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Echelle d'Epworth

VII. LES LIMITES DE L’ETUDE

Como vimos na conclusão ao primeiro capítulo, Simmel pagou um preço elevado por sua tentativa de incorporar à teoria da moeda um ponto de vista filosófico amplo e não especificamente relacionado a uma ou outra tradição teórica: a fragmentação de sua proposta teórica, limitações em sua recepção e, em consequência, uma relativa obscuridade. Se é verdade que as recentes abordagens de sociologia econômica da moeda, como as de Ingham ou Orléan, capturam aspectos daquilo a que Simmel se referia como o aspecto filosófico da questão monetária, também é razoável apontar a necessidade de uma preocupação unificadora ao tratar do esforço interdisciplinar atual.

Atentos ao fato de que perspectivas interdisciplinares tendem a abrir mais caminhos possíveis do que sugerir formas de construir propostas coesas e bem delimitadas, tracemos aqui algumas considerações prospectivas a respeito da possibilidade de compatibilizar o conjunto bastante variado de posições teóricas explorados ao longo desse trabalho. O objetivo dessa seção final é ir além das conexões apresentadas em outros capítulos e buscar esboçar uma visão geral sobre a natureza da moeda que seja ao mesmo tempo compatível com as contribuições de Simmel e Orléan e adequada às questões levantadas pela discussão sobre linguística e complexidade, fornecendo subsídios para o desenvolvimento de modelos de simulação baseados em agentes distribuídos que capturem os traços essenciais dessas perspectivas teóricas. Para realizar esse trabalho, consideraremos duas questões principais: primeiro, buscaremos estabelecer quais esforços já foram feitos na direção de compatibilizar as visões de Simmel e Orléan sobre a moeda a pontos de vista sensíveis à complexidade e à semiótica; em segundo lugar, traçaremos as linhas gerais de modelos de simulação que poderiam capturar as contribuições principais dos diversos pontos de vista explorados ao longo do trabalho.

Um primeiro passo intuitivo na direção de explorar a relação entre modelos que buscam capturar o fenômeno de emergência da moeda e os pontos de vista da teoria da complexidade seria contrastar as visões de Simmel e Menger. Como mais tarde Hayek, Menger coloca em primeiro plano a natureza espontânea da emergência da instituição monetária através da interação não direcionada de diversos agentes que apenas têm acesso a informação local. Nesse sentido, a escola austríaca é um candidato natural à compatibilização com visões informadas pela teoria da complexidade. Muitos aspectos do Filosofia da moeda, por sua vez, aproximam-

se dessa visão calcada em espontaneidade e auto-organização; como vimos no primeiro capítulo, conexões entre o ponto de vista de Simmel e a visão sobre processos institucionais de Menger e da escola austríaca foram apontadas por vários dos autores que buscam resgatar Simmel de forma a aproximá-lo da economia (Frisby, 2004; Laidler e Rowe, 1980).

Efetivamente, existem interpretações do trabalho de Simmel que buscam compreender o autor com base na perspectiva da auto-organização. Sem se referir diretamente à visão de sistemas complexos, Frankel (1977) ainda assim discute a visão de Simmel como uma em que o foco na individualidade e na relação de troca entre indivíduos permite uma compreensão da moeda semelhante à mengeriana, isto é, como uma instituição que emerge de forma não direcionada da interação entre diversos agentes (p. 24). Ao ressaltar o papel jogado pela noção de confiança em Simmel, Frankel resgata a análise de sistemas sociais complexos de Niklas Luhmann, buscando demonstrar a compatibilidade entre esses dois autores da tradição teórica continental. Em ambos os casos, a confiança deveria ser compreendida como uma forma de "reduzir complexidade e permitir comunicação social" face a ambientes de informação limitada; como um "misto de conhecimento e desconhecimento" que em última instância ultrapassa a capacidade dedutiva e informacional dos agentes (1970, p.38). A moeda, nesse sentido, se funda sobre a manutenção da confiança social, uma confiança que se direciona não apenas à própria moeda como também à regularidade do funcionamento do sistema econômico como um todo. A moeda representa, assim, uma institucionalização da confiança no funcionamento do sistema econômico, dependendo de uma "disposição reflexiva para aceitar ficções porque elas funcionam"; a liquidez, como resultado, passa a ser compreendida como uma forma de economizar informação (p. 38-39). Para os dois autores, ainda, como para alguns pós-keynesianos, a confiança social incorporada na moeda é a pré-condição da racionalidade econômica.

Em primeira análise, esse aspecto da leitura de Frankel está em acordo com as principais posições de Simmel e Orléan exploradas no presente trabalho, permitindo também uma aproximação com a visão de emergência distribuída da moeda. Observemos que, na análise de Frankel a respeito de confiança e incerteza, são justamente as limitações informacionais e cognitivas de agentes geograficamente localizados e sem acesso a qualquer visão totalizadora que resultam na emergência da confiança como um elemento central ao funcionamento do sistema econômico. A moeda aparece, aí, como uma forma de superar limitações informacionais e promover a conexão de diferentes partes do sistema. Essa visão, descrita em termos

informacionais por Hayek em sua própria teoria da moeda, pode ser considerada uma atualização da narrativa mengeriana e se presta naturalmente à abordagem bottom-up de simulação por agentes distribuídos.

Ainda na mesma direção de compatibilização entre Simmel e uma visão de sistemas complexos, Dietz (1997) aponta essas conexões com Luhmann e dá um passo além, ao afirmar que "a essência da abordagem de Simmel talvez possa ser melhor capturada ao compreendê-lo como um teórico da auto-organização da sociedade e da economia" (Dietz 1997, p. 108). Em linha semelhante a Frankel, e respondendo em certa medida à sugestão de Laidler e Rowe, o autor defende que em Simmel a origem das instituições é endogeneizada, o que permite a construção de uma visão sistêmica no âmbito da qual "sujeitos e objetos, ou indivíduos e seus ambientes definem as condições de origem uns dos outros" (p. 123), formando um padrão evolucionário de originação mútua "típico de todo sistema autogenerativo" (p. 123). Segundo Dietz, Simmel usa essa perspectiva na compreensão da emergência da moeda, partindo da troca como o elemento básico de interação para construir um paradigma sistêmico em que a análise passa a se centrar na compreensão da morfologia do sistema emergente (p. 131) – isto é, nas suas instituições. Como resultado, o mercado passa a ser visto não como um mecanismo de arbitragem que compatibiliza preferências e recursos, mas como um sistema dinâmico que "gera e hierarquiza realidades ". A moeda, nesse contexto, se torna o meio de socialização, de forma análoga ao sistema nervoso ou circulatório de um organismo. Nesse sentido, para Dietz, Simmel e Hayek estariam de acordo nas questões centrais a respeito da moeda.

Essa compatibilidade entre Simmel e visões sensíveis a propriedades sistêmicas também pode ser estendida ao trabalho de Orléan, que representa apenas um entre diversos autores preocupados com a abordagem interdisciplinar para o estudo da moeda na fronteira entre sociologia e economia. Em meio às conexões estabelecidas entre Simmel e Orléan que destacamos durante o texto, sobressaem-se aquelas referentes a uma dimensão teórica objetiva/intersubjetiva/institucional no estudo de sistemas sociais e à busca por contextualizar o pensamento econômico em relação a pontos de vista externos a ele, seja pela via ou filosófica ou interdisciplinar. Conforme apontamos na discussão sobre a dimensão sociológica do trabalho de Orléan, a sociologia econômica da moeda demonstra grande preocupação com essa dimensão institucional, que pode ser tratada do ponto de vista semiótico. Em paralelo à discussão da dimensão sociológica, contundo, também fizemos um esforço preliminar de estender algumas das ideias de Orléan ao modelo de Schelling para construir simulações

bastante simplificadas via agentes distribuídos geograficamente, e observamos como esses modelos manifestam formas incipientes de emergência e auto-organização. Orléan, assim, mostra-se um autor que se coloca entre a dimensão filosófica, a semiótica e o ponto de vista da complexidade sistêmica. Na verdade, como indicamos anteriormente, esforços interdisciplinares relacionados ao de Orléan já apontaram possíveis conexões com a visão sistêmica, reveladas na proximidade entre o trabalho de Orléan, Aglietta e Dupuy, bem como no histórico de colaboração de Orléan e Girard com pensadores que foram referências importantes na abordagem de sistemas complexos, como Francisco Varela (Dupuy e Varela, 1992). Ao explorar mais profundamente as relações entre Orléan, Simmel e complexidade, assim, caberia investigar em maior detalhe alguns dos diálogos estabelecidos entre a visão convencionalista e a escola francesa da regulação, um movimento intelectual que também faz referência direta à teoria de sistemas complexos. Contrastar as contribuições paralelas da escola da regulação e dos trabalhos do Santa Fe Institute também poderia se provar um projeto de pesquisa relevante.

Essas análises reforçam as tese de que é produtivo interpretar as propostas de Simmel e de Orléan a partir da perspectiva de sistemas complexos. Sendo isso verdade, podemos também sugerir que ainda há bastante espaço para o desenvolvimento de modelos de emergência e operação da moeda baseados numa abordagem de simulação via agentes distribuídos dedicada a capturar o fenômeno da moeda enquanto propriedade emergente. A proposta de Gintis (2010) demonstra ser possível construir modelos plausíveis de emergência da moeda que dêem conta da narrativa de origem mengeriana. Nesse sentido, uma análise de auto-organização baseada em agentes caracterizados por acesso limitado a informação se provaria compatível com certos aspectos da visão de Simmel e de Orléan e se prestaria sem dificuldades à modelagem da emergência de uma moeda com o caráter de transmissor de informação sistêmica para além do alcance de cada indivíduo. Essas são propriedades, ainda, que se pode esperar observar em modelos de simulação de emergência da moeda.

Por outro lado, se é verdade que há elementos no Filosofia da Moeda e no trabalho de Orléan para justificar essa aproximação à escola austríaca e à teoria da complexidade, acreditamos também que essa apropriação corra o risco de abrir mão de certos aspectos relevantes do trabalho dos autores – aspectos que permitem compreender as dificuldades de recepção de Simmel pela economia, a crítica de Orléan à visão mengeriana da moeda, e possivelmente o julgamento negativo demonstrado por Menger em relação ao Filosofia.