II. Comprendre pour construire l’intervention
2. Les actions de prévention primaire du TSPT
Segundo Estendar e Rendres, podemos entender o sistema cosmológico bantu como uma pirâmide vital, cujo vértice superior abriga o ser supremo, origem da energia vital de tudo o que existe. Em seguida, encontram-se os antepassados e outros espíritos; mais abaixo,
211 Ibid., p.60.
212 SOUZA, Marina de Mello e. Santo Antônio de nó-de-pinho e o catolicismo afro-brasileiro. Tempo, Niterói, v.6, n.11, p.171-188, 2001a. p.178.
os seres humanos, e, depois, os animais e o restante dos seres vivos. A energia vital emanada do ser supremo atravessa, assim, todos os seres. 213
Nessa perspectiva, a integração entre vivos e mortos da família-comunidade bantu é dada por meio do sangue, que contém a energia vital divina, e é transmitido pelos ancestrais. A energia vital divina garante uma comunhão com o universo, cuja harmonia deve ser preservada, estabelecendo-se a “ventura”, as trocas e as relações solidárias entre os vivos, entre os mortos, e entre os vivos e os mortos.
Assim, a maior aspiração religiosa bantu seria a paz, a comunhão com o outro, que leva à união vital de toda a pirâmide. A vida para um bantu não teria um fim em si mesmo, ela se realizaria na relação com o antepassado fundador, com os outros antepassados, do clã e da família, com outros espíritos, como espíritos da natureza (das águas, das matas etc.), com os vivos e com as gerações futuras. Os antepassados e os espíritos, apesar de se encontrarem em outro plano, embora normalmente estejam invisíveis, seriam integrantes da comunidade dos vivos.
Os espíritos dos antepassados bantu não são divindades inferiores, mas sim intermediárias entre os dois mundos, visível e invisível, dos vivos e dos mortos. Embora estejam situadas no mundo invisível, elas mantêm uma relação íntima com os seres vivos ainda vivos na Terra. Além disso, há diferentes categorias de antepassados: o antepassado fundador, que comunica a vida recebida pela divindade suprema aos seres humanos; o antepassado dos clãs; e os antepassados familiares, espíritos de pessoas que morreram recentemente. Segundo Bénézet Bujo, filósofo e teólogo da República Democrática do Congo:
O antepassado situa-se num mundo invisível, junto dos espíritos e numa relação íntima com os homens ainda vivos sobre a Terra. Antepassado é, portanto, um homem que, por meio da morte, concebida como um rito de passagem, passou para a vida do além e assim tem, por um lado, um contato direto com Deus, mas, por outro, participa diretamente de maneira ativa na vida da família e nos acontecimentos da aldeia. Mesmo na sua morte, o Homem, para o Africano, é um ser comunitário. Permanece em relação com os que ficam sobre a Terra.214
Assim, a relevância do antepassado estaria vinculada às características de sua vida: se viveu como uma pessoa virtuosa, inspiradora, se seguiu as regras da comunidade, não
praticou bruxaria, nem causou discórdia, confusão. O antepassado cultuado é um modelo do bem viver, que incorpora a ética e o alcance do sucesso em vida, segundo os valores da
213 ESTENDAR, Júlio Macuva; RENDERS, Helmut. O não-rosto dos antepassados revelados nas máscaras ritualísticas bantu: um olhar sobre sua cultura visual. Caminhos, Goiânia, v.17, n.1, p.259-277 jan./jun. 2019. p.261.
comunidade. As histórias e os mitos que circundam os antepassados mais destacados da comunidade se tornam também diretrizes para o comportamento dos seus integrantes.
Não se trata simplesmente de o imitar, mas de uma repetição criadora: os descendentes devem, a partir dos conselhos, dos gestos e da experiência dos antepassados, procurar e indicar pistas de solução para os problemas atuais. Isto exige uma recepção crítica e criativa das tradições ancestrais, recepção que não é uma repetição das receitas do passado, mas um diálogo criativo com as tradições, diálogo capaz de se abrir a soluções e a horizontes em que a tradição, por si só, não teria podido pensar. 215
Em geral, segundo essa visão tradicional, os antepassados são a referência de um corpo de condutas, práticas e gestos que devem ser seguidos por todos da aldeia. Suas palavras devem ser constantemente recordadas. Assim, os anciãos são valorizados na cultura bantu porque, sendo os mais velhos da família e do clã, são considerados mais capazes de fazer a ligação entre os antepassados e os vivos, conhecimento que é transmitido por meio da tradição oral.216
Os espíritos ancestrais são entidades que podem garantir não apenas uma salvação futura, mas também interferir no cotidiano das pessoas e da comunidade, que a eles recorrem para pedir auxílio em suas dificuldades. Como vimos, em geral, os bantu nunca se dirigem ao ser supremo para suas aflições diárias, o que não seria pragmático, mas sim aos antepassados e a outros espíritos, que podem protegê-los contra doenças, inimigos, desastres, mortes, garantir boas colheitas, prosperidade, abundância.
Por outro lado, há condições para que os espíritos produzam a ordem e a legitimem. Se os vivos não cuidarem bem deles, se não realizarem os rituais necessários para agradá-los, a proteção se perde e o sujeito e a comunidade ficam à mercê de todo tipo de perigos e desgraças. A influência dos espíritos pode ser negativa ou positiva, daí o seu culto ser uma constante entre os povos bantu.
Relatos de viajantes e de religiosos, a partir do século XVI, e etnografias dos séculos XX e XXI, mostram que diversos povos bantu realizavam (e vários realizam, na atualidade) cultos aos espíritos empregando máscaras. 217 Há também registros do uso de máscaras com fins lúdicos, educacionais e visando a memória histórica das comunidades, mas são menos frequentes. 218 Normalmente, esses artefatos eram criados com fins mágico-religiosos,
215 Ibid., p.264.
216 Essa valorização dos antepassados faz com que as pessoas estabeleçam uma cultura oral que procura memorizar as suas linhagens. Mário Milheiros cita a “canda”, “curiosíssima instituição que vimos nos povos do Norte” e que significa famíla, clã ou sib”. Cada família se julga descendente de um antigo tronco comum e tem o seu nome privativo do clã, a que chama “canda”, que corresponde, mais ou menos, ao nosso apelido (sobrenome) de família. A menção de canda implica sempre certa nobreza de ascendência, invocando-se sempre a canda patrilinear e a matrilinear. Eis a designação de algumas candas Maiacas: Buca, Muarihinda, Quianvo. MILHEIROS, Mário. Etnografia angolana: esboço para um estudo etnográfico. Angola: Mensário Administrativo, 1951.
217 O uso de máscaras também é feito por outros africanos, não bantu, mas aqui o nosso foco são os povos bantu. 218 WILLETT, Frank. Arte africana. São Paulo: Edições SESC/Imprensa Oficial do Estado.
utilizando-se diferentes materiais, como madeira, fibras e argila, empregados em ritos para angariar apoio das entidades do mundo invisível.219
Dentre os povos bantu da região do Congo e da Angola, há uma forte presença de rituais de iniciação de rapazes, na passagem da infância para a vida adulta, ligados à circuncisão e ao uso de máscaras. Nesses rituais, em que os meninos são operados e são evocados os espíritos ancestrais nas máscaras utilizadas pelos homens adultos e anciãos, os neófitos passam por uma espécie de morte simbólica e recebem novos nomes. No final do ritual, que pode durar vários dias de isolamento na mata (nkanda), os jovens se dirigem para as aldeias e dançam, agora também vestidos com máscaras.
Mário Milheiros em sua Etnografia angolana menciona que:
Nas danças de circuncisão, e em muitas outras, costumam aparecer (nos Ganguelas, por exemplo) mascarados (Cangangi) com fatos de malhas largas, folhas ao pescoço e fibras nos pulsos e tornozelos. Um desses mascarados usam grandes cabeleiras (Cangandji-va-txiucula); outros a cabeça tufada (Candandji-v-catatola); outros ainda imitam a figura de um homem branco (Candandji-va-txindele); outros mais a figura de criança (Candandji-va-dumba); ainda outros a cabeça de gnú (Candandji- va-´mpolo); e, finalmente outros imitam a palanca (Cangandji-va-´mpengo).220
Ele cita um trecho de uma canção originalmente cantada na língua cuanhama pelo povo que ele identifica de forma não muito precisa como ganguela, alertando ao leitor que as estrofes escritas perdem seu sabor, pois lhes falta o contexto: “Imploro, imploro, imploro!/A todos vós, espíritos deste lado,/O invejoso que fique tranquilo,/O que é generoso que
venha!.”221
Para Bourgeois, a principal função das máscaras entre os yaka e e os suku, povos que também possuem rituais de circuncisão com mascarados, é proporcionar um ambiente em que os jovens aprendam, com os homens mais velhos e os ancestrais, os valores e os segredos masculinos, inclusive os ligados aos espíritos, abandonando a infância e fazendo sua transição ao mundo adulto. Os poderes das máscaras derivam dos anciãos e de seus predecessores (ancestrais) e são empregados para garantir a procriação futura (fertilidade humana, fertilidade agrícola, abundância de caça e pesca), a sobrevivência coletiva e o equilíbrio social, funcionando também como corretivo (coerção social). Formalmente, algumas
características das máscaras remetem ao poder, à sexualidade e à força masculina: penteados elevados, grandeza de proporções, bicos elevados, narizes protuberantes, chifres etc. 222
219 É importante considerar, além dos aspectos funcionais dos artefatos, que os artistas elaboram suas máscaras, músicas e movimentos corporais a partir de abstrações também no campo da estética, que, por natureza, é mais polissêmica e flexível que o mundo utilitarista. ESTENDAR, Júlio Macuva; RENDERS, Helmut. O não-rosto dos antepassados revelados nas máscaras ritualísticas bantu: um olhar sobre sua cultura visual. Caminhos, Goiânia, v.17, n.1, p.259-277 jan./jun. 2019.p.275.
220 MILHEIROS, Mário. Etnografia angolana: esboço para um estudo etnográfico. Angola: Mensário Administrativo, 1951. p.93-94. 221 Idem, p.98.
As máscaras bantu, e as africanas em geral, via de regra não aparecem sem que haja um ou mais mascarados dançarinos em um contexto ritualístico – público ou destinado a um grupo específico. Do ponto de vista formal, apresentam rostos humanos, formas
antropomórficas, não realistas, que expressam um rosto suprarreal, surrealista, um “não rosto” que representa um determinado antepassado. 223
Elas evocam e realizam uma ação dos espíritos dos antepassados ou territoriais entre os seres humanos. Durante o ritual, as máscaras recebem seus espíritos e lhes dão “vida”, um corpo para que possam se dirigir aos seres humanos de uma forma visível. Porém, elas não são consideradas os antepassados em si, mas sua representação. São o elo entre o mundo visível e invisível, possibilitam a interação entre os dois mundos (dos vivos e dos mortos); mais do que ocultar, as máscaras bantu dão visibilidade ao invisível, são um suporte para concentrar a força do espírito ou para imitá-la.224
Nas cerimônias religiosas de mascarados, apenas os dançarinos iniciados podem usar as máscaras. É comum que os espíritos sejam recebidos pela máscara após serem nomeados pelo artista, pelo especialista e pelo dançarino que a veste. É quando o mascarado se torna sagrado e, se for profanado, pode provocar até mesmo a morte do sacrílego, o que faz com que muitas pessoas, especialmente mulheres grávidas e crianças, evitem tocar o mascarado.225
223 Idem.
224 ESTENDAR, Júlio Macuva; RENDERS, Helmut. O não-rosto dos antepassados revelados nas máscaras ritualísticas bantu: um olhar sobre sua cultura visual. Caminhos, Goiânia, v.17, n.1, p.259-277 jan./jun. 2019. p.265-266