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Lecteur de musique

Talvez possamos situar um marco importante no desenvolvimento do paradigma da ambivalência em Bauman e apontar nesse horizonte as condições de possibilidade da ciên- cia/conhecimento, a partir da obra Ensaios sobre o conceito de cultura, uma de suas primeiras produções em inglês, publicada originalmente em Londres, em 1975, revisitada trinta anos após pelo próprio autor. Chega ao Brasil, traduzida para o português, somente após a primeira década do século XXI. Ao tematizar a questão da cultura e da estrutura social, Bauman, a par- tir de um estruturalismo, da ―abordagem estrutural da cultura‖, compreendida por ele próprio, como sendo ―o que parece ser o ponto de vista correto e há muito procurado‖ (BAUMAN, 2012, p. 182), identifica a natureza dual das racionalizações como próprias da condição hu- mana (BAUMAN, 2012, p. 186). Se, então, a ciência não é unívoca e tampouco o conheci- mento e o produto da ciência, se esvanecem as condições de uma verdade como única até porque ela distanciar-se-ia da realidade complexa, plural, como compreende Bauman em seu constructo teórico. As narrativas são diversas, múltiplas e, dissonantes. É devido à pluralidade que Bauman vê a necessidade do diálogo entre as diversas ciências e diversos conhecimentos e compreensões. Nos parece subsistir no plural/diverso/múltiplo/complexo e, por vezes, con- flitante/paradoxal/dialético do conhecimento/da realidade/da cultura, a grande novidade ou maravilha da produção científica. A ciência, assim como a realidade, é complexa, não unifor- me e não deve ser unívoca. O belo da ciência está na diversidade e na capacidade de produzir diálogo/relações/conhecimento no sentido do reconhecimento da pluralidade.

O paradigma da ambivalência se institui na pluralidade de métodos, de compreensões, nos paradoxos, no movimento dialético e na hermenêutica, de possível compromisso com o reconhecimento da complexidade que constitui as relações, as comunidades e amplia horizon- tes cognitivos para os indivíduos, tanto nas suas subjetividades/reflexões e opções, quanto nas inserções coletivas/nas relações sociais; no horizonte do imaginário e do concreto. A realida- de, podemos dizer, a partir de Bauman, não é uníssona. A pluralidade das relações, a comple- xidade dos elementos encontrados no concreto e no simbólico, na dinâmica da vida, no mun- do compartilhado, presentifica-se no desenvolvimento, na ocorrência da ciência/do conheci- mento. A contribuição das várias epistemologias e métodos, as direções dadas pelos sujeitos

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que dirigem/demandam a práxis científica, tanto quanto as composições individuais e/ou gru- pais das teorias/conhecimento/ciência expressam a plurivocalidade necessária na composição tematizada pela modernidade líquida.

Para Bauman (2012, p. 186)

[...] de um lado, os seres humanos vivenciam sua própria existência como um conjun- to de restrições implacáveis, recalcitrantes, resistindo desafiadoramente a qualquer tentativa de moldá-las segundo a vontade humana; de outro, eles sempre aprendem sobre seus próprios projetos intelectuais e seu desejo influenciado por emoções, que parecem diretamente administráveis, flexíveis, maleáveis – como o reino da liberdade manifestado na criatividade.

Na continuidade do pensamento, Bauman parece seguir um percurso que torna mais evidente a gênese da ambivalência, ao dizer ser, a partir da citação anterior, ―Essa distinção vivencial básica, raiz declarada da maior parte da filosofia ocidental‖ (BAUMAN, 2012, p. 186). Não há uma entrega à guarda do metafísico para que daí seja permitido vincular a expli- cação do mundo/das relações e das coisas. É da própria vivência/existência, portanto, das re- lações/condições que o humano tem e aposta que se desenvolvem as epistemologias, os co- nhecimentos, a própria ciência enquanto instrumento humano na constru- ção/desvelamento/reconhecimento da physis/natureza e da condição humana. Em Bauman, uma ciência detentora da verdade e instituída a partir de uma única perspectiva/preservando uma narrativa e um único foco narrativo, partindo de um único ―eu‖, não é possível, não é real e – embora, por várias vezes, assumida como fundamento – não é viável. Nesse sentido,

[...] um subproduto epistemológico do choque entre Sein e Sollen, entre o que é e o que deveria ser; numa sociedade perfeitamente integrada, livre de significados ambí- guos e da necessidade de escolha [...], essa distinção nem teria sequer ocorrido aos homens. Mesmo assim, ela tem estado presente, desde a época dos poetas líricos da Grécia Antiga, na fórmula intelectual da experiência humana característica da civiliza- ção ocidental. A mesma experiência básica, dependendo do foco de interesse ou do nível de análise, está subsumida em outros pares de oposições seminais, como sujeito e objeto, espírito e matéria, mente e corpo, norma e realidade, valor e fato (BAU- MAN, 2012, p. 186).

Dessa perspectiva, Bauman aceita que ―Uma vez mais a abordagem estrutural, semió- tica, da práxis humana oferece a chance de uma nova e convincente solução para o antigo problema [relação entre estrutura social e cultura]. A pista é fornecida pela dialética entre sig- nifiant e signifié, analisada de modo convincente por Ferdinand de Saussure‖ (BAUMAN, 2012, p. 187). Bauman lembra, no mesmo texto, a impossibilidade de ser pensada essa relação como ―uma cadeia de soluções conclusivas‖. É preciso pensá-la na dinâmica dos ―movimen-

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tos irregulares de um pêndulo‖. Com isso, Bauman (2014, p. 12) abre o caminho plural para a ciência, para constituir-se do conhecimento, indagando acerca dos ―puntos claves donde el logos hace síntoma, dando paso a lo impensado del saber, y mostrando los devastadores efec- tos producidos por el retorno de aquella parte de la verdad que el paradigma científico-técnico ataca, o sencillamente elige desconocer‖78. Embora liberal, Bauman põe-se de modo crítico e diante dos valores iluministas, principalmente no que se refere a ―creencia en la soberanía de la razón, la fe en el progreso y la veneración incondicional del saber científico‖79 (BAUMAN; DESSAL, 2014, p. 12).

Ainda no movimento dialético entre ―diacronia‖ e ―sincronia‖, no olhar da abordagem estruturalista, Bauman identifica, de alguma forma, a ambivalência, ao ver que ―Apesar das interpretações equivocadas, também está presente no equipamento analítico do estruturalismo moderno a chance de estabelecer uma ponte sobre o abismo conceitual entre sincronia e dia- cronia‖ (BAUMAN, 2012, p. 188). Envolvendo Lévi-Strauss, Bauman continua: ―As inúme- ras e frequentes declarações em contrário [...] foram provocadas pela paixão – compreensível, embora não necessariamente convincente – dos pregadores devotos por uma ideia sem dúvida revolucionária. A defesa contra a ortodoxia truculenta parece exigir, de maneira enfática, que se veja toda ambiguidade como tabu‖. Uma vez que a heresia se transformou há muito tempo em rotina respeitável, tornou-se manifesto que a análise sincrônica mais sofisticada não exige o abandono da perspectiva diacrônica; pelo contrário, deve existir ―alguma conexão entre pro- cesso diacrônico e regularidades sincrônicas, já que mudança alguma pode produzir um esta- do sincronicamente ilegítimo, e todos os estados sincrônicos resultam de processos diacrôni- cos‖ (BAUMAN, 2012, p. 188).

Os processos de construção do conhecimento, de desenvolvimento da ciência, das epistemologias, enquanto processos naturais desenvolvem-se nas possibilidades ambivalentes, de modo que a vida é ambivalente. Há um único sentido para a existência, para as relações, para as vocalizações múltiplas ou, mesmo, unívocas? É do interior da metáfora da liquidez, ―modernidade líquida‖, que Bauman explica ser ―El concepto de lo ‗líquido‘ es el significan- te‖ capaz de ―cernir lo real de un mundo que ha quedado desprovisto de toda estructuración narrativa, y en el que cada sujeto debe reinventar su teogonía personal, o pagar el terrible pre-

78 Na tradução livre do autor: pontos-chave onde a razão/o logos se desenvolve levando/conduzindo/mostrando o impensado/inusitado do conhecimento/saber e mostrando os efeitos devastadores produzidos pelo retorno da- quela parte da verdade que o paradigma técnico-científico ataca ou simplesmente opta por ignorar/desconhecer. 79 O sentido, traduzido livremente pelo autor, é apreendido como ―crença na soberania da razão, a fé no progres- so e a veneração incondicional no conhecimento científico‖.

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cio del destierro al no-mundo, cada vez más habitado por seres condenados a la deshumaniza- ción y la indiferencia‖80 (BAUMAN; DESSAL, 2014 , p. 12-3).

Então, temos em Bauman, uma espécie de entropia/movimento interno da própria cul- tura e, enquanto tal, da ciência, do conhecimento. Ao pensar a cultura como estrutura, Bau- man (2012 , p. 155) utiliza a metáfora da ―entropia‖ para tematizar sua concepção metodoló- gica de pluralidade/abertura/dinâmica. Sua compreensão parece laborar no horizonte da ―her- menêutica pluralizadora‖, pois refere-se a ―abrir as fronteiras do sistema ao intercâmbio com o que antes era seu externo‖ e, mais adiante, ―ao ingresso do sistema e de seu ambiente numa rede de relações mútuas...‖. As estruturas, para Bauman (2012, p. 162), podem ser conjuntos ―de regras de transformação de (e entre) um grupo de elementos inter-relacionados. Uma vez que as transformações geradoras de eventos definidas num espaço dado de eventos possíveis são submetidas a regras (padrões), o pool de ocorrências concretas é um subconjunto limitado do universo de possibilidades total‖. Porém, na citação que Bauman faz de W. Ross Ashby, indica a ―limitação como principal componente – o conteúdo, na verdade – de qualquer ato de comunicação‖ (BAUMAN, 2012, p. 161). Hermeneuticamente, podemos vincular a essa compreensão, a possibilidade e concretude com o diálogo real/autêntico/verdadeiro, do Bau- man de 44 Cartas (2011b). Em nossa compreensão, esse diálogo ampliado, base instituinte da comunidade e da solidariedade, se constitui em uma das vias da práxis educacional. Acerca dessa questão, pensamos com Bauman (2017a, p. 66), já estarmos ―vivendo, gostando ou não, num planeta ‗cosmopolitizado‘, com fronteiras porosas e altamente difusas e uma interdepen- dência universal. O que nos falta é uma ‗consciência cosmopolita‘ que se harmonize com nos- sa condição também cosmopolita. [...] também nos faltam as instituições políticas capazes de concretizá-lo‖ e, talvez, esteja ausente a consciência de que no mundo compartilhado, os indi- víduos são os responsáveis pelas instituições/pelas construções quer no plano pesso- al/individual e das coletividades.

Em nossa compreensão, Bauman, vê uma necessária e subjacente estrutura nas rela- ções de todas as ordens, quer sejam concretas e simbólicas. Para ele, então, ―Uma estrutura pode gerar conjuntos de ocorrências bastante diversos; e vice-versa, qualquer conjunto de eventos empíricos pode ser gerado como produto de várias estruturas subjacentes, o que, cla- ro, torna importante, em particular, a exigência de se evitar a confusão entre os níveis‖ (BAUMAN, 2012, p. 163). Desse modo, para se pensar a ambivalência, pode-se ainda inter-

80 ―o conceito de ‗líquido‘ é o significante" [...] "discernir o real de um mundo que se tornou desprovido de to- da/qualquer estruturação narrativa, e em que cada sujeito deve reinventar sua teogonia pessoal ou pagar o terrível preço do exílio ao não-mundo, cada vez mais habitado por seres condenados à desumanização e à indiferença‖, no sentido adotado pelo autor.

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pretar o pensamento baumaniano na sequência, ao afirmar que ―Tanto a estrutura quanto a informação relacionam-se diretamente com a limitação imposta ao universo de possibilida- des‖. Subsiste, mesmo na diversidade/multiplicidade, uma lógica/uma estrutura e percebê-la como complexa/plural/paradoxal e aleatória, portanto, acima/distante/não submetida à lógica racional instrumental, constitui-se em elemento fundamental para a ciência/conhecimento.

[...] os indivíduos evoluem a partir do processo de vida, não como pessoas, mas como seres epistêmicos, ou melhor, produtores de epistemes. Como pessoas, eles podem vi- venciar o choque entre seu projeto organizado segundo valores e o veículo transcen- dental, organizado segundo a lei, a que o projeto deve ser aplicado; podem até tentar superar a oposição da maneira típica de uma pessoa, ou seja, reduzindo os dois polos da oposição ao mesmo princípio filosófico, aquele que orienta o lado esquematizante, significativo e organizado segundo valores. Como entidades epistêmicas, contudo, os indivíduos participam do Universo à medida que se submetem inteiramente a um con- junto de regras de transformação estruturantes-estruturadas [...]. (BAUMAN, 2012 , p. 177).

Vemos que Bauman mantém coerência estrutural, lógica, na construção/no percurso de seu pensamento e da compreensão de ciência/conhecimento, assim como no próprio desen- volvimento/acontecimento da ciência enquanto produção/compreensão do conhecimento. Mas também, compreendemos, que é desse modelo/não-modelo, ou modelo não estáti- co/perene/fechado que se desenvolvem as condições de possibilidade de alargamento dos ho- rizontes da compreensão, da ciência, e da construção/instituição do mundo humano. A condi- ção humana, tematização de fundo do pensamento baumaniano, se desenvolve nessa dinâmica oscilando/transitando/instituindo-se e instituindo do sólido para o líquido e do líquido ao sóli- do. Não como estágios finais, mas ininterruptamente, de mudança/conflito/ação-reação, assim como de segurança-liberdade, construir-consumir, legislar-interpretar.

[...] a estrutura buscada pela compreensão estruturalista da cultura é o conjunto de re- gras geradoras, historicamente selecionadas pela espécie humana, que governam a um só tempo a atividade mental e prática do indivíduo humano visto como ser epistêmico, assim como o conjunto de possibilidades em que essa atividade pode operar. De vez que esse conjunto de regras se condensa nas estruturas sociais, ele parece ao indivíduo uma necessidade transcendental semelhante à lei; graças à sua inexaurível capacidade de organização, é vivenciado pelo mesmo indivíduo como sua liberdade criativa. Este é, contudo, o pressuposto básico do projeto aqui em debate: que ambos os elementos da experiência humana fundamental – sua existência e sua essência, suas modalidades objetiva e subjetiva – crescem, em última instância, do mesmo tronco; e para isso se deve e se pode rastrear o seu passado (BAUMAN, 2012, p. 178).

Vemos um momento emblemático na obra de Bauman que identifica, sobremaneira, seu pensamento aproximado da ambivalência e, paradigmaticamente, assim compreendido pois extrapola os limites do mundo material e, na compreensão baumaniana, apresenta-se na

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subjetividade humana. Esse fenômeno, instituinte do conhecimento, aparece no pensamento de Bauman quando afirma:

[...] todas as certezas são putativas e, no melhor dos casos, apenas até segunda ordem, que toda autoconfiança é fruto de atenção insuficiente ou da pura ignorância [e], a va- riedade de incerteza mais traiçoeira é aquela que nos assusta menos ou não nos assusta de todo, a incerteza na qual, perigosamente, ainda não temos consciência (BAUMAN, 2011b, p. 87).

Nas cartas que Bauman escreve a pedido da revista semanal dirigida ao público femi- nino italiano, La Repubblica dele Donne81, em fins da primeira década do século XXI, já ten- do escrito sobre a modernidade sólida e a modernidade líquida e assimilado essa terminologia em sua teoria, deixa transparecer a ambivalência e a torna emblemática em seu pensamento, assumindo-a como paradigma. Para nós, esse reconhecimento baumaniano, entre outros espa- ços, como temos procurado apresentar neste estudo, torna-se, igualmente, evidente quando escrevendo, acerca da educação, inicia pela pergunta ―O mundo é inóspito à educação?‖ e reconhece que

No mundo líquido moderno, a solidez das coisas, assim como a solidez das relações humanas, vem sendo interpretada como ameaça: qualquer juramento de fidelidade, qualquer compromisso de longo prazo (para não falar nos compromissos intemporais), prenuncia um futuro sobrecarregado de obrigações que limitam a liberdade de movi- mento e a capacidade de agarrar no voo as novas e ainda desconhecidas oportunidades que venham a surgir. A perspectiva de assumir pelo resto da vida algo ou uma relação difícil de controlar é pura e simplesmente repugnante e assustadora. Não admira que mesmo as coisas mais desejadas envelheçam depressa, percam seu brilho num piscar de olhos e se transformem, de distintivos de honra, em estigmas de vergonha (BAU- MAN, 2011b, p. 112-3).

No mundo volátil, flexível, da modernidade líquida, escreve Bauman (2011b, p. 115), ―onde as coisas raramente mantêm sua forma por tempo suficiente para garantir segurança e confiabilidade a longo prazo [...], caminhar é melhor que sentar, correr é melhor que cami- nhar, surfar é melhor que correr‖ e, em nossa hermenêutica, parece se pronunciar desse modo porque compreende que ―O que nos salva é a velocidade‖. A pergunta de Bauman acerca do ―habitat‖ da educação está assumindo o paradigma da ambivalência à medida que responde sim e não, afastando a certeza do sim ou não/do bom ou mau/do certo ou errado. Desse modo, tanto a ciência, como a educação, particularmente, não apresentam autoridade suficiente para

81 ―Mulheres da República‖ é uma inserção/encarte de sábado no jornal A República, que trata de moda, negó- cios, sociedade e cultura. Lançado em maio de 1996, A República é um jornal italiano, com sede em Roma, parte do Gruppo Editoriale L'Espresso. Atualmente é o segundo jornal na Itália. Bauman escreve cartas/textos ao jor- nal, as quais compõem hoje uma de suas obras, 44 cartas do mundo líquido moderno.

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verbalizações definitivas. Toda mensagem tem validade pelo tempo/não-tempo, espaço/não- espaço que a relação dialógica aponta e reconhece, nessa diversidade, a necessidade de um passo além/aquém.

A ciência se processa/se institui, no pensamento baumaniano e do paradigma da ambi- valência, não como um modelo com pretensões totalitárias, de explicações suficientes e, igualmente, na lógica estrutural do forever. O reconhecimento da dinâmica da existência e da compreensão humana no mundo é condição humana/antropológica. Justamente sobre essa questão, na tônica do paradigma da ambivalência, é preciso perceber,

Em nosso mundo volátil, de mudanças instantâneas e erráticas, os objetivos últimos da educação ortodoxa, com hábitos estabelecidos, estruturas cognitivas sólidas e prefe- rências valorativas estáveis, se tornam desvantagens. Pelo menos é assim que foram definidos pelo mercado de conhecimento, no qual – como em todos os mercados de todos os produtos – lealdade, compromissos de longo prazo e vínculos indestrutíveis são anátema, obstáculos a tirar do caminho e como tal tratados (BAUMAN, 2011b, p. 117).

Citando Antonio Gramsci, Bauman (2011b, p. 135) concorda que ―o único modo de ‗predizer‘ o futuro‖ é unir forças e esforços para ―fazer com que os acontecimentos futuros se conformem aos nossos desejos e para nos manter longe de cenários indesejáveis‖. Na sua afirmação, nada garante nossos desejos serem realidade no futuro, contudo, essa ―é única es- tratégia que nos dá alguma chance de ganhar batalhas‖. Pensamos que Bauman acen- de/reacende, nesse ponto, tanto a educação quanto a ciência na lareira da incerteza como rea- lidade duradoura. Incerteza que não pode servir para acomodar ou impedir ações/reflexões, tanto no horizonte teórico quanto prático; mas para, da realidade da certeza da incerteza - incerteza da certeza absoluta - permitir a plurivocalidade como recurso humano para a convi- vência/existência, crescimento e avanço nas descobertas e tratamento das problemáticas da condição humana. Isso porque ―a principal função dos limites ou fronteiras é dividir. No en- tanto, a despeito dessa tarefa primordial e do seu propósito explícito, limites não são puras e simples barreiras – elas próprias e aqueles que as impõem não podem deixar de fazer das fronteiras interfaces que unem, conectam e confrontam os lugares que separam‖ (BAUMAN, 2011b, p. 203-4).

Aquilo que tem parecido para as gerações anteriores como impossibilidade ou, de al- guma forma, heresia, para a ciência pluralizadora de Bauman, se apresenta a grande virada da condição humana no mundo. Compreendemos esse movimento como uma metodologia de reconhecimento de si/auto-reconhecimento e, ainda, conhecimento da condição humana no mundo. Uma ciência que se desenvolve a partir do diálogo com o mundo e com o outro en-

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quanto centralidade da condição humana para a convivência e para o aprendiza- do/conhecimento e, também, das descobertas da complexidade, cada vez mais amplia- das/aprofundadas/alargadas dessas condições antropológicas que instituem o mundo humano. Compreendemos que nesta ambivalência reside a possibilidade, se não a necessidade, do diá- logo inter-humano desvelado a cada passo que a humanidade percorre no sentido do saber-se e do saber o mundo. Tal percurso revela conflitos, oposições, diferença, mas também identi- dades. São essas realidades plurais que indicam a necessidade do diálogo para construir con- sensos/possibilidades/vias e reconhecer as diferenças constitutivas do humano. O reconheci- mento das diferenças é condição sine qua non para as validações dialógicas das igualdades.

Compreendemos que, de uma condição paradigmática da ambivalência, a igualdade não está apenas na dimensão ontológica que indica para o outro/a outra a possibilidade da condição humana plural/diversa; mas a dimensão material é componente inalienável tanto do paradigma da ambivalência quanto do mundo da vida/da condição humana. Aí está a imagem da comunidade mais autêntica que não se legitima pela absoluta ou perseguida igualdade, mas pela assegurada/construída/instituinte validade desencadeada pelo diálogo autêntico – para

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