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Dans le document Le Temps dans ses yeux (Page 131-149)

Um dos pressupostos da teoria do Efeito Estético é o de que existe uma assimetria inicial entre leitor e texto. Por exemplo, a leitura do romance Terra sonâmbula convoca e direciona o olhar do leitor para o entendimento da literatura africana de cunho pós-colônia. Na obra, o autor revela manejo da linguagem e da

24 Elemento que favorece a comunicação do texto com leitor é retomadoá frente.

25 De la estética de la recepción a una e estética de La participación. O livro é fruto de uma

conferência realizada por Jauss cinco conferências nos dias (23 – 24 – 28 e 30 de setembro e 01 outubro de 2004. Aula magna da Faculdad de filosofia y letras – UNAM.

cultura do povo, ou seja, convida a um mergulho na história e tradição do povo africano, o que contribui para que a assimetria entre autor-texto dê lugar a um campo comum de entendimento do leitor. Essa opção adotada pelo autor participa da constituição do sistema de equivalências na formação do conjunto de posições e perspectivas, sabendo-se que estas dialogam com a estrutura da atividade da imaginação. (ISER, 1996, p. 185).

Nesse sentido, a atividade comandada pelo texto, a leitura, une o processamento do texto ao efeito sobre o leitor. Esta influência recíproca, segundo Iser (1979, p. 83) é descrita como interação. E o que se entende por interação? No intuito de se fazer compreender melhor, buscou-se alguns conceitos e proposições alusivas à interação.

Interação26 em si é algo que não existe, no sentido objetivo do termo: não se vê, não se toca, não se cheira. A interação em relação a quaisquer dos componentes/agentes é sempre uma inferência. Agora a pergunta é: inferência a partir de quê? A partir da interação entre duas pessoas e/ou objetos - a interação do leitor com o texto, e como isso ocorre no ato da leitura.

Gabriele Schwab (1999, p. 39) compreende interação como uma metáfora. A autora salienta que “do ponto de vista epistemológico, essa metáfora da ‘interação’ designa uma instância textual que guia a recepção do texto e um leitor que ‘processa’ ativamente o texto”.

Diante do exposto, se interação diz respeito, no sentido mais restrito da palavra, ao que acontece entre dois termos, então é preciso compreender como funciona cada um deles em relação ao outro, e vice-versa, sobremodo se um deles, no caso o leitor, é afetado pelo “processo”. A partir daí depreender-se-ia a relação existente entre os dois: a interação texto-leitor, que efeito estético ocorre no leitor quando realiza a leitura de uma obra, especialmente, aqui nesse caso o leitor ficcional em Terra sonâmbula, além de outros leitores empíricos dessa obra.

Para pensar a interação, inicialmente, há de se reconhecer que Iser vale-se da Psicologia Social. O autor acrescenta que a teoria da interação, tal como exposta por Edward E. Jones e Harold N Gerard, em Fundationsof social psychology,

26 A Interação [..] é um tipo de ação que ocorre entre duas ou mais entidades quando a ação de uma

delas provoca uma reação da outra ou das restantes. Por oposição à unidirecionalidade do conceito de causalidade, a subjacente bidirecionalidade ou mesmo interatividade é essencial no conceito de Interação. O conceito de Interação engloba diversos valores semânticos específicos

para diferentes áreas do conhecimento. Disponível:

começa por tipificar os modos de contingência encontrados ou originados das interações humanas, que são precisamente, segundo essa abordagem, quatro tipos descobertos:

a) Pseudocontingência: quando o plano de conduta dos dois parceiros é conhecido por ambos, então as réplicas e conseqüências podem ser previstas;

b) Contingência assimétrica: ocorre quando um dos parceiros renuncia à atualização de seu “plano de conduta” e não oferece resistência em seguir o plano do outro parceiro;

c) Contingência reativa: acontece quando as reações momentâneas de cada parceiro ao dito ou feito pelo outro encobrem os “planos de conduta”;

d) Contingência recíproca: realiza-se quando há a tentativa de ajustar a sua reação em consonância tanto com seu próprio plano de conduta quanto com as reações momentâneas do parceiro. (ISER, 1979, p. 84).

Destaca-se que a imprevisibilidade, dominante em toda interação, é passível de se converter na condição constitutiva e diferencial do processo de interação dos respectivos parceiros. Em seqüência, é ainda Iser que se manifesta:

Meu campo de experiência, contudo, não é preenchido apenas por minha visão direta de mim (ego) e pela do outro(alter), mas pelo que chamarei de metaperspectiva – minha visão da visão... do outro sobre mim. De fato, não sou capaz de me ver como os outros me vêem, mas constantemente suponho que eles estão me vendo de um modo particularizado e ajo constantemente à luz das atitudes, opiniões, necessidades etc. reais ou supostas dos outros quanto a mim. (ISER, 1979, p. 85).

Assim sendo, a “interação diádica não é um dom da natureza, mas sempre o produto de uma atividade interpretativa de que se origina uma imagem do outro, que é, simultaneamente, uma imagem de mim mesmo.” (idem, 1979, p. 87). A esse respeito, o teórico argumenta que o fato de não poder-se experimentar o modo como os outros nos veem não tem, de modo algum, o caráter de um limite ontológico. Esta inapreensibilidade se origina na própria interação diádica e deve-se compreendê-la como um valor-limite no sentido, contudo, de que a fronteira produzida pela interação serve de impulso para as constantes tentativas de ultrapassá-la. (ISER, 1979, p. 87).

Essa explanação objetiva demonstrar que a relação texto-leitor difere consideravelmente dos modelos anteriormente esboçados. Isto porque, nesta relação, falta a situação face a face em que se originam todas as formas de

interação social. O texto não pode sintonizar-se, ao contrário do parceiro na relação diádica, com o leitor concreto que o apanha (ISER, 1979, p. 87). Segundo Iser, na relação diádica, os parceiros podem mutuamente se perguntar sobre como se controla a contingência ou se suas imagens da situação transpõem a inapreensibilidade da experiência alheia. O leitor, todavia, nunca retirará do texto a certeza explícita de que a sua compreensão é a justa. Além do mais:

... Na interação diádica, as réplicas de cada participante têm um fim determinado: em consequência, elas se integram em um contexto de ações, que funcionam como o horizonte da interação e muitas vezes servem como um tertium comparationis. Ao invés disso, falta à relação entre texto e leitor um quadro de referências semelhantes. Muito ao contrário, os códigos que poderiam regular esta interação são fragmentados no texto e, na maioria dos casos, precisam primeiro ser construídos. Assim, pois, a finalidade e as condições diferenciam a interação entre texto e leitor de pressupostos importantes da interação diádica. (ISER, 1979, pp. 87-88).

Em suma, para o teórico, a relação interativa no mundo social deriva, portanto, da contingência dos planos de conduta, isto é, da situação comum ou das convenções que reúnem os parceiros. A situação e as convenções funcionam apenas como reguladores, para a interação, da incontrolabilidade ou da inapreensibilidade da experiência alheia. Do mesmo modo, são os vazios, a assimetria fundamental entre texto e leitor que originam a comunicação no processo da leitura. Por exemplo, pode-se dizer que o que faz Terra sonâmbula ser um romance tão lido e apreciado é, provavelmente, o fato de ser uma narrativa literária recheada de vazios de modo singular e dramático, o que favorece a interação texto- leitor, segundo a teoria de Iser.

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