No Brasil, o trabalho pioneiro sobre moda é o de Gilda de Mello e Souza, “O Espírito das Roupas” (1996)29, publicado pela primeira vez em 1950, um estudo da moda do
inquieto século XIX, aquele da expansão capitalista, do crescimento urbano e do avanço da modernidade30. Época em que os progressos industriais, como a utilização racional da máquina de costura, cujo emprego em escala industrial remete à década de 1860, possibilitaram baratear o consumo da moda, tornando-a um negócio dinâmico.
A moda consegue, assim, numa sociedade pretensamente democrática, fazer a diferenciação social, determinar status e aparentar contemporaneidade cultural, manipulada pelas coordenadas do consumismo capitalista. Adapta-se, lentamente, ao grande público, simplificando-se, barateando-se. A análise estética, psicológica e sociológica de Mello e Souza, relaciona a moda à estrutura social, partindo da consideração de que a vestimenta é uma linguagem artística possível. O antagonismo visual das roupas dos sexos masculino e feminino aparece como imagens das oposições sociais que vivem, e a pesquisa termina por desaguar na observação das indumentárias das mulheres, principalmente aquelas produzidas para a festa. De fato – é pertinente refletir com a autora – foi o traje feminino que, principalmente, a partir do século XIX, mais se tornou alvo das alterações cíclicas da moda, sendo a festa a ocasião ideal para ostentar melhores roupas e adornos.
A questão fugidia e complexa da moda parece ainda oferecer encaminhamentos semelhantes para o historiador que pretende estudá-la. Encontra-se, nos anos 50 do século XX, a moda como um apanágio da mulher, pois sua utilização correta era um valioso artifício para a consecução de marido e a constituição de família, uma vez que, na ideologia predominante nessa década, maternidade, casamento e dedicação ao lar faziam parte da
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“O Espírito das Roupas: a Moda no Século Dezenove” foi publicado pela primeira vez na Revista do Museu Paulista, Volume V, sendo a tese de doutoramento de Gilda de Mello e Souza na Universidade de São Paulo, sob o título original “A Moda no Século XIX”. Orientada por Roger Bastide, o trabalho de Souza, vendo “a moda como fato cultural e social” e parecendo fútil a muitos, “constituiu uma espécie de desvio em relação às normas predominantes nas teses” da USP (SOUZA, 1996, p. 07). A “originalidade da temática desenvolvida, fosse pela qualidade, equilíbrio e elegância do discurso” nesse estudo pioneiro no país, inicialmente acessível para o público restrito de uma publicação científica, careceu de 46 anos para poder ser lida por todos (Alexandre Eulalio apud SOUZA, 1996, p. 14).
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Entendemos a idéia de modernidade através da compreensão de Marshall Berman: “turbilhão de permanente desintegração e mudança, de luta e contradição, de ambigüidade e angústia” (2000, p. 15). O autor caracteriza a modernidade pela definição de suas fontes, a saber: “grandes descobertas nas ciências físicas [...]; a industrialização da produção [...]; descomunal explosão demográfica [...]; rápido e muitas vezes catastrófico crescimento urbano; sistemas de comunicação de massa [...]; Estados nacionais cada vez mais poderosos [...]; movimentos sociais de massa e de nações [...]; enfim, dirigindo e manipulando todas as pessoas e instituições, um mercado capitalista mundial, drasticamente flutuante, em permanente expansão” (Idem, p. 16).
essência feminina (BASSANEZI, 1997). Para que a mulher conseguisse cumprir o seu destino e não fracassasse socialmente, devia, entre outras coisas, ser vaidosa e vestir-se bem, a fim de atrair pretendentes.
Em São João do Sabugi, nos anos 1950, por exemplo, as ocasiões para exibir-se, flertar e arranjar namorado eram as festas, principalmente as religiosas, mas também aquelas nas escolas e nas casas de família. Entretanto, se a vaidade era um bom chamariz para pretendentes, poderia transformar-se numa faca de dois gumes, pois o seu excesso, no uso, por exemplo, de roupas muito ousadas e sensuais, resultaria, decerto, numa reputação jamais pretendida por uma “moça de família”. Em meados do século XX, a moda opõe, visualmente, homens e mulheres, e estas carecem dominar habilidosamente os códigos de vestir para inserir-se no espaço reservado ao feminino, o lar.
Por moda entende-se um conjunto de ajustes e adaptações periódicas nos estilos de vestimenta, bem como nos acessórios e demais tipos de ornamentação pessoal, colocados em circulação em nível regional ou universal, “a mobilidade frívola erigida em sistema permanente” (LIPOVETSKY, 1997, p. 10). O conceito pode, ainda, ser empregado para as variações ocasionais acontecidas em diversos setores, na sociedade, na política, na ciência, entre outros. O interesse deste trabalho, porém, é falar de moda enquanto processo transicional entre estilos de vestir e exibir-se. Desde tempos remotos o ser humano tem-se detido em projetar formas e modelos de decorar o corpo, ora para seduzir, ora para agasalhar-se, ora para demonstrar status, ou para fazer as três coisas de uma só vez. A invenção de novos e variados códigos estéticos para a produção de roupas e adereços esteve, mesmo que inconscientemente, sempre relacionada às conjunturas político-econômicas, às lutas de classe, às circunstâncias de tempo e lugar. Pelo dizer de Carl Kohler (1996, p. 57- 58):
Para a humanidade, o vestir-se é pleno de um profundo significado, pois o espírito humano não apenas constrói seu próprio corpo como também cria as roupas que o vestem, ainda que, na maior parte dos casos, a criação e a confecção das roupas fique a cargo de outros. Homens e mulheres vestem- se de acordo com os preceitos desse grande desconhecido, o Espírito do Tempo.
Tempo e lugar. São João do Sabugi, 1948. Desde esse ano, o lugar dos sabugienses havia adquirido emancipação política, sendo reconhecido enquanto território livre, passando a construir-se enquanto “cidade” e “município”, precisando atender demandas do urbano, apesar de estar alicerçado na agropecuária, no mundo rural.
Tempo e lugar. Paris, 1947. Nesse ano, Christian Dior lançara sua coleção de estréia, cuja estrela era a Linha Corola, simbolizada por uma saia com enorme roda e armação de tule. Uma ousadia em termos de tecido gasto, pois o costume, derivado dos tempos da Segunda Guerra, era o de roupa feita com pouco pano, já que o excesso seria uma ofensa à penúria reinante. Estava instituído o New Look, estilo de vestir considerado o mais marcante pelos anos a seguir, predominando durante os anos 1950 (VINCENT-RICARD, 1996).
Essa moda foi amada e odiada, desdenhada e imitada, difundida através da cultura de massa e copiada por mulheres do mundo inteiro. Não sem percalços, o New Look chegou ao Brasil, nas capitais, no litoral. E no sertão, como conseguiu fazer-se chegar? Se as revistas mais lidas do Brasil já estavam nas mãos dos sabugienses, nada mais provável que o estilo
New Look tenha também vigorado na localidade. É certo que a sua adoção num lugar pequeno, de população agricultora e pecuarista, aconteceu dentro de circunstâncias muito especiais, passando por adaptações que, no entanto, não devem ter-lhe modificado totalmente.
Uma questão interessante a respeito dos estudos sobre moda é que eles geralmente preocupam-se com o cenário urbano, relegando o universo rural a um plano secundário ou mesmo ignorando-o, como se nele a moda sequer existisse, Uma das raras exceções, a dissertação de mestrado de João Batista Guedes, “Despindo o Jeca” (1996), preocupa-se em identificar como o traje apresenta-se para constituir-se enquanto sinal de identificação do homem rural. No estudo, Guedes tenta relativizar as fronteiras delimitadas entre o rural e o urbano, concluindo que o Jeca, o matuto, o caipira, não se diferencia do urbano, do moderno, do arrojado, exatamente pelo jeito de vestir-se, mas principalmente por um conjunto de elementos como o gesto, o caminhar, o comportamento. Mesmo que essa pesquisa tenha sido efetuada nos fins do século XX, acredita-se que possa ter valia para a compreensão da moda em São João do Sabugi quarenta anos antes, pelo enfoque dado à moda no ambiente rural. “Despindo o Jeca” aponta sua análise para o fato de que a população rural pode vestir-se com peças análogas às da população urbana, sendo que a sutil dessemelhança entre ambas aparece nos jeitos e trejeitos do corpo, como também nas adaptações que alguém do campo faz com a moda vinda da cidade.
A moda é, por excelência, o culto ao presente, a máxima valorização do efêmero. Percebendo sua extrema mutabilidade como decorrência da cultura e das ideias de cada época, faz-se necessário reconhecer, portanto, a relevância do tema enquanto objeto de estudo da história.
Apesar de grande parte das teorizações a respeito do tema apontarem para a expressão hierárquica da moda, como uma arma frequentemente disputada entre a elite e a classe média do mundo capitalista e ocidental, visualiza-se ainda a sua expressão individual, notadamente no século XX. A moda seria um dos espaços mais democráticos do mundo ocidental, porque a vitória do efêmero representa o triunfo da tolerância e da possibilidade de diálogo entre estilos e tendências discordantes. Na moda, a moderna democracia burguesa se congraça com o plural, o múltiplo, o diferente. Nesse sentido, o livro de Gilles Lipovetsky, “O império do efêmero” (1997), fala do caráter libertário da moda, aparecendo como signo das transformações que anunciaram o surgimento das sociedades democráticas. Lipovetsky estuda os grandes momentos históricos e as grandes estruturas que determinaram a organização social das aparências, ultrapassando a tradicional lógica da diferenciação social, noção tantas vezes atribuída à moda como seu objetivo precípuo. Esse estudo percebe a moda como algo típico do Ocidente, que inventou tanto a “racionalidade técnica” como a “frivolidade sistemática”. No entender do autor, frivolidade, moda e democracia se consubstanciam, e tal amálgama permitiria a passagem de sociedades fechadas para sociedades abertas31. Para Lipovetsky, vive-se num tempo onde predomina
a potência de autonomia de uma sociedade ordenada pela moda, onde a racionalidade funciona na efemeridade e na frivolidade, onde a objetividade se institui como espetáculo, onde o domínio técnico se reconcilia com o lúdico, e o domínio político, com a sedução” (1997, p. 17).
Seguindo essa linha de pensamento, é possível supor que a moda é um arauto anunciador de novos tempos, inclusive para lugares como a São João do Sabugi dos anos 1950. A introdução de novas formas de trajar e enfeitar o corpo decerto mexe com antigos tabus e preconceitos, provocando a adesão dos jovens e a rejeição dos idosos. Mas, sem dúvida, despertando atenção e deixando marcas.
Absorvendo e assimilando o que ocorre à sua volta, a moda dialoga com a realidade presente e, assim, recorrer ao vestuário enquanto categoria possível de compreensão histórica é plenamente aceitável. Segundo Alison Lurie, em seu livro “A linguagem das
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O autor está se referindo aos Estados “neototalitários” e às democracias, pois que “contrariamente aos estereótipos com que grotescamente a vestem, a era da moda é a que mais contribuiu para arrancar os homens em seu conjunto do obscurantismo e do fanatismo, para instituir um espaço público aberto, para modelar uma humanidade mais legalista, mais madura, mais cética” (LIPOVETSKY, 1997, p. 19).
roupas” (1997), o traje diz muito de quem o veste, de onde se veste, de quando se veste, podendo conversar sobre muitas coisas, mesmo que girando em torno de sexo, hierarquia e valores individuais. Enquanto sistema não-verbal de comunicação, a moda descarta peças de roupa como se lançam fora as palavras de um discurso, e, assim, para além de sua utilidade protetora, escolher roupas é definir-se e descrever-se, usá-las é valer-se dessa língua não- verbal elaborada. Lurie diz que a fala da moda não é um sistema audível, mas visível. Uma frase é um traje completo, enquanto cada elemento da composição da indumentária é uma palavra. Dessa forma, o discurso da moda é uma alternativa para o não-dito oralmente.
Assim, conforme escreveu Alison Lurie (1997, p. 20), “o vocabulário das roupas inclui não apenas peças de roupas, mas também estilos de cabelos, acessórios, jóias, maquiagem e decoração do corpo. Teoricamente, pelo menos, esse vocabulário é tão ou mais vasto do que o de qualquer língua falada [...]”. Como já se afirmou, essa fala não é audível, e o seria, se fosse considerado o farfalhar dos tecidos e o tilintar das jóias como mensagens inequívocas, facilmente perceptíveis32. Falar pela roupa é, se assim compreende- se, escapar da mudez. Uma linguagem que, entre tantos interesses velados, tem debatido longamente sobre a distinção entre os sexos. O que, para as razões essenciais deste estudo, procurou-se desvelar distinguindo conceitualmente “sexo” e “gênero”.