As listas de verificação (checklists) foram introduzidas pela primeira vez na aviação, na década de 1930 para resolver o erro humano, devido à introdução de aeronaves mais recentes e complexas e, são agora comuns nas indústrias de alto risco (Walker, Reshamwalla, & Wilson, 2012). Em finais dos anos 90, a medicina reconheceu analogias entre a aviação e intervenções médicas, especialmente no que diz respeito às tecnologias e áreas de alto risco como cirurgia e obstetrícia (Sax, 2009).
As checklists padronizam tarefas e reduzem a dependência da memória, diminuindo assim os erros de omissão. Isto é particularmente aplicável aos cuidados de saúde, na medida em que os processos se tornam cada vez mais complexos e a equipe cada vez mais ocupada.No
31 entanto, requerem uma implementação cuidadosa de forma a garantir que são utilizadas de forma eficaz.
O principal objetivo dos enfermeiros perioperatórios é prestar cuidados com qualidade, segurança e eficácia. A utilização de procedimentos normalizados, como a aplicação de checklists facilita a atividade, diminuindo a probabilidade de falhas (AESOP, 2006). A necessidade de checklists é baseada na premissa que, na execução de procedimentos o cérebro humano pode estar sujeito a três limitações cognitivas fundamentais: pode esquecer-se de um dos vários passos de um procedimento; pode lembrar-se do passo, mas por algum motivo (distração, fadiga) pode não se lembrar de executá-lo; ou pode lembrar-se do passo, lembrar-se de executá-lo, mas executar incorretamente (Kapur et al, 2015).
Como referido anteriormente, a utilização de checklists em saúde revela-se de extrema importância, nomeadamente no bloco operatório. Aqui os riscos são constantes pelo que todas as ferramentas que ajudem a padronizar e a simplificar alguns passos, são fulcrais. O desafio, portanto, é mudar a cultura da sala de operações de forma a reduzir pequenos problemas e interrupções que podem ter impacto no desempenho cirúrgico, e também melhorar as habilidades não técnicas.
Existem já diversas checklists a ser utilizadas de forma padronizada na saúde, sendo a Lista de verificação de Segurança Cirúrgica da OMS (DGS, 2013) a mais conhecida internacionalmente. Esta checklist tem três momentos-chave: antes da indução da anestesia (sign in), antes da incisão da pele (time out) e antes do doente sair da sala de operações (sign out). É um instrumento de registo de verificação de todos os passos fundamentais dentro de uma sala de operações, seguindo o percurso do utente, envolvendo toda a equipa multidisciplinar. Este instrumento ajuda a recordar atos rotineiros. Assim, com o fim de minimizar as complicações inerentes a um ato cirúrgico não seguro, as equipas, com a utilização desta checklist proposta pela OMS (2009), têm em conta dez objetivos básicos e essenciais traduzidos como orientações de segurança cirúrgica. Entre eles destacam-se o operar o doente correto no local certo; a equipa preparar-se efetivamente para o risco de vida resultante da perda da via aérea ou da função respiratória; a utilização sistemática de métodos conhecidos para minimizar o risco de infeção do local cirúrgico; a prevenção da retenção inadvertida de instrumentos ou compressas em feridas cirúrgicas e a comunicação de forma efetiva com partilha de informações críticas para a condução segura da cirurgia (Anexo IX).
É uma ferramenta de extrema importância e utilidade, mas que só tem o seu início quando o utente já se encontra no bloco operatório. Ou seja, denota-se a necessidade da existência de uma outra ferramenta, capaz de apoiar a gestão dos materiais necessários à
Enquadramento Concetual
32 realização das cirurgias, de forma a garantir que não haverá falhas no dia da intervenção e deste modo, contribuir para o aumento na segurança cirúrgica.
Existem ainda outros exemplos de checklists desenvolvidas para serem utilizadas em saúde. A Checklist de cuidados intensivos do John Hopkins University School of Medicine (Walker et al, 2012), que tem por objetivo reduzir as infeções da corrente sanguínea relacionadas com a inserção de cateteres centrais. A checklist teve por foco 5 intervenções baseadas na evidência: lavagem das mãos, utilização de campos estéreis durante a intervenção (campos estéreis), desinfeção da pele com Clorohexidina, evitar a região femoral sempre que possível e remover todos os cateteres desnecessários. A sua implementação mostrou uma redução evidente no número de infeções. Outra checklist foi elaborada por Lingard e alguns colegas (2008), que detetaram que os erros de comunicação eram uma das causas mais comuns de eventos adversos em saúde. Como tal, desenvolveram uma checklist com o objetivo de facilitar o trabalho interprofissional estruturado, com briefings antes dos procedimentos cirúrgicos gerais. O número de falhas de comunicação reduziu significativamente e observaram- se também melhorias em relação à consciência de situação, tomadas de decisão e trabalho em equipe.
A proatividade e a antecipação de problemas são peças integrais da cultura de segurança em qualquer organização. A utilização de listas de verificação permite antecipar muitos destes erros, normalizando tarefas e facilitando a coordenação da equipa. Pode, por vezes, haver alguma resistência por parte dos profissionais na implementação de novas ferramentas, nomeadamente de checklists, alegando uma sobrecarga de trabalho (Verdaasdonk et al, 2009). Patricia Benner adaptou o Modelo de Dryfus da Aquisição de Competências e Desenvolvimento de Competências, à prática da enfermagem clínica (Tomey & Alligood, 2004), que nos fala dos diversos níveis de competências dos enfermeiros. A competência e a prática competente significam implementar intervenções de enfermagem idóneas, e competências de juízos clínicos em situações clínicas reais, e para tal é necessário atingir o nível de enfermeiro perito. Os aspetos chave da prática da enfermagem perita são: um domínio clínico e uma prática baseada na investigação; know-how3 incorporado; ver a situação no seu todo e ver o inesperado. Esta monitorização da qualidade das práticas de cuidados de saúde e competências de trabalho organizacional é que permitem diagnosticar problemas como o deste projeto de investigação, e procurar a sua resolução. Enfermeiros peritos no BO, são aqueles capazes de implementar ferramentas e procedimentos que visem a melhoria contínua dos cuidados perioperatórios e para tal, é necessário um elevado nível de adaptabilidade e competências.
33 No entanto, as listas de verificação apenas formalizam tarefas que devem ser realizadas de qualquer modo, pelo que trabalho adicional para a aplicação de checklists deve ser mantido no mínimo e estas devem ser cuidadosamente projetadas. “A segurança tem que ser ativamente perseguida e promovida.” (Vincent, 2010) A segurança do utente está relacionada com a "qualidade dos cuidados", mas os dois conceitos não são sinónimos. A segurança é sim, um importante subconjunto de qualidade.