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Les limites d’une « mobilisation improbable »

Dans le document The DART-Europe E-theses Portal (Page 73-88)

B. L’engagement communautaire dans la lutte contre la précarité

2. Les limites d’une « mobilisation improbable »

Nas lembranças de Daniel, 47 anos, que residiu na Avenida Carlos Gomes até 1999, de João, 56 anos, ainda residente, e as narrativas de uma transformista, Beata Strong45, sobre as pessoas da noite, suas expressividades e os objetos do seu vestuário, sobressai a circulação de objetos e pessoas conforme a cultura da rua. Neste tópico, a partir dos objetos entendidos como ponto de interseção entre corpo e rua, argumentarei sobre uma cofabricação de pessoas e objetos, enredados em conformidade com os modos de ser e estar na Carlos Gomes.

Conheci João, um professor de escolas pública estadual de Salvador, no Beco da Baiuca, que conecta a Avenida Carlos Gomes ao Largo 2 de Julho. Trata-se de um adro estreito entre dois altos edifícios residenciais, onde funcionam alguns bares. João mora num desses edifícios; costuma descer, sentar para tomar umas cervejinhas e conversar. Foi num dos meus encontros com Beata Strong para nossas conversas-entrevistas, na Baiuca, que o encontrei, lamentando sobre o deserto que a Avenida Carlos Gomes havia se tornado. Após escutar os lamentos de João, lembrei e fui em busca das histórias de Daniel que conheci em 2000 em um cursinho pré-vestibular. Daniel, hoje, mora no Rio de Janeiro, após aprovação em concurso público para um banco federal. Ex-morador da CG, repetidas vezes falava sobre seu ir-e-vir pela rua, e a pujante movimentação do passado. Há um contraste entre as narrativas de João e Daniel: o tom de lamento por sua vida estagnada e sem grandes emoções, como a rua deserta, para João, e o frenesi de Daniel que conta sobre o passado da CG. Daniel costumava passar longos períodos em seu apartamento, dado que morava com seu companheiro de uma relação de longos 9 anos. Mesmo sentindo que passava longo tempo no apartamento, Daniel tem muitas histórias de caminhadas pela CG à noite, quando voltava do seu trabalho, no entanto não

45 Que segue fazendo sucesso na cena transformista de Salvador, especialmente no Bar Âncora do Marujo, inaugurado em 2000.

era usual que ele frequentasse a rua para se entreter. Ao falar das pessoas pela rua, suas roupas e comportamentos, ele usa um tom vibrante para descrevê-las, isso porque gostava da segurança de poder ir e vir que a suas presenças lhe garantia. Em ambos os casos, ao falar da Carlos Gomes, eles se referem sempre a sua noite cheia de pessoas LGBT que se entretinham nos bares, entre prostitutas, garotas de programas e moleques. Eles usam esse passado para contrastar com o presente de insegurança, por estar deserta. É nela que Beata Strong relata seus encontros com meninos de rua, ora apresentando-os como moleques, ora como ladrões. Essa distinção é feita a partir de um conhecimento tácito de uma vida experiente na CG.

As “pessoas da noite”, para Daniel, são travestis, transformistas, trabalhadoras e trabalhadores do comércio formal ou informal (trabalhando ou entretendo-se), meninos de rua; todos são habitantes da noite da Carlos Gomes. Quando saia ou chegava em casa, à noite, a presença das pessoas da noite lhe indicava que a “[...] barra estava limpa: a gente podia caminhar sem medo, mesmo tarde da noite, chegando ou saindo [...]. Quando as pessoas da noite estavam na rua, não tinha perigo de ladrão [e] nem de batida policial”. A presença das pessoas da noite com suas roupas, maquiagens, penteados, vozes, modos de habitar a rua, informavam a Daniel um sentido de segurança.

Beta e Daniel fazem referência aos meninos de rua, dividindo-os em dois grupos: moleques e ladrões. Tomando as falas de Beata, podemos dizer que moleque é um termo genérico para jovens homens cis com expressividade de gênero hegemônica, ou seja, tanto um menino de camada média, caminhando pela CG, quanto um menino de rua podem ser um moleque. A distinção fica a cargo das roupas sujas ou limpas, sapatos velhos ou com aspecto de novo, bem como uma expressão de corpo que venha ou não a lhe despertar um estado de alerta. Desta forma, é a concretude dos elementos que possibilitará a distinção, só no caminhar e ao encontrar ao acaso se poderá saber se é um moleque ou um ladrão. Daniel não faz nenhuma referência a moleques lhe despertando algum desejo. Ele utiliza o termo moleque somente para distinguir os meninos de rua dos ladrões, quando se refere a suas estratégias de morador para saber se a barra estava limpa e podia sair com tranquilidade.

Quanto mais as travestis e as garotas de programa estavam na rua, mais um menino desse, era só um molequinho... eu já sabia que não iam fazer nada... [...]. Tinha as batidas policiais também: quando elas [travestis e garotas de programa] estavam pela rua, eu já sabia que não tinha esse perigo (Daniel).

Em suas narrativas, profissionais da noite, como travestis e garotas de programa, estavam em condição de igualdade aos meninos de rua que por ali perambulavam. Passar por um dos moleques ainda que sujo, com roupas puídas, sapatos velhos ou descalços, era percebido como um “menino de rua” e mantinha a segurança para caminhar. Era a ausência das “pessoas da noite” que punha Daniel em estado de alerta: ladrões e/ou batidas policias circundavam a “área”.

A rua estava em ordem quando as feminilidades das travestis e das prostitutas se impõe ocupando as ruas através de sonoridades de voz e gestuais de corpo. A presença delas faz do menino de rua, um moleque; e suas ausências os transformam em ladrão. Por seu turno, esta presença remonta à ausência da polícia militar e de ladrões pela rua. Tudo o que faz Daniel julgar a rua segura é o que enreda todos os outros personagens na cena da rua e produz o seu sentimento de segurança e o permite caminhar com altivez por ela. João também se referiu à sonoridade da voz das travestis pela Carlos Gomes, apontando o mesmo sentimento de segurança que a presença, ainda que distante, das pessoas da noite, produziam nele: “Uma vez, eu estava saindo da [Estação da] Lapa, peguei em direção à [Praça da] Piedade e ali no [Banco] Itaú, quebrei para a CG. Eu ouvi de longe aquele pega para capar: duas travestis e uma menina [prostituta] estavam quebrando o pau [brigando]. Ai, eu já sabia: tá tudo bem!” (João). João aponta para a voz que, de longe, identificou como sendo de duas travestis brigando, mimetizando o gestual do corpo delas. Ao gestualizar demonstra que, ter escutado de longe o tom de voz próprio das travestis lhe suscitou uma expressividade dos corpos que estão adiante, derramados, pela rua tecendo uma tal segurança. O gestual das travestis à distância alcançava o corpo fechativo de João que se expressava também através de movimentos de mão: ou seja, nutrido da voz das travestis ele podia fechar como se fossem pessoas tão fechativas quanto ele pela rua. A segurança de Daniel e de João estão relacionadas à presença de pessoas cuja expressividade e sonoridade estão postas pela rua, fabricando-a segura tal qual o sentimento que depende dessas pessoas e seus objetos também em fluxo pela rua. Para falar desse encontro de pessoas e objetos pelas ruas, Ingold (2010) utiliza uma noção de emaranhado. As pessoas e seus objetos estão fluindo e, ao acaso do encontro, participam das interações que fabricam a rua, as pessoas e as coisas, promovendo comportamentos, percepções e interações. Pensar as narrativas de Daniel e João em função do emaranhado de Ingold (2010) nos auxilia preservar a dimensão de ocasião em suas narrativas de encontros que dependem das pessoas da noite, de suas expressividades e objetos para me

fazer compreender os seus sentimentos de segurança correlato ao que era próprio da Avenida Carlos Gomes no passado em contraste com seu presente deserto, sem pessoas. A segurança da rua é definida por Daniel e João pela presença das pessoas da noite, que até aqui foram profissionais do sexo. Ao passo que Daniel apenas indicou a presença de trabalhadores e frequentadores em busca de entretenimento, João apontou para um jovem com roupas customizadas com cortes caseiros, que transformava uma camisa de manga numa camiseta de gola canoa, anexando-lhe mais sentidos de gênero. Ao apontar para o jovem, João pretendeu contrastar o estilo de fechação de um jovem do presente, amplificado pelo uso de roupas, com a fechação do passado e dizer que mesmo aquele jovem fechativo com suas roupas customizadas estaria protegida na Carlos Gomes de outrora.

Antigamente, essa rua ficava cheia de gente: tinha de tudo: travesti, puta, viado... tinha os bofes. Era tanta gente que não fazia medo você andar por aí ou sentar numa mesa na frente de qualquer bar desse. Hoje, está assim: esse vazio... tem gente aqui [no Beco da Baiuca], ali no Âncora e uns ladrões por aí. [...] Não era uns viados duros, homens, não, era bichinha... naquela época era mais roupa de marca e voz de viadinho... não era como esses meninos aí, com essas roupas, cabelo... [olhando para o jovem próximo à nossa mesa]. (João)

Com isso, João ampliou os estilos de corpos pela Carlos Gomes que povoavam a rua. Jovens fechativos compunham o espectro de expressividades e vozes LGBT que produziam a segurança da rua. Nesse trecho, João aponta ainda a transformação da rua que passou de segura para insegura, como também a amplificação de objetos – a roupa desfeita de um gênero para fazer o corpo fechativo do jovem ao nosso lado. Na narrativa de João, mesmo um jovem fechativo do presente estaria em condições de caminhar com segurança pela CG de início dos anos 2000. É possível inferir que mais corpos, com outras marcas de gênero, contribuiria para fazer sua segurança. Observe como o exercício de imaginação de João vai em busca da camisa que fazia o corpo fechativo de um jovem na Baiuca e o inscreve numa teia de objetos que estavam transitando com as pessoas, aproximando o passado e o presente da CG. O exercício de imaginação de João, a despeito de uma ficção criada, é significativo à medida que me fazia compreender a rua em função dos objetos que fazem o corpo das pessoas LGBT e vice-versa. Aqui corpo e espaço estavam mutuamente tecendo a rua cuja noite era conhecida por ser das diversas pessoas com comportamento e gêneros que divergiam do ideal normativo.

Por outro lado, ele marcou a estranheza daquele jovem com suas roupas customizadas em relação aos objetos de jovens fechativos do passado. Ao contrastar expressões de juventude – aquele ao nosso lado em referência ao seu modelo ideal de bicha fechativa do passado – ele tomou uma camisa cujo recorte caseiro e popular auxiliava na produção de fechação no presente as “roupas de marca” das bichas fechativas do passado. Adiante, a partir da experiência de Fábio, perceberemos como ao indicar “roupa de marca”, João tinha em mente jovens que produziam o corpo fechativo em função do gênero das roupas como fabricados, além do penteado e de pequenas porções de maquiagem.

Sem as roupas e objetos que fabricam as travestis, prostitutas, moleques e gays fechativos, a CG converte-se em rua perigosa. Ao narrar as ruas das noites dos dias de semana, de segunda a quinta-feira, quando a CG era mais vazia, Daniel apelou para a diferença entre moleques e ladrões, indo ao encontro da experiência de Beata Strong. As noites dos dias úteis, no passado, eram mais vazias e mais próximas das ruas desertas do presente: “Quando as travestis não estavam na rua, eu já caminhava atento [...]. Passava um menino eu ficava alerta se era um ladrão” (Daniel). “Menino” é um termo usado por Daniel como estrutura abstrata de um corpo identificável através da malha composta pelo trânsito de pessoas, objetos e expressões que teciam os sentidos da rua. Diante da presença de travestis e prostitutas, um menino de rua era um moleque; sem elas, poderia ser um ladrão. A própria narrativa de Daniel que ao descrever as noites a partir da quinta-feira até o fim de semana muda. Ao se referir ao fim da semana, imediatamente, o menino de rua é chamado de moleque; ao descrever as ruas vazias dos dias úteis, Daniel já ficava alerta para ver se os meninos na rua eram ladrões. O que produz o moleque e o ladrão é inenarrável para Daniel: “[...] o jeito dos meninos já dizia... também se a rua estava mais vazia era sinal da polícia pela rua, como eu disse [...]”. Seguir pela narrativa de Daniel, apenas sublinha a relação entre a quantidade de pessoas pela rua e a tecedura que distribui o sentido de segurança pela malha de relações entre pessoas e objetos. No passado ou no presente, sem a quantidade de pessoas e a diversidade de objetos utilizados, a rua é insegura, promovendo insegurança em Daniel e fazendo ele desconfiar dos meninos de rua que encontra em seu caminho.

Agora, com suas ruas desertas, a Carlos Gomes é identificada pelo perigo e, ainda, por ser lugar de travestis, transformistas e pessoas LGBT que frequentam o bar Âncora do Marujo, o Bar da Rai e o Beco da Baiuca. Apesar dos lugares e bares citados serem como ilhas, abrigando pessoas LGBT, a noite da Carlos Gomes ainda é conhecida pela

presença delas, pela prostituição e, agora, pelos ladrões, em referência à extensão deserta da rua. É justamente nessa extensão de rua que Beata Strong, eventualmente, cruza com os meninos de rua e seus sapatos, objetos cujo estado – sujo ou limpo – a auxilia a definir se está diante de um moleque ou um ladrão. Diferente das narrativas sobre o passado, agora todas as noites, de domingo a sábado, são perigosas e a presença de travestis e prostitutas, já não é mais mencionada como correlato de segurança. Mas os moleques e ladrões seguem como personagens da noite da Carlos Gomes e com o mesmo sentido cambaleante de outrora.

Os moleques são para Beata, e alguns outros atores transformistas que apresentam seus shows de dublagem no Âncora do Marujo, pessoas com quem mantêm relações sexuais e, eventualmente, convertem-se em histórias que animam as conversas com os clientes mais assíduos do bar, entre eles o pesquisador. Numa dessas narrativas, o moleque era “direitinho”: “[...] estava com um sapato velho, mas estava limpo como a roupa, que também era bem usada [desgastada], mas você via que ele era direitinho” (Beata).

Por volta de 20h30, de uma quarta-feira, Beata caminhava entre o Beco da Baiuca e o Âncora do Marujo, quando um moleque a abordou: “que mulher gostosa! Uma dessa, eu comia a bocetinha toda!”. Beata me contou isso com um sorriso de canto de boca, e um tom de quem havia se deliciado com um moleque, num canto de rua. As histórias de Beata eram bem conhecidas e costumava animar nossas noites, daqueles que chegávamos mais cedo, no Âncora [do Marujo] [...]. (DIÁRIO DE CAMPO)

A materialidade do sapato conta na fabricação do moleque justamente por ser direitinho, que se refere a ambos: sapato e pessoa. O sapato apesar de puído refletia um investimento de cuidado, o menino é, portanto, um moleque e ela pode envolver-se sexualmente. O sapato puído percorreu caminhos, perdendo as cores dos materiais fabricados com ele, até que na CG opere como um objeto que ponha em relação os meninos com outros frequentadores da rua. Neste momento do encontro na CG, o sapato com a qualidade de seus materiais, fazem do menino, moleque ou ladrão. O sapato sujo e esgarçado é definidor do menino de rua. Se o sapato é velho, mas seu aspecto reflete um engajamento de cuidado com ele, isso converte o menino em moleque. O menino ao caminhar com um sapato esgarçado, sem cuidado, pode ser um ladrão, o que desperta um alerta em Beata. O sapato tal qual as roupas, as vozes e as expressividades está emaranhado com a rua e os corpos dos transeuntes. O sapado dos meninos de rua é,

também, definidor das pessoas da noite: aquelas capazes de usar o sapato como mediador de relação para, com segurança, envolver-se com os meninos (neste caso, moleques) indicam o conhecimento que têm dos modos de ser e estar pela CG. João, ao tomar os objetos que faziam o jovem fechativo do presente como mais uma expressividade de gênero que estaria segura na CG do passado, o fazia por ser uma dessas pessoas da noite, habitantes da CG e experiente na cultura do lugar.

A sujeira é um dos elementos que compõe a reunião entre o corpo, estética da roupa e o gestual expressivo de uma masculinidade hegemônica, bem como o uso de vocabulário e ritmo de uma linguagem de quem mora ou passa longos períodos na rua. Anteriormente, Daniel se referiu a um menino de rua como um ladrão, por ter “um jeito que já diz tudo”. A sujeira pelo corpo ou pelo vestuário e sapato são parte desse “jeito que já diz tudo”, cuja expressividade corporal era sutilmente imitada por Daniel ao movimentar o braço para baixo com o dedo em riste, um gesto próprio do hip hop, uma expressão artística da rua. Também a voz de Daniel foi reorganizada para indicar um modelo de masculinidade, ao usar um tom e ritmo que não é dele (de Daniel), mas de quem ele está falando: os meninos másculos que falam por gírias. Para Daniel, a rua vazia lhe informa, imediatamente, a ausência de travestis, prostitutas e moleques; ao tempo em que indica o perigo de encontrar pelo caminho com ladrões ou policiais. De maneira análoga, Beata mede a masculinidade viril dos meninos de rua pelo envolvimento cuidadoso com o sapato, esse elemento de cuidado com o objeto lhe dá indício de que o menino é um moleque: “[...] Esses meninos tem uma coisa com o tênis. Ele estava com o sapato na mão porque tinha chovido muito. Ele não estava nem ai para o que tinha na água, queria proteger o sapato... isso é coisa de bofe [...]”.

Beata observa que a dedicação tida como de homens heterossexuais com masculinidade hegemônica de cuidar/lavar de sapato frisa a expressividade máscula e do “bofe”, convertendo o menino em moleque e inspirando-lhe proteção e segurança. Então, proteção refere-se ao envolvimento sexual e segurança a presença que reflete a situação da rua. Mesmo sendo “gostosinhos”, Daniel não demonstra desejo pelos meninos de rua, mas ao imitar suas expressões e vozes, bem como ao defini-los como “só um molequinho”, ele está operando como Beata.

“Meninos de rua”, “moleque”, “ladrões”, “travestis”, “bicha [fechativa]”, “moradores da CG”; tênis, roupas, cabelos, maquiagens, adereços e sujeira são elementos que entram no fluxo, em trânsito pela rua e que ao acaso de um encontro se reúnem, fabricando as diversas coisas, bem como as pessoas. “A coisa, por sua vez, é um

‘acontecer’, ou melhor, um lugar onde vários aconteceres se entrelaçam. Observar uma coisa não é ser trancado do lado de fora, mas ser convidado para a reunião” (INGOLD, 2012, p. 29). A reunião para Ingold (2012) remonta a este encontro entre pessoas, objetos e materiais que deixaram um rastro, desenharam uma linha até aquele momento. Seguir essas linhas que se emaranham no encontro e fazem pessoas e coisas, é uma maneira de compreender como as pessoas e as coisas aparecem no encontro, bem como os sentidos que o fluxo promove e na reunião ganha contornos, sentidos e promovem modulam a interação. Observar, portanto, é estar reunido posicionado desde dentro, envolvido, emaranhado, para então percorrer os percursos feitos até ali e poder compreender o acontecimento do encontro. Desta forma, o sapato que foi cuidado e está direitinho faz o menino de rua direitinho e, portanto, um moleque da CG; O sapato descuidado faz o menino de rua relapso e a possibilidade do ladrão, da violência naquela rua, acionando o comportamento cuidadoso das pessoas da noite. Daniel não entende o menino de rua como “essência revelada”, mas está observando e caminhando por uma rua que lhe afeta por ter, mais ou menos, transeuntes. Só descrevendo as coisas que se reúnem numa caminhada é que Daniel e Beata podem narrar o que é a CG e suas personagens. A noção de coisa evita o sentido último de encerramento, objetificação, identidade, realização finalista que contém o termo objeto, o que também é familiar a Butler (2008) e Gumbrecht (2010). Ao falar de uma rua cheia de objetos que entre o passado de Daniel, como morador da CG, e o presente de Beata e os moleques de seus desejos, as coisas continuam fluindo

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