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Les lignes directrices implicites : le précédent administratif

CHAPITRE PRELIMINAIRE : EGALITE VS DISCRIMINATION

SECTION 2 : LA PLACE DU PRINCIPE DE NON-DISCRIMINATION DANS LE CONTENTIEUX ADMINISTRATIF

B. Les lignes directrices implicites : le précédent administratif

A felicidade é uma Eurídice: nós a perdemos a partir do momento em que pretendemos alcançá-la. A felicidade só pode existir na

aceitação; quando a reivindicamos, ela deixa de

existir, porque depende do ser e não do ter. Os moralistas de todas as espécies sempre disseram e os tempos modernos não trouxeram elemento novo que justifique mudança de opinião. Quando queremos sentir a felicidade, quando queremos dominá-la ― e ez de

sermos felizes pelo do da d di a ―

deparamo-nos imediatamente com uma ausência insuportável de felicidade (ROUGEMONT, 1988, p. 196).

Uma obra literária é a junção de uma boa história, amarrada por uma disposição estrutural convincente, formando uma harmonia estética. Assim é o romance As horas

obedece às estruturas gramaticais tradicionais, mas obedece, sim, a disposição dos personagens e sua necessidade de expressão no texto. Com pontuação singular, a escritora usa vírgula, seguida de letra maiúscula para indicar mudança de fala dos personagens, ou inserir outro discurso na mesma frase. Além disso, conforme apontado anteriormente, aparecem em As horas nuas três narradores que dão o tom a cada personagem disposto na história. Estes narradores contribuem na harmonia estética da obra.

Pode-se afirmar que As horas nuas se dedica, basicamente, à solidão da personagem Rosa Ambrósio, causada pelos frustrados amores que teve na vida. O enredo, portanto, mostra uma mulher que, a todo tempo, busca, a partir da memória, reconstruir sua trajetória de vida, avaliando seu comportamento e observando onde errou e onde acertou, com o propósito de descobrir porque naquele momento de sua vida se encontra tão só, embora amando um homem. Não obstante o romance tenha sua maior parte construída a partir das memórias de Rosa, não se pode dizer que seja um romance memorialista, mas sim um romance cujo foco central é a solidão da personagem principal em decorrência do abandono amoroso. As lembranças resgatadas por Rosa são o caminho que ela busca para entender o porquê de nenhum de seus amores terem durado.

É relevante notar que, quando a narração é feita por Rosa Ambrósio, tudo é construído a partir de um monólogo interior que mesclado a acontecimentos do presente, trazem ainda fragmentos de memórias voluntárias e involuntárias. Das memórias voluntárias, ou seja, aquela que surge pelo esforço da memória consciente, aparece Diogo como figura central. Enquanto Rosa ensaia passar sua vida a limpo, se preparando para gravar e posteriormente escrever suas memórias, que é a intenção da atriz a todo momento exposta no romance, ela sonha com a volta do amante e ex secretário, Diogo. Para a atriz, a autobiografia, a busca do passado, ajudaria a resolver seu presente de solidão, em decorrência da perda de seus amores, sendo Diogo o principal deles. No entanto, quando a lembrança é relativa ao passado distante, à sua adolescência, a memória vem de forma involuntária.

De acordo com o que vem sendo posto, o tema do desencontro amoroso é recorrente na obra de Lygia Fagundes Telles, e vários estudiosos já se dedicaram a este assunto, como exemplo, José Paulo Paes, quando afirma que:

O título de um dos livros de Lygia Fagundes Telles, Histórias do

desencontro, bem poderia servir de lema para toda a sua obra de

ficção. Seja nos contos, seja nos romances, o desencontro é um tema de ocorrência frequente que a inventividade e a competência da sua arte de ficcionista não deixa nunca tornar-se repetitivo. Ao contrário, cada ocorrência serve para pôr-lhe de manifesto este ou aquele aspecto diverso, com o que o desencontro acaba por patentear-se menos um tema do que uma das matrizes da experiência humana (1998, p. 71).

A afirmativa de Paes reforça a recorrência da temática em Lygia, além de confirmar que o amor faz parte da experiência humana, bem como é um desencadeador de encontros e desencontros e, consequentemente, da solidão.

No romance em estudo, é importante começar observando o título da obra, que é o mesmo nome da suposta autobiografia que será escrita pela personagem Rosa Ambrósio, As horas nuas:

Palavras claras, horas claras. Cordélia avisou que não posso usar esse nome porque é de um filme italiano dos anos cinquenta, descobriu isso numa das revistas de cinema que lê aos montes, quando não está tomando banho ou perambulando pelas lojas ou trepando com algum velho, está lendo suas revistas, ah! Que dor (TELLES, p. 48).

Tanto o nome do romance de Lygia Fagundes Telles, bem como o nome da pretendida autobiografia da personagem Rosa Ambrósio, são inspirados no filme italiano, Le ore nude10, o que mostra, já de início, a carga dramática que o texto carrega,

10 O fil e Le O e Nude título o igi al , de Ma o Vi a io. Assi o o o o a e de L gia Fagu des Telles

u a hist ia ue t ata dos sil ios e da solid o hu a os, e te o o e edo u t i gulo a o oso. U a ulhe asada ue dese a tada pelo asa e to te u e e ela io a e to o u apaz ais jo e . [...] Philippe Le o o do i a as pala as pa a e p essa suas e oç es ulhe . Ela ue ou i dele ua to a deseja, ua to a a a. A o e alizaç o do se ti e to ul e a iliza a elaç o. A e a i ho pa a ue a ela Rossa a Podesta, ulhe do di eto , se si ta at aída pelo jo e , Kei Dullea. Ele fala - at de ais. E p e-se. Ela o a olhe, to a -se a a tes - po u dia. O fil e, a e dade, passa-se e dois dias . Rossa a ai espe a o a ido a estaç o. E t a as i age s do passado, de o te . A elaç o j as e ef e a. Dullea e ela pe o e esses t e s pa ados, dest uídos, os t ilhos o e tos pela he a. N o h futu o e o a aso o e ge pa a u a e a de p aia, o de h u ad e . Se o do ga oto? Vi a io o espo de. E out a e a, Rossa a o ta u so ho, so e o o e o t ou u ga oto e fez a o o ele. O fil e todo se u so ho? U desejo a ifesto da ulhe ? Mais do ue A to io i, h algo de Walte Hugo Khou i e As Ho as Nuas. A te s o se ual fo te, e e de e as de a tologia. A ais ela a e a de se o da ulhe o o jo e o alto do a pa io, ua do o o i e to dos o pos so a-se ao dos si os . Luiz Ca los Me te . I . .estadao. o . / oti ias/i p esso,as-es olhas-de-l gia, , .ht .

pois o filme em questão tem como enredo o complexo relacionamento amoroso entre dois homens e uma mulher, bem similar ao que ocorre no romance de Lygia Fagundes Telles.

No momento presente, Rosa, cujo nome deriva do alemão Rosamunda e tem o o u a das defi iç es p oteç o ou p oteto a da gl ia GUÉRIOS, , p. , se encontra em total solidão, dominada pela inércia, sem vontade de nada, a não ser de se destruir, bebendo para fugir de sua realidade. Literalmente caída e bêbada em meio a roupas sujas no seu quarto escuro, Rosa lamenta o seu estado, reclama da falta de pessoas em sua vida, e de sua fragilidade emocional, além de ter noção de que os anos se passaram e que a velhice, o seu maior pavor, se aproxima, e a perda da juventude é fatal. Conforme trecho:

O tempo diante de mim. Dizia que eu era uma burguesa alienada. Poderia ter dito, uma burguesa assumida porque nunca neguei minha condição. Tantos espelhos. Mas só agora me vejo, uma frágil mulher cheia de carências e aparências, dobrando o cabo da boa esperança, já nem sei que cabo é esse, era a mamãe que falava nisso mas deve ter alguma relação com a velhice, Ô! meu pai, que palavra desprezível (TELLES, p. 16).

Rosa Ambrósio é uma mulher intensa que, embora dramatize tudo, não foge de seus sentimentos; ama a juventude, odeia a velhice, portanto os velhos; e preza muitíssimo a beleza que, para ela, é o sinônimo da juventude. Observa-se que o efeito do álcool em Rosa é contrário ao que se esperava. Ao invés do estado de alheamento provoca um estado de lucidez. Esta perceptibilidade trazida pelo estado etílico, paradoxalmente, a perturba, e aguça o desejo de viver a cada dia mais embriagada, fugindo do mundo em que se encontra agora. Um mundo sem paixão, sem amor, cheio de solidão e desespero pela idade que avança, e a beleza que esvanece:

Naquela altura não sei o que podia fazer senão beber, Gregório já tinha ido embora, acho mórbido dizer que ele morreu, ele foi embora e pronto. Diogo, esse foi embora andando. E de mal comigo, é tão antiquado dizer, ficou de mal. Ficou de bem. O cravo brigou com a

rosa, eu cantava na escola. Preciso aproveitar essa ideia nas minhas

memórias, acho deslumbrante ver o Bem e o Mal – com letra maiúscula – confundidos numa coisa só, cozinhando no mesmo caldeirão (TELLES, p. 15).

Em sua solidão, Rosa tem consciência de que sua juventude e beleza estão indo com o tempo, assim como foram seus amores: Miguel, Gregório e Diogo, os três homens mais importantes que passaram por sua vida. Ela se lembra com saudades de quando era jovem, famosa e todos a amavam, mesmo tendo noção de que todo aquele amor vinha em consequência de sua beleza e juventude:

Éramos jovens e só os jovens se encaram como o riso secreto que ninguém entende, testemunhas um do outro, é apenas isso, me via nele como num espelho. Posso começar assim as minhas memórias. Quando nos olhávamos eu via minha beleza refletida nos seus olhos (TELLES, p. 14).

É notável em toda narrativa como Rosa associa a felicidade à beleza, ela vê neste atributo a garantia da fortuna. Notadamente a beleza buscada pela personagem Rosa não comunga com a Beleza defendida pelo filósofo Platão, em O banquete, pois enquanto para Platão a beleza necessária é a relativa à pureza, à elevação do homem além da carne, ao contrário, a personagem do romance As horas nuas preza a beleza do corpo, que leva aos prazeres fugazes da carne. Isso justifica o desejo dessa mulher pela juventude, pelos rapazes jovens, pois para ela, eles eram seu reflexo perdido. Estar com um rapaz jovem era autoafirmação para Rosa, assim sentia-se valorizada e uma ilusória garantia que ainda não tinha envelhecido. No entanto, sabendo-se efetivamente mais velha, apática e descrente de todos e de tudo, a atriz vive entregue à solidão.

Associando suas dores particulares a outras desgraças do mundo, Rosa equipara a insensibilidade de todos com ela com a indiferença dos homens em geral pelas mazelas do mundo, incluindo ela, que em seu mundo narcisista não tem tempo para outras questões. Nesse emaranhado de lembranças a atriz recorda do falecido marido Gregório, que se importou com as questões do país, foi preso e torturado e em consequência de tudo isso se matou. Estas reminiscências levam Rosa Ambrósio a concluir que não importam as dores do mundo, pois as suas dores interiores já são suficientes para levar à morte, senão à morte física, a morte da alma.

A atriz, que no presente momento é uma mulher rica, nem sempre teve dinheiro. Mas, o estado social não foi o causador de suas dores de amor e solidão. O que leva a uma reflexão inquietante, isto é, não tendo problemas reais, não há um por quê para a solidão amorosa; e o homem necessita de respostas práticas para quaisquer questões,

mesmo as relativas às dores da alma, do coração. Desta feita, Rosa busca na memória, embalada pela nebulosa alcóolica, explicação para suas questões.

São três os homens que abalaram, movimentaram, estabilizaram e desesta iliza a a ida da at iz: Ti e ho e s, at ue o fo a uitos, as ti e. Tudo somado ficaram esses dois, Gregório. E Diogo. Sem falar naquela lembrança tão esga çada, e dade ou i e ç o? Miguel TELLES, p. . Este últi o foi o seu p i ei o amor, aquele que tirou Rosa da inocência e a jogou no mundo da realidade difícil, da convivência com a perda irreparável. Conforme José Paulo Paes:

As protagonistas mais típicas de sua ficção [referindo-se a Lygia Fagundes Telles] são mulheres bem-postas na vida, às quais não preocupa a luta pela subsistência e que por isso dispõem de lazeres para o cultivo de suas frustrações reais ou imaginárias (PAES, 2010, p. 245).

A afirmativa de Paes ratifica de forma contumaz a ausência de preocupação concreta na vida da protagonista de As horas nuas. No entanto, a falta de problemas reais não desautoriza o sofrimento da atriz, pois a hostilidade de seu ambiente, bem como suas dores da alma em decorrência de um mundo que não anda em sintonia com seu mundo interno faz com que ela sofra mais do que sofreria por uma dor real, concreta e resolvível de alguma maneira.

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