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Reconhecendo o valor universal e excepcional da paisagem vitícola da Região Demarcada do Douro (RDD), esta foi recentemente inscrita no património Mundial da UNESCO como paisagem cultural evolutiva viva (Andresen et al., 2003). Nesta região a fileira dominante e em grandes áreas a única do território, é a vitivinícola, particularmente a produção de Vinho do Porto (Costa e Poeta, 2004).

Tradicionalmente as pequenas adegas não se preocupavam com o tratamento dos Efluentes Vinícolas (EVs), que apesar de muito poluentes (cerca de 100 vezes mais que os efluentes urbanos, EUs), originavam pequenos focos de poluição muito dispersa, sem grande impacto ao nível regional. Contudo, nas últimas décadas assistiu-se ao desaparecimento de um grande número de pequenos produtores e à concentração da produção em algumas grandes adegas, frequentemente cooperativas, com o consequente aumento exponencial do impacto destas sobre o meio ambiente onde se inserem (Petruccioli et al., 2000).

Estas adegas de média/grande dimensão continuam sem dar grande atenção ao destino dos seus efluentes e resíduos sólidos, situação que se deve por um lado à falta de sensibilidade ambiental e ao desinteresse dos proprietários, motivado pela deficiente fiscalização e consequente impunidade da infracção, e por outro lado à falta de conhecimento e preparação técnica dos responsáveis da adega na área dos efluentes. Esta questão assume por isso importância relevante dada a legislação em vigor, particularmente o Decreto-lei n.º 236/98 de 1 de Agosto e Directiva 2000/60/CE do Parlamento Europeu e do Conselho, de 23 de Outubro, que estabelece um quadro de acção comunitária no domínio da política da água, que é vulgarmente conhecida como Directiva Quadro da Água (www.inag.pt).

A indústria da vinificação é caracterizada por diferentes actividades/etapas ao longo do ano, cada uma produzindo efluentes com características qualitativas e quantitativas diferentes, variando segundo a região, a tecnologias utilizadas, o consumo de água, o tipo de vinho produzido (branco ou tinto, de mesa ou licoroso, etc.) e a dimensão da instalação. Quanto aos processos de tratamento dos efluentes diversas alternativas são possíveis, abrangendo desde os tratamentos aeróbios aos anaeróbios e igualmente combinações entre ambos.

A racionalização de recursos e custos, a actualidade, a premência e a concorrência tornam premente a realização de um estudo sistemático da produção e tratamento dos EVs, centrado numa região de inegável interesse socio-económico e ambiental como é a RDD, que padece de problemas ambientais sérios, de modo a que possam ser conhecidas as condições

em que são geradas as emissões líquidas das adegas e se estabeleçam as suas condições de tratamento.

É na resposta a esta necessidade que surge o presente trabalho, cujo objectivo central consistiu em apresentar uma visão global da problemática da produção e gestão dos EVs, particularmente no que concerne à sua caracterização, planeamento da adega e processos de tratamento correntemente utilizados, e aprofundar a caracterização e o estudo da tratabilidade aeróbia dos EVs da RDD, através da adopção de diversas estratégias para optimização do seu tratamento. Assim, o presente estudo contemplou seis objectivos principais:

1) Revisão bibliográfica e avaliação do “estado da arte” do tratamento de EVs; 2) Caracterização das instalações produtivas, avaliação dos volumes diários de EVs emitidos e estabelecimento de rácios para as diferentes fases produtivas; caracterização físico- química dos efluentes produzidos ao longo do ano;

3) Estudos laboratoriais de tratabilidade aeróbia para os diferentes EVs produzidos; 4) Ensaios em reactores descontínuos sequenciais (SBR) laboratoriais para obtenção de dados de dimensionamento para uma instalação de tratamento de EVs;

5) Modelação dos resultados dos ensaios experimentais realizados; 6) Conclusões e propostas de trabalho futuro.

O primeiro objectivo proporcionou o enquadramento do tema, pela inserção na problemática da gestão e tratamento de EVs, e descrição das tecnologias disponíveis para o seu tratamento.

O segundo objectivo permitiu caracterizar as adegas da RDD, e dotando o sector de informação de base necessária à compreensão do modo como os EVs são gerados e as suas características qualitativas e quantitativas. Esta informação é fundamental ao estabelecimento de modelos de gestão de EVs e à selecção das tecnologias de tratamento face ás capacidades e tipologias das adegas.

Relativamente ao terceiro objectivo, dada a grande variabilidade de concentração e tipologia de matéria oxidável (expressa como CQO) avaliou-se a biodegradabilidade dos diferentes tipos de efluentes produzidos.

Na sequência dos anteriormente descritos, com o quarto objectivo avaliou-se o comportamento processual de uma tecnologia, o Reactor Descontínuo Sequencial (SBR). Este reactor baseia-se no processo aeróbio vulgarmente designado por lamas activadas, apresenta simplicidade operativa e boa a adaptação a flutuações de carga orgânica poluente, conforme descrito em vários estudos (Torrijos e Moletta, 1997; Houbron et al., 1998; Wilderer et al., 2001; Brucculeri et al., 2004 e Torrijos et al., 2004). O quinto objectivo permitiu comparar os

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resultados experimentais obtidos com os modelos matemáticos propostos por diversos autores para a degradação de efluentes. Finalmente, o sexto objectivo apresenta as conclusões finais e propostas de trabalho futuro.

A selecção do tipo e o dimensionamento de uma ETAR para tratamento de EVs necessita de conhecimento e obtenção de informação de base, que possibilite a sua correcta operação e gestão e o cumprimento dos imperativos legais. A recolha desta informação só é possível com a colaboração e participação activa da indústria, pelo que a selecção das unidades industriais, e a sensibilização, participação e envolvimento dos responsáveis dessas unidades neste estudo constitui um objectivo que, embora secundário, se revelou de extraordinária importância para que os objectivos principais atrás referidos fossem alcançados.

A presente tese está estruturada em nove partes compreendendo cada uma delas diversos capítulos, sendo as quatro primeiras relativas ao estado da arte sobre os principais aspectos de Enquadramento (Parte I), Redução do volume e carga poluente (Parte II),

Problemática e bases tecnológicas dos tratamentos (Parte III) e Fileiras de tratamento (Parte

IV), reservando-se as Partes V a XIX para o trabalho experimental realizado, tendo em vista a

Caracterização das adegas em estudo (Parte V), Estudos de tratabilidade aeróbia de EVs

(Parte VI), Aplicação da tecnologia SBR ao tratamento de EVs (Parte VII), Modelação matemática dos resultados experimentais (Parte VIII) e Apresentação das conclusões finais e

propostas de trabalho futuro (Parte IX).