O “era David Yates” chegou para a saga Harry Potter, em que presenciamos o mesmo diretor seguir com todos os outros filmes da série. Harry Potter e a Ordem da Fênix (Harry Potter and the Order of the Phoenix)
foi lançado pelos estúdios Warner Bros. em 11 de julho de 2007 e arrecadou 940 milhões de dólares mundialmente (BOXOFFICEMOJO, 2016). Sua sinopse com os elementos básicos do filme é:
Harry Potter (Daniel Radcliffe) (...) descobre que boa parte da comunidade bruxa foi levada a acreditar que o retorno de Voldemort (Ralph Fiennes) foi uma mentira inventada por Harry, o que põe sua credibilidade em dúvida. Além disto, o Ministro da Magia Cornélio Fudge (Robert Hardy) impõe à escola a presença de Dolores Umbridge (Imelda Staunton), que torna-se a nova professora de Defesa Contra as Artes das Trevas. Acontece que as aulas de Umbridge, apesar de aprovadas pelo ministério, abrangem apenas temas amenos, deixando os alunos despreparados para os perigos dos dias atuais. Incentivado por seus amigos Rony (Rupert Grint) e Hermione (Emma Watson), Harry decide encontrar-se em segredo com um grupo de estudantes, visando a prática de magia. O grupo se autodenomina como a "Armada de Dumbledore", mas logo passa a ser vista como uma ameaça ao próprio Ministério da Magia. (ADOROCINEMA, 2016)
A Ordem da Fênix é um filme totalmente introspectivo. Voldemort consegue se esconder e afastar Harry das pessoas, além de, literalmente, entrar na mente de Harry e distorcer seus pensamentos. David Yates (2011) diz que é o momento que é preciso trabalhar o psicológico dos personagens da história. Tudo é sério, até as risadas do filme são carregadas de tensão, o sentimento das trevas se aproximando se intensifica, o lado adolescente segue o caminho de ações impulsivas dos alunos.
Harry descobre que ele possui uma profecia que o Lorde das Trevas quer, e quando tem acesso a ela, ouve que somente um pode viver no mesmo mundo, e que ele terá que destruir Voldemort. Podemos considerar aqui outra travessia de limiar da jornada do herói, em que Harry presencia o arquétipo do arauto - o responsável por dizer o seu destino (VOGLER, 2011, p. 124).
Assistimos a um filme melancólico, mas dessa vez com uma tensão a mais, a beleza da magia quase some, é mostrada agressiva, escura e de batalha. A parte mágica e encantadora é percebida pela fotografia do filme, que trabalha com planos mais delicados, quase frágeis.
O quinto filme de Harry Potter é um filme pessimista, escuro, azul esverdeado, tendendo a se aproximar do preto, com mais momentos sombrios e silêncios preocupantes, com um final que deixa muito claro que a
guerra está se aproximando, mas dando um sinal de esperança para o lado de Harry.
3.5.1 O quinto ano
Passamos da metade da história de Harry Potter e presenciamos um cartaz com mais limpo que os anteriores (Figura 10), com menos elementos, o que é curioso, já que neste momento que as trevas renascem e deixam o mundo bruxo completamente conturbado.
Figura 10 – Cartaz de Harry Potter e a Ordem da Fênix (2007)
Temos um cartaz totalmente escuro, com Harry centralizado e seus amigos nos cantos laterais da imagem. Rony, Gina e Cho no lado esquerdo e Hermione, Neville e Luna no direito. Harry centralizado pode ser visto como uma linha vertical, seus amigos em seus dois lados formam uma linha
gradiente que, novamente, formam profundidade para a imagem (ARNHEIM, 2011, p. 263). Essas linhas apresentam um caráter triangular, e dessa vez, Harry está dentro do triangulo, tendo o total foco, seja da narrativa ou dos personagens.
Essa centralidade “oferece uma imagem rigorosamente realística do espaço físico; proporciona um padrão compositivo rico e aprimorado” (ARNHEIM, 2011, p. 285) e pode ser comparada aos eventos psicológicos do filme, o diretor Yates trabalha constantemente a mente de Harry e como ele está vivendo com o fato de que Voldemort voltou, é uma narrativa contada somente por sua perspectiva.
Outras linhas que ganham destaque aos olhos do observados são as horizontais da logo e da frase de efeito, uma na parte inferior e outra na superior, “a perspectiva central (...) reveste as verticais e horizontais frontais com um sistema de raios convergentes, os quais criam um centro focal” (ARNHEIM, 2011, p. 285-286), ou seja, o Harry. Todas as linhas juntas dão a sensação de um Potter totalmente fechado em seu mundo, reforçando o parágrafo anterior.
O preto domina a imagem, o cenário e a grande quantidade de sombras. Como já foi dito, a “morte se veste de preto” (ARNHEIM, 2011, p. 315) e aqui isso se repete da mesma forma, já que a morte “ganhou vida” nesta etapa do filme. Kandinsky afirma que o preto “tinge-se de uma tristeza que ultrapassa o humano, semelhante àquela em que mergulhamos em certos estados graves” (KANDINSKY, 2000, p. 93).
A luz aparece em pouca quantidade, mas de forma intensa, dessa vez, somente num foco dentro do campo visual atrás de Harry. “A iluminação vinda de trás serve para dar a uma figura uma sinistra qualidade de obscuridade” (ARNHEIM, 2011, p. 315-316).
Tudo isso se relaciona diretamente com a introspecção presente no filme. É curioso notar que, no meio de um vasto campo escuro, é a única luz que ilumina os personagens, como se a frente deles somente houvesse trevas, “agora a energia geradora de vida estabelece o centro e a extensão de um mundo restrito, nada existe além dos ângulos que os raios [de luz] atingem” (ARNHEIM, 2011, p. 314). Um outro fator interessante a se notar, é a forma que os comensais da morte adquirem quando voam, uma névoa
escura, enquanto os da Ordem da Fênix27, próximas de Harry, branca, como a da imagem.
A logo do filme agora assumiu seu papel mais agressivo. Temos uma forma da letra “P” mais extensa ainda e pontiaguda, um “Harry Potter” em uma textura em metal um pouco gasto, num tom acinzentado e com pouca claridade. Temos uma simplicidade muito grande nas texturas do restante do cartaz, roupas de algodão confortáveis predominantes nos personagens.
Quanto ao espaço, não existe um limite, percebemos a profundidade de um local escuro através das linhas, sombras, transparências da névoa sobre os personagens mais distantes, mas toda a obscuridade só nos demonstra que as trevas estão tomando conta de todo o espaço possível.
Arnheim diz que a simetria é quando “as duas partes de uma composição são iguais, é a maneira mais elementar de criar equilíbrio” (ARNHEIM, 2011, p. 14). Mas como um filme que trata de conturbações psicológicas e até mesmo externas no mundo bruxo se torna simétrica em seu cartaz?
Se observamos, temos três personagens em cada lado e uma disposição igual de luz e podemos associar essa composição com a Armada Dumbledore, que são os momentos mais suaves e unidos do filme. Harry e seus aliados formam um time que consegue unificar as forças.
Em relação a dinâmica, não sentimos uma grande ocorrência de movimentação, a névoa iluminada pela luz branca nos da a sensação de que está transitando entre os personagens, enquanto todo resto está em repouso. Mesmo com o corpo humano sendo “o mais difícil veículo para a expressão visual” (ARNHEIM, 2011, p. 444), os personagens parecem focados, podemos ver a Armada Dumbledore posicionada e dedicada a prender a atenção para a sua frente. Expressões que nos transmitem a sensação de que “ninguém passa por aqui, apenas por cima de nós”.
Harry Potter e a Ordem da Fênix busca a simplicidade para retratar o momento mais confuso e turbulento do Mundo Mágico, até então. As cores escuras e a pouca claridade e o espaço sem fim colocam em evidência a
27 A Ordem da Fênix, nome que leva o filme, era um grupo nos primeiros anos de Voldemort
que se juntou para se fortalecer contra ele. Os pais de Harry, Sirius, Lupin e pais de alguns de seus amigos faziam parte dela.
chegada das trevas, as consequências mentais de Harry lidar com isso, mas o foco de luz ao fundo, a simetria e a união dos personagens colocam a esperança de se fortalecer para a futura batalha.