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Mantendo em vista esses ganhos teóricos da teoria crítica, devemos nos concentrar agora, em primeiro lugar, em dois exemplos de trocas discursivas sob a forma do texto e da textura cultural, para depois tratar dessa mudança na forma de ver a inter-relação entre texto estético-cultural e texto político poderia emigrar para os estudos literários, o que será ilustrado, em um segundo momento, no caso do texto do maracatu-nação. Como exemplo da inter-relação, oposição e diálogo entre discursos e práticas por parte dos diversos segmentos públicos interessados na cultura, detenhamo-nos aqui primeiramente em alguns eventos ocorridos nas semanas que antecederam o carnaval de 2002 na cidade de Recife. Na verdade, naqueles dias tornou-se clara a existência de uma disputa de tipo hegemônica em torno da cultura entre os poderes estadual e municipal. Tratou-se uma disputa basicamente discursiva, a que ganhou os meios de comunicação. Ela, contudo, foi originada por um artefato

133 caracteristicamente cultural. Algumas semanas antes do carnaval, o governo do estado de Pernambuco laçou um CD com a gravação do hino do estado interpretado por um sem número de artistas locais. O lançamento de tal CD promovido e financiado pela secretaria de cultura estadual, iniciou uma discussão que colocou de forma bastante expressa para a opinião pública os interesses do poder público na festa de Momo. Ao mesmo tempo, representava uma vitória estratégica sobre a recém eleita municipalidade, de partido e orientação ideológica oposta à do governo do estado. — Caso se considere os partidos dos governos municipal e estadual, veremos que a incursão cultural do governo do estado pelo âmbito cultural foi extremamente estratégico, pois que o partido do governo do estado (PMDB) não possui uma ênfase tão fortemente ancorado no trabalho cultural quanto o do governo municipal (PT). O PT, por conta de sua vinculação, desde a sua fundação, com a esquerda ilustrada de orientação marxista, já desde sua fundação possuía um programa ideológico com uma de suas âncoras por sobre a cultura.

Nesse sentido, a estratégia do governo do estado de lançar mão do hino estadual como simbolização de sua sintonia com o local, com o popular, com a cultura regional e local, para com os valores caros aos seus governados, foi um golpe discursivo para a nova direção da municipalidade. Os meios de comunicação impressos — no Brasil, como se sabe, de orientação sempre mais para a direita do que para o centro — divulgaram amplamente o fato e reportavam sobre a aparente contradição entre o discurso ideológico e a inatividade prática da municipalidade com relação à cultura local.

134 A reação do governo municipal veio dias depois. E veio sob uma forma bastante inusitada: da noite para o dia, o velho prédio abandonado do Trianon, localizado em frente ao canal-rio Capibaribe, na rua pela qual passaria o maior bloco carnavalesco do mundo — o “Galo da Madrugada”, bloco que abre o carnaval —, amanheceu tingido, pintado de vermelho, da cor predominante na simbologia do PT. A resposta era mais

eloqüente do que qualquer declaração pública ou manifesto. Ela afirmava também que

realmente havia uma disputa em torno do Carnaval, em torno dessa festa que também é o auge de determinada produção cultural.

Nesse ponto assoma uma delicada questão. Considerando a capacidade da “experiência estética” e da “sensibilidade” de arrecadarem a emancipação dos sujeitos mediante a dramatização e simbolização dos conflitos sociais, considerando ainda o que vimos de afirmar nas seções anteriores sobre o protagonismo inerente aos textos enquanto constructos estético-culturais, o exemplo acima colocado — a interpretação musicada em ritmos e “cores” representativas de algumas das diversas “linguagens estético-musicais” e ritmos do hino estadual — teve algum outro propósito que não o de servir à promoção da diversidade estético-cultural, da sensibilidade regional. Ter-se- ia tratado de mera ingerência estatal no âmbito da cultura, da sua produção e distribuição, da oportunização de seu acesso a todos — em vista de que o tal CD deveria ser distribuído gratuitamente —, ou ainda de uma tentativa de promover o mercado cultural, de que falávamos no início desta seção, por intermédio de políticas afirmativas? Entendemos que não.

135 O episódio também já se encontra devidamente historicizado, a partir de um debate travado alguns meses após o lançamento do CD e, inclusive, com base em estudos sobre a vinculação de certa produção do “projeto mangue” com o projeto

ideológico-discursivo da política estadual5. O debate foi ampliado em vista de que se tratava de ano eleitoral, em que as políticas estaduais estavam para ser reavaliadas pela população — a chapa estadual disputava a reeleição. — De qualquer forma, devemos lembrar que, desde os trabalhos de Raymond Williams, sabemos que o mecenato estatal é uma das formas de promover a cultura6. Nesse sentido, nada deveria nos espantar no fato de alguns artistas, poetas, cantores serem adotados pelo poder. O que o nosso espírito crítico pode fazer, é questionar a forma como isso é feito. Mas no episódio do CD, descobrimos que os artistas participaram sem receber pelo seu

5 Este debate ocorreu alguns meses após a luta discursiva entre o governo municipal e estadual e foi

travado no âmbito acadêmico, entre alguns membros da classe artística, e da classe política, tendo iniciado, contudo, através de artigos em jornais diários de Recife. É de se notar que esse debate foi iniciado justamente ao serem comentadas duas defesas de trabalhos acadêmicos na área literária e cultural, a saber: NOGUEIRA, Lucila. Viva o cordão encarnado. Tese de doutoramento. (Teoria

Literária). Universidade Federal de Pernambuco. Recife, 2002, 2 v.; e CARNEIRO, Carolina. A

maravilha mutante. Tese de doutorado. Universidade Federal de Pernambuco. Recife, 2002. — Sobre o tema veja-se o artigo inicial do debate, que justamente fazia referência à defesa das duas teses: ZAIDAN FILHO, Michel. Pernambuco é pop? Jornal do Commercio, 20 ago. 2002. Coluna

Opinião, p. 9; e as réplicas subseqüentes: ZERO QUATRO, Fred. Zaidan está certo? Jornal do

Commercio, 1 set. 2002. Coluna Opinião, p. 9; L, Renato. Pernambuco Über Alles. Disponível em: <www.aponte.com.br>; BAHÉ, Marco. Mangueboys entram em guerra ideológica; músicos

divididos entre o ataque e a defesa do uso dos símbolos de Pernambuco por Jarbas. Diário de Pernambuco, 4 set. 2002. Política, p. A4; L, Renato. Esclarecimento. Diário de Pernambuco, 5 set. 2002. Seção Cartas, p. A2; PEREIRA, Marcelo. Mal-entendido. Jornal do Commercio, 6 set. 2002. Seção Rec-

Beat; CRISE no Mangue. Jornal do Commercio, 6. set. 2002. Coluna Opinião, p. 10; bem como as

chamadas para o debate ao vivo, promovido pelo Mestrado em Ciência Política da UFPE, para o

qual foram os então candidatos a deputado federal Pedro Mendes, a deputado estadual Raul Henry, os jornalistas e músicos Fred Zeroquatro e Renato L., e o músico Silvério Pessoa e o pesquisador do referido mestrado Paulo Teixeira: CARVALHO, Divane. Debate1 e Debate 2. Diário

de Pernambuco, 6. set. 2002, Coluna Política, p. A4; UFPE DEBATE com mangueboys. Diário de

Pernambuco, 9 set. 2002. Política, p. A5.

6 WILLIAMS, Raymond. Cultura. Trad. Lólio Lourenço de Oliveira. 2. ed. São Paulo: Paz e Terra,

136 trabalho, visto que lhes havia sido informado que o CD seria para distribuição gratuita, visto ter sido financiado pelo sistema de incentivo à cultura (pelo SIC).

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