Introdução Geral
Introdução Geral
A Síndrome de Imunodeficiência Adquirida (SIDA) foi identificada e caracterizada em 1981(60), sendo a sigla AIDS usada pela primeira vez na edição de Setembro de 1982 de um relatório semanal do CDC, o “Mortality and Morbility Weekly Report”, intitulado “Acquired Immunodeficiency Syndrome (AIDS): Precautions for Health- Care Workers and Allied Professionals ”http://www.cdc.gov/mmwr/preview/mmwrht .ml/00000133.htm
Em 1983, Luc Montagnier e Françoise Barré-Sinoussi isolaram o primeiro vírus, a partir do sangue de um indivíduo em fase de pré-SIDA ou ARC (AIDS-Related Complex), o qual foi denominado de LAV (lymphadenopathy-associated Virus) (12). Pouco tempo depois, Roberto Gallo, nos EUA, identificou um outro retrovirus, denominado HTLV-III (Human T-cell Lymphotropic Virus) que correspondia ao virus que Luc Montagnier et al tinham isolado. Constatando-se que os vírus tinham características biológicas idênticas e que estavam associados à mesma patologia, foram posteriormente designados de Vírus da Imunodeficiência Humana (VIH).
Em 1986, um novo retrovírus (VIH-2) foi isolado a partir de indivíduos oriundos da Guiné-Bissau e Cabo Verde (África Ocidental), na época, internados e seguidos pela equipa do Dr. José Luís Champalimaud, no Hospital Egas Moniz, em Lisboa, com um quadro clínico de diarreias crónicas de etiologia desconhecida(51).
Ambos evidenciavam uma síndrome clínica semelhante à dos indivíduos manifestamente em fase clínica de SIDA(30, 34).
As amostras foram levadas até ao Instituto Pasteur, em Paris, para serem caracterizadas. Da colaboração com o grupo francês liderado pelo Professor Luc Montagnier, e do trabalho pioneiro da Professora Doutora Maria Odette Santos Ferreira, da Faculdade de Farmácia da Universidade de Lisboa, resultou a identificação do segundo vírus associado à SIDA, o VIH-2.
Os Vírus da Imunodeficiência Humana 1 (VIH-1) e 2 (VIH-2), estão descritos como pertencentes à família Retroviridae, subfamília Orthoretrovirinae e ao género Lentivirus [Internacional Commitee on Taxonomy of Viruses (ICTV dB - http://www.ictvonline.org/)]. Nos humanos, a infecção destes dois vírus é caracterizada por uma gradual e irreversível degradação do sistema imunológico do hospedeiro, que em última instância conduz ao aparecimento de uma grave imunodeficiência, característica dos doentes com SIDA. Como consequência dessa imunodeficiência, os indivíduos infectados podem, nas fases mais avançadas da infecção, desenvolver infecções oportunistas e neoplasias que constituem a expressão clínica da SIDA.
Dos casos esporádicos e epidemiologicamente restritos identificados nessa altura, esta situação evoluiu até aos dias de hoje, infectando na actualidade milhões de pessoas em todo o mundo. As estimativas referentes a dados epidemiológicos do relatório global de Dezembro de 2012 da WHO-UNAIDS (http://www.unaids.org/, consultado em Dezembro de 2013), referem que 35,3 milhões (32,2 - 38,8 milhões) de pessoas estarão infectadas com o VIH - um aumento de 17% em relação aos dados de 2001; 2,3 milhões (1,9-2,7 milhões) de pessoas terão sido infectadas durante o ano de 2012 ; e, desde o início da pandemia, a SIDA, terá custado a vida a quase 20 milhões de adultos e crianças, entre eles, 1,6 milhões (1,4-1,9 milhões) durante o ano de 2012.
A situação em Portugal a 31 de Dezembro de 2012 (http://repositorio.insa.pt/handle /10400.18/1622, consultado em Dezembro de 2013), informa que 42.580 pessoas estão infectadas com VIH, dos quais, 1 551 foram recentemente notificados e, de todos, 2.386 são assintomáticos. Em fase de SIDA, estão descritos 17.373 casos e 1.436 são referentes à infecção por VIH-2.
A pandemia da SIDA passou por quatro fases evolutivas. Na fase inicial, o VIH emergiu a partir de zonas rurais de certas regiões do continente africano.
Aparentemente, terá circulado durante várias décadas nessas regiões rurais, em consequência de episódios zoonóticos de transmissão de estirpes de VIS (Vírus da Imunodeficiência dos Símios) de algumas espécies de primatas não humanos ao homem (91, 141).
Por razões de natureza económica, social e demográfica, esta infecção alastrou para populações urbanas, residentes em regiões mais ou menos adjacentes às iniciais. Na segunda fase, a disseminação envolveu grupos de risco particularmente bem definidos. O comportamento nestes grupos de risco, incluindo a promiscuidade sexual e o uso de drogas intravenosas, conduziu à terceira fase da evolução da pandemia, que ocorreu ao longo das décadas de 80 e 90 do século passado, durante a qual, a taxa de novas infecções atingiu números assustadores e que conduziu ao actual estado pandémico da infecção. Finalmente, uma quarta fase de estabilização ocorreu em certas regiões geográficas, nomeadamente na Europa Ocidental, Estados Unidos da América e Austrália, onde as medidas de controlo, entretanto implementadas, parecem ter tido um efeito positivo na redução de novos casos de infecção. No entanto, em algumas regiões, como a África sub- saha-riana, a Europa de Leste e a Ásia, continuam a verificar-se uma escalada dos casos de SIDA e de novas infecções. Apesar da intensa resposta internacional à pandemia VIH/SIDA, a infecção continua a transmitir-se, causando mais de 14 mil novas infecções por dia, sendo 95% delas nos países em desenvolvimento.
O perfil da pandemia envolve várias e graves consequências, não somente nos sistemas de saúde de vários países, incapazes de lidar com um número tão elevado de indivíduos infectados, mas também nas economias desses países, devido à diminuição das populações jovem e de meia idade, economicamente mais produtivas. As intervenções internacionais (Declaration of Commitment on HIV/AIDS, 2006), com o objectivo de controlar a pandemia, levadas a cabo em vários países, apesar de alguns sinais positivos, parecem ser incapazes de estabilizar e, muito menos, de reverter a evolução negativa deste grave problema de saúde pública. A necessidade urgente de acelerar o desenvolvimento de uma vacina contra a SIDA, levou à formação de um programa, resultado de uma iniciativa conjunta entre a OMS e a UNAIDS, intitulado HVI (HIV Vaccines Initiative). Este, tem como proposição principal promover o desenvolvimento, facilitar a avaliação, e abordar a disponibilidade futura de vacinas preventivas para o VIH, com especial atenção
sobre a necessidade dos países em desenvolvimento, dentro do seu ambiente social, cultural e político, tendo em conta ainda as questões éticas, a mobilização política e a forte ligação com a comunidade. O HVI procura atingir especialmente o desenvolvimento de produtos, estratégias de vacinação numa parceria público - privada, estabelecida no desenvolvimento e fornecimento de uma ampla gama de vacinas para os programas de prevenção de saúde pública, naquelas regiões e países. Neste contexto, é de extrema importância o desenvolvimento de linhas de investigação, em Portugal, que visem o estudo dos mecanismos patogénicos envolvidos na infecção pelo VIH.