A comunicação não-verbal foi esquecida ao longo da história da comunicação verbal e da sua evolução, ora por estarem ilusoriamente próximas, ora por vaidade. Segundo Corraze (1980) apenas na segunda metade do século XX se admitiu a importância da comunicação não-verbal no Homem e se iniciou o seu estudo científico.
O estudo das comunicações não-verbais surge associado aos estudos de Antropologia, de Etnologia e da Psicologia dos afectos, fazendo parte do que Sebeok chama a Zoosemiótica.
Como refere Cosnier (1998b) a realização de estudos científicos sobre a comunicação não-verbal veio permitir um melhor conhecimento da mesma, através da sua observação diária. No entanto, a comunicação não-verbal tem, ainda, um estatuto marginal e mal definido. Este facto pode estar associado a algumas dificuldades na relação do investigador com o estudo da comunicação não-verbal. A primeira dificuldade, de ordem
mais técnica, está relacionada com a utilização de registos vídeo, que são difíceis de colocar em prática em determinadas situações. A segunda dificuldade, de ordem mais teórica, está relacionada com a definição dos observáveis, ou seja, enquanto as variáveis verbais se podem com alguma facilidade definir e transcrever, com as variáveis gestuais esses aspectos são complexos.
A comunicação não-verbal faz parte das interacções realizadas entre os indivíduos que comunicam entre si e, segundo Cosnier (1998b:143), a comunicação não-verbal mostra como “… regards, mimiques et expressions faciales, gestes et postures corporelles jouent un rôle essentiel dans l'accompagnement des paroles, dans la conduite de la conversation, et dans l'expression des affects”. Deste modo, o material semiótico que encontramos nas interacções é constituído por palavras, entoações, mímicas e gestos, estando a comunicação entre os indivíduos assente na linguagem verbal, não-verbal e paraverbal. Este tipo de comunicação torna-se, assim, essencial para transmitir informação.
Corraze (1980:13) define a comunicação não-verbal em oposição à utilização da comunicação verbal e começa a sua definição por uma exclusão “On entend par communications non-verbales l'ensemble des moyens de communication existant entre des individus vivants n'usant pas du langage humain ou de ses dérivés non sonores (écrits, langage des sourds-muets, etc.)”.
Segundo o autor, os enunciados utilizados na comunicação são uma mistura de proporções variáveis da linguagem verbal e da linguagem não-verbal, estando integrado nesta última o vocal e o mimogestual. Assim, Corraze (1980 :14) aplica o termo comunicação não-verbal quando se trata “…des gestes, à des postures, à des orientations du corps, à des singularités somatiques, naturelles ou artificielles, voire á des organisations d'objets, à des rapports de distance entre les individus, grâce auxquels une information est émise”.
A observação e análise dos dados não verbais da comunicação, em vários estudos surgem agrupadas, utilizando as seguintes designações: proxémica e cinésica (Kerbrat- Orechioni, 1994; E. T. Hall, 1994; Hall, 1996; Corraze, 1980; Cosnier, 1998b).
A proxémica, termo criado por Hall (1996), designa tudo o que se relaciona com a organização e a utilização do espaço no homem. Este aspecto foi amplamente aprofundado pela sociobiologia que investigou a dispersão no espaço e o ordenamento do espaço pelos indivíduos, de modo a melhor estudar os comportamentos sociais dos indivíduos. Assim, entendemos por comportamentos proxémicos as concepções da “boa distância” a adoptar em relação ao seu parceiro na interacção num determinado contexto. O autor defende que as relações espaciais entre os indivíduos constituem verdadeiros sistemas de comunicação.
A cinésica designa a mímica, os gestos e os olhares que são utilizados na interacção entre os indivíduos como refere Cosnier (1998b). A utilização do “canal cinésico” vai estar implicada na expressão de um conteúdo, tal como acontece com o canal verbal, embora o “canal cinésico” esteja mais direccionado para a manifestação de uma relação.
A comunicação não-verbal é abundante em gesticulações, no entanto, estas são mais ou menos utilizadas consoante a cultura dos indivíduos que estão em interacção. Nem todos os gestos são do âmbito da cinésica, segundo Kerbrat-Orechioni (1994), alguns são da competência simultânea da cinésica e da proxémica, são os gestos que implicam qualquer contacto corporal como beijos, apertos de mão, beija-mão e abraços.
O olhar constitui um dos dados não-verbais muito importantes, funcionando como um dos elementos máximos do sistema de inter-regulação. O locutor confere ao seu olhar um valor de sinal, utilizando-o de diversas formas: olha directamente para o alocutário, não olha permanentemente para o alocutário ou provoca olhares ao alocutário. O olhar é, ainda, usado com várias intencionalidades, por exemplo: poderá ser usado para suspender ou retomar a conversação e, consequentemente, assinalar o compromisso ou descompromisso com o seu parceiro de conversação. Segundo Cosnier (1998b:146), o locutor emprega o olhar e “l'utilise à certains moments précis de son discours, souvent à un point de complétude vocale et sémantique ou lors d'une pause brève”.
Existem comunicações não-verbais, que são associadas à linguagem, compostas por sinais que fazem parte da paralinguagem. Alguns linguistas não estão de acordo com este termo e chamam-lhe sinais extra-linguísticos (Trager, 1958; Crystal, 1971; Lyons, 1972; cf Corraze, 1980). A paralinguagem é aplicável às modalidades da voz (modificação de altura, de intensidade, de ritmo, etc.) que proporciona, muitas vezes,
informações sobre o estado afectivo do locutor. Corraze (1980) considera, também, as emissões vocais como o bocejo, riso, o grito, a tosse, como integrando a paralinguagem.
O material semiótico altera-se, de um modo geral, de acordo com a sociedade e a sua cultura, os indivíduos, o sexo, as línguas. Segundo Kerbrat-Orechioni (1994) vários aspectos da comunicação podem sofrer alterações: a postura, os gestos, os olhares, a velocidade de elocução; a intensidade vocal, a altura da voz, entoações, e podem surgir, também, “produções vocais específicas” (grunhido, estalido da língua, etc) que podem estar presentes em algumas sociedades e noutras não aparecem ou são relevantes, e as interjeições que se situam na fronteira da linguagem verbal, da paraverbal e da não- verbal.
A variação cultural é o aspecto que mais pode afectar os vários dados da comunicação, quer sejam eles, não-verbais ou paraverbais. Como é mencionado por Kerbrat-Orechioni (1998) os comportamentos proxémicos e cinésicos, variam de uma sociedade para outra, damos alguns exemplos:
- A concepção de “boa distância” numa cultura implica uma distância reduzida e noutra cultura poderá significar uma distância mais alargada;
- As regras de orientação dos olhares poderão indicar que numa sociedade se deve olhar directamente o seu parceiro de interacção em sinal do seu interesse pela conversação, noutra sociedade a fixação do olhar poderá ser interpretada como sendo descortês; - O agradecimento é um ritual da maior parte das culturas, no entanto, a sua forma varia de cultura para cultura;
- A utilização da gesticulação é, também, muito variável de cultura para cultura, pelo que temos culturas que são consideradas “high kinesic” e outras são consideradas “low kinesic”.
O ser humano utiliza constantemente a comunicação não-verbal no seu quotidiano, mas domina muito pouco esse modo de comunicar. O indivíduo, normalmente, não presta atenção ao seu comportamento não-verbal, não estando consciente dos gestos que utiliza para comunicar, não escolhendo deliberadamente e de sua vontade os meios para o fazer. Corraze (1980) afirma que o indivíduo, quando comunica, está apenas consciente do conteúdo que quer transmitir, não existindo, por isso, uma escolha ou regulação das formas não-verbais que utilizamos na comunicação. No entanto, e embora o indivíduo não tenha controlo sobre a comunicação não-verbal que produz, a face é o
instrumento dessa comunicação que nos permite algum controlo. Como refere Ekman, (s/d cf Corraze, 1980 :95) «...la face est la zone des communications non-verbales que nous contrôlons le mieux, c'est « le meilleur menteur non-verbal » ».
No contexto escolar, também a comunicação não-verbal tem lugar, embora estudos realizados tenham demonstrado que este tipo de comunicação esteja mais ligado ao domínio afectivo, enquanto a comunicação verbal está mais relacionada com o domínio cognitivo como refere Postic (1990) citando Landsheere e Delchambre.
Tal como foi referido relativamente à comunicação verbal, apresentamos também em relação à comunicação não-verbal, as principais características do comportamento não- verbal do professor apontadas por Antão (1993:20 cf Morsh) são as seguintes:
- Posicionamento, na maior parte do tempo, na secretária ou no quadro; - Deslocação sobretudo ao centro e à parte detrás da sala;
- Apoio na secretaria;
- Consulta notas sobre os conteúdos;
- Utilização de gestos para prestar explicação, deslocando junto do quadro ou indo até aos alunos;
- Utilização do quadro, fazendo esquemas, escrevendo palavras-chave ou apagando-o; - Sorrindo.
O comportamento não-verbal do professor vai condicionar o comportamento não-verbal do aluno, tal como acontecia na comunicação verbal professor-aluno. Antão (1993:20 cf Morsh) faz, assim, o retrato do comportamento não-verbal do aluno na sala de aula:
- Levanta a mão para falar ou responder ao professor; - Olha à sua volta;
- Fica prostrado, boceja ou dormita; - Garatuja;
- Dirige-se à turma; - Ignora o professor; - Sorri.
A definição dos comportamentos não-verbais do professor e dos alunos é significativa para compreender o tipo de interacção que se desenrola na sala de aula, mas também é importante para perceber como se estabelecem as relações professor-aluno. A postura, o gesto e a expressão facial do professor determinam a maneira como este se relaciona com o aluno, os tipos de comportamentos que aprecia e que valoriza e os objectivos que quer alcançar com a sua comunicação. Como refere Delamont (1987:106):
“O professor que passa toda a lição sentado na sua secretária com um séquito silencioso à espera de o ver agir pode, como se compreende, ser distinguido do seu colega que anda de carteira em carteira e que por vezes se ajoelha junto de uma criança ou põe a mão no ombro de outra”
Distinguidos os vários tipos de linguagem que o professor utiliza na interacção com os alunos, pretendemos agora compreender o carácter que cada uma das comunicações assume dentro da sala de aula. Deste modo faremos uma breve referência a três tipos de comunicação do discurso, mencionados por vários investigadores: a comunicação emocional, a comunicação emotiva e a comunicação cognitiva.