• Aucun résultat trouvé

Os objetos voz e olhar estão presentes na constituição psíquica do sujeito, momento no qual há a inauguração da cadeia significante e o primeiro significante marcará esta entrada na linguagem e o modo como este sujeito irá se organizará na relação com o Outro. O som é uma forma de elocubração da voz e silenciamento de lalangue. Contudo, as pausas e entonações denunciam o aparecimento desta, de modo que a musicalidade pode assumir um caráter de retorno aos primórdios da constituição psíquica. Assim como se faz necessário distanciar da voz materna para advir enquanto sujeito de desejo, o mesmo se faz necessário com relação ao olhar.

Pensando na língua de sinais, não é o som que apontaremos como elocubração da lalangue, pois o que encontramos na língua de sinais são expressões, movimentos, formas de configuração das mãos e posição do corpo. Expressar por meio do corpo e de sinais é algo presente desde a tenra idade e, quando não conseguimos nos expressar com palavras, utilizamos tal recurso. Assim, os sinais não são tão distantes dos ouvintes e podem revelar na

fala aquilo que não se quer saber. O corpo denuncia aquilo que não foi dito nas palavras e lalangue aparece.

No trabalho analítico com Pedro, as brincadeiras de adivinhação, as contações de histórias, as encenações realizadas pela criança de situações passadas e futuras (como vivências na escola e realização de exames pela primeira vez) e a invenção de jeitos de brincar, mesmo com jogos já conhecidos, fizeram com que sua mãe, Sônia, olhasse para Pedro e para a língua de sinais de outro modo. A Libras ali estava na posição de elocubração de lalangue, um saber sobre S1 (S2), com um efeito apaziguador.

No momento em que a Libras é reconhecida enquanto capaz de transmitir um sentido e portadora de um código linguístico, ela passa à posição de S2. Esta mudança não se dá de maneira definitiva, sendo apropriado formulá-la através de um trânsito da língua entre as duas posições, S1 e S2, em momentos diferentes do percurso da análise. O olhar materno também transitava entre o reconhecimento da língua de sinais, carregando-lhe de libido, e o seu esvaziamento.

Dessa forma, levantamos outra hipótese, a de que a língua de sinais poderá transmitir o enigma do desejo de uma mãe ouvinte para um filho com surdez se esta colocar tal língua em uma posição de reconhecimento e de equívoco. A mãe de Pedro surpreendia-se com o falar do filho e com seu modo de brincar e estar na relação analítica, de modo que o olhar diante da falta presente no filho, ocasionada por uma marca orgânica, transformou-se em um olhar capaz de ver adiante e, mais do que isto, um olhar que não sabia o que viria depois. A mãe surpreendia-se a cada novidade apresentada pela criança. Assim, o olhar não portava mais o conhecimento total sobre o infans e este pôde separar-se do Outro. Foi notável o quanto Pedro colocava-se no lugar de quem questionava o saber da mãe, apoiando-se na própria língua de sinais para dizer que a mãe não tinha toda a verdade sobre ele. Assim, Pedro descolou seu

olhar da boca da mãe e a operação de separação ocorreu quando o objeto a caiu do corpo materno, representado pelo S (barrado) e a covinha no rosto da mãe.

A língua de sinais, em posição de elocubração de lalangue, tem um efeito apaziguador do que aparecia até então como incômodo e estranho. Ela apazigua o inominável e silencia a voz. Tal efeito apareceu logo no início de minha trajetória de contato com o sujeito com surdez. A presença de uma mulher com surdez, em uma instituição pública, causava tumulto e evitação dos profissionais ali presentes e, quando começo a utilizar a Libras no atendimento, os profissionais não mais percebiam que a mulher havia passado pela instituição.

No caso clínico de Pedro, a língua também esteve nesta posição. Eu (analista), em determinados momentos, emprestava meu desejo (posição S1) conforme foi exposto anteriormente e, em outras ocasiões, estava no lugar de saber sobre S1, que bordejava o Real. A mãe de Pedro me convocava a estar neste lugar, questionando o valor simbólico da língua de sinais e observava o modo como eu me comunicava com o filho nesta língua para, depois, construir seu jeito próprio de falar com o filho.

A língua de sinais que, ao aparecer no início da análise fazia o corpo de Pedro encolher-se ou correr e pular, desviando-se dos efeitos da língua, adquiriu um outro lugar para ele. Assumiu a posição de bordejamento da pulsão ou dos objetos pulsionais, oferecendo contorno para o vazio. Isto foi observado na criação de um nome em Libras para mãe feita por Pedro, um momento de separação do sujeito do Outro primordial. Os efeitos desta separação foram percebidos nas histórias e fantasias de Pedro, cada vez mais ousadas e criativas. Em uma sessão, Pedro, ao entrar na sala de brinquedos, começou a lhe explorar sem solicitar a autorização de um olhar e se arriscou a vasculhar lugares em busca de um brinquedo especial. Neste dia ele encontrou um carrinho e teve prazer em fazê-lo circular pelos espaços da clínica e para além da sala de atendimento.

No caso clínico de Gabriel, os sinais caseiros, utilizados pela família, também apresentavam um efeito apaziguador para ele. Gabriel não possuía conhecimento sobre a Libras, mas sua fala oral vinha acompanhada dos sinais caseiros que criou em seu ambiente familiar. Na análise, Gabriel criou sinais para falar comigo, tais como a sinalização de barulhos que lhe incomodavam, sinais para ir ao banheiro ou beber água e outros para os brinquedos que mais tinha estima na clínica. Gabriel estava aprendendo a se comunicar oralmente por meio de sessões de fonoaudiologia, mas os sinais continuavam presentes. Deve-se apontar que, no início de sua constituição psíquica houve uma perda abrupta da capacidade de ouvir e o consequente silenciamento dos sons. Neste período, os pais utilizaram da Libras em casa para falar com o filho. Os sinais utilizados por Gabriel na análise, mesmo que não pertencendo ao código linguístico da Libras, apresentavam um efeito apaziguador e apareciam, com mais frequência, em situações que Gabriel angustiava-se, como quando perdia de vista um brinquedo que gostava.

Deste modo, os sinais ocupam a posição de elocubração de lalangue em momentos que são capazes de trazer um sentido, mesmo quando não são utilizados enquanto código linguístico, como o exemplo exposto de Gabriel. Outro ponto a ser destacado é a importância do reconhecimento pelo Outro. Se o Outro, enquanto figura materna ou os outros, enquanto os pares sociais, reconhecem a Libras como pertencente ao campo simbólico, ela permanece na posição de bordejamento do Real. E o contrário pode ser visto em situações nas quais seu uso é impedido ou seu potencial é desconhecido, aparecendo seu caráter de lalangue.