Querelas entre Mário e Oswald à parte, ainda que sirvam de índice de que a disputa pela imagem do movimento modernista se deu e não foi pacífica, no que nos concerne, neste momento, o que acaba acontecendo é que, pela afinidade, intimidade e convívio entre Duarte obligar a los dueños a defender esas rarezas insubstituibles ¿cómo evitar su desaparición? Por otra parte, los objetos artísticos antiguos, joyas de las iglesias de antaño; de esas iglesias llenas de ensueño y de poesía, las de Jujuy, de Córdoba y tantas otras, poco a poco emigran al extranjero, llevadas por la codicia de los mercaderes y a favor de la indiferencia de quienes debieran velar por ellas”.
196 Adorno e Horkheimer entendem o esclarecimento de maneira dúplice: por um lado, se ele é apreensão e
domínio da natureza, pode-se pensar que a própria mitologia foi o esclarecimento em sua primeira forma. Entretanto, contra ela se voltou a versão iluminista, que teria procurado reduzir o todo ao homem, com a idéia de scientia universalis. Nisso mesmo embutiu-se uma lógica algo ditatorial, pois ao entender para dominar, o conhecer “em-si” tornou-se o conhecer “para o homem”. No voltar-se contra a mitologia, todavia, esse esclarecimento produziu outro mito, qual seja, o da possibilidade de apreensão do todo pelo homem. Com isso, tornou tudo conforme e estabeleceu a indiferenciação da mercadoria no valor de troca, suplantando o uso. Produziu-se, assim, a idéia de conceito: a coisa passou a ser o que é tornando-se o que não é. Nesse âmbito, a arte deixa de ser forma de conhecimento e estabelece, como antes se dava com a magia, domínio próprio, fora do contexto da vida profana (autonomia): destaca-se do real e torna-se possível apenas como perda do valor de uso, o que resulta, por outro lado, em perniciosa radicalização de seu valor de troca, paradoxo em que consistiu o ataque capitalista à possibilidade da heterogeneidade, e paradoxo da própria vanguarda em sua aposta na idéia de novo contra um conjunto de valores que se vale justamente das regras da novidade e da inovação. A questão é que o investimento frankfurtiano ainda deposita em um novo esclarecimento, talvez tão perigoso quanto o que teria engendrado esse mesmo mercado, a saída para o mundo mercantilizado. Mas será ele realmente possível? Não há lugar nesse âmbito, certamente, para pensar potências passivas, como o que teria exponencializado Duchamp ao buscar no ready-made, no objeto produzido em série, a resposta radical ao próprio mercado. (ADORNO, Theodor; HORKHEIMER, Max. Dialética do esclarecimento. Trad. Guido Antonio de Almeida. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1985, em especial o capítulo 1, a respeito do Conceito de esclarecimento. Cf., também, o que diz a respeito Antoine Compagnon no já citado Os cinco paradoxos da modernidade.)
197 BENJAMIN, Walter. Passagens. Org. ed. bras. Willi Bolle; trad. Irene Aron e Cleonice Paes Barreto Mourão.
e Mário, especialmente no Departamento de Cultura que engendrou a visão de patrimônio defendida por Paulo Duarte como deputado e por Alcântara Machado (o pai) como senador, sem que se esqueça, é claro, da figura de Rodrigo de Mello Franco de Andrade, a imagem do Modernismo que vai repercutir nas páginas da revista-rio dos anos 50 é marcada fortemente pelo ideário mais próximo da ala marioandradina. Essa imagem é certamente fissurada pela guerra, pelo exílio e pelo trânsito de Duarte, que o põe em contato com vozes dissidentes que não deixa de acolher em sua revista, as quais, ainda que inscritas no fóssil, vibram, pulsam e podem se fazer ouvir para narrar outras histórias dos trânsitos do pensamento sobre a modernidade no Brasil ao longo do século XX.
Mário é, para Anhembi, a figura de um pai morto: fantasma sempre presente, autor amplamente citado, mas, justamente porque morto em 1945, nunca colabora. Talvez, além do fato de que Duarte afirme constantemente, mesmo nas páginas da revista, que o Departamento Municipal de Cultura era a “casa de Mário de Andrade”, seja importante ver a máscara mortuária construída por Manuel Bandeira no número 23 de Anhembi com base justamente na grande máscara em que se constroem as identidades e alteridades humanas: a linguagem198. E eis o ensaio Mário de Andrade e a questão da língua. Para entender a língua em Mário, diz Bandeira, é necessário pensar suas outras personas: o homem, o brasileiro e o artista; efetivamente, todas construções de linguagem, em imaginários do próprio falecido, em imaginários do colega modernista a respeito dele. Mário é descrito por Bandeira como alguém que apenas volta à poesia, depois do muxoxo paterno aos primeiros versos, com os poemas de
Há uma gota de sangue em cada poema e a comoção com o cenário da guerra.
Diferentemente, na recensio de Bandeira, a Paulicéia surge como livro sobre o qual há titubeio quanto à impressão por se tratar de uma “bomba”, na visão do autor. E em carta a respeito do livro a Bandeira que Mário dá conta de sua visão pendulante entre o particular e universal: “Só sendo brasileiro [...] é que nos universalizaremos, pois assim concorreremos com um contingente novo, novo assemblage de caracteres psíquicos pro enriquecimento do universal humano.”199 Bandeira destaca de Mário, portanto, justamente a conformação de uma nação imaginada que, com cara definida, possa se afrontar com a tradição européia, do centro, e nela se inscrever, ou ainda, a ela “acrescentar” algo, donde se depreende um entendimento da cultura como algo acumulativo e evolutivo, ou ainda, de um centro ao qual à
198 O tema também foi alvo das preocupações de Paulo Duarte, que, em curso ministrado na Universidade de São
Paulo, Introdução à Pré-História geral, dedica boas páginas a pensar na gênese e na natureza da linguagem humana. Não é desusado lembrar que, nessas mesmas páginas, o diretor de Anhembi confessa ter freqüentado, nos Estados Unidos, cursos de Roman Jakobson.
199 ANDRADE, Mário de, apud BANDEIRA, Manuel. Mário de Andrade e a questão da língua. Anhembi. v.
periferia tenha que se tensionar para poder inscrever suas singularidades. É nesse sentido (e não no lingüístico, destaca Bandeira) que Rui Barbosa (alguém que desfrutava também da admiração de Paulo Duarte, perdendo, como político, apenas para Armando de Sales Oliveira e Fábio Prado, contemporâneos do diretor de Anhembi) tinha para Mário “mais valor para o Brasil do que cem anos de vida independente e unida, porque foi um ideal humano brasileiro e concorreu para a nossa solidarização psicológica muito mais do que tôdas as nossas necessidades comuns; porque foi um ídolo, não mais baiano, mas brasileiro.”200 E juntamente com o valor da nação, em seu processo de formação e diferenciação inclusiva no concerto mundial (de que se poderia pensar a Bienal, engendrada no mesmo núcleo, através de Matarazzo – patrocinador de Anhembi – e Rockefeller, como expoente), surge o ídolo, essa imagem, indivíduo depositário da liderança e, além disso, “pequeno simulacro”, como o definiria Roland Barthes201. Aqui, novamente, não estamos muito distantes de Getúlio Vargas e dos processos de massificação e liderança carismática, e se tocam, novamente, os dois lados da moeda em torno do pomo de ouro do Estado. Ressalte-se, ainda, que essa idéia procura suplantar o regionalismo, negando uma “baianidade” (ainda que, como vimos, a afirmação paulista sempre tenha sido tônica forte) e reivindicando uma figura de fora de São Paulo para a formação, a partir daquele centro ascendente, de uma idéia de Brasil.
A língua, no âmbito desse ideário de Bandeira a respeito de Mário, teria sido o plano dos “sacrifícios à verdade e à beleza” no problema “mais vasto e mais complexo de aprofundar harmonicamente o tipo brasileiro.” É bom lembrar que o problema do “escrever brasileiro” foi parte das preocupações de Paulo Duarte, também, que em 1944, estando em Lisboa, publica Língua brasileira, e o remete a Mário de Andrade dizendo que “foi interditado pela censura portuguesa.”202 Duarte faz a defesa política da separação da nomenclatura das línguas, fato de cunho político, afirmação da diferença e da autonomia da ex-colônia, endossando Mário de Andrade:
E’ do gênio da língua, diz Carlos Pereira, diversificar-se constantemente. ‘A acção conservadora da literatura torna mais lenta, porém não anula essa impulsão genial, essa dialectação constante.’ Isso quando se trata de uma literatura só, mas, no nosso caso, são, na realidade, duas literaturas, e com freqüência afastando-se tanto, que Agostinho de Campos, certa vez, criticando o livro de um escritor brasileiro, disse que não conseguira lê-lo porque estava escrito em português só de vez em quando... [...] a linguagem escrita, a expressão da língua comum, difere da linguagem literária. E’ o que acontece com a linguagem escrita do Brasil e a de Portugal. E, no Brasil, desde a acção rejuvenescedora da literatura moderna, a linguagem escrita usada pela maioria dos escritores passou a confundir-se com a linguagem literária,
200 BANDEIRA, Manuel, op. cit., loc. cit.
201 BARTHES, Roland, A câmara clara, op. cit., p.20.
daí a diferença acentuada com a de Portugal.203
Ainda que Bandeira note que as invenções vocabulares e os neologismos praticados na
Paulicéia não teriam um propósito de “diferenciação brasileira”, chama a atenção para o fato
de que ali, no Prefácio interessantíssimo, Mário fale de “escrever brasileiro”. Teria o paulista lapidado a idéia de sistematizar o que fazia a partir da provocação da leitura das Memórias
sentimentais de João Miramar, de Oswald de Andrade, e a respeito da questão portuguesa que
Duarte ainda rebateria em 1944, escrevera ao Diário de notícias, em 1927, afirma que
Nenhum de nós não tem a pretensão de criar uma língua que um português não possa entender. Não se trata de inventar uma fala de origem brasílica e inconfundivelmente original, não. Se trata apenas duma libertação das leis portugas, as quais, sendo leis legítimas em Portugal, se tornaram preconceitos eruditos no Brasil por não corresponderem a nenhuma realidade e a nenhuma constância da entidade brasileira.204
Ao reproche de Bandeira pelo excesso de paulistismo da escrita marioandradina inaugurada em artigos de 1924, na Revista do Brasil, Mário teria respondido com o pedido de espera por um livro: A escrava que não é Isaura, em 1925, e com o anúncio da
Gramatiquinha da fala brasileira, que, segundo o pernambucano, alicerçado em carta do papa
do Modernismo a Sousa da Silveira, nunca teria sido escrita porque era simplesmente anúncio feito por Mário para que entendessem que havia um projeto por trás da maneira como escrevia. Reconhecendo, todavia, que a linguagem de Mário acaba por operar uma grande mistura da “rosa-dos-ventos” lingüística brasileira, Manuel Bandeira considera que teria sido isso o que mais concorreu para “artificializar” a linguagem do autor de Macunaíma. Ora, a afirmação da condição de artifício é curiosa e se dá na medida em que se constrói em oposição a uma linguagem natural; porém, abre a via justamente para pensar o teatro da linguagem como o do grande mascaramento em que se constrói não só Mário, ou o Mário de Bandeira, mas também as duas faces do Modernismo. Por um lado, a transgressora, a que implodiu a lógica anterior da linguagem a partir de dentro dela própria; por outro, a que usou do mesmo artifício para construir a máscara mortuária desse mesmo esforço que poderia ter esboroado e sido esquecida, em nome de outra narrativa da história, em torno da qual há sempre tensão. Em uma margem, adormecida nas ruínas, a força; em outra, o próprio artifício usado em nome do apaziguamento das forças em formas, em nome do féretro da vanguarda, em nome de sua historiação. Na terceira margem, Anhembi.