Qualquer leitor de Rubem Alves perceberá que muitas questões foram ignoradas nesse capítulo. Temos plena consciência de que muitos trabalhos sobre o Rubem ainda se seguirão possibilitando o preenchimento das lacunas aqui deixadas. Perceber isso é apenas mais um reconhecimento da extensão do pensamento alvesiano. Esperamos que esteja claro que nossa empreitada buscou um recorte que pudesse colocar em evidência a noção alvesiana acerca do comportamento humano, a saber, a ideia de centro estruturante e do correlativo ao comportamento social, a saber o Espírito de um grupo. Sobre isso, muito autores importantes para Rubem foram ignorados, alguns deles ainda serão abordados posteriormente, mas acreditamos que o fundamento da reflexão alvesiana pode ser percebido no que aqui expomos.
Com essa noção de centro estruturante, não estamos de modo algum dizendo que para Rubem Alves o ser humano pode ser determinado a-historicamente, aliás o
contrário pode ser visto na afirmação presente no primeiro capítulo do livro Da Esperança:
O homem é um ser histórico. Ele não nasce no mundo das coisas, das pessoas e do tempo como um produto acabado. Seu ser não preexiste à história. Torna-se o que é através da história de suas relações com o meio ambiente. Não é, por conseguinte, apenas um ser no mundo: torna-se um ser com o mundo. [...] O homem se modifica por não ser uma mônada: ele é aberto. Por ser aberto é capaz de responder, ao invés de simplesmente reagir. O reagir é um ato que se localiza na esfera do biológico. O responder, contudo, pertence à esfera da liberdade. O homem responde porque descobre o seu mundo como se fosse uma mensagem a ele endereçada, como um horizonte em direção ao qual pode se projetar. E ao responder, o mundo torna-se diferente: torna-se histórico (ALVES, 1987, p. 45)
A historicidade do ser humano é um imperativo para que reconheçamos sua História — passado, presente e futuro—, como um mapa para compreensão de seu trabalho. Nesse sentido, a linguagem será sempre um espelho de sua historicidade, uma resposta a questões concretas nas quais o ser humano se encontra (ALVES, 1987, p. 46). Poderíamos então dizer que esse centro estruturante está sempre em movimento, para brincar com a ideia de Zygmunt Bauman99, um centro estruturante pastoso. O que não nos impede de observá-lo a partir de seus rastros e imaginarmos quais desejos motivaram sua construção a partir do contexto onde germinaram.
Talvez nossa maior dificuldade seja pensar que esse Espírito não se formou a partir de processos puramente racionais, e que quiçá a razão nem tenha sido importante nas ações que desencadearam tal estruturamento. É nesse ponto que Alves apela a induções sobre características elementares humanas, ou em outros termos, capacidades estruturais. Somos todos movidos pelo desejo de viver, e viver, segundo Alves, é encontrar uma ordem para os nossos sonhos de amor. Essa vocação teleológica humana assume um aspecto universal, conquanto esse telos seja inexistente. Há em Alves um salto de fé, que por ser fé não se dá a conhecer em linguagens concretas, são necessárias as metáforas dos poetas, “eu acredito que o Paraíso é o nosso sonho fundamental. [...] Nós nascemos em um jardim, existe um jardim dentro dos nossos corpos...” (ALVES, 1992, p. 126) ou nas palavras de Bachelard, pensador-poeta tal qual Rubem “O universo além de todas as suas
99 Bauman (2001) utiliza a categoria “modernidade líquida” para expressar o período histórico contemporâneo em que as relações se tornaram voláteis e os pontos de referências flexíveis.
misérias, tem um destino de felicidade. Temos de reencontrar o Paraíso” (BACHELARD apud ALVES, 1992, p. 127-128). Como disse Alves, tudo que eu quero é “ser capaz de dizer a palavra que dá nome ao meu desejo” (ALVES, 1992, p. 122).
Isso explica por que Rubem Alves, desejante de explicar e expressar a vida se aventurou nas profundidades da psicanálise e da poesia. Era preciso mergulhar no paraíso perdido pela razão. Aliás, em uma conferência intitulada Poesia e Psicanálise100, em 1990, Alves passa a explicar, o que tentamos expor
sistematicamente, o corpo segundo os poetas e profetas, amantes dos símbolos: Corpo é babel, nele se instalou a glossolalia, fala uma linguagem que nem ele mesmo entende. Quem entende o outro que em nós habita com o nome desconhecemos? Os poetas têm sabido disso e tem dito desde tempos imemoriais: o Drummond “como decifrar pictogramas
de há dez mil anos se nem sei decifrar a minha escrita interior. A verdade essencial é um desconhecido que me habita e que a cada manhã me dá um soco”. E o Barthes “o meu corpo não tem as mesmas ideias que eu”.
Mas não significa que ele acredite ser impossível alcançar alguma compreensão. Só indica que é preciso desvelar as estruturas, como afirma Alves
100 Palestra proferida por Rubem Alves no Instituto do Cérebro – Campinas. Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=WXdHK6TtXIs>. Acesso em: 10 nov. 2018.
(1990) em outra metáfora101: “O nosso corpo é um palimpsesto102. Porque tem uma
estrutura que foi apagada, esquecida, a gente tenta ver a coisa, a gente não vê a coisa, mas se a gente prestar bem atenção a gente descobre uma história esquecida que mora na gente”.
Nossa tarefa será, portanto, seguindo as orientações de Rubem Alves, mergulhar nesse universo simbólico da imaginação e da linguagem para desvendar as estruturas da religião. Veremos que seu modo de compreender o fenômeno religioso se aproxima muito do que propuseram muitos fenomenólogos da religião, ainda que Rubem tenha partido de outros horizontes e tivesse expectativas diferentes.
101 Há uma outra metáfora que Rubem desenvolve nessa mesma conferência, mas de forma mais prolongada, cuja descrição se segue. “Pensar o corpo como uma lagoa de superfície cristalina e lisa, onde aparecem refletidas as árvores, as nuvens, o rosto. Reflexos, o que está lá são reflexos, eles enchem a lagoa até o fundo, o olho os vê, a luz diz que é assim. Curioso o parentesco entre reflexo e reflexão (reflexão no sentido filosófico né). O reflexo é coisa especular, espelho. A reflexão é coisa do pensamento. Pensar, dádiva dos olhos como os reflexos. Pensamos o que vemos. O pensamento surge com o auxílio aos olhos enfermos. [Pensamento é uma tentativa de ver melhor] Fernando Pessoa dizia “o pensar tá doente dos olhos”. Quem tá com o olho bom não pensa, não precisa de pensamento, basta os olhos. Pensamento com espelho, reflexo da realidade, triunfo da luminosidade, da clareza, morada do eu, “penso logo existo” (Descartes). Existo onde penso. Olha que interessante, quando você inverte fica interessante, “penso logo existo, existo onde penso”. Meu ser mora entre as reflexões claras e distintas, sou lagoa onde a realidade se contempla. Mas as lagoas são mentirosas, elas não dizem a verdade. O lá dentro dos seus reflexos é mentira, a sua luminosidade e distinção são truques com que a física da luz engana o corpo. Pobre Narciso enamorado do seu reflexo inatingível. O lá dentro dos reflexos oculta um outro lá dentro escondido e obscuro que a própria luz se encarregou de tornar invisível. É isso! Que quando tem muito reflexo na superfície da lagoa você não vê o que está dentro da lagoa. Quanto mais luminosa for a lagoa, quanto mais claros forem os reflexos, menos você vê o que está dentro da lagoa, mas se você não tiver medo da água e você mergulhar dentro da lagoa. Na hora que você mergulhar dentro da lagoa você rompe a superfície dos reflexos então você entra no outro mundo que você não via de fora, mundo completamente diferente, estranho, subaquático, submarino, invisível de fora. Lá se movem entidades de cuja existência ninguém sequer suspeitara. Você se lembra do livro do Lewis Carroll, o que escreveu Alice no País das Maravilhas? Um dos livros dele se chama Através do espelho. Como é que você pode passar através do espelho? Não dá para passar através do espelho, o espelho é duro né?! Quebra o espelho. Aí eu pensei, na lagoa a gente no espelho da lagoa a gente passa através, que é a ideia do espelho do Lewis Carroll. Lewis Carroll sabia disso e fez Alice atravessar o espelho, também Agostinho que examinava seus pensamentos claros e distintos apenas para encontrar com o outro invisível que se escondia nele. Agostinho deve ser lido por todo mundo... Sabe gente eu recomecei a ler Agostinho, a filosofia da memória que está no livro das confissões, é uma das coisas mais fantásticas que eu jamais vi. Pega no livro das confissões e começa as meditações... um tipo de leitura para antes de dormir, uma coisa absolutamente linda. Agostinho examinando a memória dele, mas toda aquela investigação na busca do que que se esconde dentro desse lago encantado. Então o corpo é uma lagoa encantada de dois lados, um claro, luminoso, e visível aos olhos, mentiroso em suas ilusões de profundidade e outro lado do corpo obscuro e só se pode ver depois de rompida a fina camada de reflexos que mora na superfície.