Depois de muito meditar resolvi editar tudo o que o coração me ditar. Paulo Leminski Ao incorporar os aconselhamentos dos manuais, as leitoras apontam mudanças em seus modos de agir. Em alguns casos, havia uma transição de padrões de comportamento, geralmente exemplificados pelos modelos de boazinha e poderosa de Argov. Em outros, seguia-se uma estratégia de automonitoração e metas estabelecidas, como em um gerenciamento de negócio.
Uma das leitoras reside fora do Brasil há alguns anos. Seu relato revelava a experiência de uma mulher norteada pela narrativa terapêutica do manual em um contexto
170 cultural diferente do seu contexto de origem, fazendo com que ela mesclasse as noções dos aconselhamentos com sua autopercepção enquanto brasileira em contexto estrangeiro. As noções de culpa que ela expressava responsabilizavam a mulher, mas também o contexto brasileiro, apresentado por ela como mais emotivo. Seu relato foi um caso bastante interessante para a pesquisa, tanto pelas questões que ela apresentava em sua fala, quanto pela situação em que a entrevista se deu.
A entrevista de Cristina ocorreu por videoconferência, já que estava fora do Brasil. Na época da pesquisa, a leitora estava vivenciando um rompimento depois de alguns meses de relacionamento. Desde o contato inicial com a leitora, se passaram alguns meses até ser estipulada uma data viável para a entrevista. Em mensagens enviadas por e-mail, ela reforçava interesse em relatar sua experiência, porque queria mostrar como os conselhos estavam funcionando em sua vida e que, graças ao livro, estava feliz. Ela tinha lido a versão inglesa de Por que os homens amam as mulheres poderosas?. No dia marcado para a entrevista, Cristina estava desconcertada pelo rompimento amoroso, mas queria falar e preferiu não adiar sua participação na pesquisa. Estava triste, mas afirmava, a todo o tempo, que sabia onde tinha errado e que iria contornar a situação. Nos meses que se seguiram à entrevista, Cristina estava noiva desse mesmo parceiro e, tempo depois, casou com ele. O aconselhamento, seguido à risca, é concebido por ela como o método correto para a felicidade.
Eu sei onde eu falhei, mesmo com os ensinamentos do livro.
Se você gosta muito de um cara, não confessa. Porque cada vez que você confessa, é como se você se afastasse dele. E cada vez que você nem toca no assunto, você se aproxima do seu sonho. Estou sendo a prova viva disso.
Eu fiz um caderno, por quase um ano, baseado na lei da atração. Nele eu escrevi todas as características que eu queria num homem. Era alto, 1,80m, pensa num homem bonito e multiplica por dois; joga num homem só: é ele! Olho verde, sabe, meio assim, George Clooney? […] Eu pegava foto dele no facebook, fazia montagem com foto minha do lado, brinquei assim por um ano ou mais.
A gente é latina, expressa sentimento, demonstra, fala alto. Então eu assustei o John, meu George Clooney. […] Então, eu sei que ele correu de mim.
Então, eu imaginei um homem de 1,80m, olho verde, carro, alto, lindo e maravilhoso! E em agosto do ano passado aparece esse cara na minha vida, cumprindo todos os detalhes que eu pedi. […] A primeira vez que a gente ficou, que teve o primeiro beijo, foi em um castelo aqui em uma cidade, na divisa com a França. Ele me tira de Londres, me colocou num carrão, porque o cara tem grana, […] uma vista pro mar, uma noite perfeita, todo romântico, incrível que o que eu pedi no meu caderno ele fez!
Depois do fim de semana, fui olhar no meu caderninho. Eu tinha escrito tudo antes. 1,80m, porque o universo não erra, olhos verdes, só não era mais velho, era seis anos mais novo que eu. Mas, veio de carrão, como eu pedi.
Eu dei muita bandeira, tava ali, cuidava dele, coisa de brasileira! Nós, brasileiras, temos problemas com relacionamento quando viemos a Europa por conta disso. A
171 gente cuida, a gente ama, a gente protege, a gente limpa, a gente cozinha. As europeias não fazem nada disso. Os homens chegam em casa, a casa tá de perna pro ar, elas nem aqui estão, elas estão no pub bebendo com as amigas. Os homens têm que ir atrás delas, pra saber o que tá acontecendo. Brasileira quando namora, a gente na-mo-ra! Eu não sei que merda que eu fiz. Só sei que ontem a noite eu ganhei a cacetada.
Quando eu botei minhas coisas na casa dele, ele teve a certeza que eu estava na mão dele.
Ela [Sherry Argov] ensina como praticar o desapego, através de técnicas da psicologia. Eu achei isso mega interessante.
Esse livro tem muito a ver comigo. Porque a nossa cultura brasileira é de nos apegar, de desejar, de cuidar, e aí a gente se lasca!
Mas eu tenho que mudar o foco pra mim e não deixar nenhum homem me fazer sentir pra baixo.
Eu gostava de debater esse livro na internet com amigas, comentando relações passadas ou discutindo quem estava passando por situações desse tipo.
É o erro de todas nós, latinas, brasileiras.
A poderosa deixa muito claro que o desprezo faz milagres. Quando a mulher não liga, quando a mulher não atende, tá focada nela, aí ele não larga do pé. […] Eu já fui assim. Pensava muito em mim. Muito ambiciosa, cheia de sonhos, e eu tinha tudo na mão. […] A partir do momento que eu mudei, eu me prejudiquei.
Eu sou o tipo de mulher que não se abala com várias coisas. Perdeu o emprego? Vou arrumar outro. Problema em casa? Vou arrumar outra. Mas e quando é com namorado, com o parceiro? Aí a coisa muda. Acho que é porque mexe com o sentimento, e a pessoa precisa de ajuda, muita ajuda. […] Então, quando a gente tem uma máquina na mão, um livro que você pode ler e nos ajuda, acho que faz as coisas ficarem melhor. Esses livros têm que ter na mão, na bolsa, no computador. Quem faz a nossa felicidade somos nós mesmas. É tanto que os homens só aparecerem quando a gente tá bem; não é quando a gente tá pra baixo (Cristina, 34 anos, diarista, natural da região sul do Brasil).
Cristina já tinha casado uma vez, ainda no Brasil, e tem uma filha, também residindo fora do país. O seu relato é um dos exemplos mais emblemáticos de como a literatura é posta em prática no cotidiano das mulheres. Ela adota um conjunto de procedimentos e persegue fielmente seu objetivo. Constrói previamente a imagem de um homem a partir de um parâmetro de classe, raça, padrão físico, selecionando determinadas características. A maneira como relata suas expectativas de busca de um amor carrega noções de amor romântico, porém mescladas com o realismo do gerenciamento das emoções. ―Amar sem demonstrar‖, ―não cuidar demais‖, são algumas das expressões utilizadas que mostram um conflito de expectativas sobre como vivenciar o amor. Sua experiência, marcada pela posição de gênero e as implicações culturais da condição de estrangeira, faz reforçar a autorresponsabilização e demanda de trabalho emocional. A maneira como se diferencia das europeias, apontando diferenças de gênero e produzindo generalizações, mostra ainda como as experiências criam justificativas situadas em determinado contexto. Ao carregar a responsabilidade por ser mulher e latina, a justificativa de Cristina deixa despercebido que o fato de o manual ser
172 comercializado no contexto inglês indica que a demanda também existe lá. Ao mesmo tempo, mostra a capacidade dos manuais de se ajustarem a diferentes contextos culturais.
No relato da leitora Raquel, 36 anos, ela conta os procedimentos adotados e suas implicações afetivas, vivenciadas também pelo seu grupo de amigas, com que costuma partilhar as experiências sentimentais e praticar um aconselhamento recíproco, em que cada uma acompanha o comportamento da outra e se advertem, seguindo o parâmetro do manual.
Tem um outro que é da mesma autora [Sherry Argov], que é interessante. Nós fizemos um certo grupo de mulheres e aí, quando tinha uma questão de relacionamento, que a gente ficava perdida, uma conversava com a outra, e a outra dizia: “ó, lê o livro!” “Você lembra do livro?” “Vai lá no livro que ele tem tudo”. A gente chegou até a usar. E foi um período que deu certo, porque nós éramos um grupo e agora, hoje, todas estão namorando e estão felizes. E a gente se ajudava e usava o livro também pra uma dar conselho pra outra: “vai ler o livro lá, que você tá agindo errado, você tá pensando errado, segue aquele conselho do livro, que vai dar certo!”. E hoje a gente tá bem, eu achei que ajudou, sim.
Acontecia, assim, coisas interessantes, por exemplo: uma chega e fala que saiu com alguém, e agora não sabe se vai atrás. A gente dizia: “calma lá, a gente viu no livro. O livro falou que se for, é pra esperar, que a pessoa vem atrás”. […] Outra coisa que o livro reforça é que você é importante, você é uma pessoa que merece ter alguém. Se aquela pessoa deu no pé e foi embora, não tem problema, vai vir outro. Ele procura trabalhar a autoestima da mulher; não é porque não deu certo com um, que não vai dar certo com outro. Porque as mulheres têm isso: ”ah, não deu certo com ele, não vai dar certo com ninguém” e ele procura sempre levantar a autoestima da mulher.
[...] Se num relacionamento você for pela emoção no começo e não for pela... é... e não raciocinar, você não vai fazer boas escolhas, tipo às vezes, quando fala em ter um namorado, ter alguém, no livro é colocado assim: muitas vezes por você desejar tanto ter alguém, a vontade de ter alguém faz com que você não... é... que você abra mão de quem você é, abra mão das suas escolhas, você começa a se anular pra ter aquilo. “Nossa, eu quero tanto isso”, e você não pesa coisas importantes, pra ver se aquela pessoa realmente vale a pena pra você. Então é aí que você tem que olhar, você não pode ser tão emotivo, tem que parar e pensar, tem que ser mais racional: “pera aí! Quem é essa pessoa? Eu tô escolhendo ela? Quais são os benefícios que o relacionamento vai tá trazendo pra mim?” E não só o desejo, o objeto, de dizer que tem alguém. Então, isso ele trabalha bastante. Como a mulher tende a desejar, a querer logo, ele trabalha isso, que você não seja tão emotiva, que vá devagar e procure conhecer a pessoa com quem você quer se envolver.
Sim, eu acho que a mulher precisa [separar razão e emoção]. Não que ela vá se anular, mas eu acredito que ela tende a se apaixonar mais fácil que o homem. Então, ela tem que se cuidar, ela tem que se guardar. Por exemplo, ela tá pensando numa pessoa nova, ela já não pode ir já “ah, ele é o homem da minha vida!” e já querer fantasiar... Não! Ela tem que perceber que ela tende a se apaixonar mais rápido, então ela tem que se segurar, ter certeza, conhecer, não fantasiar, né? Eu acho que a mulher fantasia muito nessa questão de relacionamento. Num primeiro momento, ela já acha que tudo são flores. E no livro ele destaca isso, pra você pensar em você, se aquilo é bom pra você, não só pra dizer que tá com alguém. Entrevistadora: Quando você fala “pensar em você”, o que é que está lhe vindo à mente?
É... primeiro: eu conheço essa pessoa o suficiente pra querer estar mais perto dela desse jeito? Pensar em mim é ver se aquela pessoa é boa, se aquela pessoa vai me trazer... é... se eu vou ser feliz com ela, sabe? Se a minha convivência... é... tipo...
173 quando eu tô com aquela pessoa, eu tô bem? Como que tá a minha emoção? Eu tô calma? Eu tô serena? Ou a pessoa me deixa agitada? Quando eu falo “pensar em mim”, é isso, é você controlar um pouco o desejo de ter alguém e procurar ver se aquele alguém serve pra você, na hora que você tá conhecendo, na hora que você tá se relacionando.
Entrevistadora: Como você vê a relação entre sexo e relacionamento?
A mulher que não separa as duas coisas, ela tem que estar sempre atenta, pra ver com quem ela está se relacionando. Porque se ela está tendo um bom sexo, não quer dizer que ela tá tendo o amor, porque o homem pode ser diferente, ele pode separar as duas coisas, né? E é uma coisa que o livro coloca muito, que pra os homens, a tendência é separar. [...] Na maioria das vezes, as mulheres quando têm sexo, acabam gostando do cara. Mas o homem nem sempre pode estar gostando da mulher. Então, ela tem que perceber isso.
Entrevistadora: A sua noção de autoestima foi modificada/acrescentada com a leitura do livro?
Sim, foi acrescentada. Eu comecei a questionar mais sobre o meu valor. Questionar mais sobre o que eu quero pra mim, […] o tipo de pessoa que eu quero, como eu quero ser tratada, porque antes de ler o livro, eu tinha a visão de que o outro era mais importante. E aquela coisa, gostava logo, aí se envolvia e no fim não dava em nada, então eu comecei a trabalhar mais isso em mim.
Há um pressuposto que norteia todo o argumento dessa leitora: o de que a mulher é caracterizada por sua emotividade. Na medida em que o excesso de emotividade é apontado como causa do insucesso dos relacionamentos passados, a demanda por amar com racionalidade aparece como saída estratégica para evitar o sofrimento amoroso.
No processo de arquitetura das escolhas, Raquel avalia, através de vários autoquestionamentos, se está fazendo opções adequadas, se elas são necessárias ou se lhe conferem o retorno esperado. É possível observar como a leitora produz suas escolhas, quais fatores pesam mais nas suas decisões e como o manual preenche o repertório cultural que lhe oferece as alternativas necessárias. Há um processo de reflexividade na tomada de decisão, porém há que se problematizar quais questões e respostas preenchem tal reflexão.
O depoimento de Paula (26 anos, auxiliar administrativa, solteira, região Nordeste) apresenta aspectos do trabalho das emoções ao descrever a necessidade da racionalidade no plano sentimental, bem como concebe positivamente as inúmeras tarefas reservadas à mulher apontadas em sua fala. No trecho citado, ela se remete ao livro Por que os homens fazem sexo e as mulheres fazem amor?.
Entrevistadora: Ao ler o livro, você pensou em questões sobre ter que equilibrar razão e emoção?
Sim. Não só esse livro. Outros livros que eu já li nessa mesma linha ou outras linhas, é uma questão minha particular, buscar o equilíbrio. Nem ser totalmente razão, nem ser totalmente emoção.
Entrevistadora: Você acha que uma mulher precisa ter controle dos sentimentos? Em que sentido?
174 Não. Eu acho que ela tem que ser sentimental, quando esse sentimento vir. Mas não deixar que a razão desapareça nesse momento.
Entrevistadora: Você considera que a psicologia (como área de conhecimento) tem importância para o comportamento/subjetividade das pessoas?
Sim, eu dou valor à psicologia depois que eu fiz um ano de terapia. Então, foi muito bom pra eu conseguir entender algumas coisas da minha vida, do meu ser, de mim como indivíduo, e eu gostei muito. Eu sempre recomendo: quem puder fazer terapia, faça. […] Você consegue entender melhor você mesma.
Entrevistadora: Pra você, o que é ser uma mulher?
Eu acho que é um privilégio, porque a gente consegue equilibrar várias coisas. A maioria das mulheres consegue ter uma profissão, se realizar como mãe, se realizar como esposa, ou se realizar profissionalmente, a gente consegue equilibrar todas essas facetas em nós mesmas. A gente consegue trabalhar o dia inteiro e chegar em casa, ainda ter que fazer jantar, cuidar de roupa, cuidar de crianças, cuidar do marido, e ainda, no final de semana, tem que estar linda e deslumbrante, né? Eu acho que ser mulher é um privilégio, ela consegue fazer coisa que, por mais que os homens queiram fazer, mas não fica do mesmo jeito. É muito difícil você ver um pai sozinho, cuidando de casa, trabalhando, cuidando de filhos. É raro; você encontra, mas é mais raro.
Outra leitora do livro do casal Pease, Larissa (25 anos, estudante de engenharia, região Norte), aborda a relação entre os aspectos racionais e emotivos a partir das diferenças entre homens e mulheres, reforçando a necessidade dessas últimas de trabalharem o seu lado racional. A última parte da citação abaixo é uma síntese do argumento central da tese. Ao reivindicar o amor racionalizado, Larissa aponta os prejuízos vivenciados pelas mulheres na esfera amorosa, e sua ênfase na racionalidade se expressa como um mecanismo de defesa em um mundo fortemente masculinizado.
Entrevistadora: Pra você, o que é ser uma mulher?
O que é ser uma mulher? (riso) que pergunta! Deixa eu ver... ah, ser mulher é tomar conta de tudo, é cuidar das pessoas, é cuidar de si mesma, é ter uma visão positiva, mesmo quando tudo dá errado, mulher tem isso de ser otimista, de tentar melhorar as coisas.
Entrevistadora: Você concebe a ideia de que a mulher é mais emotiva do que racional?
Eu acho que depende. Há mulheres e mulheres. Até um tempo atrás, 99,9% das mulheres eram totalmente emocionais, totalmente emotivas, loucas mesmo. Hoje em dia, não. Hoje em dia, a mulher consegue até ser mais racional que muitos homens. Até porque na sociedade em que vivemos atualmente é necessário ser muito mais racional do que emocional, senão tu não vai conseguir as coisas. Claro, tem aquela história: “ah, porque as mulheres sempre tentaram conquistar os direitos, etc”, conseguimos, beleza. Mas, ainda tem muita coisa aí que a gente tem que lutar pra tentar se igualar e, muitas vezes, a gente tem que ir no grito, porque vão vir no grito com a gente; então, ou a gente responde na mesma altura, ou então não vai dar certo, porque a gente vai acabar ficando pra trás. Então, eu acho que não tanto. Há mulheres e mulheres. Eu acho que tá bem menos, hoje em dia, do que antes. Entrevistadora: Ao ler o livro, você pensou em questões sobre ter que equilibrar razão e emoção?
De certa forma, sim, mas, na verdade, eu não li o livro com essa intenção. Mas, depois que tu acaba de ler, tu acaba pensando por esse lado. É justamente pela
175 cabeça dele e pela cabeça dela, entendeu? Ela é uma mulher emotiva? É. Mas ela não é emotiva ao extremo. Já o homem, não, ele é totalmente racional.
Entrevistadora: Você acha que uma mulher precisa ter controle dos sentimentos? Em que sentido?
Com certeza. A um tempo atrás, eu tinha uma amiga que me disse uma coisa muito certa: mulher, ela tem que amar com a cabeça, não com o coração. Porque quando você ama com coração, você perde o juízo. E, na maioria das vezes que isso acontece, a mulher se ferra, sempre. Primeiro, pra gente amar alguém, a gente tem que se amar primeiro. Tens que vir em primeiro lugar em tudo. Antes de tudo, tem que ser primeira, sempre, pra depois tu começar a gostar de alguém. Porque a partir do momento que tu coloca alguém à tua frente, começa a amar alguém mais do que tu ama a si mesmo; acabou pra ti, porque tu vai ficar louca. Se a pessoa te deixar, […] aquela história, Maísa, “meu mundo caiu” e eu fiquei assim. Então, eu acho que a mulher tem que ser bem mais racional, senão não dá certo.
Marcela (28 anos, estudante de física, região Sudeste) falou sobre seu histórico de vida, marcado por bastante sofrimento. Seu depoimento continha várias situações de angústias, nos relacionamentos ou na família, mas suas frases eram intercaladas frequentemente por um riso contido, algo que chamou a atenção da pesquisadora durante toda a entrevista. Filha de pai desconhecido, descrevia a mãe como uma figura que trabalhava bastante para sustentar os filhos. Para ajudar a família, Marcela assumiu responsabilidades precoces na vida, chegando a trabalhar ainda muito jovem. Em seu relato, apontava a existência de uma lacuna afetiva na relação familiar, que ela compreendia ter sido uma das causas de sua dependência emocional ao se envolver afetivamente com alguém. Na época da entrevista, Marcela estava namorando e, depois de ler o livro de Sherry Argov, refletia sobre as mudanças causadas no seu comportamento e compartilhava suas ideias com amigas.
Entrevistadora: Você considera que o livro causou algum impacto nas suas ideias, após a leitura?
Sim. Acho que também por causa da idade. Você vai amadurecendo, vai tendo relacionamentos que não são muito (riso)... muito saudáveis, principalmente o último relacionamento que eu tive, que foi muito difícil, e a pessoa judiou muito de