III. Analyse didactique
3.1 Les catégories de mots
A tradução apresentada a seguir está organizada em duas caixas de texto, sendo a da esquerda o texto original em inglês e a da direita a tradução realizada para esta dissertação segundo a orientação dada pela teoria semiótica sobre a construção do sentido. Além das duas caixas de texto, a tradução contém também comentários, feitos em casos de
necessidade de justificativa da tradução, porém, uma única vez, pois o mesmo tipo de tradução ocorre mais de uma vez no texto, distribuídos ao longo das páginas da tradução. Uma das ocorrências bastante freqüentes no texto de chegada é a omissão ou supressão do pronome do pronome pessoal “he” do inglês. O uso desse recurso consiste em reduzir a extensão da frase em português, ainda que pouco e não se distanciando da própria característica do português de omissão do pronome, como em casos como o seguinte trecho.
“He is a half-dead, unresponsive lump, incapable of giving or receiving pleasure or happiness; consequently, he is at best an utter bore, an inoffensive blob, since only those capable of absorption in others can be charming.” (p.72).
“É um semimorto, uma massa involuntária, incapaz de proporcionar ou permitir que lhe proporcionem prazer ou felicidade; conseqüentemente, consegue muito que forçosamente ser uma bolha inofensiva, uma vez que, somente aqueles capazes de mergulhar no outro é que conseguem ter certo charme.” (p. 72).
Por outro lado, em algumas situações, o mesmo pronome pessoal “he” foi traduzido por “o macho” ou “o homem” na tentativa de manter o mesmo tom do original. O texto em inglês apresenta o tom colérico em algumas passagens, por meio do recurso de forte adjetivação pejorativa atribuída ao sujeito homem. Em casos em que um equivalente em língua portuguesa não foi encontrado, a acidez do original foi recuperada pela palavra “macho”, pois esta representa não somente o sexo masculino, como também o comportamento do homem garanhão e viril, imagem desqualificada no texto. O recurso da tradução de “he” por “macho” ou “homem” também corrobora a presença colérica e contundente do ethos do original, na tradução, como foi demonstrado no capítulo de análise semiótica.
“He is trapped in a twilight zone halfway between humans and apes, and is far worse off than the apes because, unlike the apes, he is capable of a large array of negative feelings - hate, jealousy, contempt, disgust, guilt, shame, doubt - and moreover, he is aware of what he is and what he isn't.” (p.73)
“Ele está preso num crepúsculo, a meio caminho dos seres humanos e dos macacos, e ainda é muito pior que os macacos porque, diferente destes, o macho consegue agrupar uma infinidade de sentimentos negativos; ódio, ciúmes, desprezo, repugnância, culpa, vergonha, dúvida, e o que é pior, ele tem consciência do que ele é e não é.” (p. 73)
A dificuldade em empregar uma palavra mais expressiva em português para evitar o acúmulo de adjetivos, naturais da língua inglesa, acarretou na quebra de frases do original em frases menores do português e na alteração sintática do inglês para o português. A escolha foi feita com o objetivo de manter a forte adjetivação dirigida ao sujeito masculino uma vez que a intenção do texto parece ser a de denunciá-lo. No entanto, deve-se dizer que a opção feita, conscientemente, interferiu na marcação rítmica existente no original. As alterações sintáticas do português propõem uma pausa no ato da denúncia do sujeito homem, já o texto em inglês sugere a manutenção do ritmo de tratamento dado ao sujeito. Não há hesitação no texto de partida, como pode-se observar nos exemplos dados.
“Overwhelmed by a sense of animalism and deeply ashamed of it; wanting, not to express himself, but to hide from others his total physicality, total egocentricity, the hate and contempt he feels for other men, and to hide from himself the hate and contempt he suspects other men feel for him; having a crudely constructed nervous system that is easily upset by the least display of emotion or feeling, the male tries to enforce a “social” code that ensures perfect blandness, unsullied by the slightest trace or feeling or upsetting opinion.” (p.77).
“Asfixiado por um senso de bestialidade e profundamente envergonhado por isso, o macho quer, não se exprimir, mas ocultar dos outros que ele é apenas físico. Procura esconder dos outros seu egocentrismo, o ódio e o desprezo que sente pelos outros homens e de si próprio o ódio e desprezo que suspeita lhe ser dirigido pelos outros homens. Tendo um sistema nervoso toscamente construído, o macho fica facilmente perturbado com a menor demonstração de emoção ou sentimento e tenta instituir um código social que lhe assegure total indiferença sem qualquer sinal de sentimento ou opinião desconcertante.” (p.77)
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S.C.U.M Manifesto
Society for Cutting Up Men
Life in this society being, at best, an utter bore and no aspect of society being at all relevant to women, there remains to civic-minded, responsible, thrill-seeking females only to overthrow the government, eliminate the money system, institute complete automation and destroy the male sex.
It is now technically feasible to reproduce without the aid of males (or, for that matter, females) and to produce only females. We must begin immediately to do so. Retaining the male has not even the dubious purpose of reproduction. The male is a biological accident: the Y (male) gene is an incomplete X (female) gene, that is, it has an incomplete set of chromosomes. In other words, the male is an incomplete female, a walking abortion, aborted at the gene stage. To be male is to be deficient, emotionally limited; maleness is a deficiency disease and males are emotional cripples.
Manifesto S.C.U.M
Uma proposta para o extermínio do sexo masculino
A vida em sociedade é um saco e nenhum de seus aspectos tem qualquer relevância para as mulheres; resta, então, às mulheres sensíveis, responsáveis e engajadas, derrotar o governo, eliminar o sistema monetário, instituir a completa automatização completa e destruir o sexo masculino.
Hoje em dia é, tecnicamente, possível reproduzir sem a ajuda dos machos (ou ainda, das próprias fêmeas) e produzir somente fêmeas. Precisamos começar imediatamente a fazê-lo. Conservar o macho sequer tem o propósito de reprodução. O macho é um acidente biológico: o gene Y (macho) é um gene X (fêmea) incompleto, tem um conjunto incompleto de cromossomos. Em outras palavras, o macho é uma fêmea incompleta, um aborto ambulante, abortado no estado de gene. Ser macho é ser deficiente, emocionalmente limitado. A condição masculina é uma deficiência, é ser emocionalmente incapaz.
Comentários: A palavra “scum” do original traz, além do significado “escória” em português, a formação da sigla “Society for Cutting Up Men”. Em português, no entanto, não foi possível encontrar tal equivalente e optou-se, portanto, pelo título proposto “Uma proposta para o extermínio do sexo masculino” , na tentativa de recuperar, no título, por meio da palavra extermínio, a cólera apresentada no texto.
A tradução de “utter bore” por “um saco” ainda que pareça um tanto carrega na tradução, uma vez que bore tem a chatice como equivalente em português, se deu por conta da contribuição da análise do ethos da enunciação feita no terceiro capítulo da dissertação. A verificação do ethos como sendo contundente e não disposto ao diálogo ao fazer suas denúncias permitiu uma tradução um tanto mais ofensiva que o original.
The male is completely egocentric, trapped inside himself, incapable of empathizing or identifying with others, or love, friendship, affection of tenderness. He is a completely isolated unit, incapable of rapport with anyone. His responses are entirely visceral, not cerebral; his intelligence is a mere tool in the services of his drives and needs; he is incapable of mental passion, mental interaction; he can't relate to anything other than his own physical sensations. He is a half-dead, unresponsive lump, incapable of giving or receiving pleasure or happiness; consequently, he is at best an utter bore, an inoffensive blob, since only those capable of absorption in others can be charming.
O macho é completamente egocêntrico, voltado para si próprio, incapaz de socializar ou de se identificar com os outros; incapaz de amar, demonstrar amizade ou qualquer sentimento de ternura. Ele é uma unidade isolada, incapaz de entrar em harmonia com os outros. Suas reações são totalmente viscerais, não cerebrais; sua inteligência é mera ferramenta a serviço de seus impulsos e necessidades; ele é incapaz de se apaixonar e de interagir mentalmente, incapaz de se relacionar com qualquer coisa que não suas próprias sensações físicas. É um semimorto, uma massa involuntária, incapaz de proporcionar ou permitir que lhe proporcionem prazer ou felicidade; conseqüentemente, consegue muito que forçosamente ser uma bolha inofensiva, uma vez que, somente aqueles capazes de mergulhar no outro é que conseguem ter certo charme.
Comentários: Ao longo de todo o texto, os semas “male” e “men” são utilizados como referencia ao sexo masculino. A dificuldade encontrada aqui está no fato de que “male” em inglês, segundo os dicionários Longman, Cambridge e Michaelis, é o sexo que não gera um outro ser vivo, mas o sexo que fertiliza, ou seja, há, nos dicionários de língua inglesa, uma referência à reprodução. Já o dicionário Houaiss da língua portuguesa, por sua vez, atribui adjetivos ao macho como possuidor de energia, de virilidade, de força, sujeito másculo e até mesmo valentão. Percebe-se que em língua inglesa a definição de macho está mais preocupada com a diferença biológica entre macho e fêmea, já em língua portuguesa a definição biologia é utilizada para justificar as características de sujeito macho e viril. Devido ao caráter distinto da palavra nas duas línguas, a escolha da tradução por “macho” foi feita, em passagens como a da nota, por tratarem da figura masculina no sentido animal, enquanto que em outras, apresentando o sujeito não mais animal e sim racional, o termo escolhido para a tradução foi “homem”.
He is trapped in a twilight zone halfway between humans and apes, and is far worse off than the apes because, unlike the apes, he is capable of a large array of negative feelings - hate, jealousy, contempt, disgust, guilt, shame, doubt - and moreover, he is aware of what he is and what he isn't.
Although completely physical, the male is unfit even for stud service. Even assuming mechanical proficiency, which few men have, he is, first of all, incapable of zestfully, lustfully, tearing off a piece, but instead is eaten up with guilt, shame, fear and insecurity, feelings rooted in male nature, which the most enlightened training can only minimize; second, the physical feeling he attains is next to nothing; and third, he is not empathizing with his partner, but is obsessed with how he's doing, turning in an A performance, doing a good plumbing job.
Ele está preso num crepúsculo, a meio caminho dos seres humanos e dos macacos, e ainda é muito pior que os macacos porque, diferente destes, o homem consegue agrupar uma infinidade de sentimentos negativos; ódio, ciúmes, desprezo, repugnância, culpa, vergonha, dúvida, e o que é pior, ele tem consciência do que ele é e não é.
Embora seja totalmente físico, o macho não está apto sequer para as funções de garanhão. Ainda que assuma sua competência mecânica, o que poucos homens conseguem, ele é, antes de tudo, incapaz de tirar uma peça de roupa sensual ou prazerosamente. Ao invés disso, ele é engolido pela culpa, vergonha, medo e insegurança; sentimentos enraizados na natureza masculina e que o mais eficaz dos treinamentos consegue apenas minimizar. Em segundo lugar, a sensação física que ele consegue obter está próxima do nada. E em terceiro lugar não consegue ter empatia pela parceira, mas fica obcecado por seu desempenho, fazendo de seu trabalho de encanador uma performance nota dez.
Comentários: a análise dos temas e figuras do nível discursivo permitiu verificar que o percurso figurativo constrói a isotopia do desempenho sexual masculino, permitindo a tradução de “plumber” pelo seu equivalente “encanador”, sem dar margem à leitura de encanador como figura de profissão.
To call a man an animal is to flatter him; he's a machine, a walking dildo. It's often said that men use women. Use them for what? Surely not pleasure.
Eaten up with guilt, shame, fears and insecurities and obtaining, if he's lucky, a barely perceptible physical feeling, the male is, nonetheless, obsessed with screwing; he'll swim through a river of snot, wade nostril-deep through a mile of vomit, if he thinks there'll be a friendly pussy awaiting him. He'll screw a woman he despises, any snaggle-toothed hag, and furthermore, pay for the opportunity. Why? Relieving physical tension isn't the answer, as masturbation suffices for that. It's not ego satisfaction; that doesn't explain screwing corpses and babies.
Chamar um homem de animal é elogiá-lo. Ele é uma máquina, um vibrador ambulante. Diz-se que os homens usam as mulheres. Usam? Para o quê? Para o prazer é que não é.
Consumido pela culpa, pela vergonha, por medos e inseguranças, o macho é, contudo, obcecado, graças à sensação física perceptível somente por muita sorte, por meter. É capaz de atravessar um rio de catarro ou de andar um quilômetro com vômito até o nariz se acreditar que uma boceta amiga o espera no final. Trepará com uma mulher que ele despreza, qualquer bruaca desdentada, e pagará por isso. Porquê? Para aliviar a tensão física não é resposta, já que isso a masturbação resolve. Para satisfazer o ego também não porque cadáveres e bebês não proporcionam tal prazer.
Comentários: a tradução de “walking dildo”, primeiramente, transitou entre “pinto ambulante” e “vibrador ambulante”. Considerando o homem um sujeito de carne e osso, um pinto, também em condição viva, aproximaria o termo da idéia de impulso animal. Por outro lado, a adjetivação do homem como máquina de fazer sexo afasta a leitura animalizada do ser vivo e aproxima da leitura mecânica do sexo. Uma vez que, na mesma página, a percepção do prazer sexual masculino é descrita como quase que imperceptível, optou-se por vibrador , na tradução, para corroborar com a construção de tal sentido.
Completely egocentric, unable to relate, empathize or identify, and filled with a vast, pervasive, diffuse sexuality, the male is physically passive. He hates his passivity, so he projects it onto women, defines the male as active, then sets out to prove that he is (“prove that he is a Man”). His main means of attempting to prove it is screwing (Big Man with a Big Dick tearing off a Big Piece). Since he's attempting to prove an error, he must “prove” it again and again. Screwing, then, is a desperate compulsive attempt to prove he's not passive, not a woman; but he is passive and does want to be a woman.
Being an incomplete female, the male spends his life attempting to complete himself, to become female. He attempts to do this by constantly seeking out, fraternizing with and trying to live through and fuse with the female, and by claiming as his own all female characteristics - emotional strength and independence, forcefulness, dynamism, decisiveness, coolness, objectivity, assertiveness, courage, integrity, vitality, intensity, depth of character, grooviness, etc - and projecting onto women all male traits - vanity, frivolity, triviality, weakness, etc.
Completamente egocêntrico, incapaz de se relacionar, de se preocupar ou de se identificar com o outro, e com uma sexualidade vasta, penetrante e difusa, o macho é fisicamente passivo. E por odiar essa passividade, ele a projeta nas mulheres, denomina-se ativo e então procura provar sua condição (“provar que é um Macho”). Trepar é o melhor modo de provar que é ativo na relação (o Machão com um Grande Pinto arrancando a roupa de um Mulherão). Uma vez que tenta legitimar um equívoco, ele precisa comprová-lo incansavelmente. Assim, trepar é uma tentativa desesperada, compulsiva, de provar que ele não é passivo, de que não é mulher. No entanto, ele é passivo e quer mesmo é ser mulher.
Sendo uma fêmea incompleta, o macho passa a vida tentando se completar, ou seja, tornar- se mulher. Faz isso buscando constantemente as fêmeas, confraternizando e tentando viver e fundir-se com elas. Reivindica para si todas as características femininas: resistência emocional e independência, força, dinamismo, poder de decisão, calma, objetividade, auto-afirmação, coragem, integridade, vitalidade, intensidade, caráter profundo, adaptabilidade etc. e projeta nas mulheres todos os traços masculinos: vaidade, frivolidade, trivialidade, fraqueza etc.
It should be said, though, that the male has one glaring area of superiority over the female - public relations. (He has done a brilliant job of convincing millions of women that men are women and women are men). The male claim that females find fulfillment through motherhood and sexuality reflects what males think they'd find fulfilling if they were female.
Women, in other words, don't have penis envy; men have pussy envy. When the male accepts his passivity, defines himself as a woman (males as well as females think men are women and women are men), and becomes a transvestite he loses his desire to screw (or to do anything else, for that matter; he fulfills himself as a drag queen) and gets his dick chopped off. He then achieves a continuous diffuse sexual feeling from “being a woman”. Screwing is, for a man, a defense against his desire to be female. He is responsible for:
Só existe uma área em que a superioridade masculina sobre a fêmea é evidente: a de relações públicas. Ele obteve grande sucesso na tarefa de convencer milhões de mulheres de que os homens são mulheres e as mulheres são homens. O homem alega que as fêmeas se realizam por meio da maternidade, a sexualidade, porém, reflete a visão do macho sobre o que seria a realização masculina se ele fosse fêmea.
As mulheres não têm inveja do pênis; os homens é que têm inveja da vagina. Quando o macho aceita sua passividade, define-se como mulher (tanto o macho quanto a fêmea acreditam que os homens sejam mulheres e que as mulheres sejam homens), torna-se um travestido e perde o desejo de meter (ou de fazer qualquer outra coisa do tipo; ele só se realiza como uma drag queen) e faz com que lhe cortem o pinto. Daí em diante ele adquire um desejo contínuo e difuso de “ser mulher”. Trepar é para o homem uma defesa contra seu desejo de ser fêmea. Por causa do homem há:
Comentários: Como foi mencionado no comentário na primeira página do terceiro capítulo, a análise do ethos do enunciado e da enunciação serviu para orientar a tradução nas escolhas entre vagina e boceta, pênis e pinto, transar, trepar e meter, por exemplo. Desse modo, a tradução aqui apresentada tem um caráter pouco convencional. No entanto, a tradução de “women, in other words, don’t have penis envy ” por “As mulheres não têm inveja do pênis ” procurou manter o substantivo pênis por se tratar de uma reescrita da psicologia freudiana de que as mulheres têm inveja do pênis.
War: The male's normal compensation for not being female, namely, getting his Big Gun off, is grossly inadequate, as he can get it off only a very limited number of times; so he gets it off on a really massive scale, and proves to the entire world that he's a “Man”. Since he has no compassion or ability to empathize or identify, proving his manhood is worth an endless amount of mutilation and suffering and an endless number of lives, including his own - his own life being worthless, he would rather go out in a blaze of glory than to plod grimly on for fifty more years.
Niceness, Politeness, and “Dignity”: Every man, deep down, knows he's a worthless piece of shit. Overwhelmed by a sense of animalism and deeply ashamed of it; wanting, not to express himself, but to hide from others his total