O aparecimento dos edifícios do tipo “Gaioleiro” (1880-1930), surge num contexto histórico que teve o seu início no ano de 1755. A data de 1 de Novembro de 1755 ficou marcada por um violento sismo, com dimensões catastróficas para a cidade de Lisboa, que para além do imensurável impacto económico e político na sociedade portuguesa da época, mudou para sempre o processo construtivo na cidade de Lisboa.
Devido ao violento terramoto que se fez sentir (grau 9 na escala de Ritcher), deu-se uma subida repentina das águas que banham a zona ribeirinha da cidade com ondas que se crêem ter chegado a uma altura de 20 metros, posteriormente, deflagraram múltiplos incêndios que duraram cerca de seis dias completando assim o cenário de destruição de toda a baixa de Lisboa destruindo milhares de habitações. Estima-se que o número de vítimas se estendeu até 35% da população num universo de 250.000 habitantes e que a percentagem de edifícios destruídos ou com danos estruturais considerados graves, chegou aos 10% e 60% respectivamente [9].
Figura 2.3 - Vista de Lisboa antes do terramoto (superior) e depois do terramoto (inferior) [10]
A partir deste momento dá-se o ponto de viragem na construção de edifícios de habitação na cidade de Lisboa, o abalo que se fez sentir expôs de forma inequívoca as fragilidades estruturais dos edifícios que se construíam até à data.
Face à destruição sentida na baixa Lisboeta era necessário proceder à sua reconstrução, nesse sentido a 4 de Dezembro de 1755, Manuel da Maia engenheiro mor do reino, apresenta a primeira parte de um tratado onde propõe várias alternativas possíveis para a reconstrução da cidade. Foram formadas três equipas de arquitectos e engenheiros militares chefiadas pelos capitães Elias Poppe, Eugénio dos Santos e pelo ajudante Gualter da Fonseca, a estas equipas foi solicitada a execução de projectos que tivessem como pressupostos o melhoramento da segurança dos edifícios e a higiene das ruas e das habitações. Foi então aceite o projecto de reabilitação da baixa da autoria dos arquitectos Eugénio dos Santos e Carlos Mardel datado de 12 de Junho de 1758, cuja disposição final é apresentada na Figura 2.4.
Figura 2.4 - Projecto de reconstrução da baixa de Lisboa [10]
Do contributo dos engenheiros e arquitectos resulta a criação de um sistema capaz de dotar os edifícios de condições de sustentação às acções de um sismo, surge então neste período a denominada “Gaiola Pombalina”, uma estrutura de madeira que procurava assegurar a estabilidade da estrutura central das habitações da época [11].
A gaiola de madeira tinha então como principal função assegurar aos edifícios capacidade resistente às acções horizontais, conferindo-lhes uma estrutura de madeira preenchida com
alvenaria de pedra. A descrição estrutural destes edifícios feita por França (1983) [12], vai no sentido de que “A descrição técnica de gaiola é assaz simples: compõem-se essencialmente de um jogo de prumos e travessanhos, cujas secções são, respectivamente, de 15 por 13 centímetros e de 10 por 13 centímetros. Os travessanhos são ligados às paredes por „mãos‟. A parte superior dos prumos é ligada pelos frechais. A madeira empregada é o carvalho ou o azinho. As ligações entre estes elementos são asseguradas por um sistema macho-fêmea (…)”.
Figura 2.5 - Gaiola Pombalina
No período pós-sismo surge a denominada “Época Pombalina”, caracterizada essencialmente pela excepcional qualidade da construção, devido à memória recente do sismo aliadas às novas directivas Pombalinas. Nesta altura foi reconstruída integralmente a zona baixa de Lisboa, estendendo-se a construção a novas áreas urbanas situadas a Noroeste da cidade [13]. O plano pombalino é caracterizado por coerência, homogeneidade e equilíbrio assentes numa “estrutura reticulada do traçado dos eixos viários, na proporção e no posicionamento relativo dos quarteirões, e na uniformidade dos edifícios projectados em termos de alçados e de compartimentação interior” [6].
Os anos foram passando sobre a data do terramoto, fazendo esquecer as consequências que dele resultaram associadas às debilidades estruturais dos edifícios, abrindo desta forma o caminho para um abrandamento sucessivo das exigências pombalinas e para o aparecimento de um novo tipo de construção na cidade de Lisboa, que se proliferou entre meados do século XIX e o princípio do segundo quartel do século XX. A nova forma de construir conserva algumas das características do período Pombalino, sendo considerada uma construção de pior qualidade em que se perdeu ou ignorou o rigor construtivo antes adoptado, ao passar de “Gaiola Pombalina” para “Gaioleiro”. No final da década de 1870 começam então a surgir em grande escala os edifícios denominados de “Edifícios Gaioleiros” numa fase de grande expansão urbana na cidade de Lisboa, existindo uma predominante concentração destes edifícios, expandindo as fronteiras da cidade a Norte e a Poente. O edificado “Gaioleiro” começa a surgir em grande número numa época onde se registou um aumento significativo da população na cidade de Lisboa (Figura 2.6), era portanto necessário encontrar alternativas para responder às necessidades, havendo por isso urgência em edificar de
Legenda: A – Prumos B – Escoras C – Travessanhos A B C
uma forma mais célere os edifícios e o mesmo prédio deveria concentrar mais pessoas de modo a responder às exigências demográficas e sociais da época, resultando num período de pura especulação imobiliária.
Figura 2.6 - Volume populacional na cidade de Lisboa (1864 - 1930) [14]
De uma forma geral, “a construção deste tipo de edificado está directamente ligado ao prédio de rendimento Lisboeta, segundo duas modalidades – o prédio construído para vender, ou construído por encomenda mas destinado a ser alugado por fracções” [11]. O número de pisos aumentou para 5 e 6 pisos, utilizando-se cada vez menos a gaiola de madeira característica dos edifícios Pombalinos ou alterando a sua concepção original, chegando mesmo a desaparecer elementos de solidarização horizontal em paredes-mestras [15]. Os materiais utilizados na construção eram na generalidade de menor qualidade, quando comparados com os da época antecessora e a construção dos diversos elementos mais descuidada.
O edificado “Gaioleiro” perdurou durante cerca de 60 anos até 1930, tendo o seu declínio início no ano em que começaram a surgir os edifícios “de placa” (edifícios mistos de alvenaria e betão armado). Actualmente, os edifícios “Gaioleiros” padecem de muitos problemas devido ao estado avançado de degradação e por ao longo do tempo de uma forma geral, não serem considerados merecedores de medidas de protecção por partes das entidades do património arquitectónico, que o justificam pela falta de qualidade que apresentam, sendo frequente encontrar este tipo de edificado associado a graves problemas de segurança estrutural, pondo muitas vezes em causa a segurança da via pública.