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sortie 18 III.3.6 Répartition selon les circonstances de découverte

II. PATIENTS & METHODES

IV.5. Les aspects thérapeutiques

O motivo mais importante para esta aparente mudança de situação da Comédia Média está em sua inclusão da filosofia. Já citamos e marcamos a semelhança de temas de outras comédias que não são diretamente ligadas à filosofia, em particular Os Babilônios de Aristófanes e As Cabras de Êupolis. As outras comédias mais importantes, como o Conno de Amípsias e Os Aduladores de Êupolis, citam filósofos nominalmente, mas é bem possível e é até mais provável que não tratem diretamente da filosofia como As Nuvens faz.

As Nuvens são a única comédia do corpus da Comédia Antiga que trata

especificamente de um tema filosófico. Podemos ter quase certeza disso pela natureza das nossas notícias, pois caso tenha havido alguma outra comédia que colocasse Sócrates ou outro pensador no centro, teríamos tido dela algum tipo de notícia. Como não há notícia alguma, são extremamente reduzidas as chances de haver algo mais.

No entanto, As Nuvens não são uma comédia especificamente sobre a filosofia, não no sentido de que possua um filósofo como principal κωμῳδούμενος, mas pelo fato de que as mais importantes doutrinas de Sócrates não são contestadas por Aristófanes. Afinal, todas as afirmações sobre moscas, salamandras, chuva, e mesmo sobre a queda de Zeus, não são parte essencial da peça, e sim apenas elementos de caracterização do personagem, os quais formam aquilo que se esperava de um pensador qualquer, razão pela qual Aristófanes pôde “vestir” Sócrates com diversos “costumes” intelectuais, ainda que mantendo o escárnio como objeto. No entanto, o que é central na comédia é o efeito que tais ensinamentos provocam na juventude ateniense, isto é, o que é central é a evolução de Fidípides. Devemos aqui voltar à análise de Marrou que considerava a comédia como um exemplo do confronto entre dois tipos

183 Vide as considerações sobre o surgimento e a busca de testemunhos feita por Riedweg em Pythagoras: His Life teaching, and Influence. Cornell University Press, Ithaca, 2005.

de educação, o primeiro que era a educação da Grécia arcaica, baseada na música e na ginástica, e o segundo que era a nova educação da qual Sócrates certamente fazia parte.

A prova mais importante disso talvez esteja no fato de que todas as outras comédias que conseguimos aproximar d’As Nuvens possuem como tema central justamente este. Muito comentamos sobre As Cabras de Êupolis, as quais certamente tratam da diferença entre dois tipos de educação, e, apesar de os fragmentos serem bastante escassos, a cena da aula de dança coloca em relevo, como já comentamos, a diferença entre essas duas formas de educação. Tal oposição também é certamente central n’Os Parasitas de Êupolis, com a presença de Cálias, que é corrompido pelos sofistas (esta é, inclusive, a cena do diálogo

Protágoras de Platão). Também Os Babilônios de Aristófanes contêm uma cena de aula que

trata da diferença entre um jovem e um velho, o jovem sendo o καταπύγων, termo de abuso que ocupa lugar central na conclusão do agón principal d’As Nuvens. Em outras palavras, não apenas n’ As Nuvens, mas em todas as comédias antigas, a filosofia só é mencionada pelo efeito que produz na juventude e pouco interesse ainda havia por esta figura do filósofo.

Muito já se falou sobre a apropriação de Sócrates n’ As Nuvens. No entanto esqueceu se daquilo que talvez tenha sido central. Falamos do fato de que, do ponto de vista de um defensor da tradição educativa da Idade Arcaica, as diferenças entre Sócrates e os sofistas são meramente de detalhe. Talvez seja importante aqui citar a defesa do argumento forte: " - " " @ & . " , $ # 4 # # ! , 4 # / F 2 "% *# * + # + < "4 F ) * B)# " # . . - D VK # V D V 2 V " = A + ! 2 - # D ; A d # "2 @ H # 4 "% "2 "% , 2 # * & * , " / F ) ) # # ; # $ *# ? *# # *# &2 " "; D 4 $ * , 9# * + " # # $ - 9# # D 4 # 4 # * 4 * 2 %

Direi então como a antiga educação se constituía

Quando eu era jovem dizendo coisas justas e a sensatez era bem quista. Em primeiro lugar não se devia ouvir a voz de um garoto cochichando nada,

Depois deviam andar bem organizados pelas ruas até o citaredo Juntos os vizinhos nus, nem se nevasse uma neve bem fofa. O professor, por sua vez, começava ensinando os a cantar,

Em seguida lhes ensinava a decorar um canto, não juntando as coxas, Ou “Palas terrível destruidora de cidades” ou “um clamor longínquo”, Estendendo a harmonia que os pais transmitiram.

E se algum deles fosse indecente e modulasse uma modulação Como as que os de agora fazem, as terríveis modulações de Frinis, Seria espancado, sendo batido muitas vezes por ter rejeitado as Musas. E era necessário os rapazes sentando no pedótriba esticarem as pernas Para não mostrar nenhuma indecência para fora.

E depois, ao se levantar, ajuntar a areia e cuidar

Para não deixar nenhuma imagem para os amantes da juventude Nenhum garoto se untava para baixo do umbigo naquela época,

Assim sobre as vergonhas brotava um orvalho e uma penugem como sobre as maçãs E não tornando suave a voz para o amante

caminhava para ele oferecendo se com os olhos.

Não é possível deixar de assinalar a dificuldade de entrever a verdadeira doutrina socrática, especialmente em questões pontuais como essas. Mas haja vista as opiniões da larga maioria de seus discípulos, em especial Antístenes e Platão, não é difícil imaginar que Sócrates também se opunha a este sistema de educação baseado principalmente na música e na ginástica competitiva184, ou, se não se opusesse, pelo menos visava uma modificação radical das suas bases.

O grau com que ele se opunha a isso não é exatamente relevante; o que parece mais importante é que a literatura platônica, em alguns breves momentos, parece nos indicar que Sócrates tinha uma visão bastante utilitarista da educação, especialmente da ginástica185. Em

uma passagem no começo do Eutidemo, Sócrates comenta que os dois praticantes do pancrácio, o que dá o nome ao diálogo e seu irmão, são os que mais conhecem a arte da guerra. Se nos lembrarmos das afirmações do Eutidemo186, é possível entrever aqui algum tipo

de sarcasmo com relação a estas figuras, pois Sócrates afirma que a função única da ginástica é preparar para a guerra, e parece meramente usar o talento extremo na ginástica como se significasse talento máximo na guerra, podendo assim ser sutilmente sarcástico com os dois lutadores.

Esse comportamento do Sócrates platônico talvez deixe entrever algumas das opiniões do Sócrates histórico. Certamente ele não era oposto à ginástica, mas parece ser crítico em alguns pontos em relação à maneira com que tal atividade é desempenhada na sociedade grega.

184 Platão decerto considerava a ginástica um elemento importantíssimo da educação dos seus guardiães na República, livro II. Mas essa ginástica difere se totalmente da ginástica comum grega, a qual tem como objetivo a competição e a disputa.

185 Cf. República, 376e. 186 Cf. Eutidemo 273b

Ou seja, a posição de reformador de Sócrates, que parece estabelecida ao longo da tradição, ainda que ele seja moderado e esteja longe de ser um radical como os sofistas, como será Platão, já é por si um fator que causaria a oposição direta de qualquer tradicionalista. É com base nisso, portanto, que Aristófanes faz uso do seu Sócrates como de um radical à moda dos sofistas; ele é um opositor da tradição, ainda que suave, e isso basta para colocá lo ao lado de todos os mais radicais reformistas. Creio que tal fato explica a inclusão de Sócrates na Comédia Antiga e os motivos pelos quais ele é atacado.

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