11. annexes
11.1. Le corpus des sigles
11.1.2. Les corpus tchèque
Para o desenvolvimento deste estudo, faz-se necessário um recorte na obra de Averbuck. A escolha para análise e posterior problematização dos dois primeiros romances da escritora (Máquina de pinball e Vida de gato) deve-se à complexidade que envolve tais obras em relação a sua produção, a sua circulação e aos intertextos que remetem às postagens no(s) blog(s) e em outros veículos de informação virtuais e impressos.10
Os dois romances apresentam algumas características em comum, além de ser possível ler o segundo como sequência do primeiro. Ambos trazem a história de Camila Chirivino, narradora-personagem dos romances e uma espécie de alter ego da autora. Além disso, os momentos de preparação e de escrita destes livros foram acompanhados pelos leitores do blog Brazileira!Preta, bem como diferentes trechos que vieram a compor os livros impressos foram anteriormente divulgados no blog.
Máquina de pinball deu início à narração, em primeira pessoa, das aventuras
da jovem Camila que, recém-chegada a São Paulo, após abandonar a casa em Porto Alegre, assim como o namorado e os planos de casamento, passa a dividir um pequeno apartamento com um amigo e tenta encontrar o seu lugar no mundo. Há em boa parte da história uma incerteza quanto ao pertencimento àquele lugar, evidenciados nos questionamentos sobre o status de “nova casa” e nas comparações com a casa anterior, como lê-se em:
[h]á um mês eu tinha TV a cabo, geladeira, forno de microondas, contour pillow, liquidificador, videocassete, lava-louças, cablemodem, sacada e namorado. Agora, moro em um quarto onde não cabe um homem adulto deitado no chão. Acredite, eu testei. Durmo em um colchãozinho na sala, junto com Julian, o gato que achei no meu terceiro dia de cidade. (AVERBUCK, 2002, p. 14).
10 O uso do termo romance pode ser questionado em relação as narrativas em prosa de Clara Averbuck,
sobretudo, em razão de sua curta extensão e do claro teor autobiográfico. No entanto, opta-se, aqui, por seguir esta classificação por levar-se em consideração as diversas transformações pela qual passou o gênero deste o início do século XX e as múltiplas possibilidades de escrita do romance que vêm sendo exploradas por autores contemporâneos, diferenciando-o dos romances canônicos dos séculos XVIII e, principalmente, do XIX.
Além disso, Camila vivencia paixões repentinas e fugazes, que normalmente terminam mal e a fazem sofrer. Assim, conhece Henri, um francês que morava no Rio de Janeiro e não demora em ir para a cidade maravilhosa. Após a viagem ao Rio, ela embarca em uma segunda viagem para Londres, com o intuído de ver um show dos Strokes e a pretensão de ficar dez dias, mesmo que o seu dinheiro tenha acabado no terceiro, o que a faz ficar hospedada em casas de desconhecidos ou ter que pedir dinheiro para conseguir chegar até ao aeroporto e embarcar de volta para o Brasil.
Após alguns dias em Londres, para onde fora com o pouco dinheiro que lhe restava, Camila volta para São Paulo e descobre que passaria a dividir o apartamento que morava com dois estranhos, pois o amigo com que ela vivia havia voltado para sua cidade natal. Esse é o motivo para a primeira mudança de casa de Camila, que passa a dividir um apartamento, agora na Rua Purpurina, na Vila Madalena, com Márcio, outro amigo.
Esses primeiros momentos na cidade se mostram conturbados e instáveis. Além da questão da adaptação e das moradias compartilhadas, há os episódios de problemas financeiros que são reflexos da dificuldade da jovem, recém-chegada à cidade grande, em conseguir se sustentar apenas como escritora, vendendo textos literários ou jornalísticos, bem como da recusa em aceitar trabalhar em algo que lhe atrapalhe a escrita; o único emprego aceito por Camila é de balconista em uma loja de discos no centro de São Paulo, cuja oportunidade aparece quando os seus cartões de crédito já haviam sido bloqueados por seu pai e ela podia contar apenas com o escasso dinheiro que conseguia como freelance, vendendo alguns textos para sites e revistas e das “caixas de kit de refugiados” (AVERBUCK, 2002, p. 37) que sua mãe costumava enviar.
Estabelece-se na narração um contraste em relação às cidades por onde Camila passa ou passou. Assim, Porto Alegre aparece como uma recordação, a cidade da casa dos pais, o lugar onde ela viveu sua adolescência; São Paulo, como o único lugar para o qual ela poderia se mudar, apesar do caos, do trânsito, do barulho e da poluição, que a princípio incomodam a narradora-personagem, mas com os quais ela aprende a conviver e o Rio de Janeiro, como uma possibilidade de fuga da cinzenta São Paulo. O Rio torna-se uma espécie de miragem que fica bem mais próxima devido à mudança para a capital paulista.
São ainda recorrentes as passagens nas quais Camila conta as suas aventuras na noite paulistana, as bebedeiras com os amigos, os arrependimentos e as ressacas. Em
um viés extremamente subjetivo, há ainda uma coleção de decepções e fracassos amorosos que aparecem como pano de fundo no enredo. Além das muitas citações e referências a diversos elementos da contracultura, como bandas de rock (Strokes, Nirvana, Ramones, Weezer, New York Dolls) e cantoras, como Fiona Apple e Nina Simone.
O contexto na qual a narradora-personagem aparece inserida acaba impelindo-a à escrita. Escrever aparece como uma das poucas coisas permanentes na vida de Camila. Apesar de várias mudanças, decepções e dificuldades, a escrita continua sendo o único caminho:
[t]alvez fosse a hora de me mandar de novo. Ainda não sabia pra onde, nunca tinha passado para esta fase do joguinho. Talvez não precisasse me mandar pra lugar nenhum. Talvez fosse a hora de encarar meu caminho, queimar na cruz que escolhi, assumir o grande amor da minha vida: escrever. Sabia que era a hora, e não sou dessas que ficam esperando sentadas. (AVERBUCK, 2002, p. 75).
Em último sentido, a adesão à escrita pode ser considerada bem-sucedida, uma vez que este último parágrafo do romance pode ser interpretado como um ponto de partida para a escrita do próprio livro.
Em Vida de Gato (2004), Averbuck explora intensamente um tema que, como já destacado anteriormente, apareceu em algumas passagens do romance anterior, porém sem tanta ênfase: as relações e decepções amorosas de Camila Chirivino se tornam centrais, narrados em primeira pessoa, em tom subjetivo, passional e, sobretudo, confessional.
A ideia de que Vida de gato seja uma continuação da história narrada em
Máquina de pinball torna-se consistente desde as primeiras páginas do livro, uma vez que
seu ponto de partida é o momento subsequente àquele no qual a narrativa do romance de estreia de Averbuck foi interrompida. E diversos elementos contribuem para a percepção do leitor sobre isso. Máquina de pinball termina com Camila entregando-se à escrita e aceitando a sua “cruz”, que é ter na escrita o único caminho a ser percorrido; Vida de
gato, por sua vez, se inicia com Camila às vésperas de ver lançado o seu primeiro livro,
cujo título e gênero não chegam a ser mencionados. Naquele romance, a narradora- personagem muda-se nos últimos episódios narrados para um apartamento na Vila Madalena, situado na Rua Purpurina. Já neste romance Camila e seu amigo, com quem divide a moradia, voltam a ter uma série de dificuldades para pagar o aluguel e as contas da casa. Camila não trabalha mais na loja de discos e volta a sobreviver em São Paulo
apenas do que consegue receber pela venda de textos para sites e jornais. O que a faz aceitar ir morar provisoriamente no apartamento de um amigo, que passaria três meses fora, amigo esse que surgiu quando ela precisava entregar o seu apartamento em virtude dos aluguéis atrasados e das ameaças da dona do lugar.
No entanto, tudo isso acaba acontecendo em segundo plano, visto que o foco da narração está na conturbada relação entre Camila e Antônio. Ele aparece como o “homem perfeito”, segundo a visão subjetiva da narradora-personagem. Quando eles se conhecem, Antônio acabara de ser abandonado pela ex-namorada, que foi morar na França. Camila se encanta tanto pela fragilidade dele quanto pelo fato dele conseguir escrever melhor do que ela mesma.
Antônio apareceu, escancarando todas as passagens e deixando entrar luz e ar puro e me abraçando e falando e mostrando e dizendo que não poderia aguentar outro amor, que não queria mais saber de sofrer pois sua namorada, a mulher da sua vida, estava indo morar na França. Que precisava ficar sozinho, que não aguentaria, não poderia, iria embora desta vida. Antônio queria ser um monge- cavaleiro templário. Mas ele não ia conseguir. (AVERBUCK, 2002, p. 20).
Não demora para que Camila se encontre apaixonada por Antônio e disposta a ficar com ele, assim como não demora para que Antônio suma sem lhe dar explicações. O que leva a narradora-personagem a se entregar ao sofrimento, algo evidente nas lamentações que aparecem em boa parte da narrativa. Como se observa em: “Sou a única pessoa que ainda morre de amor. Ninguém mais morre de amor, ninguém mais sente dor [...] Estou morrendo de amor. Ou da falta dele” (AVERBUCK, 2002, p. 40).
A busca de uma resposta ou de um motivo para ter sido abandonada por Antônio torna-se uma espécie de obsessão para Camila, que vai aos lugares que ele frequentava, até encontrá-lo e, no meio de uma festa, ouvir que ele está apaixonado por outra; além de ouvir que a razão para ele preferir ela a Camila é a necessidade de ter uma “mulherzinha” ao seu lado. Obviamente o termo é empregado em sentido pejorativo, menosprezando a autonomia e independência feminina, da qual Camila mostra-se, desde as primeiras linhas de sua narração, uma defensora e representante.
Devido a isso, Camila decide seguir sua vida na cidade: em busca de uma casa, sem aquele que ela diz ser o amor de sua vida, com seu primeiro livro impresso e às vésperas de ser publicado, tentando acertar sua vida sentimental, por mais que continue errando e preferindo voltar para as suas “casas” provisórias sozinha.