Em geral, a partir das tirinhas de Aline analisadas aqui, torna-se evidente que a oposição semântica fundamental que está em jogo na caracterização tanto do éthos feminino quanto do masculino é entre liberdade e repressão. Desde a primeira tirinha, quando Aline não se deixa manipular por Otto e propõe que o novo colega de apartamento seja “hermafrodita”; a segunda, quando ela prefere fazer um “teste do sofá” em vez de um “teste de QI”; a terceira, quando Otto e Pedro são qualificados como “monstros” ao declararem o seu amor por Aline, uma vez que a protagonista está interessada mesmo principalmente em sexo; a quarta, em que Linda quebra o estereótipo de que “mulher que tira foto nua é burra”; até a quinta, quando a relação poligâmica de Aline, Otto e Pedro faz a vizinha desmaiar, o que está em jogo é a euforização da liberdade e a disforização da repressão, de onde surge o tom de crítica humorística à moralidade conservadora. Desse modo, os valores libertários eufóricos relacionados às pulsões sexuais, ao predomínio da emoção sobre a razão, do sensível sobre o inteligível, são estendidos para o éthos feminino. Quando ocorre no enunciado alguma exceção em que a mulher representa os valores ligados à repressão, geralmente ela é disforizada, como a vizinha de Aline. O éthos masculino, por sua vez, também é euforizado quando está do lado dos valores libertários, é o que acontece, por exemplo, quando a “falha” de Pedro e Otto na cama é encenada como um direito à liberdade do homem de “brochar”, ao passo que o estereótipo do macho infalível é ridicularizado. Já, na última tirinha, o único éthos masculino euforizado é o do “pai” que aceita a nudez e a homossexualidade de forma liberal, sentindo “orgulho” de seu “filho” por posar para uma revista gay, enquanto o éthos homofóbico, violento e repressor dos outros “pais” é disforizado.
Assim, instaura-se uma tensividade de correlação inversa entre liberdade e repressão, na qual o aumento da força de uma implica o decréscimo da força da outra. De acordo com Zilberberg (2012), o esquema tensivo é formado por dois eixos: um eixo vertical da intensidade e um eixo horizontal da extensidade. O primeiro é dividido entre a tonicidade, que
pode ser átona ou tônica, e o andamento, que pode ser lento ou rápido. O segundo, por sua vez, subdivide-se entre a temporalidade, que pode ser abreviada ou alongada, e a espacialidade, que pode ser concentrada ou expandida. Projetados no esquema tensivo, os valores libertários eufóricos ocupam o eixo da intensidade, ao passo que os valores repressivos disfóricos se encaixam no eixo da extensidade. Portanto, quando a tonicidade e o andamento da liberdade aumentam, prevalece nos éthe da mulher e do homem a sensibilidade dos “estados da alma”. Todavia, quando a temporalidade e a espacialidade da repressão aumentam, predomina nos éthe feminino e masculino a inteligibilidade do “estado de coisas”. Isso explica, por exemplo, o contraste entre o éthos de Aline e o de sua vizinha: visto que os valores libertários são mais fortes em Aline, predomina nela um viés sensível de observação do mundo (DISCINI, 2015), e assim as pulsões sexuais podem aflorar e culminar em uma relação poligâmica com Otto e Pedro, relação essa que é sancionada negativamente pela vizinha, já que nela predominam os valores repressivos ligados a uma observação inteligível e judicativa do mundo.
O éthos feminino conotado para Aline geralmente é o da mulher que vive de acordo com o próprio desejo e a liberdade sexual, desconstruindo assim o estereótipo segundo o qual a mulher é inerentemente romântica e recatada. Já o éthos masculino conotado para Otto e Pedro é o do homem que declara abertamente o seu amor (mesmo sabendo que a parceira não se importa com isso, feito Aline), admite que brocha e posa nu para uma revista gay, bem diferente, portanto, do estereótipo segundo o qual os homens só pensam em sexo, possuem uma competência modal ilimitada na cama e evitam qualquer relação com o mundo gay. Construindo-se em oposição aos estereótipos culturais, as imagens femininas e masculinas dos atores do enunciado são ao mesmo tempo responsáveis por trazer para dentro da história em quadrinhos o interdiscurso social a respeito dos gêneros, de modo que a transcendência histórica possa assim ser alcançada a partir da imanência semiótica do texto (DISCINI, 2009). O interdiscurso, aliás, é essencial no enunciado, pois ele é o alvo do humor das tirinhas. De acordo com Perelman e Olbrechts-Tyteca (1996, p. 233), “o ridículo é aquilo que merece ser sancionado pelo riso”. Ora, em Aline, aquilo que é ridicularizado são justamente os estereótipos de gênero engendrados no interior do interdiscurso social. Ao exercer o poder iconoclasta de seu riso contra tais estereótipos, o enunciador também acaba conotando para si mesmo um éthos específico, marcado pela etização dominante e a estetização recessiva, o que configura em última instância o papel aspectual do sujeito que tem um perfil judicativo de observação do mundo (DISCINI, 2015). Logo, enquanto elemento típico do gênero textual da história em quadrinhos, o humor do enunciador serve em Aline não só para ridicularizar os
valores repressivos estereotipados a respeito dos papéis de gênero e sexualidade, mas também para tentar manipular o enunciatário a entrar em conjunção com valores libertários que possibilitem renovar as imagens da mulher e do homem em sociedade.
5 O LOOK DE LAERTE: QUESTIONANDO A FABRICAÇÃO ESTEREOTIPADA DA IDENTIDADE VISUAL DE GÊNERO
Laerte Coutinho, nascida27 em 1951, é uma artista brasileira que trabalhou como jornalista e desenhista de quadrinhos, tirinhas, cartuns e charges nas revistas Sibila, Balão (com Luiz Gê), Banas, Placar, Ovelha Negra, O Pasquim (com Angeli e Glauco), Chiclete
com Banana (com Angeli), Geraldão (com Glauco), Circo (com Luiz Gê) e Piratas do Tietê,
bem como nos jornais Gazeta Mercantil, O Estado de S. Paulo e Folha de S. Paulo. Ao longo de sua carreira, a artista criou diversos personagens marcantes, entre os quais os Piratas do Tietê, os Gatos, Deus, Overman, João Ferrador, Fagundes, Laerton, Suriá e, mais recentemente, Hugo/Muriel e Djalma.
No ano de 2010, Laerte adotou publicamente a transgeneridade e a travestilidade, incorporando o gênero feminino tanto visual quanto gramaticalmente. Em entrevista concedida ao jornalista Antenore (2010) para a extinta revista Bravo!, ela insere tal reviravolta em um contexto de crise, de busca tanto pessoal quanto artística, comentando que desde 2004 o seu trabalho partira para uma “fase mais filosófica” e lembrando ainda que por volta de 2001 e 2002 ocorrera o fim do seu terceiro e último casamento, bem como a morte de um de seus filhos em 2005. Aliás, é justamente em 2004 que Laerte abandona alguns de seus personagens consagrados e faz Hugo vestir-se de mulher em uma tirinha, chamando a atenção de um leitor praticante de crossdressing que lhe escreve para conversar sobre esse movimento. Apesar de tudo isso, a quadrinista conta que foi apenas em 2009 que se travestiu pela primeira vez e que visitou o Brazilian Crossdresser Club (BCC). No final de 2011, Laerte Coutinho, Letícia Lanz, Maite Schneider e Márcia Rocha cofundaram a Associação Brasileira de Transgenêr@s (Abrat)28. Desde então, a cartunista tem se envolvido cada vez mais com a questão de gênero.
A proposta aqui é abordar e discutir a identidade visual de gênero a partir do look que Laerte exibiu em uma fotografia veiculada pela revista Época em novembro de 2012 (COUTINHO, 2012), na seção intitulada “Meu Erro”, na qual a cartunista diz se arrepender de já ter feito campanha eleitoral homofóbica para o movimento sindical nos anos 1980. Aspectos como foco, ângulo, luz e contraste, entre outros que poderiam ser relevantes para uma semiótica da fotografia, não serão abordados aqui, uma vez que o alvo específico a ser
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Aqui o gênero feminino é empregado para designar Laerte em respeito ao modo como ela se refere a si mesma.
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O caractere “arroba (@)” corresponde a uma tentativa de instituir na língua um gênero neutro, fenômeno bastante comum na linguagem da internet.
tratado é o look e a identidade visual de gênero, por isso virão à tona outros elementos, tais como vestimenta, maquiagem, penteado e assim por diante. A análise do look visa a destacar como a feminilidade é um efeito de sentido gerado de modo arbitrário e independente do sexo biológico, o que é acentuadamente demonstrado pela prática da travestilidade, que dessa maneira abre a discussão do gênero enquanto construção cultural.
Figura 8 – Laerte na seção “Meu Erro” da revista Época