• Aucun résultat trouvé

LE TRAITEMENT PRÉVENTIF PAR COTRIMOXAZOLE RESTE FAIBLE

Atentemos para a fala do personagem Tchebutykin, da peça teatral “As três irmãs”, de Tchekhov (1976, p. 99): “Anteontem conversava-se no clube sobre Shakespeare e Voltaire... Jamais os li, mas fiz um ar de ter lido. E todos os outros eram como eu. Que vulgaridade! Que baixeza!”

Ao decidir pesquisar estratos médios freqüentadores de uma marina da cidade – portanto, um espaço privado –, deparei-me com uma série de pré-noções que obstavam o entendimento completo da situação vivenciada: seriam estes sujeitos integrantes de uma elite da cidade? Comporiam uma parcela tradicional da sociedade ou uma classe emergente?

A reprodução da fala de Tchebutykin da peça de Tchekhov (1976) ajusta-se a este contexto, pois desconsiderar estas questões é ratificar, homogeneamente, que todos, porventura, desconhecessem “Shakespeare e Voltaire” e agissem como se os compreendessem. Ora, que garantia se tem para a realização, por parte daqueles que “conversam no clube” – ou melhor, na marina –, de uma representação tão incongruente entre forma e conteúdo? Ou ainda: como assegurar-me que todos os freqüentadores da marina compõem sujeitos de uma mesma pertença social e capazes de se declarar como tais?

No que tange à investigação de uma camada urbana freqüentadora de um espaço privado, sendo este espaço, reconhecidamente, um centro náutico desenvolvido para fins de lazer marítimo e festivo ou de apreciação gastronômica, é possível que se impute ao pesquisador a errônea noção de se tratar de um estudo etnográfico sobre a dita “elite” ou considerar que a totalidade dos seus visitantes integram a denominada “classe média” da sociedade em estudo. A fim de corrigir este erro, rechaço a denominação “elite” também em virtude da carga conceitual que o termo “elitista” contém, permitindo uma alusão às concepções teóricas manifestas pela Teoria das Elites, ao término do século XIX e início do XX. (GRYNSZPAN, 1996).

São, justamente, os elos de diálogo e as possibilidades de cruzamento entre os indivíduos de distintos estratos sociais que tornam a divisão em classes um recurso limitador e exíguo para um contexto social tão dinâmico como o atual. Não se quer, com isso,

desconsiderar ou eliminar a existência de uma hierarquia dentro da sociedade brasileira, mas, sim, refutar o denominado “fatalismo sociológico”, o qual confere ao indivíduo – seja ele oriundo da classe média e/ou da classe trabalhadora – um desenvolvimento emocional e intelectual perpetuamente marcado por sua condição inicial. Decerto, ignora-se ainda a opção de mobilidade ocupacional e social.

O contato com distintos grupos e círculos sociais e o acesso a meios de comunicação de massa como difusores de hábitos e informações podem vir a projetar neste indivíduo novas visões de mundo e estilos de vida, afetando, inclusive, o modo como o mesmo concebe e delineia seu papel social frente a este jogo de socializações e situações, de forma a ampliar seu “campo de possibilidades” frente aos “contextos individualizadores” nos quais se encontra inserido. (VELHO, 2008).

Discutir sobre o indivíduo mostra-se necessário, a partir da condição e postura que o mesmo assume na sociedade complexa moderno-contemporânea. A dissolução da família extensa e das redes de sociabilidade mais amplas e diversas fizeram com que emergisse e se desenvolvesse a noção de família nuclear, aquela que se integra à sociedade em sua esfera produtiva e como mercado de consumo. (VELHO, 2008).

Considero limitador uma possível associação direta dos sujeitos do presente estudo como pertencentes a famílias tradicionais, burguesas ou emergentes. Para tanto, recorro à análise de Nery (2008), na qual se evidencia como, no século XX, o casamento de integrantes de famílias aristocráticas com indivíduos pertencentes a famílias burguesas contribui para a disseminação dos ideais de refinamento, expandindo-se, por conseguinte, a segmentos da pequena burguesia e aos novos-ricos, os quais, por sua vez, após surgimento na década de 90, verão suas gerações subseqüentes direcionarem interesses ao cultivo de si – muito por conta da internalização de valores via educação formal – em detrimento do encanto ofertado pelas simples aquisições de bens (LIMA, 2005, 2007a, 2007b, 2008).

A fim de melhor compreender a configuração e as particularidades do cenário da cidade, identifiquei a necessidade de entrevistar um jornalista, Renato5, reconhecido colunista social soteropolitano com mais de vinte anos de experiência. Além de cumprir a função de legitimador social pela atividade que exerce (BOURDIEU, 2008), pude ouvir o seu relato sobre as transformações ocorridas entre as famílias baianas:

Não existe aquela coisa “a sociedade baiana”. [...] Apesar de ter as pessoas tradicionais, que estão lá, são de família. Mas os novos ricos, os artistas, eles foram tomando este espaço. Para sobreviver, a chamada “alta sociedade”, ela teve que se misturar, que fazer esta mesclagem com as pessoas que estavam surgindo, que são

as pessoas que tinham dinheiro. [...] Porque os outros [da sociedade tradicional] tinham mais o nome, o dinheiro praticamente tinha acabado – vinha do sul da Bahia, com aquela história do cacau, que despencou tudo. Muita gente ficou pobre, outras ficaram mais ricas. [...] O círculo ficou pequeno. (RENATO).

A fala do interlocutor abre espaço para a introdução de novas discussões. Recorramos, a princípio, ao estudo de Coelho (1999) para analisarmos as modificações vivenciadas na década de 90 pela sociedade baiana com o ingresso do grupo de novos ricos e dos artistas. Vejamos a visão da autora sobre a fama, que “pode ser entendida como um dos nichos resguardados por esse sistema baseado em um credo fundamentalmente igualitário para produzir diferenciação, ao mesmo tempo operando, juntamente com a riqueza e o poder, como possíveis estratégias de mobilidade social.” (COELHO, 1999, p. 32).

É interessante constatar como, além de instrumento diferenciador, a fama articula mecanismos de mobilidade social, fazendo com que sujeitos galguem novas posições sociais, desde que sua legitimidade social seja validada publicamente pela mesma sociedade que a abriga e a produziu.

Coelho (1999) destaca como a lógica da fama no mundo moderno no século XX sofre uma modificação na década de 40. Os meios de comunicação passam a biografar artistas e atletas, “ídolos do consumo”, em detrimento dos homens de negócios – “ídolos da produção”. A justificativa para esta modificação reside na insegurança sugerida pelo capitalismo com a quebra da bolsa em 1929, o que ocasiona uma prevalência aos exitosos do universo do show business, o que ratifica a necessidade de validação pelo coletivo de um espectro acerca da fama.

Salvador enquadra-se neste cenário do star system com a construção, manutenção e fortalecimento de uma indústria musical apoiada no axé music. Nesta sociedade emergente, os artistas locais galgam posição de destaque em âmbito nacional e a área de entretenimento passa a constituir-se como geradora de receita e notícias, como se requer para o próprio funcionamento desta engrenagem.

Com isso, a sociedade baiana sofre reconfigurações sociais similares as do Rio do Janeiro6, sejam elas decorrentes da constituição de novos núcleos familiares, envolvendo integrantes do “reduzido círculo tradicional” com novos-ricos, como também pela mobilidade social que a introdução deste capital acarreta.

6 É indispensável acessar os estudos de Lima (2005, 2007a, 2007b, 2008) sobre o universo carioca e artigo de

Gottschall (1999) acerca dos hábitos de consumo soteropolitanos em distintos estratos sociais. Destaco ainda os estudos de Moura (1996) sobre o carnaval baiano e as considerações de Guimarães (1990) e Guimarães e Castro (1990) sobre as transformações sócio-econômicas do estado com a implantação do Pólo Petroquímico de Camaçari a partir de 1974.

Em paralelo, espaços considerados restritos à sociedade tradicional, como clubes para uso exclusivos de sócios, reviram suas estratégias de atuação, a fim de acompanhar a reposicionamento social em curso e absorver o capital em surgimento, sem, contudo, perder ou dispensar a aura social que lhe difere. Vejamos a fala do colunista social sobre um destes espaços:

O Yatch [Clube da Bahia] está mantendo [sua posição]. [...] Semana na que vem, ele está fazendo um evento de moda de três dias. Isso, só os shoppings faziam. [Ele] abriu para a sociedade. Abriu como cerimonial, modernizou o restaurante, modernizou seus salões. Então, é um prazer você ir lá. A comida é boa, o ambiente é bom, o serviço é ótimo, faz uma revista legal. O Clube se mantém exatamente por causa disso. [...] Até o réveillon, que não existia mais, eles pegaram! No réveillon do ano passado, eu fiquei impressionado, a chamada “colunável” da sociedade estava todo mundo lá. (RENATO).

Se a esfera empresarial entendeu a necessidade de acompanhar o fluxo em ação, os próprios sujeitos, enquanto profissionais, sentiram o mesmo. Com o advento da globalização, requer-se um novo executivo que privilegie o contato e o entendimento intercultural, instituindo uma reconfiguração do papel do ator na medida em que lhe expõe a novas situações e socializações.

Conforme o entendimento de Barbosa (1999), a mobilidade individual tornou-se uma constante, exigindo intensa expatriação e repatriação, já que o atual executivo, ou melhor, o

global manager, tem a autonomia necessária para realizar operações em escala mundial que

atendam aos interesses estratégicos da organização.

Obviamente, a descrição deste indivíduo no atual cenário da sociedade complexa moderno-contemporânea – cenário este delineado, anteriormente, com a Revolução Industrial, a acentuação da divisão social do trabalho, da produção e do consumo e o crescimento urbano – expõe como a grande metrópole constitui-se o lócus do novo modo de vida e a nuclearização da família representa uma nova forma para a socialização inicial do indivíduo.

Estreitou-se a rede de relações sociais e houve uma alta densificação e concentração de interações sociais e afetivas no limitado âmbito da família nuclear. [...] As exigências e expectativas em relação aos filhos expressavam-se com muita

clareza e explicitação. Obviamente a dependência entre os membros do grupo familiar tende a ficar maior à medida que se diluem e rareiam os contatos com outros parentes, vizinhos e com o enfraquecimento de laços de solidariedade mais diversificados. (VELHO, 2008, p. 73, grifo meu).

O processo de ascensão da família nuclear confunde-se com as “exigências e expectativas” depositadas nos filhos. Em determinados casos, a saída deste indivíduo da residência familiar – seja por estudo, trabalho ou outro motivo qualquer desde que decorrente de uma decisão voluntária – é o indício para a existência do mesmo enquanto sujeito moral,

ou seja, como “unidade mínima significativa que se destaca para fazer a sua vida, lutar.” (ABREU Fº, 1980 apud VELHO, 2008, p. 50).

Por outro lado, atenta-se ainda para fato de que a nuclerização das famílias não corresponde a um processo linear. É em decorrência destes contextos que emergem perguntas como “de que família você é?”, “é de boa família?”, “qual é a sua família?”, a fim de situar a aura social do agente empírico em núcleos de identificação. Afinal, “o domínio do parentesco é crucial para a constituição da identidade do agente empírico com todas as ambiguidades sugeridas” (VELHO, 2008, p. 47)7, embora esta seja uma complexa tarefa, como aponta a seguinte fala de Renato, ao evidenciar a alta rotatividade de entrantes no circuito social e a sua necessidade de exposição.

Hoje, você chega em um evento social, você encontra tanta gente que fica perdido. Essas pessoas [da sociedade tradicional], às vezes, se queixam: “Nossa, a gente não conhece mais ninguém”. Porque são pessoas outras que têm dinheiro, que começaram a freqüentar e são conhecidas. Elas também estão sedentas de aparecer [...]. Tem pessoas que tem assessoria pessoal para divulgar o nome porque precisa também. (RENATO).

Ao esclarecer este trânsito entre diferentes círculos sociais, procuro justificar porque considero indispensável, para o presente estudo, atentar para as particularidades na trajetória de vida do indivíduo e como estes delineiam seus “projetos” pessoais. Afinal, são os indivíduos desta “família nuclear brasileira de uma sociedade capitalista moderna” as principais vozes deste texto.

É preciso, portanto, que compreendamos como a abertura da rede de relações de um indivíduo requer seu ingresso em um jogo de “socializações” e “situações” – denominações estas bastante refletidas pelos estudiosos da Escola de Chicago, a qual se assume como mola propulsora das principais referências para esta pesquisa, em consonância com as diretrizes antropológicas de Velho (2001, 2008) e com novos debates suscitados pelo mesmo, como veremos a seguir.

7 Manifesto um exemplo simples e decisivo: nesta pesquisa, o acesso a alguns entrevistados só foi possível a

partir da mediação feita por amigos e por seus pais. Saliento ainda que a amizade que travo com estes indivíduos foi estabelecida por partilharmos o mesmo estabelecimento educacional (ambos particulares): a realização do ensino fundamental e médio no Colégio Antônio Vieira e/ou o curso de Comunicação Social na Universidade Católica do Salvador.