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Les fluctuations universelles de conductance

2.4 Transport cohérent dans un milieu faiblement désordonné

2.4.2 Les fluctuations universelles de conductance

Ao ocuparem a Península Ibérica, a partir de 711, as forças islâmicas vão “tentar dominar a totalidade dos seus territórios através da fixação de guarnições em cidades estratégicas e de pactos com antigos senhores hispano-visigodos”, permitindo-lhes, “mediante condições, continuar a controlar boa parte das suas antigas propriedades, ou mesmo manter parte do seu antigo poder”10. Em todo o

caso, presume-se que apenas em 714 ou 716 Lisboa se tenha submetido pacificamente após um pacto de capitulação11, se bem que este seja um assunto que ainda não está

devidamente compreendido12.

10 BARBOSA, Pedro Gomes – Reconquista Cristã. Séculos IX-XII. Lisboa: Ésquilo, 2008, pp. 29-30. 11 MARQUES, A. H. de Oliveira – “O «Portugal» islâmico”. in SERRÃO, Joel; MARQUES, A. H. de

Oliveira (dir.) – Nova História de Portugal. Vol. II – Portugal das Invasões Germânicas à Reconquista. Lisboa: Editorial Presença, 1993, p. 122; PICARD, Christophe – Le Portugal musulman (VIIIe-XIIIe siècle). L’Occident

d’al-Andalus sous domination islamique. Paris: Maisonneuve et Larose, 2000, pp. 22-23.

12 BARBOSA, Pedro Gomes – ob. cit., p. 31 (n. 31).

13 Adaptado de MARQUES, A. H. de Oliveira e DIAS, João José Alves – Atlas Histórico de Portugal e

do Ultramar Português. Lisboa: Centro de Estudos Históricos, 2003, p. 46. Durante o debate que se seguiu à comunicação que deu origem a este estudo, fomos alertados para o estado “desactualizado” deste mapa. Contudo, sem a indicação e o conhecimento de um mapa renovado que pudesse substituir o actual, optámos por mantê-lo.

Fig. 1 – Divisão administrativa do “Portugal” islâmico: as kuwar

Certamente que com uma nova ocupação do território, e ao longo dos tempos, foram sendo repensadas formas de defesa terrestre e marítima. Ainda que o impulsionamento da defesa costeira islâmica seja atribuído à época que se seguiu aos primeiros ataques viquingues14, é preciso ter em conta que em 844, ano em que

ficou registada a primeira investida destes guerreiros nórdicos às costas do Garb al-Ândalus, “o ocidente da Península Ibérica já era um cenário de guerra há mais de cem anos”. Com efeito, isso leva a pensar que a paisagem já estivesse “marcada por fortificações cuja necessidade não foi criada pelos piratas nórdicos, mas apenas reforçada por eles”15.

É igualmente possível que, para além de alguns dados conhecidos sobre ataques, embora a maior parte deles bastante lacónicos e pouco explorados, tenham ocorrido expedições marítimas dos cristãos do Norte às costas do Garb al-Ândalus – antes e depois do começo das investidas viquingues – sem que tivessem subsistido evidências. Esta é uma situação que, no seu todo, precisa de ser questionada e discutida, porquanto a vertente marítima ainda é muito pouco perspectivada no âmbito da “Reconquista” cristã16. Se bem que no caso do Ocidente peninsular

– pelo menos – as informações de ataques marítimos cristãos contra navios ou cidades islâmicas sejam escassas, sendo de referir os importantes dados contidos na Historia Compostelana17, o ataque de Sigurd (1109) e as indicações contidas

no relato de Raul sobre a tomada de Lisboa aos Mouros, que também apontam para incursões àquela cidade antes de 114718, isto tudo anteriormente aos alegados

confrontos de D. Fuas Roupinho (1179-1180)19, tal não significa que outros não

tivessem tido lugar, até porque durante a segunda metade do século VIII as forças cristãs do Norte já levavam a cabo incursões até à área do Tejo. Em 798, lideradas por Afonso II das Astúrias, as forças cristãs saquearam mesmo Lisboa, naquilo que poderá ter sido uma expedição vinda por mar, enviando, posteriormente, despojos a Carlos Magno20.

14 O termo “viking”, na Escandinávia, não designava um povo, como por vezes vemos referido nos

dicionários e enciclopédias de língua portuguesa, mas sim uma actividade ou grupos dos que a ela se dedicavam, sendo que a prática que mais lhe ficou associada nas fontes anglo-saxónicas e islandesas foi a pirataria (PIRES, Hélio – Incursões Nórdicas no Ocidente Ibérico (844-1147): Fontes, História e Vestígios. Tese de Doutoramento em História Medieval apresentada à Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa. Lisboa: [s.n.], 2012, pp. 1-4).

15 Idem – ibidem, p. 243.

16 Está a ser desenvolvido um estudo sobre este tema.

17 Historia Compostelana. Introd., trad., notas e índices de Emma FALQUE. Madrid: Ediciones Akal,

1994, pp. 246-247 e passim.

18 Sobre este assunto, cf. BORGES, Marco Oliveira – “Em torno da preparação do cerco de Lisboa

(1147)”, p. 125 (n. 9).

19 Sobre D. Fuas Roupinho, cf. os estudos recentes indicados por idem – ibidem, p. 140 (n. 71). 20 MARQUES, A. H. de Oliveira – “O «Portugal» islâmico”, p. 125; BEIRANTE, Maria Ângela – “A

«Reconquista» cristã”. in SERRÃO, Joel; MARQUES, A. H. de Oliveira (dir.) – Nova História de Portugal, Vol. II, p. 258; AGUIRRE CANO, Víctor M. – “La guerra entre el emirato y el reino de Asturias durante

A primeira notícia da presença viquingue no actual território que corresponde a Portugal remete-nos para 844. Por volta do dia 20 de Agosto deste ano21, 54

navios nórdicos e 54 cáravos22 atacaram Lisboa numa investida que se prolongou

por treze dias e que resultou em três batalhas com os muçulmanos locais23. Foi Ibn

Hayyan (987-1076), citando al-Razi (888-955), que abordou a chegada dos Majus (ou Magus)24 por essa altura. O emir Abd al-Rahman II, avisado da chegada dos

guerreiros nórdicos pelo governador de Lisboa (Whab Allah Ibn Hazm), pôs em alerta as cidades costeiras a Sul. No entanto, o relato de Ibn al-Qutiya (m. 977), em conjugação com o al-Muqtabis de Ibn Hayyan, permite pensar que este ataque possa não ter sido somente à cidade de Lisboa mas também a outras localidades situadas no distrito25. Deste modo, Sintra26 e Cascais poderão ser locais implícitos

nos relatos muçulmanos27. É possível, igualmente, que as investidas de 844 se

tenham estendido a outras áreas já dentro do Tejo, até mesmo a Santarém28.

Já para Sul, as investidas deste ano haveriam de se estender a Sevilha, a Sidónia e a Cádis. No regresso ao Norte, depois de terem sofrido várias baixas e de terem perdido 34 navios nas costas da Andaluzia, Ibn Idhari (séculos XIII-XIV) refere

el reinado de Alfonso II (791-842)”. in Boletín del Real Instituto de Estudios Asturianos 175-176 (2009), pp. 219-220; BORGES, Marco Oliveira – “Em torno da preparação do cerco de Lisboa (1147)”, p. 142 (n. 80).

21 PIRES, Hélio – ob. cit., p. 104 (n. 20).

22 Ainda que pudessem não ser exactamente 54 navios de cada tipo, certamente que os cáravos com

que os nórdicos chegaram a Lisboa teriam sido tomados ao longo da costa, na investida para Sul. Neste sentido, Lisboa não teria sido o primeiro alvo nórdico (PIRES, Hélio – ob. cit., p. 109).

23 IBN HAYYAN – Crónica de los emires Alhakam I y Abdarrahman II entre los años 796 y 847

[Almuqtabis II-1]. Trad., notas e índices de Mahmud ALI MAKKI y Federico CORRIENTE. Zaragoza: Instituto de Estudios Islámicos y del Oriente Próximo, 2001, p. 312; COELHO, António Borges – Portugal na Espanha Árabe. 3.ª ed. revista. Lisboa: Editorial Caminho, 2008, p. 169.

24 Foi aos zoroastristas, cujo culto original teve base na Pérsia, sendo os seus actos tradicionalmente

acompanhados por um fogo sagrado, que os muçulmanos inicialmente chamaram al-magus. Porém, a partir do século IX, o termo surge nas fontes do al-Ândalus referindo-se, não aos zoroastristas, mas sim aos piratas nórdicos que os muçulmanos “identificaram como um outro em cujas práticas religiosas não se reconheciam”. Nesse sentido, “identificando-os como pagãos, recorreram à expressão clássica que, em cânones árabes, denominava os não-crentes – os magos”. Portanto, esta também não é uma forma de identificar um povo específico, mas sim uma referência vaga ao “outro”, àquele que não é muçulmano, judeu ou cristão (PIRES, Hélio – ob. cit., pp. 92-93).

25 ABENALCOTÍA – Historia de la conquista de España de Abenalcotía el Cordobés. Seguida de

fragmentos históricos de Abencotaiba, etc. Trad. de Don Julián RIBERA. Madrid: Tipografía de la Revista de Archivos, 1926, p. 50; PIRES, Hélio – ob. cit., p. 104; CORREIA, Fernando Branco – “A acção do poder político nas actividades portuárias e na navegação no ocidente islâmico. Alguns tópicos”. in SOLÓRZANO TELECHEA, Jesús Angel; VIANA, Mário (eds.) – Economia e Instituições na Idade Média. Novas Abordagens. Ponta Delgada: Centro de Estudos Gaspar Frutuoso, 2013, pp. 13-14; BORGES, Marco Oliveira – “A defesa costeira do litoral de Sintra-Cascais durante a Época Islâmica. II”, pp. 414 e 424-425.

26 PIRES, Hélio – ob. cit., p. 105.

27 Manuel A. P. Lourenço, sem indicar qualquer tipo de fonte, refere que a frota nórdica fez escala

em Cascais na espera de condições para entrar na barra do Tejo. Logo de seguida, tomando caminho por uma hipótese explicativa, refere a possibilidade dos piratas nórdicos terem desembarcado em Cascais e de este local ter sido assolado pelos ataques (cf. LOURENÇO, Manuel A. P. – “História de Cascais e do seu Concelho”. in A Nossa Terra. Cascais. N.º 43 (1953), p. 10).

que houve nova passagem dos guerreiros nórdicos por Lisboa, embora não se saiba exactamente o que aconteceu29. Porém, al-Qurashi, citado por Ibn Hayyan, refere

que os viquingues sofreram uma derrota no distrito de Lisboa, sendo “triturados por la guerra”30.

Nas suas demoradas e longínquas expedições, os viquingues tiveram de usar pontos de apoio temporário ao longo da faixa costeira atlântica e mediterrânica, sendo que alguns poderão mesmo ter mantido o nome que era dado a esses guerreiros depois da sua partida31. Por outro lado, é possível que uma ocupação

nórdica de certas áreas também possa ter derivado da doação cristã de terras em zona de fronteira32. Estas são situações que, para o caso do actual território

português, têm sido pensadas para três locais: Lorvão33 e Lordemão34, no actual

distrito de Coimbra, e Salvaterra de Magos35, no de Santarém. Naturalmente que

estes guerreiros nórdicos, levando a cabo expedições que se prolongavam no tempo – até mesmo devido às condicionantes atmosféricas e oceânicas que enfrentavam –, precisavam de locais para aportar, descansar, arranjar alimentos e poder consertar os navios, isto quando não era mesmo para invernar. Assim, para além dos locais referidos, é possível que tenham existido outras possíveis bases temporárias nórdicas no actual território português, nomeadamente no Noroeste36. As proximidades de

Lisboa37, quer nas margens do Tejo38, quer já fora do estuário, inclusive a extensa e

abrigada enseada de Cascais, também são hipóteses a ter em conta39.

29 COELHO, António Borges – ob. cit., pp. 170-171.

30 IBN HAYYAN – ob. cit., pp. 316-317; PIRES, Hélio – ob. cit., p. 111.

31 Tal como Ibn Idhari refere para o caso de uma cidade mediterrânica (cf. COELHO, António Borges

– ob. cit., p. 174).

32 Vide infra, n. 34.

33 A hipótese é colocada por Joseph M. Piel, por se ter “lembrado do etnónimo Lordemanos/Lordemãos,

[…] a forma medieval corrente que se substituiu à historicamente mais conforme de Nordemanos, literalmente “homens do Norte”, ou seja os Normandos, aliás Viquingos” (cf. PIEL, Joseph M. – Sobre a origem do nome do mosteiro de Lorvão. Sep. de Biblos. Coimbra. LVII, 1981, p. 169).

34 À semelhança do topónimo Lordemanos, existente na província de Leão, e no seguimento da

hipótese levantada por Joseph M. Piel (cf. ALMAZÁN, Vicente – Gallaecia Scandinavica. Introducción ó estúdio das relacións galaico-escandinavas durante a Idade Media. Vigo: Galáxia, 1986, pp. 119-120; PIRES, Hélio – ob. cit., pp. 260-261).

35 Povoação inicialmente designada por “Paul de Magos”. A presente “hipótese baseia-se no facto de

os muçulmanos designarem por maghus aqueles que a documentação cristã chama lordomani” (BARBOSA, Pedro Gomes – ob. cit., pp. 131-132; CORREIA, Fernando Branco – “Fortificações de iniciativa omíada no Gharb al-Andalus nos séculos IX e X – hipóteses em torno da chegada dos Majus (entre Tejo e Mondego)”. in FERNANDES, Isabel Cristina F. (coord.) – Fortificações e Território na Península Ibérica e no Magreb (séculos VI a XVI). Vol. I. Lisboa: Edições Colibri – Campo Arqueológico de Mértola, 2013, p. 85 (n. 50)).

36 PIRES, Hélio – “Money for freedom: ransom paying to Vikings in Western Iberia”. in Viking and

Medieval Scandinavia 7 (2011), pp. 125-130; idem – Incursões Nórdicas no Ocidente Ibérico, pp. 91 e 171-190.

37 Idem – ibidem, p. 115.

38 CORREIA, Fernando Branco – “Fortificações de iniciativa omíada”, p. 85 (n. 50).

39 FERNANDES, Isabel Cristina Ferreira – “Aspectos da litoralidade do Gharb al-Andalus: os portos

do Baixo Tejo e do Baixo Sado”. in Arqueologia Medieval. Porto. N.º 9 (2005), p. 53; BORGES, Marco Oliveira – “A defesa costeira do litoral de Sintra-Cascais durante a Época Islâmica. II”, pp. 424-425.

Novos ataques ocorreram em 858 (Lisboa) e 859. Neste último, levado a cabo por 62 navios, Ibn Idhari refere que dois dos que se tinham adiantado à restante frota (e que vinham carregados com ouro, prata, escravos40 e provisões) acabaram

mesmo por ser capturados por navios muçulmanos na costa de Beja41, ou seja,

algures na área costeira atlântica a que o distrito presidia42, ou até mesmo já no

Guadiana43. Decorreria muito tempo até que os viquingues voltassem novamente

a atacar Lisboa, se bem que estes guerreiros possam ter levado a cabo ataques pela costa ocidental da Península Ibérica dos quais não subsistiu registo44. Assim, em

966, estes guerreiros nórdicos voltaram a atacar Lisboa, vindo a enfrentar as forças muçulmanas locais numa batalha com vários mortos entre ambas as partes e de desfecho desconhecido45. Desta vez, Ibn Idhari faz menção a 28 navios nórdicos,

sendo que ainda houve um combate no rio Arade (Silves) que opôs as forças nórdicas à frota muçulmana saída de Sevilha.

Para além do perigo cristão e nórdico, as próprias rebeliões internas do Islão terão levado à construção de fortificações e de postos de vigia para garantir uma maior segurança do território, sendo que a área geográfica a que o distrito de Lisboa presidia não teria fugido a isso. Contudo, terá sido mesmo o desencadear dos ataques viquingues de 844 que terá levado as autoridades islâmicas a dar especial atenção ao sistema defensivo e a reforçar o aparelho militar ao longo do litoral atlântico e mediterrânico. Na verdade, sabe-se que o governo omíada reforçou a estrutura de defesa marítima com a edificação de torres de vigilância (burj) e atalaias (at-

talai’a, pl. tali’a), bem como de diversas fortificações (incluindo husun e ribat/s).

Para além disso, tomaram-se medidas para a formação de uma marinha de guerra ampla e bem provida de projécteis incendiários, tendo-se recrutado marinheiros e mercenários de várias partes, alguns deles especializados no lançamento de fogo- grego. Por fim, e como não poderia deixar de ser, pouco depois dos acontecimentos de 844, ordenou-se a edificação de estaleiros de construção naval, iniciativa que teve lugar em Sevilha e, muito provavelmente, noutros locais46.

40 Pouco depois de 860, os viquingues venderam alguns negros na Irlanda anteriormente capturados

em Marrocos (cf. SÁNCHEZ-ALBORNOZ, Claudio – Normandos en España durante el siglo VIII? Sep. de Cuadernos de Historia de España. Buenos Aires, 1957, p. 314).

41 COELHO, António Borges – ob. cit., p. 173.

42 PIRES, Hélio – Incursões Nórdicas no Ocidente Ibérico, pp. 114-115.

43 CATARINO, Helena – “Breve sinopse sobre topónimos Arrábida na costa portuguesa”. in FRANCO

SÁNCHEZ, Francisco (ed.) – La Rábita en el Islam. Estudios Interdisciplinares. Congressos Internacionals de Sant Carles de la Ràpita (1989, 1997). Sant Carles de la Ràpita/Alacant: Ajuntament de Sant Carles de la Ràpita/Universitat d’Alacant, 2004, p. 264.

44 PIRES, Hélio – ob. cit., p. 129.

45 Neste caso, o califa foi avisado da investida nórdica por intermédio de Alcácer do Sal (COELHO,

António Borges – ob. cit., p. 174; PIRES, Hélio – ob. cit., pp. 129-130).

46 Sobre todas estas medidas, cf. ABENALCOTÍA – ob. cit., p. 53; COELHO, António Borges – ob. cit.,