TEST DIAGNOSTIQUE ✦ Directives
C) Les expressions idiomatiques et expressions anglaises
Na vertente prática da experiência, o “internamento” é a estrutura mais visível de uma cesura com a época precedente.
Aos nossos olhos, o internamento é um “amálgama abusivo de elementos heterogéneos”. De facto, na segunda metade do século XVII, todo um povo, o dos que pensam mal, “estranhamente misturado e confuso” – libertinos, debochados, profanadores, loucos, pobres… – é enviado para os lugares de internamento. O internamento aproxima personagens e valores entre os quais as culturas precedentes – por ironia, a que a precedia regia-se pela semelhança – não percebiam qualquer semelhança: confina “o mundo uniforme da desrazão”. A loucura é confinada, mas vai de arrasto com outras formas da desrazão.2
Todavia, o que para nós é sensibilidade indiferenciada, é para o homem clássico uma percepção claramente articulada, com o seu princípio de coerência, essencialmente moral e ética. Um olhar «tematizado»: “uma nova sensibilidade face à miséria e aos deveres da
1 “How far Idiots are concerned in the want or weakness of any, or all of the foregoing Faculties, an exact
observation of their several ways of faltering, would no doubt discover. […] And indeed, any of the forementioned Faculties, if wanting, or out of order, produce suitable defects in Men’s Understandings and Knowledge.” (Locke, An Essay concerning Human Understanding, New York, Oxford University Press, 1979, Book II, chapter XI, § 12, p. 160. Itálico nosso.)
2 “On enferme les fous, mais, dans le même temps et dans les mêmes lieux, par un acte de bannissement qui les
confond, on enferme et les misérables et les oisifs et les débauchés et les profanateurs et les libertins, ceux qui pensent mal. […] il indique que le XVIIe siècle ne réduit pas la folie à la folie et qu’il perçoit, au contraire, les
relations que celle-ci entretient avec d’autres expériences radicales […] le monde même de la Déraison dont la folie n’est qu’une part, ce monde auquel le classicisme annexe les prohibitions sexuelles, les interdits religieux, tous les excès de la pensée et du cœur.” (Blanchot, “L’oubli, la déraison”, edição citada, pp. 294-295.) Estas peculiaridades – “mundo uniforme da desrazão”, “amálgama abusivo de elementos heterogéneos” – não coincidem com uma episteme que opera segundo a análise da identidade e diferença. Tal incongruência é detectada em Histoire de la Folie: “Il est étrange que ce soit le rationalisme qui ait autorisé cette confusion du châtiment et du remède, cette quasi-identité du geste qui punit et de celui qui guérit.” (HF, p. 120.)
assistência, novas formas de reacção perante os problemas económicos do ócio e do desemprego, uma nova ética do trabalho”.1
O internamento, brusco “fenómeno de superfície”, supõe um lento trabalho do pensamento. Abaixo da extrema visibilidade do internamento encontra-se “uma rede de cumplicidades obscuras que desenha as fundações secretas da nossa experiência da loucura”, um “reajustamento ético”, o trabalho de consciências diversas com a mesma orientação: suscitar no mundo ético uma separação uniforme desconhecida até então.2
O que é isolado e localizado pela percepção moral e social é a desrazão, um campo de experiência que objectiva o negativo da razão em tipos concretos, sociais, individualizados: todo o submundo moral da desrazão considerada como desordem e negatividade do pensamento.
Esta percepção moral está na continuidade da experiência crítica (moral) do Renascimento. Ainda assim, se a exclusão é o invariante da história da loucura, os conteúdos são novos e a percepção não é exactamente a mesma. A percepção já não está totalmente fascinada como na Idade Média ou no Renascimento. Na Idade Clássica, nasce uma sensibilidade que traça uma linha e erradica: o insensato já não é o estranho familiar, não faz “parte da decoração e da linguagem comuns”, é o familiar estranho. O internamento clássico isola a desrazão das paisagens em que sempre esteve presente, anula as suas ambiguidades dialécticas, localiza-a, torna-a objecto de percepção, delimita-a na sua presença concreta.3 A loucura ganha um novo «ar de família»: a de uma família que perturba.
Em tom heideggeriano4, diríamos que no Renascimento a loucura tem o traço dos Zuhandenen: inserida num nexo de reenvios, é alvo de um certo «trato» que não a apreende tematicamente enquanto coisa que aparece, como objecto. Na Idade Clássica, tem o traço dos Vorhandenen: o Zuhandenes começa a surpreender, importunar, recalcitrar e a ser contemplado. Já num outro nexo de reenvios, a loucura, retirada do mundo e percebida no horizonte da desrazão clássica, é encerrada nas fortalezas do internamento, “ligada à razão, às regras da moral e às suas noites monótonas”.5 Mas, nessas fortalezas, é objecto de percepção moral, não de conhecimento.
Percepção moral, mas também «estética». Pois, coisa estranha, se a desrazão é escondida na discrição dessas fortalezas, “do outro lado das grades” uma das suas formas é dada em
1 Cf. HF, p. 80.
2 Cf. HF, pp. 112-115, pp. 142-144.
3 Cf. HF, p. 140. Já não há emulação ou simpatia. No entanto, em certo sentido, o internamento da Idade Clássica
parece ter “o perigoso poder de assimilar, de tornar as coisas idênticas umas às outras, de as misturar, de as fazer desaparecer na sua individualidade”: a loucura é percebida sobre um fundo de desrazão.
4 Cf. Sein und Zeit, edição citada, § 15, p. 102 ss. 5 Cf. HF, pp. 108-109.
espectáculo: “a loucura continua a ser apresentada no teatro do mundo”, “torna-se puro espectáculo”. Não que se mime a loucura como outrora no mundo do teatro: agora “é a própria loucura, a loucura em carne e osso que está em representação”. Por um lado, a Idade Clássica apreende a loucura “numa experiência global da desrazão onde se avizinha indiferentemente com todas as suas outras formas”, mas, por outro, torna-a “coisa a ver”, exalta o seu escândalo; e os loucos, entre os internados, são “monstros, isto é, seres ou coisas que merecem ser mostrados”.1
Na percepção da desrazão que se confina, a loucura é excepção. E o louco, enquanto «monstro» – “o monstro, por definição, a excepção”, bestialidade já não cosmológica como outrora, mas bestialidade ainda2 – é bem “o outro em relação aos outros, o outro – no sentido da excepção”. Excepção que fascina uma percepção que ainda não a apreende rigorosa e positivamente como objecto.3