patrocínio sobre os motivos e as condições de sua internação não foram incluídas no prefácio de Mosé à obra. Dos quatro trechos reproduzidos a seguir, apenas o primeiro foi selecionado pela filósofa para integrar Reino dos bichos e dos animais é o meu nome (2001):
[...] na Rua Voluntários da Pátria, eu caí por cima do óculos e o óculos e eu ficamos no chão [...] aí veio uma dona, me botou pra dentro do Posto do Pronto Socorro perto da praia de Botafogo, e lá, eu dentro do Pronto Socorro, ela me aplicou uma injeção, me deu um remédio, me fez um eletrochoque, me mandou tomar um banho de chuveiro[...] e aí chamou uma ambulância, uma ambulância assistência e
disse: “carreguem ela”, mas não disse pra onde, “carreguem ela”, ela achou que tinha o direito de me governar na hora,né?, me viu sozinha, e Luiz não tava mais na hora que o óculos caiu, eu não sei pra onde ele foi [...] aí me trouxeram pra cá, mandou: “carreguem ela”, deu ordem, “carreguem ela”, na ambulância, “carreguem ela”, carregaram, me trouxeram pra cá como indigente, sem família, vim pra cá, estou aqui como indigente, sem ter família nenhuma, morando no hospital, estou aqui como indigente, sem ter ninguém por mim, sem ter família e morando no hospital. (VERSOS, REVERSOS, pensamentos e algo mais..., 1991, pp. 5-6 [grifos meus]).
Quem que trouxe você pra cá pra Colônia?
Foi quando a Ana, essa que tava na vigilância aqui (inaudível). Foi quando a Ana me descobriu que eu tava na rua com o Luiz. Eu nega preta criola, Luiz nego preto criolo ao meu lado, quando me abandonou um pouquinho pra ir no bar pra se alimentar e eu fiquei sem alimentação, ele sentou na cadeira e procurou mesa e tomou uma coca-cola, e comeu um pão de sal com salsicha e eu fiquei em pé lá no bar sem alimentação, e saí, ele também saiu eu perdi o óculos, ele ficou com o óculos, e era Botafogo, praia de Botafogo (Conversa entre Stella do Patrocínio e
Carla Guagliardi, gravada pela artista plástica durante o Projeto Oficina de Livre Criação artística. Colônia Juliano Moreira, Rio de Janeiro, 1986-1988. Acervo da
artista).
Eu sou Stella do Patrocínio Bem patrocinada.
Estou sentada numa cadeira
Pegada numa mesa nêga preta e criola E eu sou uma nêga preta e criola Que a Ana me disse.
(VERSOS, REVERSOS, PENSAMENTOS e algo mais..., 1991, p. 13). A Ana é minha coleguinha,
Não dorme na mesma cama e na mesma sessão que eu, não, Mas é minha coleguinha devido ao eletrochoque,
Ela me acompanhou no Pronto Socorro Transmitindo autoridade autoritária E fazendo parto quando eu nasci;
Me acompanhou de viagem, vim parar aqui, Ela veio me acompanhando na viagem
E está vivendo aqui no Pronto Socorro do Rio de Janeiro, Engenho de Dentro e São Paulo.
(VERSOS, REVERSOS, pensamentos e algo mais..., 1991, p. 39).
A figura de Ana aparece nos momentos em que Do Patrocínio conta como foi parar no manicômio. Aqui, Ana é retratada como a responsável por retirar Stella do Patrocínio das ruas: “Foi quando a Ana me descobriu que eu tava na rua com o Luiz. Eu nega preta criola, Luiz nego preto criolo ao meu lado”. Desse modo, Ana a encaminhou a uma unidade de pronto socorro e realizou a primeira descarga de eletrochoque em seu corpo. “Carreguem ela” são os comandos emitidos pela mesma pessoa que a chamou de “nega, preta e criola”, “transmitindo autoridade autoritária”. Stella do Patrocínio afirma que Ana achou que tinha o direito de governá-la ao vê-la sozinha na rua.
A figura de Ana aparece, pois, em vários momentos: quando Do Patrocínio fala de sua internação, do primeiro eletrochoque e também se refere a ela como uma coleguinha, mas podemos ver que a relação não é amistosa ou horizontalizada quando a autora prossegue dizendo que essa colega “transmite autoridade autoritária”. Do Patrocínio afirma que está internada no manicômio como indigente depois da intervenção de Ana, que a autora aponta como a responsável por sua institucionalização.
Como podemos perceber, esses trechos deixam evidente a relação entre raça, gênero e classe para a internação de Stella do Patrocínio.
Mesmo que a marcação racial de Stella do Patrocínio ganhe grande relevância para que ela explique sua internação, a apresentação de Mosé não nos permite refletir sobre a relação entre raça, gênero, classe e internação psiquiátrica do caso de Do Patrocínio, pois o aparato teórico de Viviane Mosé não parece ser suficiente para tratar das questões levantadas pela paciente que ela
insere no mercado literário. Para discutir o falatório, Mosé se apoia na obra de Friedrich Nietzsche. Com efeito, no prefácio à obra, a filósofa declara que a razão pretende “produzir um mundo de identidades e verdades, um mundo previsível e claro. Em consequência, tudo o que é escuro, imprevisto, móvel, múltiplo, é excluído, transposto para o lugar do erro, da ilusão, do mal” (Mosé, 2001, p. 22). Ela afirma ainda que, segundo Nietzsche, é nesse espaço de imprevisibilidade que a loucura e também a arte, muitas vezes, se inserem. Assim, sua proposta – e também a de Nietzsche – é “pensar o estatuto da razão e da linguagem, como instâncias de produção e sustentação do niilismo, que é a negação da vida, por ser a negação da dor, do tempo, da loucura e da morte” (Mosé, 2001, p. 23). Nietzsche não poderia tê-la ajudado a considerar (e não excluir) o discurso da loucura enunciado por Stella. Pois, sendo delírio ou não, esse discurso é legítimo e tem o seu valor, as suas verdades. Tenho consciência da importância da crítica de Nietzsche, inclusive porque ela é responsável em boa parte por todo o trabalho que Foucault fará depois em sua História da loucura (2014)122 e outros textos. Além disso, ao criticar a exclusão da loucura em nome da razão, Nietzsche torna possível, por exemplo, que critiquemos o discurso psiquiátrico que, em nome da razão, ignora o discurso do sujeito psiquiatrizado, não o escuta.
Entretanto, embora essa crítica seja também necessária para debatermos a loucura, ela explica pouco ou nada do perfil dos pacientes nas instituições públicas no Brasil pois, como vimos no capítulo 1, a maioria desses internos é negra e pobre, como Stella. Além disso, esse aparato teórico não permite que Mosé dialogue com a narrativa de Stella do Patrocínio sobre a sua própria internação; nessa narrativa, como podemos concluir facilmente a partir da leitura dos trechos citados acima, a poeta traça vínculos estreitos entre sua raça e seu gênero e seu confinamento involuntário no manicômio. Nesse sentido, a opção teórica de Viviane Mosé não é suficiente para incluir em sua leitura do falatório os processos sociais e econômicos que são fundamentais para compreender tanto a loucura, quanto como ela é gerida historicamente em instituições.
Desse modo, ao discutir a loucura, Viviane Mosé estabelece outros parâmetros de análise da loucura, bastante diferentes daqueles indicados por Do Patrocínio:
Ao excluir a loucura do discurso, o que a racionalidade clássica parece querer é não somente a exclusão, mas a eliminação mesma da loucura da face de nossa cultura, o que implica em eliminar tudo que seja desconhecimento, instabilidade, escuridão, representados na figura do louco (MOSÉ, 2001, p. 40).
Levando em consideração o discurso de Do Patrocínio sobre sua internação, diríamos que
a exclusão, nesse caso, não seria somente da loucura, mas, antes, do “nego, preto e criolo”. Considerando tanto o falatório quanto os debates que temos sobre o perfil dos internos no Brasil, é preciso, pois, entender que a própria concepção da loucura como algo construído, que não pode ser entendido de forma isolada de uma série de marcadores sociais (de raça, gênero, classe). Assim, o que Do Patrocínio pontua é o problema da loucura, não a eliminação da loucura da face de nossa cultura. Trata-se de outro projeto, embora ambos coexistam. Se, por um lado, a loucura é vista como algo a ser eliminado e “curado” – e a crítica a esse modo de concepção da loucura é necessária – por outro, o perfil das pessoas institucionalizadas em manicômios está sinalizando que a loucura não é um mero jogo de “racionalidade” versus “irracionalidade”, mas a própria concepção sobre o que é a loucura não pode ser entendida isoladamente desses marcadores sociais. Assim, é preciso que a realidade sócio-política seja levada em consideração, como já discutimos no capítulo 1 e também como expusemos no tópico 2.1, quando vimos o motivo de internação do artista plástico Raimundo Camillo123. O que esses exemplos nos mostram é que pensar a loucura confinada no Brasil exige o exame da nossa realidade sócio-política.
Assim, apresentar o livro desabonando o contexto de internação de Stella do Patrocínio – informado pela própria autora – e as suas reflexões a esse respeito acaba, a meu ver, por reforçar o processo de apagamento de sua história provocado pela instituição manicomial. Desse modo, a apresentação de Mosé invoca um tipo de neutralidade semelhante àquela da CJM quando traça a História do Paciente, inserindo a poeta no campo literário brasileiro sem questionar ou problematizar os motivos de sua exclusão.
Mas a questão racial não é absolutamente descartada em Reino dos bichos e dos animais é o meu nome. Como já dissemos, Viviane Mosé apresenta Stella do Patrocínio como uma mulher negra, ao diferenciá-la das outras internas. Retomemos a passagem:
Stela do Patrocínio chamou atenção por sua singularidade, naquele lugar uniforme. Parecia uma rainha, não se portando como as outras, que se aglomeravam, pedindo sempre. Diferenciava, em um silêncio agudo, a sua forma própria de se colocar no espaço. Impossível era não vê-la: negra, alta, com muita dignidade no porte, algumas vezes enrolada em um cobertor com o rosto e os braços pintados de branco124.
123 Tivemos que nos limitar nos exemplos dados naquele tópico, mas eles não faltam, mesmo voltando nossa análise
somente aos artistas plásticos. Temos Fernando Diniz, paciente no CPPII, artista encaminhado ao manicômio sob a alegação de estar nadando despido na praia de Copacabana. Também gostaria de lembrar de Adelina Gomes, internada aos 21 anos no CPPII, em 1937, chegando a morrer no local e deixando uma produção artística bastante extensa, somando 17 mil e 500 obras.
124 Ao perguntar a Carla Guagliardi se Stella do Patrocínio costumava “se pintar de branco”, percebi que a informação de
Viviane Mosé não é muito precisa: a poeta não coloria simplesmente sua pele negra com tinta branca, como faz parecer, mas fazia alguns desenhos no rosto e nos braços com a tinta.
(MOSÉ, 2001, p. 20).
O fator racial registrado pela filósofa aparece como uma característica física, uma categorização, não como uma questão social que aponta para uma operação institucional a ser investigada. Afirmar que se trata de uma autora negra não garante que esse perfil social esteja sendo devidamente entendido dentro dos mecanismos de estruturação dos manicômios.
Sua apresentação de Do Patrocínio se torna ainda problemática quando a filósofa afirma que Stella, ao conhecer “o pessoal do ateliê, tinha 45 anos e nenhum dente na boca” (ibidem, p. 21). Esse registro solto, do modo como é expresso na apresentação da obra, a aproxima a uma estética associada à condição de pobreza. Como sabemos, a extração dentária é, em muitos casos, a primeira medida dos dentistas que trabalham em serviços públicos de saúde, visando a redução de gastos para o Estado quando o tratamento é demasiado oneroso. Além disso, já discutimos sobre as condições de higiene das pacientes do NTB nas décadas de 1960 a 1980, que apenas tinham sabão para se lavar. Sendo assim, questiono-me sobre a relevância de um livro de poesia destacar que os dentes de uma poeta faltavam em sua boca.
Vale destacar, nesse contexto, que a própria Stella do Patrocínio contou sobre as extrações de seus dentes em suas conversas com Carla Guagliardi:
Dr. Silvio dentista. Que me agarrou pra... arrancar meus dente É?
É
Por quê?
Que achava que eu devia... arrancar dente. Me levou, quem me levou foi Adalberto, quem arrancou foi o Dr. Silvio. (Conversa entre Stella do Patrocínio e Carla Guagliardi, gravada pela artista plástica durante o Projeto Oficina de Livre Criação artística. Colônia Juliano Moreira, Rio de Janeiro, 1986-1988. Acervo da artista).
A documentação de algumas dessas extrações também está prontuários médicos de Stella do Patrocínio, arquivados no IMAS Juliano Moreira:
UNIDADE NÚCLEO TEIXEIRA BRANDÃO Estela Patrocínio
Enfermaria 2ª sec. Exame buco-dentário
[imagens com quadros dentários]
A paciente tem a fazer diversas extrações. Higiene em dentes restantes. As extrações foram dia 4/5/1982
22/5/1982 recusou 7/5/1984 extrações L45
(Dados do Prontuário n. 00694, IMASJM).
As suas extrações dentárias ocorreram, portanto, dentro do hospício devido à precariedade das condições de higiene oferecidas pelo NTB ao longo dos 30 anos de internação de Stella do Patrocínio. Até porque não ter dentes na boca remete à pobreza devido à precarização dos serviços públicos em saúde. A dificuldade de acesso a tratamentos e a condições básicas de higiene no manicômio são condições que acabam fazendo com que essas pessoas sofram consequências, como a necessidade de, em serviços públicos, extrair dentes.
Tanto a instituição manicomial, como vimos, quanto a literária, partem do pressuposto de ceder uma escuta a quem anteriormente tinha sua fala entendida como delírio. Interpreto a intenção de Mosé de reintegrar Stella do Patrocínio como uma possibilidade que ela abre para que os seus leitores cedam essa escuta sem, no entanto, que a filósofa tenha, de fato, realizado essa tarefa. A ausência dessa escuta pode ser comprovada, a meu ver, a partir da descrição de Stella sem “nenhum dente na boca” ou da falta de atenção dada à narrativa de Stella sobre a sua internação compulsória, relacionada à sua condição racial e ao seu gênero.
O problema da escuta pode ser identificado ainda na parte II de Reino dos bichos e dos animais é o meu nome, intitulada “Eu sou Stela do Patrocínio, bem patrocinada”. Nessa parte, Viviane Mosé insere o seguinte poema, atribuído a Stella do Patrocínio:
Nasci louca
Meus pais queriam que eu fosse louca Os normais tinham inveja de mim Que era louca
(MOSÉ, 2001, p. 68).
Como este trabalho vem defendendo, Stella do Patrocínio foi internada por ser “nega, preta e criola”. De acordo com o seu relato, ela “estava com saúde” e a adoeceram, tendo só então passado a viver no hospital como doente. Não há, pois, em seu falatório nenhum elogio à loucura, nenhuma afirmação dessa condição, com exceção desse poema transcrito logo acima, publicado em Reino dos bichos e dos animais é o meu nome. Essa fala, supostamente de Stella do Patrocínio, não foi localizada nos materiais coletados por mim, os quais constituem a mesma fonte de Viviane Mosé, como a filósofa admite no prefácio à obra: as quatro fitas das gravações realizadas por Carla Guagliardi e o livro de poemas, transcrito e editado por Mônica Ribeiro de Souza, intitulado VERSOS,
REVERSOS, PENSAMENTOS e algo mais... (1991). Será que essa fala foi mesmo enunciada por Stella? Qual será a sua fonte?
Em uma das fases de pesquisa, assisti a uma sequência de documentários sobre a Colônia Juliana Moreira. Um deles foi o curta-documentário de 38 minutos gravado na Colônia Juliana Moreira, intitulado “Stultifera Navis” (1987) e dirigido por Clodoaldo Lino. Ele reúne entrevistas com o filósofo e dramaturgo Carlos Henrique Escobar, com os psicanalistas Joel Birman e Jurandir Freire Costa, com o psiquiatra Pedro Gabriel Delgado e com internos na instituição, cujos nomes não aparecem. Um pouco antes da metade do curta (dos 15’45’’ aos 17’04’’), assistimos ao depoimento de uma mulher institucionalizada. Reproduzo a declaração parcialmente:
Nasci louca, sabe? Meus pais queria que eu vivesse louca assim mesmo, sabe? Meus pais queria que eu vivesse louca [...] elas tem inveja de mim, elas toda normalidade,
e eu louca e elas tem inveja de mim. Aí criava briga, né. Criava até briga. Os normais tinha inveja de uma louca, os normais tinha até inveja de mim que era louca”. [Grifo nosso].125
Portanto, a mulher que enunciou o poema presente no livro de Mosé é, possivelmente, essa paciente da CJM, entrevistada para um curta-documentário gravado no mesmo período em que acontecia o Projeto de Livre Criação Artística.
Figura 28. Paciente do Núcleo Teixeira Brandão em entrevista para o documentário
“Stultifera Navis” (1987).
Faz sentido que esse excerto não seja uma fala de Do Patrocínio, pois sempre que a autora
faz quaisquer afirmações sobre sua institucionalização, sua reflexão traz o adoecimento como um processo forçado pela instituição manicomial, que a categoriza como “doente mental”, como podemos perceber nas passagens já tantas vezes aqui transcritas.
De fato, ao analisar todo o falatório de Stella do Patrocínio a que tive acesso, pude notar que a poeta jamais se refere à loucura dessa maneira elogiosa, mas antes acusa uma loucura produzida em seu corpo, anteriormente sadio. Relembrando os trechos reproduzidos anteriormente, Do Patrocínio assinala que estava com saúde antes da internação e que a instituição a adoeceu e a manteve internada como doente; que os remédios a forçavam a ser “doente mental”. Essa colocação inclusive mostra um processo reflexivo da autora acerca dos saberes médico-clínicos e mesmo da instituição.
Stella do Patrocínio menciona diversas vezes esse adoecimento. Vejamos, por exemplo, no excerto abaixo, que compõe o capítulo “Stela por Stela”:
Você passa muito mal aqui?