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CHAPITRE I : Les différents procédés de transestérification des triglycérides

I.2. Les coproduits de la réaction de transestérification

O século XX pode ser considerado como um momento decisivo para os índios, tanto os do sudeste paraense e do Maranhão, quanto os dos outros Estados brasileiros. O desejo desenfreado de desenvolvimento, a busca de novas áreas para a agricultura e para a pecuária levaram a fronteira agrícola a se expandir bem além da barreira imposta pela floresta tropical amazônica. O sudeste paraense, assim como os estados de Rondônia e do Mato Grosso, passou a ser considerado área-chave para essa expansão e para que a ocupação efetiva do interior brasileiro. Os índios continuavam sendo considerados

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Tamanho era o atraso na região que só em 1748 foi introduzida a economia monetária no Pará (efetivada em 1752). Antes disso, eram utilizados como moeda produtos como o cacau, o cravo e o açúcar

entraves para a execução desse grande projeto nacional. Qual entre os grupos indígenas resistiria, qual seria assimilado e qual desapareceria?

Entre os grupos Tupi, pode-se fazer menção aos Pacajá, os Takanyapé, os Pauxí, os Aracaju e os Guahara, além de muitos outros que desapareceram sem que tivessem sido registradas informações de valor etnográfico a seu respeito (ARNAUD, 1989[1983], p. 321). Outros, como os Asurini do Tocantins, também quase desapareceram.

O povoamento do baixo Tocantins foi impulsionado, no início do século XX, pelo ciclo da borracha e, em um segundo momento, pelo mercado da castanha do Pará, assim como pelo reavivamento dos garimpos do Tocantins e do Araguaia, que atraíram migrantes de todo o país. O início do século XX foi também um marco para o estudo dos grupos indígenas da região. O primeiro nome a ser destacado é o de Curt Nimuendajú, que durante muitos anos realizou estudos etnográficos na região, em especial com grupos de língua Jê, os Timbira17 (e.g. 1967). A preocupação desse estudioso por vestígios arqueológicos foi pioneira para a região do médio e baixo Tocantins, assim como para diferentes áreas do país. Em suas anotações, são constantes as menções à recorrência de “‘terras pretas’ com quantidades de cacos com esmalte branco, pintura vermelha e

bordas ocas (2000, p.148; grifo nosso, para lembrar que em breve falaremos sobre tais

bordas ocas)”. Seus relatos e os esboços das peças parecem possuir grande semelhança com os desenhos e descrições existentes no presente estudo.

Fig. 9 Cerâmica polícroma encontrada por

Nimuendajú (2000).

Esse autor deixou pistas para uma aproximação de determinados vestígios materiais (e.g. cerâmicas policrômicas) e de determinada utilização do solo (intensiva, ligada à agricultura e ao grupo Tupi). Ao observar a recorrência de machados semilunares entre os Timbira, Nimuendajú permitiu ligação, ainda que tênue e perigosa, entre os

Timbira e os grupos Uru do Brasil central, entre os quais esse tipo de artefato é recorrente e diagnóstico (PROUS, 1992, pp. 339-359).

Da década de 40, dois trabalhos são dignos de menção. O primeiro é o realizado por Herbert Baldus com os Tapirapé, da família lingüística Tupi-Guarani. Apesar de não encontrar traços diagnósticos na cerâmica produzida por esse grupo, Baldus lembra os relatos de Kissenberth, nos quais “uma comparação superficial dos cacos com produtos

cerâmicos e restos de panelas sul-americanos indica forçosamente os Tupi-Guarani”

(apud BALDUS, 1970, p. 25).

Em uma nota de rodapé, o já citado trabalho de Wagley e Galvão (1961, p. 188) apresenta, além de hábitos e cultivos interessantes, uma descrição da cerâmica que os Tenetehara (Tupi-Guarani) produziam. Tal descrição, assim como a que os dois autores fazem da cerâmica Tenetehara (1948, p. 170), ajudará na construção do panorama regional a ser desenvolvido no Capítulo 6.

Outro trabalho etnográfico realizado em meados do século XX foi o desenvolvido por Huxley (1957), com os Urubu (Tupi) do Maranhão. Um ponto de interesse desse estudo é a relação desses índios com sua cerâmica (que será sucintamente abordada no

Capítulo 4).

Um trabalho com foco na relação entre índios e regionais é o já citado estudo de Laraia e Da Mata. Nele, os antropólogos buscam compreender a entrada do índio no mercado de trabalho da castanha do Pará. O maior atrativo da mão-de-obra indígena era ser ainda mais barata do que a do regional. Se a vida destes já era miserável, a dos índios era muito pior.Um dos primeiros aspectos negativos apontado pelo autores é o rompimento da estrutura sócio-econômica dos grupos, com a atração do índio para fora do território tribal. Marginalizado e discriminado, o indígena foi criando relações cada vez mais estreitas com os piores hábitos da sociedade regional, como a prostituição e o alcoolismo. Nimeundajú (2002) não cansa de demonstrar seu horror diante do estado deplorável dos índios alcoolizados que, muitas vezes, acabavam não conseguindo prover seu sustento com a castanha.

Eles se viram “diante de uma situação competitiva para a qual não estavam

preparados” (id., ibid., 1967, p. 67). A solução para muitos foi a mendicância, que só

relações diferentes com o mundo “civilizado”. Os Suruí,18 imersos na floresta contornada pelos rios Tocantins, Araguaia e Itacaiúnas, conseguiram reduzir um pouco o impacto negativo do contato. Os Asuriní do Tocantins (ou Akuáwa-Asuriní), assim como os Parakanã (ambos Tupi), não tiveram tanta sorte. Situados nas proximidades de Tucuruí, os grupos foram afetados pela construção da estrada de ferro Tocantins, iniciada em 1927, ligando Tucuruí a Jacundá, correndo o risco de desaparecer (RICARDO (org.), 1985).

Centro Etnográfico Tupi: É digno de menção o fato do entorno da área de estudo ser

um núcleo com substancial porcentagem dos maiores clássicos da etnografia Tupi. Com destaque para os trabalhos de Viveiros de Castro, com os Araweté, e Fausto, com os Parakanã, a região possui estudos memoráveis, como os de Baldus e Wagley, com os Tapirapé, Laraia e da Matta, com os Suruí e Asurini, Müller, também com os Asurini, e Balée, com os Ka’apor. Em diversos momentos esse estudo vai buscar essa fonte etnográfica para dialogar.

No entanto, essa situação aparentemente sem volta se estabilizou depois de algum tempo, à custa de incontáveis vidas. O poder de recuperação de alguns grupos indica, mais do que um milagre, o esforço de união entre estes que, após quatrocentos anos de luta, não desistiram de exigir melhores condições de vida. O exemplo clássico da região é o dos Gavião. Assim como os demais, eles sofreram intensamente o impacto dos contatos, subdividiram-se, viram grande parte da sua população e cultura desaparecer, mas resistiram, se organizaram e conseguiram resgatar parte dos antigos costumes e se recuperar demograficamente (id., ibid., 1985, p. IV).

Com rodovias, estradas de ferro, linhas de transmissão e cercados por fazendas, os Gavião, descritos por Lysias (1943, p. 123) como “altos, fortes, de aspecto simpático”, aprenderam a lidar com o homem branco e a tirar proveito desse contato. Desde o tempo da coleta intensiva das castanhas, os Gavião, já assentados na reserva Mãe Maria (vizinha do sítio Cavalo Branco) conseguiam realizar o processo do comércio de forma mais autônoma do que os demais. Sempre em volta da figura do chefe, os Gavião conseguiram

receber grandes indenizações da Eletronorte e da CVRD, o que permitiu a construção de novas moradias.

A luta por cada compensação, os entraves com os órgãos oficiais de “proteção”, podem ser testemunhados no discurso transcrito abaixo, do chefe Kroquenum Jopaipaire.

Quem fala aqui é Kroquenum Jopaipaire, chefe dos Gavião do Pará. A comunidade não gostou que o presidente (da FUNAI) mandou carta para o engenheiro Reginaldo, mandando parar a obra da nossa aldeia nova. O presidente da FUNAI se quiser parar a obra tem que vir na aldeia e falar na minha frente, como homem. Não tem que mandar parar por fora da comunidade... A comunidade precisa de obra para melhorar, por isso nós fizemos a luta. Nesta luta a FUNAI não ajudou, nem com uma mão: a FUNAI não ajuda, por que manda parar a obra? Eu preciso morar usando casa bonita. A comunidade mora neste barraco como um porco. Não quero isto não. Eu quero usar também coisas boas. Eu fiz luta. Não quero morar em lugar feito porco, feio. O kupê mora bem. Nós já moramos dentro da mata. FUNAI entrou, queria que nós morasse no chiqueiro. Eu não sou porco não, morar na lama, cagado, quero morar bem. Diferente do tempo da mata. Por que só a FUNAI pode morar bem, ver televisão, com dinheiro do índio? Os outros índios estão ruim, passando mal, eu não quero isto não, já chega, quero melhorar, dormir bem, morar bem, bonito... Presidente pode vir aqui, mas a obra continua. Já mudei, ninguém me manda, eu faço... (KROKRENUM,

29/10/80, apud RICARDO, op. cit., p. 71).